



J. D. ROBB
SRIE MORTAL
Nudez Mortal
Glria Mortal
Eternidade Mortal
xtase Mortal
Cerimonia Mortal
Nora Roberts
escrevendo como
J. D. Robb
Nudez Mortal
5 EDIO
Traduo Renato Motta
BERTRAND BRASIL
Copyright 1995 by Nora Roberts
Ttulo original: Naked in Death
Capa: Leonardo Carvalho
Editorao: DFL
2006
Impresso no Brasil
Printed in Brazil
CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.
Robb,J.D., 1950-
R545n mortal / Nora Roberts escrevendo como J. D. Robb;
5a ed. Renato Motta. - 5a ed. - Rio de Janeiro: Bertrand
Brasil, 2006.
350p.
Traduo de: Naked in death ISBN 85-286-1064-0
1. Fico americana. I. Motta, Renato. II. Ttulo.
CDD-813
04-1249 CDU-821.111(73)-3
Todos os direitos reservados pela:
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prvia autorizao por escrito da Editora.
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Digitalizao e reviso
Ftima Toms
Correo e reviso finais
Barbara Santiago e Elis
CAPTULO UM
Ela acordou no escuro. Atravs das lminas da persiana na janela os primeiros
indcios turvos do amanhecer escorriam, lanando sombras oblquas sobre a cama.
Era como acordar dentro de uma cela.
Por um instante permaneceu deitada, simplesmente, estremecendo, sentindo-se
aprisionada, enquanto o sonho ia desaparecendo. Depois de dez anos na polcia, Eve
ainda tinha pesadelos.
Seis horas antes, ela matara um homem, e assistira  morte penetrar em seus
olhos. No era a primeira vez que usara fora extrema, ou tivera pesadelos.
Aprendera a aceitar o ato e suas conseqncias.
Era a criana, porm, que a assombrava. A criana que ela no conseguira chegar
a tempo de salvar. A criana cujos gritos haviam ecoado no sonho e se misturado com
os dela mesma.
Todo aquele sangue, Eve pensou, limpando o suor do rosto com as mos. Uma
menina pequena demais para ter tanto sangue dentro dela. E Eve sabia que era vital
descartar aquela lembrana.
Os procedimentos usuais do departamento exigiam que ela passasse a manh
fazendo testes. Qualquer policial que tivesse usado a arma em uma ao que
terminasse em morte era obrigado a passar por testes de limpeza emocional e
psiquitrica antes de voltar s suas funes. Eve achava esses testes ligeiramente
desagradveis.
Ela passaria por eles, como j fizera antes.
Quando se levantou, as lmpadas automaticamente se acenderam no nvel de
luminosidade baixa, tornando claro o seu caminho em direo ao banheiro. Ao dar
com o seu reflexo, recuou ligeiramente. Seus olhos estavam inchados devido  falta
de sono, e a sua pele quase to plida quanto a dos cadveres que ela encaminhava
ao Instituto Mdico Legal.
Em vez de ficar apreciando aquilo, entrou no chuveiro, bocejando.
- Quero a gua a 38 graus, em fora mxima - disse em voz alta, enquanto abria a
torneira para sentir o jato atingi-la em cheio no rosto.
Deixou o vapor envolv-la e a espuma escorrer indiferente enquanto revivia os
acontecimentos da noite anterior. No era esperada na Seo de Testes antes das
nove, e usaria as prximas trs horas para deixar o pesadelo se dissolver por
completo.
Pequenas dvidas e mnimas impresses de arrependimento eram frequentemente
detectadas, e poderiam significar uma nova rodada de testes, ainda mais intensa,
cercada pelas mquinas e pelos tcnicos com olhos de coruja que as administravam.
Eve no pretendia ficar fora das ruas por mais de vinte e quatro horas.
Depois de colocar um robe, foi at a cozinha e programou o AutoChef para fazer
caf bem forte e torrada tostada em nvel mdio. Atravs da janela, j podia ouvir o
zumbido pesado do trfego no ar, carregando os viajantes madrugadores para os
escritrios e trazendo os notvagos de volta para casa. Ela escolhera aquele
apartamento, h alguns anos, pela boa localizao e o estilo leve, e gostava do
barulho e das multides. Dando mais um bocejo, olhou pela janela, acompanhando o
movimento chocalhante de uma antiga aeronave para transporte pblico que recolhia
os trabalhadores que no tinham a sorte de ter um emprego na cidade ou em locais
prximos de casa.
Colocando o New York Times no monitor, olhou rapidamente as manchetes
enquanto sentia a cafena artificial reforar o seu sistema. O AutoChef carbonizara a
torrada novamente, mas ela a comeu assim mesmo, com um vago plano de substituir
o aparelho.
Estava com as sobrancelhas franzidas lendo o artigo sobre o recallem massa
anunciado por uma fbrica de cocker spaniels robticos quando seu tele-link apitou.
Eve apertou o boto de comunicaes e viu o seu oficial superior aparecer na tela.
- Comandante.
- Tenente. - Ele fez um aceno rpido com a cabea, notando os cabelos ainda
molhados de Eve e seus olhos de sono. - Um incidente no nmero Vinte e Sete da
Broadway Oeste, dcimo oitavo andar. Voc  a policial que est mais prxima do
local.
- Estou designada para prestar Testes - disse Eve, levantando a sobrancelha. -
Vtima morta s vinte e duas horas e trinta e cinco minutos.
- Ns a liberamos - explicou ele, sem inflexo na voz. Pegue seu distintivo e sua
arma quando estiver a caminho do local. Cdigo Cinco, tenente.
- Sim, senhor. - Seu rosto se preocupou quando Eve se afastou da tela. Cdigo
Cinco significava que ela teria que se reportar diretamente ao comandante, e no
haveria relatrios abertos interdepartamentais, e nenhuma cooperao com a
imprensa.
Basicamente, significava que ela estava por conta prpria.
A Broadway estava movimentada e barulhenta, como uma festa em que os
convidados briges nunca iam embora. O trfego de rua, tanto o de pedestres quanto
o areo, estava horrvel, sufocando o ar com o excesso de corpos e veculos. Nos
seus velhos dias de uniforme ela se lembrava daquele como um local de tumulto, com
turistas se chocando uns contra os outros, ocupados demais em apreciar o
espetculo, boquiabertos, em vez de sair do caminho.
Mesmo to cedo j havia fumaa subindo dos quiosques de comida que ofereciam
de tudo, desde macarro instantneo at cachorro-quente feito de soja, para a
multido que aumentava. Teve que dar um golpe de direo para no atropelar um
vido vendedor de espetinhos defumados, e seguiu na direo que o seu dedo mdio
apontava.
Estacionou em fila dupla e, desviando-se de um homem que fedia mais que a
garrafa de cerveja que segurava, chegou  calada. Olhou o prdio com ateno,
antes de entrar. Cinquenta andares de metal brilhante que se lanavam como uma
espada em direo ao cu, a partir de uma base feita de concreto. Recebeu duas
propostas indecorosas antes de alcanar a porta.
Sabendo que aquela rea, que abrangia cinco quarteires da Broadway, era
conhecida carinhosamente como Calada das Prostitutas, Eve no se mostrou
surpresa. Exibiu o distintivo para o policial uniformizado que guardava a entrada.
- Tenente Dalas - ela se apresentou.
- Pois no. - Ele olhou para o sensor computadorizado acima da porta, instalado
para manter os curiosos do lado de fora, e a acompanhou at o hall dos elevadores. -
Dcimo Oitavo - anunciou com clareza quando as portas se fecharam atrs deles.
- Informe-me de tudo, policial. - Eve ligou o gravador e ficou aguardando.
- No fui o primeiro a chegar ao local, tenente. O que quer que tenha acontecido l
em cima est sendo bem guardado. H uma autorizao especial esperando pela
senhora.  um caso de homicdio com Cdigo Cinco, no apartamento 1803.
- Quem requisitou este cdigo?
- No sei informar.
Ele permaneceu onde estava quando a porta do elevador se abriu. Eve saiu e se
viu sozinha em um corredor estreito. As cmeras de segurana se inclinaram na
direo dela e seus passos eram quase inaudveis sobre o surrado carpete,  medida
que ela se aproximava do apartamento 1803. Ignorando a placa com o nome do
morador, ela se anunciou segurando o distintivo no nvel dos olhos, para a cmera, at
que a porta se abriu.
- Dalas.
- Feeney. - Ela sorriu, satisfeita por encontrar um rosto familiar. Ryan Feeney era
um velho amigo e ex-parceiro de ronda que trocara as ruas por uma mesa prpria e
um alto posto na Diviso de Deteco Eletrnica. - Ento eles esto mandando os
figures da computao, agora?
- Queriam gente competente, e pegaram o melhor. - Seus lbios se curvaram em
um sorriso que espalhou pelo rosto enrugado, mas os olhos se mantiveram
impassveis. Ele era um homem atarracado, tinha mos pequenas, rolias, e os
cabelos com tom de ferrugem. - Voc est abatida.
- Noite difcil.
- Sei, ouvi dizer. - Ofereceu-lhe uma noz coberta de chocolate, retirada do
saquinho que normalmente carregava, e ficou olhando para Eve, analisando-a para
tentar descobrir se ela estava preparada para o que a esperava no quarto onde
ocorrera o crime.
Eve era jovem para a posio que ocupava. Tinha perto de trinta anos, e olhos
castanhos amendoados que jamais haviam tido oportunidade de ser ingnuos. Seus
cabelos castanho-claros estavam cortados bem curtos, mais por praticidade do que
por estilo, mas ficavam bem no rosto triangular com mas proeminentes e uma
pequena covinha no queixo.
Era alta e esbelta, com tendncia a parecer magra, mas Feeney sabia que havia
msculos slidos por baixo do casaco de couro. Mais que isso, havia um crebro, e
um corao.
- Esse caso vai ser uma batata quente, Dalas.
- J deu para perceber. Quem  a vtima?
- Sharon DeBlass, neta do Senador DeBlass. Aqueles nomes no diziam nada
para Eve.
- Poltica no  o meu forte, Feeney.
- Aquele cavalheiro da Virgnia, de extrema direita, com dinheiro antigo. A neta deu
uma guinada inesperada na vida, h alguns anos, se mudou para Nova York e se
tornou uma acompanhante autorizada.
- Uma prostituta. - Dalas olhou em volta, pelo apartamento. Era todo decorado em
um estilo obsessivamente moderno; tinha muito vidro e cromados, hologramas
assinados nas paredes e um bar embutido, em vermelho vivo. A tela panormica para
dar clima, por trs do bar, parecia sangrar com a mistura de imagens e formas que se
fundiam com cores em tom pastel.
Pura como uma virgem, Eve avaliou, e fria como uma meretriz.
- No  de surpreender - continuou -, considerando-se a escolha do local para
moradia.
- A poltica torna o caso delicado. A vtima tinha vinte e quatro anos, mulher,
branca. Foi morta na cama.
- Parece potico, j que ficar na cama era a sua finalidade. Eve simplesmente
levantou uma sobrancelha. - Como ela morreu?
- Esse  o prximo problema. Quero que voc veja por si mesma.
Ao atravessar a sala, cada um pegou uma lata comprida de spray e borrifou um
lquido especial para isolar as impresses digitais e os leos da pele. Ao chegar ao
portal, Eve borrifou tambm a sola de suas botas, at deix-las brilhantes. Desse
modo, nenhuma fibra, fios de cabelo ou pele conseguiriam aderir a ela.
Eve j estava com mais cautela do que de costume. Sob circunstncias normais,
haveria mais outros dois investigadores em uma cena de crime como aquela, com
gravadores e cmeras para documentar sons e imagens. Os homens do laboratrio
tambm estariam  espera com o seu mau humor habitual, prontos para vasculhar
cada centmetro do local logo em seguida.
O fato de que apenas Feeney havia sido designado para acompanh-la significava
que eles estavam pisando em ovos, ali.
- Havia cmeras de segurana no saguo do prdio, no elevador e nos corredores
- comentou Eve.
- J recolhi todos os discos do sistema. - Feeney abriu a porta do quarto e deixou
que ela entrasse na frente.
No era uma imagem bonita. A morte raramente era uma experincia tranquila ou
religiosa, na opinio de Eve. Era apenas o fim srdido, indiferente aos santos ou
pecadores. S que aquela era uma cena chocante, como um cenrio deliberadamente
montado para ser ofensivo.
A cama era imensa, coberta pelo que pareciam ser genunos lenis de cetim da
cor de pssegos maduros. Pequenos refletores de luz suave estavam virados para a
poro central da cama, onde o corpo da mulher nua estava como que repousando
entre as dobras suaves do colcho macio.
O colcho se movia em leves ondulaes com uma graa obscena, em resposta
ao ritmo programado da msica que vinha da cabeceira.
Ela ainda estava linda, com um rosto de camafeu emoldurado por uma cascata
ruiva flamejante, e olhos da cor de esmeralda que contemplavam, vidrados, o teto
espelhado. As pernas e os braos muito longos e brancos como leite traziam  mente
imagens do bale Lago dos Cisnes, enquanto o movimento contnuo da cama os
embalava com delicadeza.
Os membros no estavam posicionados de forma artstica, porm, e sim abertos e
esparramados de forma grosseira, de modo que o corpo da mulher formava a letra X
bem no centro da cama.
Havia um buraco em sua testa, um no peito e outro horrivelmente marcado entre
as coxas abertas. O sangue havia espirrado sobre os lenis brilhantes, ficara
empoado, depois escorrera e deixara uma mancha.
Havia respingos dele nas paredes laqueadas, como pinturas letais feitas por uma
criana diablica.
Tanto sangue era uma coisa rara, e Eve j tinha visto muito daquilo na noite
anterior para encarar a cena com a calma que teria preferido.
Teve que engolir em seco uma vez, com fora, e se obrigou a bloquear em sua
mente a imagem da criancinha.
- Voc j gravou a cena do crime? -J.
- Ento desligue esta droga de msica. - Ela soprou com fora depois que Feeney
conseguiu localizar os controles que silenciaram a melodia. A cama ficou imvel. - Os
ferimentos - murmurou Eve, chegando mais perto para examin-los melhor - so muito
perfeitos para uma faca, e muito esgarados para um laser. - Uma imagem piscou em
sua cabea. Antigos filmes de treinamento, velhos vdeos, velhas crueldades. - Meu
Deus, Feeney, eles parecem ser buracos de bala.
Feeney enfiou a mo no bolso e tirou l de dentro um saco plstico com um objeto
dentro.
- Quem fez isso deixou uma lembrana. - Entregou o saco a Eve. - Uma
antiguidade como essa deve valer entre oito e dez mil dlares para um colecionador
legalizado, duas vezes mais no mercado negro.
Fascinada, Eve manuseou o plstico que continha o revlver e o revirou na mo.
-  pesado - disse, quase para si mesma. - E volumoso.
- Calibre trinta e oito - informou ele. -  o primeiro que encontro fora de um museu.
Este aqui  um Smith & Wesson, modelo Dez, de ao azulado. - Ele olhou para a arma
com um pouco de carinho. -  uma pea clssica, usada como equipamento padro
da polcia at fins do Sculo XX. Pararam de fabric-la em 2022 ou 2023, quando a lei
que bania as armas foi aprovada.
- Voc  que  o especialista em Histria, aqui - o que explicava o fato de ele estar
ali com ela. - Parece nova. - Aspirou o ar do interior do saco e notou o aroma de leo e
o cheiro de queimado. - Algum tomou muito cuidado com isso. O ao queimou a
carne - ela ficou pensando naquilo enquanto entregava o saco de volta para Feeney. -
Um jeito horrvel de morrer, e a primeira morte desse tipo que vejo, em dez anos de
polcia.
- Comigo,  a segunda. H uns quinze anos, mais ou menos, na parte baixa do
Lado Leste, uma festa ficou fora de controle. Um sujeito atirou em cinco pessoas com
uma arma calibre vinte e dois, antes de reparar que no era de brinquedo. Fez um
estrago e tanto.
- Diverso e jogos - murmurou Eve. - Vamos pesquisar os colecionadores, para ver
quantos conseguimos localizar que possuam uma arma como esta. Algum deles pode
ter registrado um roubo.
- Pode ser.
- S que  mais provvel que a arma tenha vindo do mercado negro. - Eve olhou
de volta para o corpo uma vez mais. - Se ela j estava atuando nesse negcio h
alguns anos, deve ter discos e registros dos clientes, e dirios secretos. - Franziu as
sobrancelhas. Com o Cdigo Cinco, vou ter que fazer todo o trabalho de porta em
porta, eu mesma. No  um simples crime sexual - disse, dando um suspiro. - Quem
fez isso armou toda a cena. A arma antiga, os ferimentos especficos, colocados
quase em linha reta no corpo, de cima a baixo. As luzes, a pose. Quem deu o alarme,
Feeney?
- O assassino. - Ele esperou at que os olhos dela se encontrassem com os dele. -
Bem daqui. Ligou para a delegacia. Voc reparou como a cmera do telefone da
cabeceira est voltada para o rosto dela? Foi o que apareceu para ns. Apenas a
imagem, sem som.
- Ele gosta de se exibir. - Eve expirou mais uma vez. - Canalha esperto, arrogante
e metido. Fez sexo com ela antes, aposto o meu distintivo. Depois, simplesmente se
levantou da cama e agiu.
- Colocou o brao para cima, mirando e abaixando ritmicamente, enquanto
contava. - Um, dois, trs.
- Isso  que  frieza - murmurou Feeney.
- Ele  frio. Alisou os lenis depois de tudo. Reparou como eles esto esticados?
Depois a posicionou, abriu bem as pernas dela, para que no houvesse dvidas de
como ela ganhava a vida. E fez tudo com cuidado, praticamente medindo as coisas,
para que tudo ficasse perfeitamente alinhado. Colocou-a bem no centro da cama, com
os braos e as pernas igualmente afastados. No desligou o dispositivo que movia a
cama porque era parte do show. Deixou a arma para trs porque quer que a gente
saiba logo de cara que ele no  um sujeito comum. Tem um ego imenso. No quis
deixar que o corpo fosse descoberto por acaso. Queria tudo para agora. Aquela
sensao de gratificao instantnea.
- Ela tinha licena para receber homens e mulheres - lembrou Feeney, mas Eve
balanou a cabea.
- No foi uma mulher. Uma mulher no a teria deixado assim com essa aparncia
mista de beleza e obscenidade. No, no creio que tenha sido uma mulher. Vamos ver
o que descobrimos. J olhou no computador dela?
- No. O caso  seu, Dalas. Tenho autorizao apenas para dar assistncia.
- Veja se consegue acessar seu arquivo de clientes. - Eve foi at o armrio e
comeou a vasculhar as gavetas com cuidado.
Gosto refinado, refletiu ela. Havia vrias peas em seda pura, do tipo que nenhum
material artificial conseguia imitar. O frasco de perfume na penteadeira era
personalizado, e cheirava, como ela notou depois de inalar rapidamente, a sexo caro.
O contedo das gavetas estava cuidadosamente arrumado, a lingerie dobrada com
preciso, os suteres organizados de acordo com a cor e o material. No closet, a
mesma coisa.
Obviamente a vtima tinha um caso de amor com as roupas e um gosto especial
pelo melhor, alm de tomar um cuidado escrupuloso com todas as peas de vesturio
que possua.
E morrera nua.
- Ela mantinha registros completos - gritou Feeney. - Est tudo aqui. Sua lista de
clientes, encontros, inclusive dados do seu exame mensal obrigatrio de sade e da
sua visita semanal ao salo de beleza. Ela utilizava a Clnica Trident no primeiro caso
e o Paradise no segundo.
- Ambos de alta classe. Tenho uma amiga que economizou durante um ano para
poder tirar um dia inteiro para fazer o servio completo de beleza no Paradise.
Atendem todo tipo de gente.
- A irm da minha mulher foi l no seu aniversrio de vinte e cinco anos. Custou
quase to caro quanto o casamento de minha filha. Olhe, achei a agenda pessoal de
endereos.
- Muito bom. Tire cpia de tudo, ouviu, Feeney? -Ao ouvir o seu assobio fino, ela
olhou para ele por trs dos ombros e notou o pequeno palm computer com a borda em
ouro que estava na mo dele. - O que foi?
- Tem um bocado de nomes poderosos aqui. Polticos, empresrios, artistas,
dinheiro, dinheiro, dinheiro. Interessante, nossa garota tem o nmero do telefone
privativo do Roarke.
- Que Roarke?
- Que eu saiba, o nome  s Roarke. Ali tem um bocado de dinheiro.  o tipo do
sujeito que toca em estrume e o transforma em barras de ouro. Voc precisa comear
a ler mais do que a pgina de esportes, Dalas.
- Ei, eu leio as manchetes. Voc por acaso ouviu falar do recall da fbrica de
cocker spaniele
- Roarke  sempre notcia grande - Feeney explicou pacientemente. - Ele possui
uma das maiores colees de arte do mundo. Arte e antiguidades - continuou, notando
quando Eve se ligou e voltou-se para ele. -  um colecionador de armas licenciado, e
dizem que ele sabe como us-las.
- Acho que vou lhe fazer uma visita.
- Ter sorte se conseguir chegar a menos de um quilmetro dele.
- Estou me sentindo com sorte, hoje. - Eve foi at o corpo e colocou a mo debaixo
dos lenis.
- O homem tem amigos muito poderosos, Dalas. Voc no pode se dar ao luxo
sequer de insinuar que ele tem ligao com isso, at ter alguma coisa slida.
- Feeney, voc sabe que  um erro me dizer isso. - Mas no instante em que
comeava a formar um sorriso, seus dedos encontraram algo entre a carne fria e os
lenis ensanguentados. - Tem alguma coisa aqui, debaixo dela. - Com cuidado, Eve
levantou os ombros da morta e enfiou os dedos por trs. -  um pedao de papel -
murmurou. - Plastificado. - Com o dedo protegido pelo spray, limpou o sangue que
estava espalhado pela superfcie, at conseguir ler o que estava escrito no papel
protegido.
UMA DE SEIS
- Parece que foi escrito a mo - disse ela a Feeney, estendendo o pedao de
papel. - Nosso rapaz  mais do que esperto, e mais do que arrogante. E ainda no
terminou.
Eve passou o resto do dia fazendo o que normalmente era servio de assistentes.
Entrevistou os vizinhos da vtima pessoalmente, registrou declaraes e impresses.
Conseguiu comer um sanduche rpido no mesmo vendedor de espetinhos que
quase atropelara mais cedo, quando vinha para o local do crime. Depois da noite e da
manh que enfrentara, no podia culpar a recepcionista do Paradise por olh-la como
se ela tivesse acabado de tropear e se ralar toda na calada.
Cascatas jorravam com um som musical no meio da vegetao na recepo do
salo de beleza mais exclusivo da cidade. Pequenas xcaras de caf e elegantes
copos de gua mineral gasosa ou champanhe eram servidos aos clientes que
aguardavam nas cadeiras acolchoadas e nos sofs. Fones de ouvido e discos com as
revistas da moda eram cortesia.
A recepcionista era magnificamente bem servida de seios, o que funcionava como
testemunho para as tcnicas de escultura corporal do salo. Usava um short vermelho
colante, com o logotipo da empresa, e uma incrvel touca de cabelos cor de bano,
anelados e entrelaados uns aos outros como cobras.
Eve no poderia estar mais deliciada com tudo aquilo.
- Desculpe - disse a mulher, com um tom de voz cuidadosamente modulado e to
desprovido de expresso como o de um computador -, mas ns atendemos apenas
com hora marcada.
- Tudo bem. - Eve sorriu e quase se sentiu arrependida por reforar o tom de
desdm. Quase. - Nesse caso, talvez isto aqui consiga uma hora para mim. - Ela
exibiu o distintivo. - Quem atende Sharon DeBlass?
Os olhos horrorizados da recepcionista voaram em direo  rea de espera.
- As necessidades das nossas clientes so estritamente confidenciais - explicou
ela.
- Aposto que sim. - Comeando a se divertir com aquilo, Eve se recostou no balco
em forma de U, demonstrando camaradagem. - Olhe, eu posso falar bem baixo e ser
discreta, como estou sendo, para podermos nos entender bem... - e olhou depressa
para a plaquinha de identificao com o nome da funcionria, pregada na altura do
busto
- Denise. E eu tambm posso falar bem alto, para que todos aqui consigam me
entender. Se voc preferir a primeira opo, poderia me levar para uma pequena sala
isolada e calma onde a nossa conversa no vai perturbar nenhuma das suas clientes,
e ento poder chamar a profissional de beleza que atende Sharon DeBlass, ou sei l
que outro termo vocs usam por aqui.
- Chamamos de consultora - disse Denise, quase de forma inaudvel. -
Acompanhe-me, por favor.
- Com todo o prazer. E foi mesmo um prazer.
Fora de filmes e vdeos, Eve jamais vira algo assim to exuberante. O carpete
vermelho, macio como uma almofada, era to espesso que os ps afundavam
deliciosamente nele. Gotas de cristal pendiam do teto e irradiavam luz. O ar tinha o
perfume de flores e pele bem cuidada.
Eve no teria conseguido se imaginar em um lugar como aquele, gastando horas
do seu tempo para ser coberta de cremes e leos, sendo massageada, espancada e
esculpida. Se fosse perder tanto tempo com essas vaidades, no entanto, seria
certamente muito mais interessante fazer isso sob condies to civilizadas.
A recepcionista a levou at uma pequena sala onde o holograma de uma campina
de vero cobria completamente uma das paredes.
O som suave de pssaros distantes enchia o ar, e uma leve brisa o adocicava.
- Aguarde aqui, por favor.
- Tudo bem. - Eve esperou at que a porta se fechasse por completo e ento, com
um suspiro satisfeito, se acomodou em uma cadeira generosamente acolchoada. No
exato instante em que se sentou, o monitor ao lado dela emitiu o som de um bip e
um rosto amigvel e solcito, que s poderia pertencer a um andride, comeou a
distribuir sorrisos.
- Boa-tarde. Seja bem-vinda ao Paradise. Suas necessidades de beleza e o seu
conforto so as nossas nicas prioridades. Gostaria de algo para beber enquanto
aguarda a chegada de sua consultora pessoal?
- Gostaria. Caf, bem forte... Caf.
- Claro. Qual o tipo de sua preferncia? Aperte a tecla C no teclado para uma lista
de opes.
Sufocando o riso, Eve seguiu as instrues. Gastou os dois minutos seguintes
pensando com cuidado em todas as opes apresentadas, at que ficou dividida entre
o Riviera Francesa e o Creme Caribenho.
A porta se abriu antes que conseguisse se decidir. Resignada, ela se levantou e
deu de cara com um espantalho elaboradamente vestido.
Sobre a camisa em um tom berrante de cor-de-rosa e calas largas da cor de
ameixas, ele usava um jaleco comprido no forte vermelho Paradise. Seus cabelos,
flutuando loucamente para trs a partir de um rosto dolorosamente esqulido,
ecoavam o tom arroxeado das calas. Esticou a mo para Eve, apertou-a com
delicadeza e lanou-lhe um olhar sofrido de cora assustada.
- Estou arrasado por faz-la esperar, policial. Totalmente desmoronado.
- Quero informaes sobre Sharon DeBlass. - Mais uma vez, Eve pegou o distintivo
e o ofereceu para inspeo.
- Sim, claro, ahn... Tenente Dalas. Foi o que eu imaginei... Informaes. A senhora
deve saber,  claro, que os dados das nossas clientes so estritamente confidenciais.
O Paradise tem uma reputao baseada na discrio, tanto quanto na excelncia dos
servios.
- E o senhor deve saber,  claro, que eu posso voltar aqui com um mandado,
Senhor...
- Oh, Sebastian. Apenas Sebastian. - Ele acenou com a mo magra, rebrilhante de
anis. - No estou questionando a sua autoridade, tenente, mas se a senhora puder
me auxiliar, qual  a causa para essa investigao?
- Estou pesquisando os motivos que levaram ao assassinato de Sharon DeBlass. -
E esperou um instante, analisando o choque que surgiu no rosto do atendente e
drenou toda a cor de seu rosto.
- Fora isso, meus outros dados so estritamente confidenciais.
- Assassinato. Meu bom Deus, nossa adorvel Sharon est... morta? Deve haver
algum engano. - Deixou-se escorregar sobre uma cadeira, lanando a cabea para
trs e fechando os olhos. Quando o monitor ao seu lado comeou a lhe oferecer
bebidas, ele se abanou com a mo. Reflexos foram lanados de seus dedos cobertos
de jias. - Oh, Deus, sim. Preciso de um conhaque, querida. Uma dose de Trevalli.
Eve se sentou ao lado dele e pegou o gravador.
- Fale-me de Sharon.
- Uma criatura maravilhosa. Fisicamente estonteante,  claro, mas tinha algo mais
profundo. - O conhaque chegou na sala, trazido por uma mesinha mecanizada.
Sebastian pegou o copo e tomou um gole generoso. - Tinha um bom gosto
irrepreensvel, um corao generoso e um raciocnio rpido.
Ele pousou os olhos de cora novamente em Eve.
- Estive com ela h apenas dois dias, tenente.
- Profissionalmente?
- Sharon tinha um horrio fixo toda semana, metade de um dia. A cada duas
semanas a reserva era para o dia inteiro. - Desfraldando um leno de pescoo
amarelo-canrio, tocou levemente a borda dos olhos. - Sharon tomava conta de si
mesma, se cuidava muito bem, acreditava firmemente na importncia da boa
apresentao.
- Isso deveria ser uma vantagem na sua rea de atuao profissional.
- Naturalmente. Trabalhava apenas para se divertir. Dinheiro no era uma
necessidade importante, por causa da fortuna da famlia. Ela adorava sexo.
- Com voc?
O rosto artstico do rapaz se contorceu, e os lbios rosados se repuxaram no que
poderia ter sido um esgar de dor.
- Eu era consultor de beleza dela, seu confidente e amigo explicou Sebastian,
rigidamente, enquanto lanava o leno de pescoo para trs com um trejeito casual,
por sobre o ombro esquerdo.
- Seria algo indiscreto e antiprofissional se tivssemos nos tornado parceiros
sexuais.
- Ento voc no tinha atrao por ela, sexualmente?
- Era impossvel para algum no ser atrado sexualmente por Sharon. Ela... - e
esticou o brao em um gesto de grandeza - ela transpirava sexo, da mesma forma
como outras talvez exalem um perfume caro. Meu Deus. - Tomou mais um gole
trmulo do conhaque. - J estou falando usando os verbos no passado. No posso
acreditar nisso. Morta. Assassinada. - Seu olhar voou de volta para Eve. - A senhora
disse assassinada.
- Isso mesmo.
- A vizinhana onde ela morava - disse ele, de modo sombrio. - Ningum
conseguia convenc-la a se mudar para uma regio mais aceitvel. Ela gostava de
viver na beira do abismo e jogar tudo isso bem debaixo do nariz sofisticado da famlia
dela.
- Ela e o pessoal da famlia estavam brigados?
- Ah, definitivamente, sim. Ela adorava choc-los. Tinha um esprito to livre, e eles
eram to... comuns. - Disse isso em um tom de voz que indicava que ser comum era
um pecado mortal mais grave at do que assassinato. - O av dela continuava a
apresentar projetos de lei que transformariam a prostituio em algo ilegal. Como se
tudo o que vimos no sculo passado j no tivesse provado que tais assuntos devem
ser controlados e regularizados, por questes de sade e segurana contra o crime. E
o velho tambm se coloca contra o controle de natalidade, ajustes e igualdades entre
os sexos, equilbrio no combate s drogas e proibio das armas.
- O senador se ope  proibio das armas? - As orelhas de Eve ficaram alertas.
-  uma de suas ideias preferidas. Sharon me contou que ele possui um monte de
terrveis armas antigas, e vive falando para quem quiser ouvir a respeito do antiquado
direito do cidado ao porte de armas. Se as coisas fossem do jeito dele, estaramos
todos de volta ao Sculo XX, matando-nos uns aos outros a torto e a direito.
- Mas os assassinatos continuam acontecendo - murmurou Eve. - Ela alguma vez
mencionou amigos ou clientes que pudessem estar insatisfeitos ou mais agressivos?
- Sharon tem dezenas de amigos. Ela atraa as pessoas para perto dela como... -
ele procurou por uma metfora adequada, enquanto balanava a ponta do leno
novamente
- como se fosse uma flor extica com perfume maravilhoso. E os seus clientes,
pelo que eu sei, estavam todos muito satisfeitos com ela. Ela os selecionava com todo
o cuidado. Todos os parceiros sexuais dela tinham que atender a certos padres.
Aparncia, intelecto, uma boa famlia e muita competncia. Como disse, ela adorava
sexo, em todas as suas muitas formas. Ela gostava da... aventura.
Isso combinava com os apetrechos que Eve desencavara no apartamento. As
algemas cobertas de veludo e os chicotes, os leos de perfume forte e os
alucingenos. As opes que lhe foram oferecidas quando Eve colocou um dos dois
capacetes de realidade virtual que eram ligados um ao outro a deixaram chocada,
mesmo j sendo escolada em tudo aquilo.
- Sharon estava envolvida com algum em nvel pessoal?
- Havia homens, ocasionalmente, mas ela perdia o interesse neles com muita
rapidez. Ultimamente falava muito de Roarke. Ela o conheceu em uma festa e se
sentiu atrada. Para falar a verdade, estava com um jantar marcado com ele para a
mesma noite em que esteve aqui na sua ltima visita semanal. Queria preparar algo
bem extico, porque eles estavam indo jantar no Mxico.
- No Mxico. Ento deve ter sido na noite de anteontem.
- Sim. Ela estava se gabando toda a respeito dele. Fizemos o cabelo dela em estilo
cigano, colocamos um pouco mais de brilho dourado em sua pele, um trabalho
corporal completo. Vermelho escndalo nas unhas e uma charmosa tatuagem
temporria de uma borboleta com as asas vermelhas, bem na ndega esquerda.
Usamos maquiagem especial para durar vinte e quatro horas sem borrar, e ela ficou
espetacular - disse ele, se martirizando. - Deu-me um beijo quando saiu e afirmou que
talvez estivesse apaixonada dessa vez. Deseje-me sorte, Sebastian, foram suas
palavras quando saiu. Foi a ltima coisa que falou para mim em vida.
CAPTULO DOIS
No havia esperma. Eve xingou, olhando o relatrio da autpsia. Se ela fizera sexo
com o assassino, o anticoncepcional da vtima matara os pequenos soldadinhos do
smen por contato, eliminando todo trao deles em no mximo trinta minutos aps a
ejaculao.
A extenso dos ferimentos na pelve tornou os testes para atividades sexuais
inconclusivos. Ele a partira ao meio, ou por simbolismo ou para sua prpria proteo.
Sem esperma, sem sangue, a no ser o da vtima. Sem DNA.
A pesquisa do laboratrio no local do assassinato no revelou digital alguma. Nem
da vtima, nem da faxineira semanal, e certamente nem do assassino.
Todas as superfcies haviam sido meticulosamente limpas, incluindo a arma do
crime.
Mais revelador do que tudo, porm, na opinio de Eve, eram os discos da
segurana. Mais uma vez, ela colocou as imagens da cmera do elevador para passar
no seu monitor.
Os discos estavam com os dados iniciais intactos.
Complexo Gorham. Elevador A. Doze de fevereiro de 2058. Seis horas da manh.
Eve foi passando as imagens rapidamente, observando o mostrador com as horas
que giravam em disparada. As portas do elevador se abriram pela primeira vez ao
meio-dia. Ela diminuiu a velocidade, jogou um beijo para o aparelho com a ponta dos
dedos quando a imagem de algum apareceu, e ficou estudando o homenzinho
nervoso que entrou e pediu o quinto andar.
Algum pulando a cerca, decidiu ela, se divertindo quando o viu enfiar um dedo
desconfortvel no colarinho para a seguir jogar uma bala de hortel na boca.
Provavelmente tinha mulher e dois filhos, alm de um emprego burocrtico que lhe
permitia dar uma escapada durante uma hora uma vez por semana para uma
rapidinha ao meio-dia.
Ele saltou do elevador no quinto andar.
A atividade esteve bem leve durante vrias horas, com uma ocasional prostituta
que descia at o saguo, algumas retornando com sacolas de compras e uma
expresso entediada. Alguns clientes entravam e saam. O movimento comeou a
aumentar a partir das oito da noite. Alguns moradores saam, bem-vestidos e muito
enfeitados, para jantar, enquanto outros chegavam para comparecer a seus encontros
marcados.
s dez, um casal muito elegante entrou no elevador ao mesmo tempo. A mulher
permitiu que o homem abrisse seu casaco de peles, debaixo do qual ela no usava
nada, a no ser um sapato com salto-agulha e a tatuagem de um boto de rosa
entreaberto cuja haste comeava na virilha e subia, com a flor artisticamente tocando
o mamilo esquerdo. Ele a acariciava, um ato tecnicamente ilegal, pois eles estavam
em uma rea vigiada. Quando o elevador parou no dcimo oitavo andar, a mulher
fechou o casaco, e ambos saram, conversando a respeito da pea que haviam
acabado de assistir.
Eve fez uma anotao para interrogar o homem no dia seguinte. Ele era vizinho da
vtima, e seu scio.
A pequena falha na transmisso ocorreu precisamente  meianoite e cinco. A
imagem piscou, quase imperceptivelmente, fazendo apenas um blip discreto, e voltou
no segundo seguinte com o relgio marcando 02:46.
Duas horas e quarenta e um minutos perdidos.
No disco com a gravao do dcimo oitavo andar acontecia o mesmo. Quase trs
horas apagadas. Eve pegou o caf que j estava esfriando e pensou com cuidado a
respeito daquilo. O homem entendia de segurana, avaliou, e tinha suficiente
familiaridade com o prdio a ponto de saber onde e quando atuar para adulterar os
discos. E ele no teve pressa, pensou. A autpsia determinou que a morte ocorrera s
duas da manh.
Ele passara quase duas horas com ela antes de assassin-la, e quase uma hora
depois, com ela j morta. E mesmo assim no deixara nem um vestgio.
Rapaz esperto.
Se Sharon DeBlass tinha registrado algum encontro, pessoal ou profissional, para
a meia-noite, aquilo, tambm, j teria sido apagado.
Ento, ele a conhecia intimamente, o suficiente para saber ao certo o local em que
ela guardava seus arquivos, e como ter acesso a eles.
Seguindo um palpite, Eve se inclinou para a frente mais uma vez, na direo da
tela.
- Complexo Gorham, Broadway, Nova York. Proprietrio. Seus olhos se estreitaram
enquanto os dados comearam a aparecer no monitor.
Complexo Gorhatn, propriedade das Indstrias Roarke, com sede na Quinta Avenida,
nmero 500. Presidente e principal executivo: Roarke. Residncia em Nova York: Central Park
West, nmero 222.
- Roarke - murmurou Eve. - Seu nome est sempre aparecendo, no , Roarke? -
repetiu ela. - Quero todos os dados, na tela e na impressora.
Ignorando a chamada que estava piscando no comunicador ao lado, Eve tomou
mais um gole do caf e leu.
Roarke, sem sobrenome conhecido. Nascido em seis de outubro de 2023,
em Dublin, na Irlanda. Identidade nmero 33492, de abril de 2050. Pais
desconhecidos. Estado civil, solteiro. Presidente e principal executivo das
Indstrias Roarke, fundadas em 2042. Principais filiais: Nova York, Chicago,
Nova Los Angeles, Dublin, Londres, Bonn, Paris, Frankfurt, Tquio, Milo,
Sydney. Agncias fora do planeta na Estao Espacial 45, Colnia Bridgestone,
Vegas II e Free Star One. Interesses em imveis, importao e exportao,
transporte de encomendas, indstria de diverso, fbricas, indstria
farmacutica, transportes. Estimativa de faturamento: Trs bilhes e oitocentos
milhes de dlares.
Rapaz ocupado, pensou Eve, levantando a sobrancelha enquanto uma lista
com as companhias de sua propriedade apareciam na tela.
- Grau de instruo - pediu ela.
Desconhecido.
- Registros criminais.
Sem registros.
- Acesse Roarke, em Dublin.
Sem dados adicionais.
- Bem, que droga, Senhor Misterioso. Descrio e visual na tela.
Roarke. Cabelo preto, olhos azuis, um metro e oitenta e oito de altura, setenta e
oito quilos.
Eve soltou um gemido enquanto o computador apresentava a descrio. Tinha que
reconhecer que, no caso de Roarke, uma imagem valia muito mais do que mil
palavras.
Seu rosto estava na tela olhando de volta para Eve. Ele era quase ridiculamente
bonito, com o rosto estreito e de aparncia agradvel, as mas do rosto bemtalhadas
e a boca esculpida. Sim, seu cabelo era preto, mas o computador no
informara que tambm era cheio, pesado, e se lanava para trs a partir de uma testa
forte, at chegar a poucos centmetros acima dos ombros largos. Seus olhos eram
azuis, mas a palavra era simples demais para definir a intensidade da cor ou o poder
que emanava deles.
Mesmo diante de uma imagem, apenas, Eve podia ver que aquele era um homem
que perseguia o que ou quem desejava, envolvia, usava e no se importava com
frivolidades tais como trofeus.
E sim, pensou ela, ali estava um homem que seria capaz de matar, caso isso fosse
do seu interesse. E faria isso de forma fria e metdica, sem deixar pingar uma gota de
suor.
Juntando os dados principais, decidiu que teria uma conversa com Roarke. Muito
em breve.
No momento em que Eve deixou a Central de Polcia e se dirigiu para casa, o cu
estava polvilhando neve, miseravelmente. Vasculhou os bolsos sem esperana e
descobriu que na verdade tinha deixado as luvas no seu apartamento. Sem gorro e
sem luvas, apenas com o casaco de couro como proteo contra o vento cortante,
saiu dirigindo pela cidade.
Pretendia levar o seu carro para a oficina. S que simplesmente no tivera tempo.
Agora, no entanto, havia tempo suficiente para arrependimentos, enquanto lutava
contra o trfego e tremia de frio, graas ao sistema de aquecimento enguiado.
Jurou que, se conseguisse chegar em casa sem se transformar em um bloco de
gelo, marcaria uma hora com o mecnico.
S que ao chegar em casa a sua preocupao principal era comida. No exato
momento em que destrancava a porta, j estava sonhando com uma tigela bem
quente de sopa, talvez acompanhada por um monte de batatas fritas, se ela
encontrasse alguma que tivesse sobrado, e um pouco de caf que no parecesse ter
sido feito com gua de esgoto.
Viu o pacote de imediato, uma caixa bem fina junto da porta, pelo lado de dentro.
Sua arma j estava na mo antes de respirar outra vez. Balanando a arma e os olhos
para os lados, fechou a porta com o calcanhar, atrs dela. Deixou o pacote onde
estava e se movimentou por toda a casa, indo de um cmodo a outro at se
convencer de que estava realmente sozinha.
Depois de colocar a arma novamente no coldre, despiu o casaco de couro e o
atirou para o lado. Curvando-se, pegou pelas pontas a caixinha fechada, que tinha um
disco dentro, e a manuseou com todo o cuidado. No havia etiqueta, nem mensagens.
Levou o disco at a cozinha, abrindo a embalagem com cautela, e o colocou no
computador.
E se esqueceu por completo da comida.
A imagem era da mais alta qualidade, e o som tambm. Eve se sentou lentamente
enquanto a cena se desenrolava no monitor.
Nua, Sharon DeBlass se espreguiava sobre a cama, que parecia ter o tamanho
de um lago, e se esfregava sobre os lenis de cetim. Levantou a mo e a deixou
deslizar pela gloriosa juba vermelha e dourada enquanto o movimento da cama
parecia faz-la flutuar e a embalava.
- Quer que eu faa algo especial, querido? - Deu uma risada, se colocando de
joelhos e envolvendo os seios com as mos em concha. - Por que no vem at
aqui?... - A ponta de sua lngua apareceu e circulou os lbios, molhando-os. -
Podemos fazer tudo de novo. - Seu olhar baixou, e um sorriso de gata apareceu em
seus lbios. - Parece que voc j est mais do que preparado. - E riu novamente,
lanando os cabelos para trs. - Ah, ns queremos fazer um jogo, ento. - Ainda
sorrindo, Sharon colocou as mos para cima. - No me machuque. - Ela choramingou,
tremendo ao mesmo tempo que seus olhos brilhavam de excitao. - Fao tudo o que
voc quiser. Qualquer coisa. Venha at aqui e me force a fazer. Quero que faa isso. -
Abaixando as mos, comeou a se acariciar. - Aponte esse revlver grande e mau
para mim enquanto me estupra. Quero que faa isso. Quero que voc...
A exploso fez Eve dar um pulo da cadeira. Seu estmago se embrulhou enquanto
ela viu a mulher voar para trs como uma boneca quebrada, com o sangue
esguichando da testa. O segundo tiro no provocou um susto to grande, mas Eve
teve que se obrigar a manter os olhos na tela. Depois do ltimo estrondo tudo ficou
quieto, a no ser pela msica suave ao fundo e a respirao entrecortada. A
respirao do assassino.
A cmera se aproximou, fez uma panormica no corpo, mostrando os detalhes
mais horrendos. Ento, atravs da mgica da edio, Sharon estava como Eve a tinha
encontrado. Com as pernas e os braos abertos formando um perfeito X, sobre os
lenis ensanguentados. A imagem se encerrou com uma apresentao grfica.
UMA DE SEIS
Era mais fcil assistir a tudo pela segunda vez. Ou pelo menos foi o que Eve disse
a si mesma. Desta vez ela reparou uma ligeira tremida da cmera depois do primeiro
tiro, e uma respirao ofegante e rpida. Passou mais uma vez, ouvindo cada palavra,
estudando cada movimento, na esperana de conseguir alguma pista. Mas ele era
esperto demais para aquilo. E ambos sabiam disso.
O assassino queria apenas que ela constatasse o quanto ele era bom naquilo. O
quanto era frio.
E queria tambm que ela compreendesse que ele sabia exatamente onde
encontr-la. Sempre que quisesse.
Furiosa ao ver que suas mos no estavam muito firmes, ela se levantou. Em vez
do caf que planejara, Eve pegou uma garrafa de vinho em uma pequena frigounidade,
e se serviu de meio clice.
Bebeu tudo muito depressa, prometendo a si mesma a outra metade do clice logo
em seguida, e ento teclou o cdigo do seu comandante.
Foi a mulher dele que atendeu ao chamado, e pelo refulgente brinco em suas
orelhas e o penteado perfeito, Eve imaginou que acabara de interromper um dos
famosos jantares da socialite.
- Aqui  a Tenente Dalas, Senhora Whitney. Sinto muito por interromper sua noite,
mas preciso falar com o comandante.
- Estamos com convidados, tenente.
- Sim, senhora, eu entendo e peo mil desculpas. - Droga de poltica, Eve pensou
enquanto forava um sorriso. -  que se trata de algo realmente urgente.
- E no  sempre urgente?
O aparelho ficou emitindo um zumbido leve, felizmente sem as detestveis
melodias de fundo nem as ltimas notcias. Passaram-se trs minutos at que o
comandante veio atender.
- Dalas.
- Comandante, preciso enviar um arquivo para o senhor atravs de uma linha
codificada.
-  bom que seja urgente, Dalas. Minha mulher vai encher a minha pacincia por
causa dessa interrupo.
- Sim, senhor. - Tiras, ela pensou, enquanto se preparava para enviar as imagens
para o monitor dele, deveriam permanecer solteiros.
Ficou esperando, torcendo as mos inquietas em cima da mesa. Enquanto as
imagens iam sendo transmitidas, Dalas assistia a elas novamente, ignorando o aperto
na barriga. Quando a transmisso acabou, o Comandante Whitney apareceu de novo
na tela. Seu olhar estava sombrio.
- Onde conseguiu isso?
- Ele enviou para mim. Encontrei o disco aqui no meu apartamento, quando voltei
da Central. - Sua voz era calma e cuidadosa. - Ele sabe quem sou eu, onde moro e o
que estou fazendo.
Whitney ficou em silncio por algum tempo.
- Amanh cedo em minha sala, s sete em ponto. Leve o disco, tenente.
- Sim, senhor.
Quando a transmisso acabou, Eve fez as duas coisas que o seu instinto sugeriu.
Primeiro, preparou para si mesma uma cpia do disco, e a seguir se serviu de mais
um clice de vinho.
Acordou s trs da manh, tremendo, sentindo-se pegajosa, lutando para
conseguir gritar. Pequenos rudos de lamento eram emitidos por sua garganta quando
ela pigarreou e ordenou para que as luzes fossem acesas. Os pesadelos sempre
pareciam mais assustadores no escuro.
Tremendo, recostou-se na cama. Este sonho tinha sido pior, muito pior do que
qualquer outro que tivera at ento.
Ela matara o homem. Que outra escolha havia? Ele estava drogado demais para
receber o efeito da arma de choque, e aquilo no o deixou sequer aturdido. Cristo, ela
tentara, mas ele continuava vindo, e vindo, e vindo, com aquele olhar selvagem nos
olhos e a faca ensanguentada na mo.
A garotinha j estava morta. No houve nada que Eve pudesse ter feito para evitar
aquilo. Por favor, Deus, no permita que possa ter havido algo que ela pudesse ter
feito e no fez.
O pequeno corpo retalhado, o homem frentico com a faca que gotejava sangue.
Ento o brilho em seus olhos quando ela atirara em cheio, e a vida que saa de dentro
deles.
Mas isso no tinha sido tudo. No daquela vez. Naquela vez, ele continuava vindo.
E ela estava nua, ajoelhada em uma poa de cetim. A faca se transformara em um
revlver, e estava nas mos do homem cujo rosto ela analisara horas antes. O homem
chamado Roarke.
Ele sorrira, e ela o desejara. Seu corpo tinha vibrado de terror e desespero sexual,
mesmo quando ele atirara nela. Na cabea, no corao e entre as pernas.
E em algum lugar ao fundo, em meio a tudo aquilo, a garotinha, a pobre garotinha,
gritava desesperada pedindo socorro.
Cansada demais para lutar contra aquilo, Eve simplesmente se virou de lado,
apertou o rosto contra o travesseiro e chorou.
- Tenente. - Precisamente s sete horas da manh, o Comandante Whitney
ofereceu uma das cadeiras de sua sala para Eve. Apesar do fato de j estar em
cargos de comando h doze anos, ou talvez precisamente por isso, Whitney possua
olhos penetrantes.
Podia ver que ela dormira mal e tentara disfarar os sinais da noite maldormida.
Em silncio, estendeu-lhe a mo.
Eve colocara o disco e a embalagem na qual fora entregue em um envelope
plstico para provas. Whitney olhou para ele, e a seguir o colocou no centro da sua
mesa.
- De acordo com o protocolo, sou obrigado a perguntar se voc deseja ser liberada
deste caso. - Esperou um instante. Vamos fingir que eu segui o protocolo.
- Sim, senhor.
- Sua casa  segura, Dalas?
- Eu achava que sim. - Pegou um relatrio impresso na bolsa. - Fui verificar as
imagens dos discos de segurana do meu prdio, depois de entrar em contato com o
senhor, ontem  noite. H um lapso de tempo de dez minutos nas imagens. Como o
senhor poder ver em meu relatrio, ele tem a capacidade tcnica de minar os
sistemas de segurana, possui conhecimento de tcnica de vdeo, edio e,  claro,
de armas antigas.
- Isso no ajuda a estreitar muito o campo de busca. - Whitney pegou o relatrio e
o colocou de lado.
- No, senhor. Tenho vrias pessoas que preciso entrevistar. No caso desse
criminoso, a investigao eletrnica no  a chave principal, embora o auxlio do
Capito Feeney seja inestimvel. Esse assassino cobre bem seus rastros. No
encontramos nenhuma outra evidncia fsica alm da arma que ele decidiu deixar no
local do crime. Somos obrigados a supor que ele a conseguiu no mercado negro.
Comecei a pesquisar os livros pessoais da vtima e suas anotaes, mas ela no era
do tipo reservado. Vai levar algum tempo.
- Tempo  uma parte do problema. Uma de seis, tenente. O que isso diz a voc?
- Que ele tem cinco outras em mente,  claro, mas quer que saibamos disso. 
algum que gosta do seu trabalho e quer se transformar no foco da nossa ateno. -
Soltou um suspiro profundo.
- No  material suficiente para um perfil psiquitrico completo. No temos como
dizer por quanto tempo ele ficar satisfeito com a excitao provocada por esse
assassinato, nem quando ele vai precisar da prxima dose dessa droga. Pode ser
hoje. Pode ser daqui a um ano. No podemos contar com um descuido dele.
- Sim. - Whitney acenou com a cabea. - Voc est tendo problemas com a medida
extrema que teve de tomar na outra noite?
- Nada que no consiga controlar. - A faca coberta de sangue, o pequeno corpo
arruinado a seus ps.
- Quero que esteja bem certa disso, Dalas. No preciso de uma policial
trabalhando em um caso to delicado quanto este e que esteja preocupada sobre se
deve ou no usar a arma.
- Tenho certeza que no.
Eve era a melhor que ele tinha, e Whitney no podia se dar ao luxo de duvidar das
condies dela.
- Eve, est disposta a fazer um pouco de jogo poltico? - Os lbios dele se
curvaram para os lados, quase rindo. - O Senador DeBlass est vindo para c. Voou
para Nova York na noite passada.
- Diplomacia no  um dos meus pontos fortes.
- Sei disso. Mas voc vai ter que trabalhar esse seu lado. O senador quer falar
pessoalmente com o investigador encarregado, e passou por cima de mim para
conseguir isso. As ordens vieram diretamente do Secretrio de Segurana, l de cima.
Voc vai ter que oferecer ao senador a sua total cooperao.
- Mas esta  uma investigao de Cdigo Cinco - disse Eve, de modo rgido. - No
quero saber se as ordens vieram do prprio Deus Todo-Poderoso. No vou divulgar
dados confidenciais para um civil.
O sorriso de Whitney se ampliou. Ele tinha um semblante agradvel, bem comum,
provavelmente o mesmo com o qual nascera. Mas quando ele sorria, e o fazia com
vontade, o reflexo dos dentes brancos em contraste com a pele bronzeada
transformava as feies comuns em algo especial.
- Eu no ouvi voc dizer isso - disse ele. - E voc no me ouviu dizer que deve
oferecer a ele apenas os fatos bvios. O que voc deve se lembrar de ter me ouvido
dizer, Tenente Dalas,  que o cavalheiro da Virgnia  um idiota pomposo e arrogante.
Infelizmente,  um idiota que tem poder. Portanto, cuidado onde voc pisa.
- Sim, senhor.
Ele olhou para o relgio, e ento trancou o relatrio e o disco em uma gaveta, a
chave.
- Tenente, voc ainda tem algum tempo para tomar um caf e... mais uma coisa -
acrescentou enquanto se levantava. - Se estiver com dificuldades para dormir, pegue
um tranquilizante autorizado. Quero meus policiais alertas e em boa forma.
- Eu estou suficientemente alerta.
O Senador Gerald DeBlass era, sem dvida, pomposo. Era tambm,
inquestionavelmente, arrogante. Depois de um minuto inteiro em sua companhia, Eve
concordou tambm que ele era inegavelmente um idiota.
Parecia compacto, atarracado, com aproximadamente um metro e oitenta de altura
e mais de cem quilos. Seus cabelos brancos estavam cortados bem curtos, quase que
a navalha, de modo que sua cabea se parecia com a ponta polida de um imenso
projtil. Seus olhos eram quase pretos, como as espessas sobrancelhas sobre eles.
Eram tambm largos, assim como o nariz e a boca.
Suas mos eram enormes e quando elas cumprimentaram Eve, logo na chegada,
ela notou que a pele delas era lisa e suave como a de um beb.
Trouxe o assistente com ele. Derrick Rockman era um homem magro como um
graveto, com quarenta e poucos anos. Embora tivesse mais de um metro e noventa de
altura, Eve avaliou que o senador pesava pelo menos dez quilos a mais do que ele.
Era aprumado, bem-apessoado, em um impecvel terno risca-de-giz com gravata
azul-celeste que no exibia um vinco sequer. Seu semblante era solene, com feies
quase atraentes, os movimentos restritos e controlados, enquanto dava assistncia ao
senador, bem mais exuberante, que naquele momento tirava o sobretudo de casimira.
- Que diabos voc fez at agora para encontrar o monstro que assassinou minha
neta? - DeBlass exigiu saber.
- Tudo o que foi possvel, senador. - O Comandante Whitney permaneceu de p.
Embora tivesse oferecido uma poltrona ao senador, o homem preferiu vagar pela sala,
como costumava vagar pela Galeria do Novo Senado, em Washington.
- Voc j teve mais de vinte e quatro horas - atirou DeBlass de volta, com a voz
grave e retumbante. - Pelo que entendi, comandante, voc designou apenas dois
policiais para conduzir as investigaes.
- Por questes de segurana,  verdade. Dois dos meus melhores policiais -
acrescentou o comandante. A Tenente Dalas est no comando da investigao e se
reporta unicamente a mim.
- E que progressos conseguiu at agora? - DeBlass voltou os duros olhos negros
para Eve.
- Identificamos a arma do crime, determinamos com preciso a hora da morte.
Estamos recolhendo provas e entrevistando todos os moradores do prdio da
Senhorita DeBlass, bem como rastreando todos os nomes, em escala profissional e
pessoal. No momento, estou trabalhando na reconstruo das ltimas vinte e quatro
horas da vida dela.
- Deveria ser bvio, at mesmo para a mais lerda das mentes, que ela foi
assassinada por um dos clientes. - Disse a ltima palavra com um silvo de
desaprovao.
- No havia nenhum cliente marcado para as horas anteriores  morte. O cliente
anterior tem um libi para a hora crtica.
- Investigue-o! - exigiu DeBlass. - Um homem que  capaz de pagar por servios
sexuais no deve ter escrpulos com relao a assassinato.
Embora Eve no conseguisse estabelecer a relao entre os dois fatos, lembrouse
do seu trabalho e concordou.
- Estou trabalhando nisso, senador.
- Quero cpias de todos os arquivos e agendas com os compromissos dela.
- Isso no ser possvel, senador - disse Whitney, com tom calmo. - Todas as
provas de um crime capital so confidenciais.
DeBlass simplesmente bufou e fez um gesto em direo a Rockman.
- Comandante - Rockman colocou a mo no bolso superior do terno e fez surgir
uma folha de papel com um selo hologrfico afixado nela. - Este documento vem do
Secretrio de Segurana e autoriza o senador a ter acesso a toda e qualquer prova ou
dado investigativo relacionado com o assassinato da Senhorita DeBlass.
Whitney mal olhou para o documento antes de coloc-lo de lado. Sempre
considerara a poltica um jogo de covardes, e detestava o fato de ser obrigado a joglo.
- Vou conversar com o secretrio pessoalmente. Se a autorizao se mantiver,
teremos cpias de tudo  sua disposio, ainda esta tarde. - Desviando o olhar de
Rockman, encarou DeBlass. - O sigilo de todas as provas  a ferramenta principal do
processo investigativo. Se o senhor insistir nessa exigncia, senador, estar correndo
o risco de minar todo o caso.
- O caso, como o senhor chama, comandante, era minha carne, e tinha o meu
sangue.
- Sendo assim, era de esperar que a sua prioridade principal seria nos oferecer
toda a assistncia possvel para colocar o assassino dela nas mos da Justia.
- Eu servi  Justia por mais de cinquenta anos. Quero o material at o meio-dia. -
Pegou o sobretudo e o atirou sobre o brao rolio. - Se eu no estiver convencido de
que vocs esto fazendo tudo o que est ao seu alcance para encontrar esse
manaco, vou providenciar para que o senhor seja removido de seu cargo. - Ele se
virou para Eve. - E tambm que sua prxima investigao, tenente, seja correr atrs
de adolescentes de dedos leves atuando em pginas de compras pela Internet.
Depois que saiu porta afora tempestuosamente, Rockman usou seus olhos calmos
e solenes para montar justificativas.
- Vocs devem desculpar o senador. Ele est sobrecarregado com tudo isso. Por
mais que houvesse alguns conflitos entre ele e a neta, ela era parte da famlia. Nada 
mais importante para o senador que a famlia. A morte dela, esse tipo de violncia e a
morte sem sentido so coisas devastadoras para ele.
- Certo - murmurou Eve. - Reparei que ele parecia completamente arrasado.
Rockman sorriu. Conseguiu se mostrar divertido com a observao e pesaroso ao
mesmo tempo.
- Homens orgulhosos, tenente, muitas vezes disfaram sua dor profunda
mostrando-se agressivos. Temos toda a confiana em suas habilidades e em sua
tenacidade, tenente. Comandante - e fez um cumprimento com a cabea -, estamos 
espera dos dados esta tarde. Obrigado pelo seu tempo.
- Ele  escorregadio - murmurou Eve quando Rockman fechou a porta
silenciosamente atrs dele. - O senhor no vai ceder, comandante.
- Vou lhes dar o que tiver que dar. - A voz dele era spera e marcada com fria
suprimida. - Agora, v me conseguir mais.
O trabalho da polcia era muitas vezes penoso. Depois de ficar durante cinco horas
diante do monitor, enquanto pesquisava os nomes que estavam na agenda de Sharon,
Eve estava se sentindo mais exausta do que se tivesse corrido uma maratona.
Mesmo com o auxlio de Feeney, que pegou boa parte dos nomes para analisar
com sua percia e um equipamento de qualidade superior, havia ainda muitas pessoas
para um grupo investigativo to pequeno conseguir dar conta em pouco tempo.
Sharon tinha sido uma garota muito popular.
Pressentindo que uma certa dose de discernimento lhe seria mais vantajosa do
que agressividade, Eve contactou os clientes pelo tele-link, se apresentou e explicou a
situao. Aqueles que se recusaram terminantemente  ideia de um interrogatrio
foram cordialmente convidados a comparecer at a Central de Polcia sob a acusao
de obstruo da Justia.
Pelo meio da tarde, ela j falara pessoalmente com os primeiros doze clientes da
lista, e fez um desvio para voltar ao Complexo Gorham.
O vizinho de Sharon, o homem elegante no elevador, era Charles Monroe. Eve o
encontrou em casa, e notou que ele estava recebendo uma cliente.
Muito bonito, usando um robe preto de seda, e com um envolvente aroma de sexo,
Charles sorriu sedutoramente.
- Sinto terrivelmente, tenente, mas a pessoa que estou atendendo estava marcada
para as trs horas, e ainda tem direito a quinze minutos.
- Eu aguardo. - Sem esperar pelo convite, Eve entrou. Ao contrrio do apartamento
de Sharon, aquele ali era discreto, com cadeiras estofadas em couro e tapetes
espessos.
- Ahn... - Obviamente achando aquilo interessante, Charles olhou para trs, onde
uma porta estava discretamente fechada, no final de um curto corredor. - A
privacidade e o sigilo so vitais, como deve compreender, para a minha profisso. A
pessoa que estou recebendo poder se sentir perturbada, caso descubra que a polcia
anda batendo na minha porta.
- Tudo bem. O senhor tem uma cozinha por aqui?
- Claro. - Ele deu um suspiro profundo. - Direto em frente, naquela porta. Sinta-se
em casa. No vou demorar.
- Leve o tempo que precisar. - Eve caminhou em direo  cozinha. Em contraste
com a elaborada sala de estar, aquele era um ambiente espartano. Parecia que
Charles gastava muito pouco tempo comendo em casa. Mesmo assim, tinha uma
unidade de refrigerao imensa em vez de uma pequena frigo-unidade, e foi ali que
ela encontrou o tesouro representado por uma Pepsi quase congelada. Satisfeita por
ora, sentou-se para saborear a bebida enquanto Charles terminava o encontro das
trs horas.
Pouco depois, ouviu o murmrio de vozes, a voz de um homem, a voz de uma
mulher, alguns risos. Logo a seguir, ele entrou na cozinha, com o mesmo sorriso fcil
no rosto.
- Desculpe por faz-la esperar.
- Tudo bem. O senhor est aguardando mais algum?
- No, pelo menos at  noite. - Pegou uma Pepsi para si mesmo, quebrou o lacre
de refrigerao instantnea da lata e a serviu em um copo duplo. Em seguida,
esmagou a lata da bebida, formando uma bola com ela, e a atirou dentro do aparelho
de reciclagem. - Mais tarde tenho um jantar marcado, com pera e um rendez-vous
romntico.
- O senhor gosta disso? pera? - perguntou ela, enquanto ele abria um sorriso.
- Detesto. D para imaginar algo mais chato do que uma mulher gorda e peituda
berrando em alemo por metade da noite?
- No - disse Eve, analisando a pergunta.
- Mas a  que est. Tem gosto para tudo. - Seu sorriso desapareceu quando ele
se juntou a ela no pequeno nicho junto  janela da cozinha. - Ouvi sobre a morte de
Sharon no noticirio da manh. Desde aquele momento, estava esperando por algum
da polcia.  horrvel. No consigo acreditar que ela esteja morta.
- O senhor a conhecia bem?
- Somos vizinhos h mais de trs anos, e ocasionalmente trabalhamos juntos. De
vez em quando, um de nossos clientes pedia um trio, e ns dividamos o negcio.
- E quando no se tratava de negcios, vocs dois continuavam dividindo?
- Ela era uma mulher linda, e me achava atraente. - Ele moveu os ombros cobertos
de seda. Seus olhos se fixaram na janela com vidro fum, observando um bonde
eltrico para turistas que passava. - Se um de ns tinha vontade de fazer por prazer o
que fazia por profisso, o outro geralmente atendia. - Sorriu novamente. - Isso era
raro.  como trabalhar em uma loja de doces. Depois de um tempo, a gente perde a
vontade de comer chocolate. Sharon era uma amiga, tenente. E eu gostava muito
dela.
- Pode me dizer onde voc estava na noite de sua morte, entre meia-noite e trs da
manh?
Suas sobrancelhas se levantaram. Se no lhe havia acabado de ocorrer que ele
poderia ser considerado um suspeito, era um excelente ator. Tambm, pensou Eve,
pessoas que trabalhavam naquele ramo eram obrigadas a ser bons atores.
- Estava com uma cliente, aqui. Ela passou a noite comigo.
- Isso  comum?
- Essa cliente prefere as coisas desse modo, tenente. Vou lhe informar o nome
dela, se for absolutamente necessrio, mas preferia no fazer isso. Pelo menos at
que eu tivesse a chance de explicar as circunstncias a ela.
- Trata-se de um assassinato, Senhor Monroe, portanto , sim, necessrio. A que
horas o senhor trouxe a sua cliente para c?
- Por volta de dez horas. Jantamos no Restaurante Miranda, o caf areo que fica
sobre a Sexta Avenida.
- Dez horas. - Eve concordou, e notou o exato momento em que ele se lembrou.
- Quanto  cmera do elevador... - seu sorriso era todo charme, mais uma vez. - 
uma lei antiquada. Suponho que a senhorita poderia me enquadrar, mas acho que no
valeria o tempo perdido.
- Qualquer ato sexual em uma rea vigiada  uma contraveno, Senhor Monroe.
- Por favor, me chame de Charles.
-  uma falta pequena, Charles, mas eles poderiam suspender a sua licena por
seis meses. Agora, me informe o nome da cliente, e vamos esclarecer tudo da forma
mais discreta possvel.
- A senhorita vai me fazer perder uma das minhas melhores clientes - disse ele,
baixinho. - O nome dela  Darleen Howe. Vou lhe trazer o endereo. - Levantou-se
para pegar a agenda eletrnica e deu a informao.
- Obrigada. Sharon conversava com voc a respeito dos clientes dela?
- Ns ramos amigos - disse ele, com ar cansado. - Sim, ns falvamos a respeito
dos clientes, embora isso no seja estritamente tico. Sharon tinha algumas histrias
muito engraadas. Eu fao um estilo mais convencional. Ela era... aberta ao que era
diferente. Algumas vezes ns saamos juntos para tomar um drinque, e ela falava.
Sem citar nomes. Sempre se referia aos clientes usando termos especficos. O
imperador, o fuinha, a leiteira, esse tipo de coisas.
- Havia algum que ela tenha mencionado que a deixava preocupada, ou a fazia se
sentir desconfortvel? Algum que poderia se tornar violento?
- Ela no se importava com violncia, mas... no, ningum a preocupava com
relao a isso. Uma coisa que era bem tpica de Sharon, tenente,  que ela sempre se
sentia no controle da situao. Era assim que ela queria, segundo me disse uma vez,
porque havia estado sob o controle de outra pessoa durante a maior parte de sua vida.
Tinha um bocado de amarguras com relao  famlia. Certa vez ela me contou que
jamais planejara transformar o sexo em uma carreira profissional. S entrou no ramo
para deixar a famlia louca. Ento, depois que entrou no negcio, decidiu que gostava
da coisa.
Ele movimentou os ombros novamente, tomou um pouco do lquido que estava no
copo e continuou:
- Foi assim que ela continuou nessa vida, e matou dois coelhos com uma trepada.
A frase  dela. - Charles levantou os olhos de novo. - Parece que uma dessas
trepadas a matou.
- Sim. - Eve se levantou e guardou o gravador. - No faa viagens muito longas,
Charles. Vou manter contato.
-  s isso?
- No momento, sim.
Ele se levantou tambm e sorriu mais uma vez.
- A senhorita  uma pessoa muito fcil para se conversar; para uma mulher que 
tira... Eve. - Como que para experiment-la, passou a ponta de um dos dedos pelo
brao dela. Ao ver que suas sobrancelhas se levantaram, fez o dedo circundar-lhe o
maxilar. Est com pressa?
- Por qu?
- Bem,  que eu tenho algumas horas livres, e voc  muito atraente. Tem imensos
olhos dourados - murmurou. - Essa covinha bem no meio do queixo. Por que ns dois
no fazemos um intervalo em nosso expediente, por algum tempo?
Ela aguardou enquanto ele se aproximava e abaixava a cabea em sua direo,
com os lbios um pouco acima dos dela.
- Isto  um suborno, Charles? Porque se for, e se voc for to bom quanto eu
imagino que seja...
- Sou melhor. - Roou o lbio superior dela com os dele, e fez a mo descer em
direo ao seu seio. - Sou muito melhor.
- Nesse caso eu vou ter que prender voc por crime doloso. Ela sorriu quando o viu
dar um pulo para trs. - Isso  algo que faria ns dois ficarmos muito tristes. - Com ar
de quem estava se divertindo com aquilo, Eve deu um tapinha na bochecha dele.
Mesmo assim, obrigada pela ideia.
Ele coou o queixo enquanto a acompanhava at a porta.
- Eve?
- Sim! - Ela parou, j com a mo na maaneta, olhando de volta para ele.
- Subornos  parte; se voc mudar de ideia, estou interessado em conhec-la
melhor.
- Se eu mudar de ideia, pode deixar que eu o aviso. - Bateu a porta e seguiu para o
elevador.
No seria muito difcil para Charles Monroe - analisou escapulir do apartamento,
deixando a cliente dormindo, e entrar no apartamento de Sharon. Um pouco de sexo,
e depois um pouco de assassinato...
Pensativa, entrou no elevador.
Acesso aos discos de segurana. Como morador do edifcio, seria fcil para
Charles conseguir acesso  rea de segurana. Depois, pularia na cama de volta,
para junto da cliente.
Era realmente uma pena que a possibilidade fosse to plausvel, pensou Eve ao
chegar ao saguo. Ela gostara dele. Mas at que conseguisse averiguar o libi que
apresentara, com todo o cuidado, Charles Monroe estava agora no topo da sua
pequena lista.
CAPTULO TRS
Eve odiava funerais. Detestava a cerimnia que os seres humanos insistiam em
oferecer  morte. As flores, a msica, os discursos que no acabavam nunca e o
choro.
Era possvel que existisse um Deus. Ela ainda no havia trabalhado
completamente esta ideia na cabea. E se existia, pensou, Ele deveria estar se
divertindo muito, dando boas risadas por causa dos rituais e passagens inteis
inventados por suas criaturas.
Ainda assim, fizera a viagem at a Virgnia para assistir ao funeral de Sharon
DeBlass. Queria ver a famlia da vtima e seus amigos todos reunidos, para observar,
analisar e julgar.
O senador permaneceu com o semblante sombrio e os olhos secos, com
Rockman,  sua sombra, na fileira de trs. Ao lado do senador estavam seu filho e sua
nora.
Os pais de Sharon eram jovens, atraentes, advogados de sucesso que tinham sua
prpria firma de advocacia.
Richard DeBlass permaneceu com a cabea curvada e os olhos fechados, uma
verso mais arrumada e, de certo modo, menos dinmica do pai. Seria coincidncia
ou senso esttico o motivo de ele estar posicionado exatamente  mesma distncia do
pai e da mulher?
Elizabeth Barrister estava discreta e elegante em seu vestido escuro, com o cabelo
cor de mogno balanando, brilhante, e a postura rgida. E, Eve notou, os olhos
inchados, com lgrimas que nadavam constantemente.
Como  que uma me se sentia, meditou Eve, como fizera por toda a vida, quando
perdia uma filha?
O Senador DeBlass tinha uma filha, tambm, e ela estava posicionada no seu lado
direito. A Deputada Catherine DeBlass tinha seguido os mesmos passos do pai na
poltica. Dolorosamente magra, ela se mantinha militarmente ereta, com os braos
parecendo gravetos quebradios que saam do vestido preto. Ao lado dela o seu
marido, Justin Summit, olhava fixamente para o caixo luxuoso, drapeado e cheio de
rosas, na frente do altar. Ao seu lado o filho Franklin, ainda preso no estgio
desengonado da adolescncia, se mexia com impacincia.
Na ponta do banco, de certo modo separada do resto da famlia, estava a mulher
do Senador DeBlass, Anna.
Ela no se mexia nem chorava. Nem por uma vez Eve a viu lanar um olhar sequer
para o caixo transbordante de flores que protegia o que restara de sua nica neta.
Havia outros,  claro. Os pais de Elizabeth estavam juntos, de mos dadas, e
choravam abertamente. Primos, conhecidos e amigos enxugavam os olhos ou
simplesmente ficavam olhando em torno com fascinao e horror. O presidente
enviara um representante, e a igreja estava lotada, com mais polticos do que o
Senado na hora do almoo.
Embora houvesse mais de mil rostos, Eve no teve dificuldade em avistar Roarke
no meio da multido. Estava sozinho. Havia outras pessoas alinhadas no mesmo
banco onde ele estava, mas Eve reconhecia a aura de solido que o rodeava. Poderia
haver dez mil pessoas no lugar, que mesmo assim ele teria se destacado delas.
Seu rosto marcante no deixava transparecer nada: nenhuma culpa, nem pesar,
ou interesse. Era como se ele estivesse assistindo a uma pea teatral com poucas
qualidades. Eve no conseguia pensar em melhor descrio para um funeral.
Mais de uma vez as cabeas se voltavam na direo dele, para uma olhada rpida
ou, no caso de alguma morena atraente, um flerte no to sutil. Roarke respondia, nos
dois casos, da mesma forma: ignorando-os.
Em uma primeira avaliao, ela o teria julgado frio, uma fortaleza gelada em forma
de homem que se guardava contra tudo e contra todos. Mas ali devia haver calor. Era
preciso mais do que disciplina e inteligncia para subir to alto na vida, e to jovem.
Era preciso ambio, e, na opinio de Eve, a ambio era um combustvel
poderosssimo.
Ele olhava diretamente para a frente enquanto as lamentaes aumentavam de
intensidade e ento, sem aviso, virou a cabea, olhou cinco fileiras para trs, para o
outro lado do corredor entre os bancos, e fitou com firmeza, de forma direta, os olhos
de Eve.
Foi a surpresa que a fez lutar para no dar um pulo diante da sbita e inesperada
prova de poder. Foi pura fora de vontade o que a fez manter os olhos abertos sem
piscar nem desviar a cabea. Por um interminvel minuto, eles ficaram olhando um
para o outro. Ento houve movimento, e pessoas enlutadas se interpuseram entre
eles, enquanto saam da igreja.
Quando Eve saiu da fileira em que estava e chegou ao corredor central para
procur-lo de novo, ele j desaparecera.
Ela se juntou  longa fila de carros e limusines a caminho do cemitrio. Adiante, o
atade e os veculos da famlia passavam solenemente. Apenas as famlias
obsessivamente tradicionais ainda sepultavam seus mortos na terra.
Franzindo as sobrancelhas, seus dedos tamborilaram o volante, e Eve comeou a
relatar suas observaes para o gravador. Quando chegou a Roarke, hesitou, e sua
testa se franziu um pouco mais.
- Por que motivo ele se daria ao trabalho de vir pessoalmente ao funeral de algum
que conhecia apenas de vista? - murmurou ela, falando para o gravador que estava
em seu bolso. - De acordo com os dados coletados, eles s haviam se conhecido
recentemente, e tiveram apenas um encontro. Tal comportamento parece
inconsistente e questionvel.
Sentiu um tremor, e ficou feliz por estar sozinha enquanto dirigia atravs dos
portes em forma de arco do cemitrio. No que dizia respeito a Eve, deveria haver
uma lei que proibisse colocar algum dentro de um buraco.
Mais palavras, mais choradeira, mais flores. O sol estava brilhando como nunca,
mas o ar tinha um aspecto de criana levada. Prximo do tmulo, ela colocou as mos
nos bolsos. Havia esquecido de levar as luvas, novamente. O casaco comprido e
escuro que estava usando era emprestado. Por baixo dele, o nico terninho cinza que
ela possua estava com um boto soltando que parecia suplicar desesperadamente
para ser pregado. Dentro das botas de couro fino, seus dedos pareciam pequenas
pedras de gelo.
O desconforto a ajudou a se distrair do sofrimento das lpides e do cheiro de terra
fresca, recm-revolvida. Esperou algum tempo, aguardando at que a ltima palavra
de pesar sobre a vida eterna ecoasse para longe, e s ento se aproximou do
senador.
- Meus sentimentos, Senador DeBlass, para o senhor e toda a sua famlia.
Os olhos dele estavam duros, penetrantes e pretos, como a ponta talhada de uma
pedra.
- Economize seus psames, tenente. Eu quero justia.
- Eu tambm. Senhora DeBlass. - Eve estendeu a mo para a mulher do senador e
lhe pareceu que estava cumprimentando um feixe de gravetos frgeis.
- Obrigada por comparecer.
Eve balanou a cabea para a frente. Uma olhada mais de perto lhe mostrou que
Anna Deblass estava deslizando sob a borda das emoes devido a uma camada
protetora de tranquilizantes. Seus olhos passaram por sobre o rosto de Eve e foram
pousar exatamente por cima de seu ombro, ao mesmo tempo que recolhia a mo.
- Obrigada por comparecer - repetiu ela, exatamente no mesmo tom sem vida,
diante da oferta seguinte de condolncias.
Antes que Eve pudesse falar novamente, seu brao foi puxado por uma mo firme.
Rockman sorria solenemente olhando para baixo, na direo dela.
- Tenente Dalas, o senador e sua famlia apreciam a compaixo e o interesse que
a senhorita mostrou ao comparecer aos servios. - Com a sua maneira quieta, ele a foi
levando para longe do grupo. - Estou certo de que a senhorita conseguir
compreender que, diante das circunstncias, seria muito penoso para os pais de
Sharon se eles encontrassem a policial encarregada da investigao do assassinato
da filha na beira de seu tmulo.
Eve deixou que ele a carregasse por mais dois metros antes de puxar o brao com
fora para liber-lo.
- Voc est no ramo certo, Rockman. Esta  uma maneira muito delicada e
diplomtica de me mandar cair fora daqui.
- De modo algum. - Ele continuava a sorrir, quase escorregadio de to educado. -
Simplesmente, h um tempo e um lugar certo para tudo. A senhorita ter a nossa
completa cooperao, tenente. Se desejar marcar um encontro com a famlia do
senador, ficarei mais do que feliz em conseguir isso.
- Eu consigo meus prprios encontros, na hora e lugar que desejar. - E, pelo fato
de que o sorriso plcido dele a deixava profundamente irritada, decidiu ver se
conseguia arranc-lo do seu rosto. - E quanto a voc, Rockman? Tem algum libi para
a noite em questo?
O sorriso falhou, e isso lhe trouxe satisfao. Ele, porm, o recuperou com rapidez.
- Tenente, eu no gosto da palavra libi.
- Eu tambm no. - Eve retornou para ele um sorriso prprio. -  por causa disso
que, para mim, no existe nada melhor do que desmontar um libi. Voc no
respondeu  minha pergunta, Rockman.
- Estava na parte leste de Washington na noite em que Sharon foi assassinada. O
senador e eu tnhamos trabalhado at tarde, repassando um projeto de lei que ele
pretende apresentar no Senado no ms que vem.
-  uma viagem bem rpida de Washington para Nova York,
- comentou ela.
- Realmente. Entretanto, no fiz essa viagem naquela noite em particular.
Estivemos trabalhando at quase meia-noite, e depois eu me retirei para o quarto de
hspedes do senador. Tomamos caf juntos, s sete horas da manh seguinte. Como
Sharon, de acordo com o seu relatrio, foi morta s duas horas, isso me d uma janela
de tempo muito estreita.
- Janelas estreitas tambm do passagem. - Mas ela disse isso apenas para irritlo,
e se virou. Ela no colocara as informaes sobre os discos de segurana
adulterados no relatrio que entregara a DeBlass. O assassino tinha estado no
Complexo Gorham  meianoite. Rockman dificilmente usaria o av da vtima como
libi, a no ser que fosse verdade. O fato de que Rockman estava trabalhando em
Washington  meia-noite fechava at mesmo aquela janela estreita.
Eve avistou Roarke novamente, e observou com interesse quando Elizabeth
Barrister se agarrou a ele, e ele inclinou a cabea para sussurrar-lhe algo ao ouvido.
Aquela no era uma troca de condolncias e agradecimentos entre estranhos, Eve
decidiu.
Sua sobrancelha se elevou ao ver que Roarke colocou a mo no rosto de Elizabeth
e a beijou antes de dar um passo para trs e falar em sussurros com Richard DeBlass.
A seguir, se dirigiu ao senador, mas no houve contato entre eles, e a conversa foi
breve. Sozinho, como Eve havia suspeitado, Roarke comeou a caminhar pela grama
ressecada, por entre os frios monumentos que os vivos erigiam para os mortos.
- Roarke.
Ele parou, e da mesma forma que fizera durante o servio, se virou e a encarou
com firmeza. Eve pensou ter visto um lampejo de alguma coisa em seu olhar: raiva,
pesar, impacincia. Ento tudo passou e eles estavam simplesmente frios, azuis e
impenetrveis.
Ela no demonstrou pressa ao caminhar em sua direo. Algo lhe dizia que ele era
um homem muito acostumado a ter as pessoas, ou pelo menos as mulheres,
certamente, correndo para ele. Assim, continuou andando bem devagar, com passos
largos, lentos, e as pernas geladas batendo contra as pontas do casaco emprestado.
- Gostaria de falar com o senhor - disse ela quando chegou junto dele. Pegou o
distintivo e o viu dar uma rpida olhada nele antes de tornar a levantar os olhos para
ela. - Estou investigando o assassinato de Sharon DeBlass.
- A senhorita tem o hbito de participar do funeral das vtimas de assassinato,
Tenente Dalas?
A voz dele era suave, com um distante e charmoso sotaque da Irlanda, como
creme batido acompanhado de usque.
- E o senhor tem o hbito de participar de funerais de mulheres que mal conhecia,
Senhor Roarke?
- Sou amigo da famlia - disse ele, simplesmente. - A senhorita est congelando,
tenente.
Ela enfiou os dedos enregelados dentro dos bolsos do casaco.
- E qual a sua proximidade com a famlia da vtima?
- Somos bem prximos. - Ele olhou para ela, com a cabea para o lado. Em menos
de um minuto, pensou, os dentes dela iriam comear a tremer. O vento cruel estava
soprando o cabelo com um corte pobre e espalhando-o em torno de um rosto muito
interessante. Inteligente, teimoso, sexy. Trs boas razes, na opinio dele, para olhar
mais de uma vez para uma mulher. - No seria mais conveniente se fssemos
conversar em algum lugar mais quente?
- No tenho conseguido entrar em contato com o senhor comeou ela.
- Ando viajando. Agora me encontrou. Suponho que esteja para retornar a Nova
York ainda hoje, tenente.
- Sim. Mas ainda tenho alguns minutos antes de ir para o aeroporto. Sendo assim...
- Sendo assim, podemos voltar juntos. Isso vai lhe dar bastante tempo para me
interrogar.
- Pedir informaes - replicou ela entre dentes, aborrecida ao v-lo se virar e se
afastar dela. Apertou o passo para alcan-lo.
- Apenas algumas perguntas agora, Roarke, e poderemos marcar um encontro
mais formal em Nova York.
- Detesto perder tempo - disse ele, com naturalidade. Voc me parece ser uma
pessoa que pensa da mesma forma. Est com um carro alugado?
- Sim.
- Vou providenciar para que algum o devolva para a senhorita. - Ele estendeu a
mo, pedindo as chaves do carro.
- No  preciso.
-  mais simples. Gosto de complicaes, tenente, mas tambm gosto de
simplicidade. A senhorita e eu estamos indo para o mesmo destino, aproximadamente
na mesma hora. Est querendo conversar comigo, e eu estou disposto a colaborar. -
Parou ao lado de uma limusine preta onde um motorista uniformizado estava  espera,
segurando a porta traseira aberta. - O meu avio particular vai para Nova York. A
senhorita pode,  claro, me acompanhar at o aeroporto, pegar um transporte pblico
e depois se comunicar com o meu escritrio para marcar um encontro. Ou podemos ir
juntos no carro at o aeroporto, e depois aproveitamos a privacidade do meu jato. A
senhorita ter toda a minha ateno durante a viagem.
Eve hesitou apenas por um momento, e ento pegou a chave do carro alugado no
bolso e a entregou na mo de Roarke. Sorrindo, ele esticou o brao para que ela
entrasse na limusine, onde ela se acomodou enquanto ele dava instrues ao
motorista sobre como proceder com relao  devoluo do carro  locadora.
- Muito bem, ento. - Roarke se instalou ao lado dela, e pegou uma garrafa. - Quer
um pouco de conhaque para combater o frio?
- No. - Eve comeou a sentir o calor do carro envolver-lhe os ps e ficou temerosa
de comear a tremer como reao a isso.
- Ah, sei... a senhorita est de servio. Caf, talvez.
- Seria timo.
- Com creme? - Ouro rebrilhou em seu pulso quando ele apertou o boto de
opes para dois cafs, no AutoChef embutido no painel lateral.
- No, creme no. Puro.
- Ah, uma mulher do meu feitio. - Momentos depois, abriu a porta de um pequeno
armrio e lhe entregou uma xcara de porcelana colocada sobre um pires delicado. -
No avio teremos outras opes - explicou ele, e ento se recostou, segurando o caf.
- Aposto que sim. - O aroma que vinha no vapor do caf tinha o perfume do
paraso. Eve experimentou a bebida e quase gemeu de prazer.
Aquilo era caf de verdade. No era uma simulao feita com concentrado vegetal
aromtico, to comum depois da destruio das florestas tropicais, no sculo passado.
Aquilo era o produto real, torrado e modo a partir de deliciosos gros colombianos,
onde a cafena cantava.
Ela tomou mais um gole e quase chorou.
- Algum problema? - Ele gostou imensamente da reao dela, do tremular das
pestanas, do rubor discreto e da sombra de prazer que viu em seus olhos, uma
resposta muito similar, notou,  de uma mulher ronronando sob o comando das mos
de um homem.
- Voc sabe h quanto tempo eu no sei o que  tomar caf de verdade?
- No. - Ele sorriu.
- Nem eu. - J sem sentir vergonha, ela fechou os olhos enquanto levantava a
xcara mais uma vez. - Voc vai ter que me desculpar. Este  um momento ntimo.
Deixaremos para conversar no avio.
- Como quiser.
Roarke ofereceu a si mesmo o prazer de observ-la enquanto o carro deslizava
suavemente sobre a estrada.
Estranho, pensou, ele no imaginava que ela fosse uma policial. Seus instintos
eram geralmente muito apurados quando se tratava dessas coisas. No funeral,
estivera pensando apenas que era um terrvel desperdcio algum to jovem, tola e
cheia de vida como Sharon estar morta.
Ento sentiu algo, alguma coisa que envolveu seus msculos, e lhe apertou a
barriga. Sentira o olhar dela, to fsico como se fosse um golpe. Ao virar os olhos e vla,
sentiu outro golpe. Um golpe duplo em cmera lenta do qual ele no conseguira se
esquivar.
Era fascinante.
Mas o sinal de alarme no disparou. Pelo menos no o sinal de alarme que teria
indicado tira. O que ele viu foi uma morena alta, de porte esbelto, com cabelos curtos
em desalinho, olhos da cor de favos de mel e uma boca moldada para o sexo.
Se ela no o tivesse procurado, ele estava com a inteno de procur-la.
Era realmente uma pena que ela fosse uma policial.
Eve no falou novamente at o momento em que eles chegaram ao aeroporto e
entraram na cabine do JetStar 6000 de Roarke.
Ela detestava se mostrar impressionada, mais uma vez. Caf era uma coisa, e
pequenas fraquezas eram aceitveis, mas ela acabou no se importando por exibir a
clssica reao dos olhos esbugalhados ao ver o luxo da cabine, com suas poltronas
profundas, sofs, o carpete antigo e os jarros de cristal cheios de flores.
Havia uma tela com imagens, embutida na parede do fundo, e uma comissria de
voo uniformizada, que no demonstrou surpresa alguma ao ver Roarke embarcar em
companhia de uma desconhecida.
- Conhaque, senhor?
- Minha acompanhante prefere caf, Diana, puro. - Ele levantou a sobrancelha at
que Eve concordou. - Para mim, um conhaque.
- J ouvi falar do JetStar - comentou Eve enquanto tirava o casaco e era
encaminhada para a frente, junto com Roarke, pela comissria. -  um belo meio de
transporte.
- Obrigado. Levamos dois anos projetando este modelo.
- As Indstrias Roarke? - perguntou ela, enquanto se sentava.
- Exato. Prefiro usar meus prprios produtos, sempre que possvel. A senhorita
precisa apertar o cinto para a decolagem avisou ele, e ento se inclinou para ligar um
intercomunicador. Estamos prontos.
- Acabamos de ser liberados - uma voz avisou. - Trinta segundos.
Antes mesmo de Eve piscar, eles j estavam no ar, em uma decolagem to suave
que ela quase no sentiu a acelerao. Aquilo batia de longe qualquer avio comercial
daqueles que deixavam o corpo colado no encosto durante os primeiros cinco minutos
de voo.
A comissria serviu drinques e um pequeno prato de frutas e queijo, que deixaram
Eve com gua na boca. Era hora, decidiu, de passar ao trabalho.
- H quanto tempo o senhor conhecia Sharon DeBlass?
- Fui apresentado a ela recentemente, na casa de um conhecido comum.
- O senhor disse que era amigo da famlia.
- Amigo dos pais dela - explicou Roarke, com descontrao.
- Conheo Beth e Richard h vrios anos. De incio, em um nvel de negcios, e
mais tarde em um nvel pessoal. Sharon estava estudando, depois foi para a Europa,
e nossos caminhos jamais se cruzaram. Encontrei-a pela primeira vez h poucos dias,
e a levei para jantar. Logo depois, ela morreu. - Pegou uma estreita cigarreira de ouro
no bolso interno do palet. Os olhos de Eve se apertaram ao v-lo acender um cigarro.
- Tabaco  ilegal, Senhor Roarke.
- No no espao areo, guas internacionais ou propriedade privada. - Ele sorriu
para ela atravs de uma bruma esfumaada.
- Voc no acha, tenente, que a polcia j tem suficientes problemas para resolver
sem ter que ficar tentando legislar a moral e o nosso estilo de vida pessoal?
-  por causa disso que voc coleciona armas de fogo? - Eve detestava admitir,
mas o aroma do tabaco era envolvente. -  parte do seu estilo de vida?
- Eu as acho fascinantes. O seu av e o meu consideravam o porte de arma um
direito constitucional. Brincamos muito com direitos constitucionais, enquanto amos
nos tornando civilizados.
- E assassinar ou ferir algum com esse tipo particular de arma agora  uma
aberrao em vez da regra normal.
- Voc gosta de regras, tenente?
A pergunta era leve, como o insulto por trs dela. Os ombros de Eve ficaram
rgidos.
- Sem regras, temos o caos.
- E do caos, surge a vida.
Dane-se a filosofia, pensou ela, perturbada.
- Senhor Roarke, o senhor possui um revlver Smith & Wesson, calibre trinta e
oito, modelo Dez, fabricado em torno de 1990?
Ele deu mais uma tragada lenta, considerando a pergunta. O tabaco queimava
rpido e dispendioso, entre seus dedos longos e elegantes.
- Acredito que possuo um modelo desses, sim. Foi a arma que a matou?
- Estaria disposto a exibi-la para mim?
- Claro, quando a senhorita quiser.
Fcil demais, ela pensou. Eve suspeitava de qualquer coisa que fosse fcil demais.
- O senhor jantou com a vtima na noite anterior  da morte dela. No Mxico.
- Isso mesmo. - Roarke apagou o cigarro e se recostou, segurando o conhaque. -
Possuo uma pequena villa na costa oeste. Imaginei que ela fosse apreciar. E ela
gostou.
- Houve algum relacionamento fsico com Sharon DeBlass? Os olhos dele
cintilaram por um momento, mas, se era um brilho de satisfao ou de raiva, ela no
tinha certeza.
- Com isso, imagino que queira saber se eu fiz sexo com ela. No, tenente, embora
isso me parea irrelevante. Apenas jantamos.
- O senhor levou uma mulher linda, uma acompanhante profissional,  sua villa no
Mxico, e tudo o que aproveitou do passeio com ela foi um jantar?
Roarke levou algum tempo antes de responder, enquanto escolhia uma uva verde
e brilhante.
- Aprecio mulheres lindas por uma variedade de motivos, e gosto muito de passar
algum tempo com elas. Porm, no contrato servio de profissionais por dois motivos.
Primeiro, no acho que seja necessrio pagar para ter sexo. - Ele tomou um gole do
conhaque, observando-a por sobre a borda do clice. - Em segundo lugar, prefiro no
compartilh-lo. - Ele fez uma pausa rpida. E quanto  senhorita?
- No estamos aqui falando de mim. - O estmago dela se agitou, mas isso foi
ignorado.
- Pois eu estou. Voc  uma mulher maravilhosa, e estamos sozinhos aqui, e
ficaremos assim por pelo menos mais quinze minutos. No entanto, tudo o que
aproveitamos at agora foi caf e conhaque. - Ele sorriu ao notar a raiva que
transparecia no olhar dela.
- No  herico, de minha parte, este autocontrole que possuo?
- Eu ento diria que seu relacionamento com Sharon DeBlass tinha uma conotao
diferente.
- Bem, com isso eu certamente concordo. - Escolheu outra uva e ofereceu a ela.
Apetite exagerado era uma fraqueza, Eve se forou a lembrar enquanto aceitava a
uva e dava uma mordida na pele fina e cida.
- O senhor tornou a v-la depois do jantar no Mxico?
- No. Deixei-a em casa mais ou menos s trs da manh e fui embora. Sozinho.
- Consegue me informar seu paradeiro nas quarenta e oito horas seguintes, aps
ter ido embora... sozinho?
- Estive na cama nas primeiras cinco horas desse perodo. Depois participei de
uma teleconferncia enquanto tomava caf, por volta de oito e quinze. Pode confirmar
os registros.
- Eu vou confirmar.
Desta vez ele sorriu, com um rpido claro de charme em estado puro que fez a
pulsao dela acelerar.
- No tenho dvidas quanto a isso. Sabe, Tenente Dalas, voc me deixa fascinado.
- E depois da teleconferncia?
- Ela acabou por volta de nove horas. Trabalhei at as dez, e passei as horas
seguintes no meu escritrio do centro da cidade, atendendo a vrios compromissos. -
Ele pegou um pequeno e fino carto que ela reconheceu como uma agenda diria. -
Quer que eu descreva a minha agenda?
- Preferia que o senhor enviasse uma cpia em papel para a minha sala.
- Vou providenciar. Voltei para casa s sete. Jantei com diversos representantes de
minha fbrica no Japo, em minha casa. O jantar foi s oito. Quer que eu lhe mande
uma cpia em papel com o menu?
- No seja cretino, Roarke.
- Apenas meticuloso, tenente. Acabamos cedo. s onze da noite eu j estava
sozinho, acompanhado por um livro e um conhaque, at aproximadamente as sete da
manh, quando tomei minha primeira xcara de caf. E voc, aceita outra xcara?
Ela estava doida para tomar mais uma xcara de caf, mas balanou a cabea.
- Ficou sozinho por oito horas, Roarke. Falou com algum, ou esteve com algum
durante esse tempo?
- No. Ningum. Como tinha que estar em Paris no dia seguinte, quis ter uma noite
sossegada. Calculei mal o tempo. Por outro lado, se fosse assassinar uma pessoa,
seria algum muito descuidado para me deixar desprotegido, sem um libi.
- Ou muito arrogante para se incomodar com isso - retrucou ela. - Voc apenas
coleciona armas antigas, Roarke, ou as usa?
- Tenho excelente pontaria. - Colocou o clice para o lado. - Ficarei feliz de lhe
demonstrar isso, quando vier conhecer a minha coleo. Amanh est bem, para
voc?
- Est.
- Sete horas? Imagino que j saiba o endereo. - Quando ele se inclinou, ela ficou
rgida e quase sibilou quando o brao dele esbarrou no dela. Ele simplesmente sorriu,
com o rosto junto do dela e os olhos no mesmo nvel. - Voc vai ter que apertar o cinto
- disse, com calma. - Vamos aterrissar.
Ela apertou o fecho, sozinha, querendo descobrir se ele a deixava nervosa como
homem ou como suspeito de assassinato, ou como uma combinao de ambos.
Naquele momento, qualquer uma das opes tinha um interesse prprio, alm das
suas prprias possibilidades.
- Eve - murmurou ele. - Que nome mais feminino e simples. Fico imaginando se
combina com voc.
Ela no disse nada, enquanto a comissria voltava para recolher os pratos.
- Voc alguma vez esteve no apartamento de Sharon DeBlass, Roarke?
Ela era durona, ele avaliou, embora tivesse certeza de que havia algo macio e
quente por baixo daquilo. Ficou pensando se, ou melhor, quando ele teria a
oportunidade de descobrir.
- Jamais estive l durante o tempo em que ela foi inquilina disse Roarke enquanto
se recostava novamente. - E creio que tambm nunca estive antes disso, no que eu
me lembre, embora seja, certamente, possvel que eu tenha estado. - Sorriu mais uma
vez e apertou o prprio cinto. - Sou o dono do Complexo Gorham, como estou certo
de que j  do seu conhecimento. - Distraidamente, olhou pela janela enquanto o solo
parecia crescer sob eles. Voc consegue transporte no aeroporto, tenente, ou aceita
uma carona?
CAPTULO QUATRO
Eve estava se sentindo mais do que exausta quando acabou de preparar o
relatrio para Whitney e voltou para casa. Estava furiosa. Queria muito ter conseguido
pegar Roarke de surpresa com o trunfo de j saber que ele era o dono do Gorham. O
fato de ter sido ele a comentar isso com aquele tom cuidadosamente educado que
usara para lhe oferecer caf tinha feito a primeira entrevista entre eles terminar com
vantagem para ele.
Ela no gostou do placar.
Estava na hora de empatar o jogo. Sozinha na sala de estar, e tecnicamente fora
do horrio de servio, ela se sentou diante do computador.
- Conexo para Dalas, acesso a Cdigo Cinco, senha 53478Q. Abrir o arquivo
DeBlass.
Pesquisa de voz e senha reconhecidas, Dalas. Pode prosseguir.
- Abra o subarquivo Roarke. Suspeito Roarke, conhecido da vtima. De acordo com
a fonte C, Sebastian, a vtima alimentava desejos pelo suspeito. O suspeito atingia as
suas exigncias para parceiro sexual. Possibilidade de envolvimento emocional
elevada.
Oportunidade para cometer o crime - continuou. - O suspeito  proprietrio do
prdio onde fica o apartamento da vtima, o que lhe fornece acesso e provavelmente
conhecimento da estrutura de segurana no local do crime. O suspeito no apresentou
libi para um perodo de oito horas na noite do assassinato, perodo que inclui o
intervalo de tempo necessrio para apagar os discos com as imagens da segurana.
O suspeito possui uma grande coleo de armas antigas, incluindo a que foi utilizada
para matar a vtima. O suspeito admite ser um exmio atirador.
Fatores da personalidade do suspeito - disse em seguida. Ele  altivo, arredio,
confiante, auto-indulgente e muito inteligente. Possui um interessante equilbrio entre
agressividade e charme.
Motivo...
E aqui, ela esbarrou em um problema. Com ar calculista, levantou-se e deu uma
volta pela sala enquanto o computador aguardava por mais dados. Por que motivo um
homem como Roarke mataria algum? Por lucro, em um ato passional? Ela achava
que no. Riqueza e status ele conseguiria obter por outros meios. Mulheres, para sexo
ou o que quer que fosse, tambm poderia conseguir sem esforo. Eve suspeitava que
ele fosse capaz de atos violentos, e que os executaria de modo frio.
O assassinato de Sharon DeBlass tinha sido carregado de sexo. Havia uma
camada de crueldade em torno dele. Eve no conseguia associar isso com o homem
elegante com quem compartilhara o caf.
Talvez estivesse a a questo.
- O suspeito considera a moralidade uma questo mais pessoal do que legislativa -
ela continuou, ainda caminhando pela sala. - Sexo, restrio ao porte de armas,
drogas, restries ao uso de tabaco e bebidas, assassinato, tudo isso tem a ver com
posturas morais que foram consideradas criminais ou regulamentadas. O assassinato
de uma acompanhante licenciada, filha nica de amigos, nica neta de um dos mais
conservadores e atuantes legisladores do pas, um assassinato cometido por uma
arma banida da sociedade. Ser isso um exemplo elaborado das falhas que o suspeito
considera inerentes ao sistema legal estabelecido?
Motivo - ela concluiu, acomodando-se na cadeira novamente. - Auto-indulgncia. -
Deu um profundo e satisfeito suspiro.
- Favor computar a probabilidade.
O sistema fez um rudo agudo, de algo girando velozmente, fazendo-a lembrar que
aquela era uma das coisas em sua casa que precisavam de reposio. Finalmente, o
rudo se transformou em um zumbido estremecido.
Probabilidade de Roarke ser o autor do crime, considerando os dados e as suposies
apresentados: 82,6%.
Ora, ento era possvel, pensou Eve, recostando-se na cadeira. Houve um tempo,
em um passado nem to distante, em que uma criana poderia ser alvejada por outra
criana com uma arma de fogo por causa dos tnis novos.
O que era isso, seno uma forma obscena de auto-indulgncia?
Ele teve a oportunidade. Tinha os meios. E, se sua arrogncia era para ser levada
em considerao, tinha o motivo.
Ento por que razo, meditou Eve enquanto observava as prprias palavras
piscando no monitor e estudava a anlise impessoal do computador, ela no estava
conseguindo fazer toda aquela histria funcionar dentro da sua cabea?
Simplesmente no conseguia ver o fato acontecer, admitiu. No conseguia
visualizar Roarke em p, atrs da cmera, apontando a arma para a mulher indefesa,
nua, sorridente, e cravando uma bala dentro dela, talvez poucos momentos depois de
ter colocado a si prprio dentro dela.
Mesmo assim, certas coisas no podiam ser desprezadas. Se ela conseguisse
reunir fatos em nmero suficiente, poderia conseguir uma permisso para promover
uma avaliao psiquitrica dele.
No seria interessante?, pensou, quase sorrindo. Viajar por dentro da cabea de
Roarke seria uma jornada fascinante.
Ela daria o prximo passo s sete horas da noite seguinte.
A campainha da porta trouxe um franzir de aborrecimento aos seus olhos.
- Arquivar e desligar por comando de voz, Dalas. Cdigo Cinco. Desconectar.
O monitor apagou com um blip curto enquanto ela se levantava para ver quem
viera interromp-la. Uma olhada na tela de segurana apagou seu aborrecimento.
- Oi, Mavis.
- Voc se esqueceu, no foi? - Mavis Freestone irrompeu no apartamento,
envolvida por um emaranhado de braceletes e uma nuvem de perfume. Seus cabelos
estavam com um tom brilhante de prata naquela noite, um tom que certamente iria se
modificar conforme o seu estado de esprito. Ela os atirou para trs, e os fios brilharam
como estrelas pelas costas abaixo, at a altura da sua cintura, inacreditavelmente
estreita.
- No, no esqueci. - Eve fechou a porta e colocou todas as trancas. - Esqueci o
qu mesmo?
- Jantar, danar, badalar. - Com um suspiro pesado, Mavis atirou seus quarenta e
cinco quilos cobertos por uma roupa colante sobre o sof, e olhou com desdm para o
tailleur cinza de Eve. Voc no pode sair vestida com isso.
Sentindo-se pobre e apagada, como era comum se sentir quando Mavis estava por
perto, Eve olhou para a prpria roupa, concordando.
- No, acho que no posso.
- Ento - Mavis esticou um dos dedos pintados com esmalte cor de esmeralda -,
voc se esqueceu.
Ela se esquecera, mas estava se lembrando naquele momento. Elas haviam feito
planos de conhecer o novo clube noturno que Mavis descobrira nas docas espaciais
em New Jersey. Segundo Mavis, os gates ali viviam em estado de excitao
constante. Algo a ver com sua forma fsica.
- Desculpe, Mavis. Voc est espetacular.
Era verdade, sem dvida. Oito anos antes, quando Eve tinha levado Mavis para a
priso por causa de um pequeno furto, ela j parecia tima. Uma malandra de rua
coberta de seda, com dedos geis e um sorriso brilhante.
Nos anos que se passaram, acabaram se tornando amigas. Para Eve, que podia
contar nos dedos os amigos que no eram tiras, aquela era uma amizade preciosa.
- Voc parece cansada - disse Mavis, com um tom mais de acusao do que de
pena -, e est faltando um boto na sua roupa.
Os dedos de Eve voaram automaticamente para o palet e sentiu as pontas soltas
da linha.
- Droga! Eu sabia. - Desgostosa, tirou o palet e o jogou longe. - Olhe, me
desculpe. Eu esqueci, realmente. Estive com a cabea cheia, hoje.
- Isso tem a ver com os motivos de voc ter precisado do meu casaco preto?
- Tem, sim. Obrigada. Quebrou um galho.
Mavis se sentou por um minuto, tamborilando com as unhas verdes no brao do
sof.
- Assuntos da polcia. E eu toda crente, na esperana de que voc tinha um
encontro. Sabe, Eve, voc precisa comear a se encontrar com homens que no
sejam criminosos.
- Eu me encontrei com aquele consultor de imagens que voc me arrumou. Ele no
era criminoso. Era apenas idiota.
- Voc  que  muito exigente, e isso aconteceu h mais de seis meses.
Considerando-se que ele tentara fazer com que ela perdesse o emprego ao sugerir
uma tatuagem labial, de graa, Eve achou que seis meses eram at pouco tempo,
mas guardou a opinio para si mesma, e disse:
- Vou trocar de roupa.
- J vi que voc no est a fim de sair esta noite e ficar danando e batendo a
bunda com os garotos espaciais. - Mavis se levantou de novo, e os compridos brincos
de cristal que batiam nos ombros espargiram raios de luz. - V em frente e tire essa
saia horrorosa. Vou pedir um pouco de comida chinesa.
Uma onda de alvio fez os ombros de Eve relaxarem. Por Mavis, ela teria tolerado
uma noite em um clube noturno apinhado e detestvel, com msica alta, pilotos
calouros e tcnicos espaciais sedentos de sexo se atirando em cima dela. A ideia de
saborear comida chinesa em casa, com os ps para cima, era uma viso do paraso.
- Voc no se importa, Mavis?
A amiga dispensou a ideia com um aceno, enquanto digitava no teclado do
computador o nome do restaurante que queria, dizendo:
- Eu passo todas as minhas noites em um clube desses.
- Que trabalheira! - gritou Eve do quarto, j entrando no banheiro.
- Nem me conte. - Com a lngua entre os dentes, Mavis analisava o menu na tela. -
H alguns anos, eu saberia que essa histria de cantar em troca de comida era a
maior enganao, a maior furada em que eu poderia me meter. No final, estou
trabalhando mais do que nunca, enganando os turistas. Voc vai querer enroladinhos
de ovo?
- Vou. Mas voc no est pensando em desistir, est?
Mavis ficou em silncio por um instante, enquanto escolhia os pratos.
- No. Sou ligada demais nos aplausos. - Sentindo-se generosa, pagou pelo jantar
com o seu World Card. - E desde que renegociei o contrato com a boate, estou
ganhando dez por cento do preo da entrada. Virei uma mulher de negcios, como
qualquer pessoa normal.
- No h nada de normal em voc - discordou Eve. E voltou, usando uma
confortvel cala jeans e uma camiseta do Departamento de Polcia de Nova York.
-  verdade. Ainda tem daquele vinho que eu trouxe da outra vez em que estive
aqui?
- A segunda garrafa quase toda. - E por lhe parecer que aquela era a melhor ideia
que surgira o dia inteiro, Eve se desviou em direo  cozinha para servir o vinho. - E
voc, continua saindo com o dentista?
- No. - De modo preguioso, Mavis foi at a unidade de lazer e a programou para
msica. - Aquilo estava ficando srio demais. No me incomodo com o fato de ele ter
se apaixonado pelos meus dentes, mas de repente ele estava a fim do pacote
completo. Queria se casar.
- Que cretino!
- No se pode confiar em ningum - concordou Mavis. E como andam as coisas na
rea de proteo  lei e  ordem?
- No momento, um pouco pesadas. - Olhou por sobre o vinho que estava servindo
quando ouviu a campainha tocar. No pode ser o jantar, assim to depressa. -
Enquanto dizia isso, ouviu Mavis caminhando alegremente, fazendo barulho no piso
da sala com os sapatos de salto quinze. - Olhe quem  pelo monitor de segurana,
Mavis - disse depressa, e j estava a meio caminho da entrada quando a amiga abriu
a porta de uma vez s.
Teve apenas um momento para xingar e outro para tentar pegar a arma que na
verdade no estava usando. Ento, o riso de flerte agudo e rpido de Mavis fez sua
adrenalina disparar novamente.
Eve reconheceu o uniforme da companhia de entregas, e no viu mais nada, a no
ser a cara de satisfao e um pouco de embarao do jovem que entregava um pacote
para Mavis.
- Adoro presentes - dizia ela, balanando as pestanas pintadas de prata em
direo ao rapaz, que j recuava, envergonhado. Voc tambm veio de brinde?
- Deixe o garoto em paz. - Balanando a cabea, Eve pegou o pacote das mos de
Mavis e fechou a porta.
- Ah, eles so to engraadinhos nessa idade. - Jogou um beijo em direo ao
monitor de segurana antes de se virar para Eve. - Nossa, por que voc est to
nervosa hoje, Dalas?
- O caso em que estou trabalhando est me deixando abalada, eu acho. - Ela
olhou o papel laminado dourado e o lao elaborado sobre o pacote que segurava, com
mais suspeitas do que prazer. No tenho ideia de quem poderia estar me mandando
um presente.
- Tem um carto a - observou Mavis, secamente. - Voc bem que poderia ler o
que est escrito. Pode haver alguma pista.
- Agora veja quem  que  a engraadinha. - Eve puxou o carto do envelope
dourado.
Roarke
Ao ler o nome por cima do ombro de Eve, Mavis assobiou baixinho.
- No pode ser o Roarke! O incrivelmente rico, maravilhosamente lindo de se olhar,
o misterioso e sexy Roarke, que possui aproximadamente vinte e oito por cento de
tudo o que h no mundo e em seus satlites?
- Ele  o nico que eu conheo. - Tudo o que Eve sentia era irritao.
- Voc o conhece? - Mavis revirou os olhos pintados com sombra verde. - Dalas,
eu subestimei voc de uma forma inaceitvel. Conte-me tudo. Como, quando, por
qu? Voc j dormiu com ele? Diga-me que dormiu com ele e depois me descreva
tudo nos mnimos detalhes.
- Temos um caso secreto e ardente h uns trs anos, e nesse perodo eu tive um
filho dele, que no momento est sendo criado em um lugar afastado, na superfcie da
Lua, por monges budistas.
- Com as sobrancelhas franzidas, Eve sacudiu a caixa. - Controle-se, Mavis! Isso
tem a ver com um caso em que estou trabalhando e - acrescentou antes de dar 
amiga a chance de abrir a boca -, trata-se de um assunto confidencial.
Mavis no se deu ao trabalho de revirar os olhos de novo. Quando Eve falava a
palavra confidencial, no havia lisonja que resolvesse, e no adiantava implorar nem
choramingar, que ela no cederia um centmetro.
- Tudo bem, mas pelo menos me conte se ele parece to bonito pessoalmente
quanto nas fotos.
- Mais bonito - balbuciou Eve.
- Meu Deus, srio? - Mavis gemeu e se deixou cair sobre o sof. - Ai, acho que
acabei de ter um orgasmo!
- Bem, voc deve saber. - Eve colocou a caixa sobre a mesa e ficou olhando de
cara feia. - Como  que ele sabe onde  que eu moro? Voc no pode pegar o
endereo de uma policial no catlogo. Como foi que ele descobriu? - repetiu, baixinho.
- E o que est planejando?
- Pelo amor de Deus, Dalas, abra logo. Ele provavelmente simpatizou com voc.
Alguns homens acham que as mulheres frias, desinteressadas e reticentes so as
mais atraentes. Faz com que pensem que elas so profundas. Aposto que so
diamantes - disse Mavis, batendo com o dedo na caixa, a pacincia por um fio. Uma
gargantilha. Uma gargantilha de diamantes. Talvez rubis. Voc ia ficar sensacional
usando rubis.
E rasgou o papel carssimo sem d nem piedade, atirando longe a tampa da caixa
e enfiando a mo dentro da embalagem com borda dourada.
- Mas que diabo  isso?
Eve j havia sentido o aroma e, sem conseguir evitar, comeou a sorrir.
-  caf - explicou ela, em um murmrio, sem notar a forma como sua voz se
tornou mais macia enquanto esticava o brao para pegar o saco marrom que Mavis
segurava.
- Caf!? - Com as iluses despedaadas, Mavis ficou com o olhar parado. - O
sujeito tem mais dinheiro do que Deus e lhe manda de presente um saco de caf?
-  caf de verdade.
- Ah, bom. - Desgostosa, Mavis balanou a mo. - Olhe, no quero saber quanto
custa um quilo dessa porcaria, Dalas. O que uma mulher quer  brilho.
- No esta mulher aqui. - Eve levou o saco at perto do rosto e cheirou
profundamente. - O filho da me sabia direitinho como poderia me impressionar. - Ela
suspirou. - E de mais de uma maneira.
Eve se deleitou com uma xcara do lquido precioso logo na manh seguinte. Nem
mesmo o seu temperamental AutoChef conseguira estragar o sabor rico e denso. Foi
dirigindo at o Departamento de Polcia, com o seu aquecedor enguiado, sob um cu
cheio de chuva misturada com neve, enfrentando um vento gelado que fazia a
temperatura ficar a quinze graus abaixo de zero, e mesmo assim exibia um sorriso no
rosto.
O sorriso ainda estava l quando ela entrou no escritrio e encontrou Feeney
esperando por ela.
- Ora, ora. - Ele a analisou. - O que tomou no caf, parceira?
- Caf. Simplesmente caf. Tem alguma coisa para mim?
- Fiz uma pesquisa completa em Richard DeBlass, Elizabeth Barrister e o resto do
cl. - Ele lhe entregou um disco marcado Cdigo Cinco em grandes letras vermelhas. -
No h grandes surpresas. No consegui nada de extraordinrio em Rockman,
tambm. Quando tinha vinte e poucos anos, ele pertencia a um grupo paramilitar
denominado Rede de Segurana.
- Rede de Segurana - repetiu Eve, com o cenho franzido.
- Voc devia ter uns oito anos quando o grupo foi desmantelado, garota - disse
Feeney com um riso forado. - Mas deve ter ouvido falar dele nas aulas de Histria.
- Estou me lembrando vagamente. No foi um daqueles grupos que surgiram
quando estivemos em conflito com a China?
- Foi; e, se eles tivessem conseguido que as coisas corressem do jeito que
queriam, a crise teria sido bem mais do que um conflito. Com um desentendimento
causado pela posse de espao internacional, a coisa poderia ter ficado feia. Mas os
diplomatas conseguiram ganhar a guerra antes que eles a comeassem de verdade.
Poucos anos depois, a organizao foi desmontada, embora ainda surjam boatos de
vez em quando a respeito de uma faco da Rede de Segurana que continua agindo
secretamente.
- J ouvi falar deles. Ainda ouo, at hoje. Voc acha que Rockman est envolvido
com um grupo fantico e desarticulado como este?
-Acho que ele sabe onde pisa - disse Feeney, levando apenas um momento antes
de balanar a cabea. - Poder reflete poder, e isso DeBlass tem de sobra. Se acabar
conseguindo chegar na Casa Branca, Rockman vai estar bem ao lado dele.
- Por favor. - Eve apertou a mo sobre o estmago. -Assim voc vai me causar
pesadelos.
-  um longo caminho, mas ele j est com bastante apoio para as prximas
eleies. - Feeney moveu os ombros.
- Rockman tem um libi, de qualquer modo. Do prprio DeBlass. Os dois estavam
em Washington. - Eve se sentou. Tem mais alguma coisa?
- Charles Monroe. Ele tem levado uma vida interessante, mas no apareceu nada
de sombrio. Estou trabalhando nas anotaes da vtima. Voc sabe, s vezes se voc
no toma todo o cuidado na hora de adulterar arquivos, deixa pontas  mostra. A mim,
parece que uma pessoa que acabou de matar uma mulher pode cometer um descuido
desses.
- Ento encontre essa ponta, Feeney, puxe-a para fora e eu lhe compro uma caixa
daquele usque horroroso que voc adora.
- Combinado. Ainda estou trabalhando em Roarke - acrescentou. - Ali est um
homem que no  descuidado. Todas as vezes que eu acho que consegui ultrapassar
uma barreira de segurana, dou de cara com outra. Quaisquer que sejam os dados a
respeito dele, esto muito bem guardados.
- Continue tentando ultrapassar essas barreiras. Enquanto isso, eu vou cavando
por baixo delas.
Quando Feeney saiu, Eve se virou para o monitor. No quis fazer a pesquisa na
frente de Mavis, e preferiu, nesse caso, usar o computador do escritrio. A pergunta
era simples.
Eve digitou o nome e o endereo de seu prdio. A seguir perguntou quem era o
proprietrio. E a resposta era simples: Roarke.
A licena de Lola Starr para trabalhar com sexo tinha sido emitida h apenas trs
meses. Ela entrara com o pedido no dia do seu dcimo oitavo aniversrio, a data mais
prematura que a lei permitia. Gostava de dizer aos amigos que at ento havia sido
apenas uma amadora.
Foi este o mesmo dia em que ela deixou sua casa em Toledo, e o mesmo dia em
que trocou de nome, abandonando o antigo, Alice Williams. Tanto a velha casa quanto
o antigo nome haviam sido muito maantes para Lola.
Tinha um rosto bonito, de fada. Perturbara, implorara e choramingara at que seus
pais concordaram em lhe dar um queixo mais afilado e um nariz arrebitado como
presente, aos dezesseis anos.
Lola pretendia ter a aparncia de um elfo muito sexy, e pensou ter conseguido.
Seus cabelos eram pretos como carvo, bem curtos, e com pontas audaciosas. Sua
pele tinha a brancura do leite e era firme. Estava economizando dinheiro para ter a cor
dos olhos alterada de castanho para verde-esmeralda, cor que imaginava que ia
combinar melhor com a sua imagem. E tinha tido a sorte de ter nascido com um
suculento corpinho que no precisava de mais nada, seno manuteno bsica.
Sonhara em ser uma acompanhante autorizada por toda a vida. Outras garotas
sonhavam em seguir carreiras em Direito ou Finanas, e estudavam muito para entrar
na rea mdica ou na indstria. Lola, porm, sempre soube que havia nascido para o
sexo.
Por que no ganhar a vida usando o que sabia fazer de melhor?
Queria ser rica, desejada e mimada. A parte do desejo ela achava fcil. Os
homens, particularmente os mais velhos, estavam dispostos a pagar bem por algum
com os atributos de Lola. As despesas da sua profisso, porm, haviam se mostrado
muito mais elevadas do que ela previra quando sonhava em seu lindo quarto, ainda
em Toledo.
As taxas para conseguir a licena, os exames mdicos regulares obrigatrios, o
aluguel e o imposto sobre atividades pecaminosas devoravam todo o lucro. Depois de
ter acabado de pagar pelo treinamento, sobrara-lhe apenas o suficiente para manter
um pequeno conjugado com quitinete, nas imediaes da Calada das Prostitutas.
Mesmo assim, era melhor do que trabalhar nas ruas, como muitas ainda faziam. E
Lola tinha planos para alcanar coisas maiores e melhores.
Um dia ela ainda iria morar em uma cobertura, e aceitar apenas a nata dos
clientes. Seria levada para jantar e tomar vinho nos melhores restaurantes, e voaria
para lugares exticos para satisfazer  realeza e aos ricos.
Era boa o bastante no que fazia, e no pretendia ficar no p da escada por muito
tempo.
As gorjetas ajudavam. Uma profissional no deveria aceitar dinheiro extra ou
bnus. Pelo menos, no tecnicamente. Mas todas faziam isso. Ela ainda era jovem o
suficiente para aceitar os presentinhos que alguns dos clientes lhe ofereciam. Mas
guardava o dinheiro religiosamente e sonhava com a cobertura.
Naquela noite ia receber um cliente novo, um homem que pedira especificamente
para ser chamado de Papai. Ela concordou e esperou at que todos os arranjos
fossem feitos, antes de se permitir um sorriso afetado. O sujeito provavelmente estava
achando que era o primeiro a querer que ela fosse a filhinha dele. O fato  que,
naqueles poucos meses em que j estava trabalhando, a pedofilia comeava
rapidamente a se transformar na sua especialidade.
Assim, de forma adequada, ela se sentaria no colo dele e deixaria que ele a
espancasse. Depois, ia ficar repetindo que precisava ser castigada. Na verdade, era
mais ou menos como fazer uma brincadeira, e quase todos os homens eram bem
delicados com ela.
Com tudo isso em mente, escolheu uma saia plissada curta e uma blusa branca,
com gola colegial. Por baixo no usava mais nada, a no ser as meias brancas.
Raspara os plos pubianos, e era lisa e macia como uma menina de dez anos.
Depois de examinar o prprio reflexo, adicionou um pouco mais de cor nas
bochechas e mais brilho nos lbios, fazendo um beicinho.
Ao ouvir a batida na porta, sorriu, e seu rosto ainda sem muita malcia lhe sorriu de
volta do outro lado do espelho.
Ela ainda no tinha dinheiro para instalar uma cmera de segurana, e usou o olho
mgico para avaliar o visitante.
Ele era bonito, o que a deixou satisfeita. E tinha idade suficiente para ser pai dela,
o que o deixaria igualmente satisfeito.
Abriu a porta, e lanou um sorriso tmido e recatado, dizendo:
- Oi, papai.
Ele no queria perder tempo. Era a nica coisa que tinha de pouco naquele
momento. Sorriu para ela. Para uma prostituta, at que ela era uma gracinha. Quando
a porta se fechou em suas costas, apalpou por baixo da saia dela, e ficou feliz ao ver
que ela estava nua. As coisas seriam mais rpidas se ele ficasse logo excitado.
- Papai! - fazendo o papel dela, Lola soltou um gritinho entremeado de risos. - Isso
 feio!
- Ouvi dizer que voc se comportou mal. - Tirou o casaco e o colocou
cuidadosamente de lado, enquanto ela fazia cara de zanga para ele. Embora ele fosse
precavido e tivesse selado as mos, no tocaria em nada no quarto, a no ser nela.
- Mas eu tenho sido uma boa menina, papai. Muito boa.
- Voc tem se comportado muito mal, filhinha. - Colocando a mo no bolso, pegou
uma pequena cmera de vdeo, que ligou e apontou na direo da estreita cama que
ela havia enchido de travesseiros e bichos de pelcia.
- Voc vai tirar fotos?
- Isso mesmo.
Ela deveria avisar a ele que isso ia lhe custar um dinheiro extra, mas resolveu
esperar at que tudo tivesse terminado. Os clientes no gostavam de ver suas
fantasias interrompidas pela realidade. Ela aprendera isso no treinamento.
- V se deitar na cama.
- Sim, papai. - Ela se aninhou entre os travesseiros e os animais sorridentes.
- Ouvi dizer que voc andou tocando em si mesma.
- No, papai.
- No  bonito contar mentiras para o papai. Vou ter que castigar voc, mas depois
vou dar um beijinho ali e tudo vai ficar bem. Quando ela sorriu, ele caminhou em
direo  cama. - Levante a saia, garotinha, e me mostre como foi que voc tocou em
si mesma.
Lola no ligava muito para essa parte. Gostava de ser tocada, mas o contato das
prprias mos a deixava pouco excitada. Mesmo assim, levantou a saia e se
acariciou, mantendo os movimentos envergonhados e hesitantes, como imaginou que
ele quisesse.
Aquilo o excitou, ver o deslizar de seus dedos midos. Afinal, era para aquilo que
uma mulher era feita. Para se usar, e para usar os homens que a queriam.
- Como  a sensao?
- Macia - murmurou ela. - Venha tocar, papai. Veja como  macia.
Ele colocou a mo sobre a dela e se sentiu enrijecer de modo satisfatrio ao
colocar um dos dedos dentro dela. Aquilo seria rpido, para ambos.
- Desabotoe a blusa - ordenou ele, enquanto continuava a manipul-la e ela abria a
prpria roupa, da gola para baixo. -Agora, vire-se.
Quando ela fez isso, ele levou a mo at a sua agitada regio na parte de baixo do
corpo, e deu tapinhas rpidos em suas ndegas que fizeram a carne macia ficar um
pouco vermelha, enquanto ela gemia em resposta.
No lhe importava se ele a estava machucando ou no. Ela se vendera para ele.
- Isso, boa menina... - Ele estava totalmente ereto agora, e comeando a latejar.
Mesmo assim, seus movimentos eram cuidadosos e precisos enquanto tirava a roupa.
Nu, ele a colocou de pernas abertas e deixou suas mos deslizarem por trs de suas
costas e ir para a parte da frente, at poder apertar-lhe os seios. To nova, pensou, e
se permitiu tremer com o prazer de uma carne que ainda precisava ser refinada.
- Papai agora vai lhe mostrar como faz para premiar as boas meninas.
Ele queria que ela o tomasse na boca, mas no podia se arriscar. O mtodo de
anticoncepo que o registro dela citava iria destruir o esperma vaginal, mas no o
oral.
Em vez disso, ele se agarrou aos quadris dela, levando algum tempo para passar a
mo por todo aquele corpo com carne jovem, enquanto se impulsionava para dentro
dela.
Ele foi mais violento do que ambos esperavam. Aps a primeira e violenta
estocada, diminuiu o ritmo. No queria machuc-la a ponto de faz-la gritar. Embora,
em um lugar como aquele, duvidava de que algum fosse reparar, ou se importar.
Mesmo assim, ela ainda tinha pouca experincia, e era charmosamente ingnua.
Ele assumiu um ritmo mais lento, mais gentil, e descobriu que isso tambm lhe dava
mais prazer.
Ela se movia bem, no ritmo dele, acompanhando-o. A no ser que ele estivesse
muito enganado, nem todos aqueles gemidos e pequenos gritos eram simulados. Ele
a sentiu ficar tensa e tremer por dentro. Sorriu ento, satisfeito por ter sido capaz de
levar uma prostituta a um clmax genuno.
Fechou os olhos e se deixou transbordar dentro dela.
Ela suspirou e acariciou uma das almofadas. Tinha sido bom, melhor, muito melhor
do que ela esperava. E achou que tinha conseguido um novo cliente regular.
- Fui uma boa menina, papai?
- Muito. Uma menina muito boa. Mas ainda no acabamos. Vire-se de novo.
Enquanto ela se girava na cama, ele se levantou e saiu do campo de alcance da
cmera.
- Agora ns vamos assistir ao vdeo, papai?
Ele simplesmente balanou a cabea para os lados. Lembrando-se do seu papel,
ela fez um biquinho.
- Mas eu gosto de ver vdeos. Podemos assistir, e depois voc pode me mostrar
como ser uma boa menina novamente. - Ela sorriu para ele, na esperana de um
extra. - Eu poderia tocar em voc dessa vez. Gostaria de tocar em voc.
Ele sorriu e pegou a SIG 210 com silenciador, no bolso do casaco. Viu quando ela
piscou com curiosidade, enquanto ele apontava a arma.
- O que  isso?  de mentirinha, para eu brincar com ele? Ele atirou primeiro na
cabea dela, a arma fazendo pouco mais do que um leve espocar enquanto ela era
lanada para trs. Friamente, ele atirou de novo, no espao entre os seios jovens e
firmes, e por fim, com o silenciador j meio gasto, no seu pbis, macio e liso.
Desligando a cmera, arrumou o corpo dela com cuidado, entre os travesseiros
empapados de sangue e os animais de pelcia sorridentes e cheios de respingos,
enquanto ela continuava com os olhos voltados para ele, arregalados de surpresa.
- Isso no era vida para uma mulher jovem - disse-lhe com gentileza, e ento
voltou para a cmera, a fim de gravar a ltima cena.
CAPTULO CINCO
Tudo o que Eve queria era uma barra de chocolate. Passara a maior parte do dia
testemunhando no tribunal, e seu horrio de almoo tinha sido devorado pelo
telefonema de um informante, que lhe custara cinquenta dlares, mas a colocara na
dianteira em um caso de contrabando que resultara em dois homicdios, e no qual ela
j vinha quebrando a cabea h dois meses.
Tudo o que queria era uma dose rpida de qualquer substituto de acar, antes de
voltar para casa a fim de se preparar para o encontro com Roarke, marcado para as
sete horas.
Poderia ter passado em qualquer uma das inmeras Insta Stores drive-through,
mas preferiu a pequena delicatessen na esquina de Setenta e Oito Oeste, apesar, ou
talvez pelo fato de que ela pertencia e era gerenciada por Franois, um rude refugiado
com olhos de cobra que escapara rumo aos Estados Unidos depois que a Reforma
Social Armada provocara a queda do governo francs, uns quarenta anos antes.
Franois detestava o pas e os americanos, mas a Reforma Armada o tinha
despachado para l mais ou menos uns seis meses depois do golpe, e o francs foi
ficando, se maldizendo e reclamando atrs do balco da loja da Rua Setenta e Oito,
onde ele adorava despejar insultos e absurdos polticos.
Eve o chamava de Frank, para irrit-lo, e passava por ali pelo menos uma vez por
semana para ver que novo esquema ele tinha inventado para explor-la e deix-la
sem dinheiro.
Com a cabea na barra de chocolate, entrou pela porta automtica. O vidro ainda
nem tinha comeado a se fechar atrs dela quando seu instinto bateu.
O homem que estava no balco, de costas para ela, usava um casaco grosso com
um capuz que cobria tudo, menos o tamanho do seu corpo, que era considervel.
Um metro e noventa e dois, ela avaliou, e uns cento e vinte quilos. Nem precisava
ver o rosto magro e aterrorizado de Franois para saber que havia problemas. Dava
para sentir o cheiro, to forte e amargo quanto o da carne vegetal picada que estava
na promoo do dia.
Nos segundos que se passaram at a porta se fechar, ela considerou e em
seguida rejeitou a ideia de sacar a arma.
- Para c, vagabunda. Anda logo!
O homem se virou para ela. Eve notou a cor da pele, dourada clara, tpica de uma
herana multirracial, com os olhos de um homem muito desesperado. E enquanto
guardava na memria sua descrio, olhou para o pequeno objeto redondo que ele
tinha na mo.
O explosivo caseiro era preocupante. O fato de que ele estava balanando a mo
que o segurava e tremia de nervoso tornava tudo ainda pior.
Homens com bombas caseiras eram notoriamente instveis. O idiota era capaz de
matar a todos, s por suar em demasia.
Eve lanou um rpido olhar de alerta para Franois. Se ele a chamasse de tenente,
todos ali iam virar carne moda bem depressa. Mantendo as mos  vista, foi at o
balco.
- E-Escute... No quero problemas - disse ela, fazendo a voz tremer de nervoso,
tanto quanto a mo do ladro. - Por favor, moo, eu tenho filhos em casa.
- Cale a boca. Simplesmente cale essa boca. No cho. Deite-se na porcaria desse
cho.
Eve se ajoelhou, deixando a mo sob o casaco escorrer para onde a arma
aguardava.
- Quero tudo - ordenou o homem, fazendo gestos com a pequena bola mortal. -
Pode me dar tudo. Dinheiro, fichas de crdito, e ande rpido!
- Foi um dia fraco - gemeu Franois. - Voc precisa entender que os negcios no
andam to bem como antes. Vocs, americanos...
- Quer engolir isso? - ofereceu o homem, empurrando o explosivo na direo do
rosto de Franois.
- No, no. - Em pnico total, Franois digitou a senha de segurana da gaveta do
caixa com dedos trmulos. Quando o compartimento se abriu, Eve viu o ladro olhar
para o dinheiro que estava l dentro, e logo a seguir para a cmera de segurana, que
estava gravando toda a cena.
Ento viu a ideia se estampar em seu rosto. Ele sabia que sua imagem estava
guardada ali, e que nem todo o dinheiro de Nova York poderia apag-la. O explosivo
sim, poderia fazer isso, se fosse atirado displicentemente por sobre os ombros quando
ele sasse correndo para a rua, para logo ser engolido pela multido.
Eve prendeu a respirao, como um mergulhador pronto para saltar. Chegou com
fora, por baixo do brao dele. O inesperado golpe fez a bomba saltar para o ar.
Gritos, xingamentos e preces se misturaram. Ela pegou o explosivo com a ponta dos
dedos, em um voo que parecia um lance de beisebol, com dois homens fora e as
bases ocupadas. No momento em que apertou as mos em volta do explosivo, o
ladro girou o brao e a atingiu.
Foi com as costas da mo, em vez dos punhos, e Eve se considerou com sorte por
isso. Viu estrelas ao atingir o balco de gros de soja, mas segurou a bomba na mo,
com firmeza.
Peguei com a mo errada, droga, com a mo errada, ela teve tempo de pensar
enquanto o balco desabava sob o peso dela. Tentou usar a mo esquerda para
pegar a arma, mas os cento e vinte quilos de fria e desespero se jogaram sobre ela.
- Aperte o alarme, idiota - gritou, enquanto Franois continuava parado como uma
esttua, abrindo e fechando a boca. Aperte a droga do alarme. - Ela gemeu de dor
quando o soco em suas costelas roubou-lhe o ar. Desta vez ele usou o punho.
Ele chorava, agora, arranhando e apertando o brao dela em uma tentativa de
reaver o explosivo.
- Preciso do dinheiro. Tenho que peg-lo. Vou matar voc. Vou matar vocs todos.
Ela conseguiu dobrar o joelho e atingi-lo. A velha ttica de defesa lhe deu alguns
segundos, mas no teve o poder de coloc-lo fora de combate.
Ela viu estrelas mais uma vez quando a cabea bateu com fora na lateral do
balco. Dezenas das barras de chocolate que ela tanto queria choveram em sua
cabea.
- Seu filho da me. Seu filho da me. - Ela s ouvia a si prpria repetir isto, sem
parar, enquanto atingia o rosto e o nariz dele com trs socos curtos. Sangue comeou
a espirrar do nariz atingido, e ele agarrou o brao dela.
Eve sabia que o brao ia quebrar. Sabia que ia sentir a qualquer momento a dor
aguda e fina, e ouvir o estalo do osso fraturando.
Mas no exato instante em que tentava tomar ar para gritar e sua viso comeou a
se embaar com a agonia, sentiu que o peso era retirado de cima dela.
Com a bola ainda apertada entre os dedos, rolou de lado e ficou sobre o quadril,
tentando respirar e lutando contra a vontade de vomitar. Daquela posio, ela viu os
sapatos pretos e brilhantes que sempre indicavam um policial.
- Pode lev-lo. - Ela tossiu uma vez, com dor. - Por tentativa de roubo. Estava
armado, carregava um explosivo, e me agrediu.
- Ela gostaria de ter acrescentado que tinha sido uma agresso a uma policial, com
resistncia  priso, mas, como no havia se identificado para o ladro, estaria
ultrapassando um limite.
- Est se sentindo bem, senhora? Quer que eu chame os paramdicos?
Eve no queria os paramdicos. Queria a porcaria de uma barra de chocolate.
- Eu sou tenente - corrigiu ela, levantando-se e exibindo a identificao. Viu que o
criminoso j estava bem preso, e que um dos dois policiais tinha sido esperto o
suficiente para usar a sua arma de choque para imobiliz-lo.
- Precisamos de uma caixa de segurana, depressa. - Ela viu os policiais
empalidecerem ao ver o que ela carregava na mo. Este explosivo j foi sacudido
demais. Temos que neutraliz-lo.
- Sim, senhora. - O primeiro policial j estava fora da loja em um instante. Durante
os noventa segundos que levou para voltar com a caixa preta usada para transportar e
desativar explosivos, ningum deu uma palavra.
Nem respiraram.
- Levem-no - repetiu Eve. No momento em que o explosivo foi isolado, os msculos
de sua barriga comearam a tremer. Deixem que eu fao o relatrio. Vocs esto com
a Unidade Cento e Vinte e Trs, no ?
- Estamos, tenente.
- Foi um bom trabalho. - Esticou o brao com cuidado, para no forar o brao
machucado, e pegou uma das barras de Galaxy que no tinham ficado esmagadas na
luta. - Vou para casa.
- Voc no pagou pelo chocolate - berrou Franois, para ela.
- V  merda, Frank - gritou ela de volta, e continuou indo embora.
O incidente atrasou a sua programao. Quando chegou na manso de Roarke, j
eram sete e dez da noite. Eve usara a medicao que tinha em casa para aliviar as
dores no brao e no ombro. Se no estivesse melhor em dois dias, ia ter que se
apresentar para fazer exames. Ela detestava mdicos.
Estacionou o carro e ficou um instante analisando a casa de Roarke. Parecia mais
uma fortaleza, pensou. Seus quatro andares se elevavam acima das rvores cobertas
de geada do Central Park. Era uma daquelas construes antigas, com quase
duzentos anos de idade, construdas com pedra de verdade, se seus olhos no a
estavam enganando.
Havia muitas vidraas e luzes brilhando, douradas, por trs das janelas. Havia
tambm um porto de segurana, atrs do qual arbustos, pinheiros e rvores
elegantes estavam artisticamente plantados.
Ainda mais impressionante do que a magnfica arquitetura e o tratamento
paisagstico era a quietude. No se ouviam os barulhos da cidade, ali. Nenhum rudo
de trnsito, nem o caos dos pedestres. At mesmo o cu acima deles estava
sutilmente diferente do que ela estava acostumada, no centro da cidade. Ali, dava
para ver estrelas de verdade, em vez do brilho e do claro dos meios de transporte.
Vida boa para quem pode, meditou, e entrou com o carro. Aproximou-se do porto
e se preparou para mostrar a identificao. Viu a pequena luz vermelha de um
scanner piscar, para a seguir se manter acesa. Os portes se abriram
silenciosamente.
Ento, ele havia programado o sistema para receb-la, pensou, sem saber se
devia se sentir satisfeita ou desconfortvel. Entrou pelo porto, subiu pelo pequeno
aclive de acesso, e deixou o carro ao p da escadaria de granito.
Um mordomo abriu a porta para ela. Eve jamais vira um mordomo de verdade, a
no ser em filmes antigos, mas aquele ali no desapontava a ideia formada pela
fantasia. Tinha cabelos brancos, olhos impassveis, e vestia um fraque preto com
gravata bem apertada em um n antiquado.
- Tenente Dalas.
Havia nele um sotaque muito leve, que soava britnico e eslavo ao mesmo tempo.
- Tenho um encontro marcado com Roarke.
- Ele a espera. - O mordomo a conduziu at um saguo largo com p-direito alto,
que mais parecia a entrada de um museu do que o hall de uma residncia.
Havia um imenso lustre de cristal com pingentes em forma de estrelas, que
espargia luz sobre um piso de madeira brilhante coberto por um tapete em padres
vibrantes de vermelho e azul-petrleo. Uma escadaria em curva elevava-se para a
esquerda, e um grifo mitolgico entalhado, com cabea de guia, servia de coluna na
base dos degraus.
Havia pinturas nas paredes, do tipo que ela vira uma vez em uma excurso da
escola ao Museu Metropolitan. Impressionistas franceses de um sculo que ela no
lembrava qual. O Perodo da Revisitao, movimento artstico que surgira no incio do
sculo vinte e um, a cumprimentava tambm, com suas cenas pastorais e cores
gloriosamente suaves.
Nenhum holograma ou escultura viva. S pintura e telas.
- Posso pegar seu casaco?
Ela colocou os ombros para trs e pensou ter percebido um claro de presuno
condescendente naqueles olhos inescrutveis. Liberada do casaco, Eve observou o
mordomo enquanto ele carregava o agasalho de couro de forma excessivamente
cuidadosa, entre os dedos com unhas bem tratadas.
Diabos, ela conseguira tirar a maior parte das manchas de sangue dele.
- Por aqui, Tenente Dalas. Se a senhorita no se incomoda de aguardar na sala de
visitas, Roarke est atendendo a uma chamada transocenica, neste instante.
- Tudo bem.
O clima de museu continuava, ali. A lareira estava acesa, de forma tranquila. O
fogo formado por genunas toras de madeira crepitava em uma base entalhada em
lpis-lazli e malaquita. Duas lmpadas estavam acesas, com cores de pedras
preciosas. Os dois sofs idnticos tinham encostos curvados e um exuberante
estofamento, que complementava os tons de safira que havia em todo o ambiente. A
moblia era em madeira, polida quase a ponto de estar espelhada.
Aqui e ali, objetos de arte estavam dispostos. Esculturas, tigelas e peas de cristal
facetado.
As botas dela fizeram rudos secos sobre a madeira, e depois abafados, quando
ela chegou ao tapete.
- Gostaria de beber alguma coisa, tenente?
Ela olhou para trs e notou, com certo divertimento, que ele continuava a segurar o
casaco entre os dedos como se fosse um pano de cho sujo.
- Aceito, sim. O que tem para me oferecer, Senhor...?
- Summerset, tenente. Apenas Summerset, e estou certo de que consigo
providenciar qualquer coisa que deseje.
- Ela adora caf - disse Roarke, da porta -, mas acredito que gostaria de
experimentar o Montcart, da safra quarenta e nove.
Os olhos de Summerset piscaram rpidos com horror, pelo que Eve percebeu.
- O da safra quarenta e nove, senhor?
- Isso mesmo. Obrigado, Summerset.
- Sim, senhor. - Balanando o casaco, retirou-se, ereto como uma tbua.
- Desculpe-me por deix-la esperando - Roarke comeou, e ento seus olhos se
apertaram, sombrios.
- No h problema - disse Eve enquanto ele se aproximava dela. - Eu estava s...
Ei!
Ela afastou o queixo enquanto a mo de Roarke tentava toc-la, mas os dedos
dele a seguraram com firmeza e viraram o seu rosto na direo da luz.
- Seu rosto est machucado. - A voz dele estava fria ao afirmar isso, quase glida.
Seus olhos, enquanto ele avaliava a rea machucada, no demonstravam nada.
Seus dedos, porm, eram quentes, tensos, e fizeram alguma coisa se agitar em
seu estmago.
- Foi numa briga por causa de uma barra de chocolate explicou ela, encolhendo os
ombros.
Seus olhos se encontraram com os dela, e ficaram parados por um instante a mais
do que seria confortvel, at que ele perguntou:
- Quem ganhou?
- Eu.  um erro tentar me impedir de alcanar comida.
- Vou me lembrar disso. - Ele a soltou e enfiou a mo que tocara o rosto dela
dentro do bolso, porque queria toc-la novamente. Ficou preocupado pela intensidade
com que queria apagar aquela marca roxa que manchava o rosto dela. - Creio que
voc vai aprovar o cardpio desta noite.
- Cardpio? Eu no vim aqui para comer, Roarke. Vim aqui para analisar a sua
coleo.
- Voc far as duas coisas. - Ele se virou quando Summerset chegou com uma
bandeja que exibia uma garrafa de vinho da cor de trigo e dois clices de cristal.
- O quarenta e nove, senhor.
- Obrigado. Pode deixar que eu sirvo. - Ele se virou para Eve enquanto falava isso.
- Imagino que a safra deste vinho vai lhe agradar. O que lhe falta em sutileza... - e se
virou, oferecendo um dos clices -  compensado pela sensualidade. - Brindou
batendo o copo contra o dela, fazendo o cristal tinir. Em seguida, ficou observando
enquanto ela bebia.
Deus, que rosto, pensou ele. Todos aqueles ngulos e expresses, toda aquela
emoo e controle. Naquele exato momento ela tentava evitar uma exibio de
surpresa e prazer, enquanto o sabor do vinho se acomodava  sua lngua. Ele mal
podia esperar pelo momento em que o sabor dela se acomodaria  lngua dele.
- Aprovou? - perguntou ele.
-  bom. - Aquilo era o equivalente a sentir ouro lquido escorrendo pela garganta.
- Fico feliz. O Montcart foi minha primeira incurso no ramo das vindimas.
Podemos nos sentar e aproveitar o calor do fogo?
Era tentador. Ela quase podia se imaginar sentada ali, com as pernas colocadas
em um ngulo certo para receber o calor perfumado, bebendo vinho enquanto as
luzes em tons de jias preciosas danavam.
- Esta no  uma visita social, Roarke.  uma investigao de assassinato.
- Ento voc pode me investigar enquanto jantamos. - Ele tomou-a pelo
brao, levantando uma sobrancelha quando ela ficou rgida. -  de se imaginar
que uma mulher que luta por uma barra de chocolate poder apreciar
devidamente um fil com cinco centmetros de altura, ao ponto.
- Fil? - Ela fez fora para no babar. - Fil de verdade, vindo de uma vaca?
- Acabou de chegar de Montana. - Um sorriso apareceu em seus lbios. - O
fil, no a vaca. - Ao ver que ela ainda hesitava, tombou a cabea para o lado. -
Ora vamos, tenente. Eu no acredito que um pouco de carne vermelha v
embotar os seus considerveis dotes investigativos.
- Uma pessoa tentou me subornar um dia desses - murmurou ela,
lembrando-se de Charles Monroe e seu robe preto de seda.
- Com o qu?
- Nada to interessante quanto um fil. - Lanou um longo olhar, de igual
para igual. - Se as evidncias apontarem na sua direo, Roarke, saiba que vou
derrubar voc.
- No esperava menos que isso. Vamos comer.
Ele a conduziu at a sala de jantar. Mais cristais, mais madeira polida, outra
lareira crepitante, desta vez cercada de mrmore com veios cor-de-rosa. Uma
mulher vestida com um uniforme preto os serviu com aperitivos de camaro,
mergulhados em molho cremoso. O vinho foi trazido, e seus clices,
completados.
Eve, que raramente se preocupava com a aparncia, sentiu que deveria
estar usando algo mais adequado para a ocasio, em vez de cala jeans e um
suter.
- E ento, como foi que voc ficou rico? - perguntou a ele.
- De vrias formas. - Ele gostava de v-la comer, conforme acabara de
descobrir. Havia uma certa obstinao naquilo.
- Cite uma.
- Desejo - respondeu, e deixou a palavra flutuar entre eles.
- S isso no adianta. - Ela pegou o vinho de novo, olhando diretamente para os
olhos dele. - A maioria das pessoas tem o desejo de ser rica.
- Elas no querem o suficiente. No lutam por isso. No correm riscos por isso.
- Mas voc correu.
- Corri. Ser pobre , digamos, desconfortvel. Eu gosto de conforto. - Ofereceu-lhe
um enroladinho retirado de uma bandeja de prata, enquanto a salada era servida.
Uma salada verde bem fresca misturada com ervas delicadas. - Ns dois no somos
muito diferentes, Eve.
- Sim... sei.
- Voc queria ser uma policial. Queria o bastante para lutar por isso. O bastante
para correr riscos por isso. Acha que quebrar as leis  algo desconfortvel. Eu fao
dinheiro, voc faz justia. Nenhuma dessas duas coisas  algo simples. - Ele esperou
um momento. - Voc sabe o que Sharon DeBlass queria?
O garfo de Eve ficou parado no ar, e ento pegou uma poro macia de chicria
que acabara de ser colhida, h menos de uma hora.
- O que voc acha que ela queria, Roarke?
- Poder. Sexo  muitas vezes uma forma de obter isso. Ela tinha dinheiro suficiente
para estar confortvel, mas queria mais. Porque dinheiro tambm  poder. Mas ela
queria poder sobre os clientes dela, sobre si mesma, e, acima de tudo, queria ter
poder sobre a famlia dela.
Eve pousou o garfo. Sob a luz do fogo, na dana do brilho das velas com o dos
cristais, ele parecia perigoso. No no sentido de uma mulher ter medo dele, mas
porque ela mesma poderia desejlo. Sombras brincaram em seus olhos, tornando-os
ilegveis.
- Essa  uma anlise e tanto de uma mulher que voc afirma que mal conhecia.
- No leva muito tempo para se formar uma opinio sobre algum, especialmente
se a pessoa  bvia. Ela no tinha a sua profundidade, Eve, nem o seu controle, e
nem o seu foco to invejvel.
- No estamos falando de mim. - No, ela no queria que ele falasse dela, nem
que ficasse olhando para ela daquele jeito. Na sua opinio, ela estava sedenta de
poder. Sedenta o suficiente para ser morta antes de conseguir dar uma mordida muito
grande?
- Uma teoria interessante. A pergunta seria, uma mordida muito grande do qu?
Ou em quem?
A mesma atendente silenciosa levou a salada e trouxe imensos pratos de
porcelana, cheios de pedaos de carne ainda chiando e fatias finas e douradas de
batatas grelhadas.
Eve esperou at que eles estivessem novamente sozinhos e ento comeou a
cortar seu fil.
- Quando um homem acumula uma grande quantidade de dinheiro, posses e
status, passa a ter muito a perder.
- Agora estamos falando de mim. Outra teoria interessante.
- Ele ficou parado ali, com um olhar de curiosidade e ao mesmo tempo divertido. -
Ela me ameaou com algum tipo de chantagem e, em vez de pagar algum dinheiro a
ela ou desprez-la como se fosse ridcula, eu a matei. Ser que dormi com ela antes?
- Voc  quem tem que me contar - disse ela, impassvel.
- Combinaria com o enredo, considerando-se a escolha da profisso dela. Pode
haver alguma presso sobre a imprensa nesse caso em particular, mas no
precisamos ter um poder de deduo to grande assim para concluir que a chave de
tudo  o sexo. Eu a tive, e depois a matei... se  que vamos aceitar essa teoria. - Ele
pegou um pedao de carne, saboreando-o e a seguir engolindo-o.
- H um problema, porm.
- E qual ?
- Eu tenho o que talvez voc considere uma peculiaridade fora de moda. Desprezo
todo tipo de violncia contra as mulheres, sob qualquer forma.
- O que torna o que disse fora de moda  que seria mais adequado falar que voc
despreza violncia contra pessoas em geral, sob qualquer forma.
- Como eu disse,  uma peculiaridade. - Ele moveu os ombros, com elegncia. -
Acho desagradvel olhar para voc e ver a luz das velas se desviar ao atingir a marca
roxa em seu rosto. Surpreendeu-a, esticando a mo e passando o dedo sobre a
mancha, muito delicadamente. - Acredito que teria achado ainda mais desagradvel
matar Sharon DeBlass. - Recolheu a mo e voltou  refeio. - Embora as pessoas
saibam que eu, ocasionalmente, faa algumas coisas que no me agradam. Quando 
necessrio. Como est a comida?
- Est tima! - O ambiente, a luz, a comida, tudo estava mais que timo. Era como
estar sentada em um outro mundo, em um outro tempo. - Quem, afinal de contas, 
voc, Roarke?
- Voc  que  a tira, aqui - sorriu ele, completando os clices. - Descubra.
Ela ia descobrir, prometeu a si mesma. Por Deus, ela ia descobrir, antes de aquilo
acabar.
- Que outras teorias voc tem a respeito de Sharon DeBlass?
- perguntou a ele.
- Nada de especial. Ela gostava do que era excitante, e gostava do risco, e no
hesitava em criar embaraos para os que a amavam. No entanto ela era...
- O qu? - Intrigada, Eve se inclinou para junto dele. Vamos, termine.
- Digna de pena - respondeu Roarke, em um tom que fez Eve acreditar que ele no
queria dizer nem mais nem menos do que aquilo. - Havia algo de triste por baixo de
toda aquela camada espessa de brilho. Seu corpo era a nica coisa em si mesma que
respeitava. Assim, ela o utilizava para dar prazer e causar dor.
- E ela o ofereceu para voc?
- Naturalmente, e sups que eu aceitaria o convite.
- E por que no aceitou?
- J expliquei isso. Posso me estender mais e acrescentar que prefiro um tipo
diferente de mulher para levar para a cama, e tambm que prefiro tomar minhas
prprias iniciativas.
Havia outros motivos, mas ele preferiu guard-los para si.
- Quer mais fil, tenente?
- No, obrigada. - Eve olhou para baixo e notou que comera tudo, s faltara raspar
os desenhos gravados no fundo do prato.
- Sobremesa?
- No. - Ela detestava dispensar a sobremesa, mas j havia concedido coisas
demais a si mesma. - Quero apenas ver a sua coleo.
- Ento, vamos deixar o caf e a sobremesa para mais tarde. Ele se levantou,
oferecendo-lhe a mo.
Eve simplesmente franziu os olhos ao ver aquilo e afastou a cadeira da mesa.
Deliciado, Roarke fez um gesto em direo  porta, conduzindo-a de volta ao hall e
subindo as escadas.
-  muita casa para um homem s.
- Voc acha? J eu sou da opinio que o seu apartamento  que  pequeno
demais para uma mulher s. - Ao parar de repente no fim da escadaria, sorriu. - Eve,
voc j sabe que eu sou o dono do prdio em que mora.  claro que foi verificar isso
assim que recebeu minha pequena lembrana.
- Devia mandar algum at l para fazer uma reviso nos encanamentos - disse a
ele. - No consigo manter a gua do chuveiro quente por mais de dez minutos.
- Vou providenciar isso. Mais um lance de escadas.
- Estou surpresa por ver que voc no tem elevadores comentou ela, enquanto
continuavam a subir.
- Mas eu tenho. Pelo fato de preferir as escadas, no significa que a minha equipe
de empregados no possa ter escolha.
- E por falar em equipe de empregados - continuou ela -, ainda no vi nenhum
empregado eletrnico na casa, nem um andride.
- Tenho alguns. Mas prefiro pessoas em vez de mquinas, na maior parte do
tempo. Chegamos.
Colocou a palma da mo em um scanner, digitou um cdigo, e as portas duplas
entalhadas se abriram. Um sensor fez as luzes se acenderem ao cruzarem o portal. O
que quer que ela estivesse esperando, no era o que estava  sua frente.
Aquilo era um museu de armas: revlveres, facas, espadas, peas de arco e
flecha. Armaduras diversas estavam expostas, desde alguma da era medieval at os
recentes uniformes impenetrveis que eram de uso corrente nas foras armadas.
Cabos de armas cromados, alguns com ao e outros com pedrarias, cintilavam por
trs de portas de vidro, brilhando ao longo das paredes.
Se o resto da casa parecia ser um outro mundo, talvez mais civilizado do que o
exterior l fora, que ela conhecia, aquele aposento a remetia, com grande contraste,
na direo oposta. Era uma celebrao da violncia.
- Por qu? - Foi tudo o que conseguiu dizer.
-  uma coisa que me interessa, estudar o que os seres humanos usaram para ferir
e destruir outros seres humanos atravs da Histria. - Atravessou a sala, tocando uma
bola dentada que vinha presa a uma corrente. - Cavaleiros anteriores ao perodo do
Rei Arthur carregavam armas como esta em disputas e batalhas, h mais de mil anos.
- Apertou uma srie de botes em um armrio envidraado e tirou l de dentro uma
arma lisa que cabia na palma da mo, a ferramenta para matar, preferida das gangues
de rua, durante a Revolta Urbana em princpios do Sculo XXI. - Temos aqui algo
menos elaborado, mas igualmente letal. Um avano sem progresso. - Colocou a arma
de volta, fechou e trancou o armrio.
- Mas voc est interessada em algo mais novo que o primeiro e mais antigo que o
segundo. Voc mencionou uma Smith & Wesson, modelo Dez.
Era uma sala terrvel, foi o que Eve achou. Terrvel e fascinante. Olhou para ele do
outro lado do aposento, compreendendo que aquele tipo de violncia elegante
combinava com o dono, de modo perfeito.
- Voc deve ter levado anos para reunir todas essas peas.
- Quinze - confirmou ele, enquanto caminhava sobre o piso liso, sem carpete, at
outra seo. - Quase dezesseis, na verdade. Adquiri meu primeiro revlver quando
tinha dezenove anos. Comprei-o do homem que o estava apontando para a minha
cabea.
Ele franziu a testa. No pretendia contar aquilo a ela.
- Pelo jeito, ele errou o tiro - comentou Eve, enquanto se juntava a ele.
- Felizmente se distraiu com o chute que dei em sua genitlia. A arma era uma
Baretta nove milmetros semi-automtica, que ele contrabandeara da Alemanha. E
assim as Indstrias Roarke nasceram, a partir do erro de julgamento de um ladro.
Aqui est a arma que interessa a voc - acrescentou, apontando com o dedo
enquanto abria a porta de outro armrio expositor, na parede. - Imagino que voc vai
querer pegar nela, para ver se foi disparada recentemente, analis-la  procura de
impresses digitais, e assim por diante.
Ela concordou lentamente, enquanto sua mente trabalhava. Apenas quatro
pessoas sabiam que a arma do crime tinha sido deixada na cena do crime. Ela
mesma, Feeney, o comandante e o assassino. Ou Roarke no era culpado ou era
muito, muito esperto.
Ficou imaginando se ele poderia ser as duas coisas.
- Obrigada pela sua cooperao. - Pegou um saco para guardar provas na bolsa
que trazia pendurada no ombro e esticou a mo para pegar a arma, que era idntica 
que j estava em posse da polcia. Levou apenas um segundo para reparar que no
era a mesma que Roarke havia apontado.
Seus olhos se viraram para ele e o encararam. Ah, ele estava observando-a, sem
dvida, cuidadosamente. Embora ela deixasse a mo vagar hesitante diante da
seleo de armas, ela sabia que eles tinham se compreendido.
- Qual , mesmo? - perguntou ela.
- Esta. - Ele bateu no quadro bem abaixo da arma de calibre
38. Depois que ela j a tinha selado dentro do saco e colocado na bolsa, ele
fechou a porta de vidro. - No est carregada,  claro, mas eu tenho munio, se voc
quiser levar uma bala para amostra.
- Obrigada. Seu esprito de cooperao ser ressaltado em meu relatrio.
- Ser mesmo? - Ele sorriu, pegando uma pequena caixa em uma gaveta e
oferecendo-a a ela. - O que mais ser ressaltado, tenente?
- Tudo o que for adequado. - Colocando a caixa da munio dentro da bolsa,
tambm, pegou um notebook, teclou seu nmero de identificao, a data e a descrio
de tudo o que estava levando. Aqui est seu recibo - disse-lhe, entregando-lhe um
pedao de papel que o notebook imprimira e liberara. - Este material lhe ser
devolvido o mais rpido possvel, a no ser que seja analisado e considerado como
prova. Voc ser notificado, de uma forma ou de outra.
Ele enfiou o papel no bolso, e mexeu com os dedos em mais alguma coisa que
estava l dentro.
- A sala de msica  a nossa prxima parada. Podemos tomar caf e conhaque l.
- Provavelmente no temos um gosto em comum para msica, Roarke.
- Posso surpreend-la - murmurou ele -, com relao s coisas que temos em
comum. - Tocou-lhe o rosto de novo, desta vez deslizando os dedos em torno dele,
at acariciar-lhe a nuca. Ou com relao ao que vamos compartilhar.
Ela ficou rgida e levantou a mo para afastar o brao dele, mas ele simplesmente
apertou os dedos em volta de seu pulso. Ela poderia t-lo derrubado de costas no
cho em um piscar de olhos, foi o que disse a si mesma. Apesar disso, deixou-se ficar
ali, com a respirao suspensa e o pulso disparado.
Ele j no estava rindo.
- Voc no  covarde, Eve. - Ele disse com suavidade quando seus lbios se
colocaram a poucos centmetros dos dela. O beijo estava pairando no ar, apenas a um
sopro de distncia, at que a mo que ela levantara contra ele perdeu a fora. E ela se
inclinou em sua direo.
Eve no pensou. Se tivesse pensado, nem que fosse por um instante, saberia que
estava quebrando todas as regras. Mas queria ver, precisava saber. Queria sentir.
A sua boca era macia de encontro  dela, mais persuasiva que possessiva. Seus
lbios mordiscaram levemente os dela para abri-los, a fim de permitir a passagem da
lngua atravs deles, entre eles, e enevoar-lhe os sentidos com o seu sabor.
Um calor comeou a se concentrar em seus pulmes como uma bola de fogo,
antes mesmo que ele a tocasse com aquelas mos destras que a moldaram,
pousadas sobre o brim macio que envolvia os seus quadris, e deslizando
sedutoramente por baixo do suter para alcanar a pele.
Com a sensao deliciosa de chegar  beira do abismo, ela sentiu que estava
ficando mida.
Era a boca de Eve, aquela boca generosa e tentadora que ele pensou que
quisesse. No momento, porm, em que a provara, compreendeu que desejava tudo
nela.
Eve estava grudada nele; aquele corpo firme e anguloso comeou a vibrar. Seu
seio pequeno e firme estava gloriosamente envolvido pela mo dele. Ele parecia ouvir
o zumbido de paixo que vinha do fundo de sua garganta e o saboreava, enquanto os
lbios dela se moviam ardentemente sobre os dele.
Ele queria jogar para o alto toda a pacincia e o controle que ensinara a si prprio
como forma de vida, e simplesmente devastar.
Ali. A violncia de suas necessidades pareceu entrar em erupo dentro dele. Ali e
naquele instante.
Ele a teria puxado para o cho naquela hora, se ela no tivesse de repente lutado
contra aquilo e se afastado, plida e ofegante.
- Isso no vai acontecer.
- Ao diabo que no vai - replicou ele, de volta.
O perigo estava tremulando em volta dele naquele instante. Ela viu isto to
claramente quanto os instrumentos de violncia e morte que os rodeavam.
Havia homens que sabiam negociar, quando queriam algo. E havia outros que
simplesmente tomavam posse.
- A alguns de ns no  permitido se entregar por completo.
- Danem-se as regras, Eve.
Ele deu um passo na direo dela. Se Eve tivesse recuado, ele a teria perseguido,
como qualquer caador atrs da presa. Mas ela resolveu encar-lo com firmeza, e
balanou a cabea.
- No posso comprometer a investigao de um crime por estar atrada fisicamente
por um suspeito.
- Mas que droga, eu no a matei!
Foi um choque ver o controle dele desaparecer. Ouvir a fria e a frustrao em sua
voz, testemunhar essa raiva passar vividamente pelo seu rosto. E era aterrorizante
compreender que ela acreditava nele, sem ter certeza, sem estar completamente certa
se acreditava porque precisava acreditar.
- No  to simples assim aceitar a sua palavra. Tenho um trabalho a fazer, uma
responsabilidade com a vtima, com o sistema. Tenho que me manter objetiva, e eu...
No posso, ela compreendeu. No consigo.
Eles continuaram a se olhar fixamente, e de repente o comunicador em sua bolsa
comeou a tocar.
As mos dela no estavam completamente firmes quando ela se virou de costas e
pegou o pequeno aparelho. Reconhecendo o cdigo do Departamento de Polcia no
display, digitou sua identificao. Depois de inspirar profundamente, respondeu ao
chamado para ter sua voz reconhecida.
- Dalas, Tenente Eve. Sem som, por favor, apenas imagem. Roarke s estava
conseguindo v-la de perfil, enquanto ela lia a transmisso. Foi o suficiente, porm,
para avaliar a mudana brusca em seus olhos, a forma com que se tornaram
sombrios, e a seguir voltaram a ficar neutros e frios.
Ela desligou o comunicador, e ao se virar para ele havia muito pouco da mulher
que acabara de vibrar em seus braos.
- Tenho que ir. Vamos manter contato a respeito de seus pertences.
- Voc faz isso muito bem - murmurou Roarke. - Veste a sua pele de tira com muita
rapidez, e ela encaixa certinho em voc.
-  melhor assim. No se d ao trabalho de me acompanhar. Encontro a sada.
- Eve.
Ela parou na porta e olhou para trs. Ali estava ele, uma figura vestida de preto e
rodeada por sculos de violncia. Dentro da pele da policial, o seu corao de mulher
estremeceu.
- Ns nos veremos novamente - afirmou ele.
- Pode contar que sim - concordou ela.
Ele a deixou ir, sabendo que Summerset iria se materializar por trs de alguma
sombra para devolver o casaco de couro e lhe desejar uma boa noite.
Sozinho, Roarke pegou no bolso o pequeno boto revestido com tecido cinza que
encontrara no cho da limusine. O mesmo boto que se despregara do palet daquele
horrvel conjunto cinza que ela usara na primeira vez em que ele a vira.
Estudando-o com ateno, e sabendo que no tinha nenhuma inteno de
devolv-lo, sentiu-se tolo.
CAPTULO SEIS
Um recruta estava de guarda na porta do apartamento de Lola Starr. Eve viu logo
que era um novato, pois ele mal parecia ter idade para tomar uma bebida alcolica,
seu uniforme parecia ter acabado de sair da Seo de Suprimentos e sua pele tinha
um leve tom esverdeado.
S alguns meses depois de comear a trabalhar naquela vizinhana  que um
policial parava de ter nsias de vmito diante de um cadver. Viciados, prostitutas de
rua e bandidos em geral gostavam de retalhar uns aos outros naqueles quarteires
asquerosos, s por diverso, ou por algum tipo de lucro. Pelo cheiro que sentiu do
lado de fora do apartamento, Eve sabia que algum positivamente tinha sido morto ali
recentemente, ou ento o caminho de reciclagem de lixo no passava desde a
semana anterior.
- Policial. - Cumprimentou ela, fazendo uma pausa e exibindo o distintivo. O rapaz
se colocara em posio de alerta no momento em que ela colocara o p fora da
lamentvel imitao de elevador. O instinto a avisara, corretamente, de que se no
mostrasse a identidade bem depressa, receberia uma carga da arma de choque que o
rapaz segurava com as mos trmulas.
- Sim, senhora!... Oficial, corrigiu. - Os olhos dele estavam assustados e no
conseguiam parar sobre um lugar fixo.
- Explique a situao.
- Oficial - repetiu ele, e inspirou lenta e profundamente -, o proprietrio do prdio
parou nossa unidade na rua, dizendo que havia uma mulher morta no apartamento.
- E est morta mesmo... - O olhar de Eve baixou at o nome do rapaz, pregado no
bolso do uniforme.
- Policial Prosky?
- Sim, oficial, ela est. - Engoliu em seco, com fora, e Eve viu o horror se instalar
em seus olhos mais uma vez.
- E como foi que voc determinou que a vtima estava realmente morta, Prosky?
Tomou-lhe o pulso?
Um ligeiro rubor, de aparncia pouco mais saudvel que o verde anterior, fez suas
bochechas corarem.
- No, oficial. Segui todos os procedimentos, preservei a cena do crime e notifiquei
a Central. A confirmao da morte foi feita visualmente, e a cena no foi tocada.
- O dono do apartamento entrou l dentro? - Tudo aquilo ela poderia descobrir
mais tarde, mas Eve reparou que o rapaz estava ficando mais confiante enquanto ela
o forava a descrever as providncias que tomara.
- No, oficial, ele afirmou que no. Depois que um dos clientes da vtima reclamou
que tinha um encontro marcado para as nove da noite, o senhorio foi verificar o local.
Destrancou o apartamento e a viu. H apenas um cmodo, Tenente Dalas, e ela
est... A oficial vai v-la, assim que abrir a porta. Depois da descoberta do corpo, o
senhorio, em estado de pnico, desceu para a rua e parou o nosso carro de patrulha.
Imediatamente eu o acompanhei de volta ao local, confirmei visualmente a morte
suspeita e informei  Central.
- Em algum momento voc abandonou seu posto, policial? Mesmo que por alguns
instantes?
- No senhora, digo, tenente. - Os olhos do rapaz finalmente se acalmaram e ele
olhou para Eve. - Por um instante, achei que ia precisar abandonar o posto.  a minha
primeira vez, e tive um pouco de dificuldade para me manter impassvel.
- Pois para mim, parece que conseguiu magnificamente, Prosky. - Na sacola da
criminalstica que trouxera consigo, Eve pegou o spray protetor e o usou. - Chame o
laboratrio e o legista. O lugar precisa ser limpo, e ela vai ter que ser embalada e
etiquetada.
- Sim, oficial. Devo permanecer em meu posto?
- At que o primeiro grupo chegue. Ento, poder fazer seu relatrio. - Terminou de
cobrir as botas com o lquido e olhou para ele. - Voc  casado, Prosky? - perguntou,
enquanto pegava o gravador no bolso da blusa.
- No, oficial. Estou assim, tipo... noivo.
- Depois que fizer seu relatrio, v se encontrar com a sua noiva. Aqueles que
correm para o bar no duram tanto neste trabalho quanto os que procuram algum
quentinho e generoso para se refugiar. Onde est o senhorio? - perguntou, j girando
a maaneta da porta destrancada.
- Est l embaixo, no apartamento 1-A.
- Pea-lhe para ficar aguardando. Vou pegar o depoimento dele quando acabar
aqui.
Entrou e fechou a porta. Eve, que j no era uma novata, no sentiu o estmago
embrulhado diante da viso do corpo, da carne dilacerada ou dos bichinhos de pelcia
respingados de sangue.
Seu corao, no entanto, doeu.
A seguir, veio a raiva, uma lana vermelha e afiada que a atravessou quando
avistou a arma antiga colocada entre os dedos de um ursinho peludo.
- Ela ainda era uma criana.
Eram sete da manh e Eve ainda no tinha ido para casa. Conseguira tirar um
cochilo desconfortvel sobre a mesa de sua sala, em meio a pesquisas de computador
e relatrios. Sem ter o Cdigo Cinco associado  morte de Lola Starr, estava livre para
acessar os bancos de dados do Centro Internacional de Pesquisas Criminalsticas. At
aquele instante, o CIPC no encontrara nenhum padro. Plida, exausta e tensa
devido  energia falsa induzida pela cafena falsa, ela encarava Feeney.
- Ela era uma profissional, Dalas.
- Tinha licena h menos de trs meses. Havia bonecas em sua cama.
Refrigerantes na geladeira. - Eve no conseguia aceitar todas aquelas coisas
ingnuas e infantis nas quais teve que remexer enquanto o corpo da vtima, em estado
lamentvel, continuava deitado sobre lenis baratos, travesseiros embolados e
bonecas. Furiosa, Eve atirou uma foto sobre a mesa. - Parece at que ela era lder de
torcida em alguma escola. Em vez disso, estava atendendo clientes e colecionando
fotos de apartamentos caros e roupas ainda mais caras. Voc acha que ela sabia no
que estava se metendo, Feeney?
- Acho que no imaginou que pudesse acabar morta - respondeu ele, no mesmo
tom. - Voc vai querer agora debater os cdigos legais sobre sexo comigo, Dalas?
- No. - Esgotada, olhou novamente para a foto. - No, mas isto me arrasa,
Feeney. Uma menina, como esta.
- Voc j sabe como essas coisas so, Dalas.
- Sei, eu j sei. - Ela se forou a ser objetiva. - A autpsia dever acabar agora de
manh, mas o exame preliminar determinou que a morte ocorreu pelo menos vinte e
quatro horas antes da descoberta do corpo. Voc j identificou a arma?
- Uma SIG 2-10, um verdadeiro Rolls-Royce entre os revlveres. Fabricado na
dcada de 1980 e importado da Sua. Com silenciador. Os silenciadores daquela
poca s funcionavam bem para abafar dois ou trs tiros. O assassino precisou dele
porque o apartamento da vtima no era  prova de som, como o de Sharon DeBlass.
- E ele no nos telefonou, o que mostra que no queria que desta vez ela fosse
encontrada to depressa. Talvez precisasse ir a algum outro lugar - avaliou.
Pensativa, pegou um pequeno oitavado, oficialmente selado em um plstico.
DUAS DE SEIS
- Uma por semana - disse, baixinho. - Puxa vida, Feeney, ele no est nos dando
muito tempo.
- Estou analisando os arquivos dela, e sua agenda de clientes. Havia um cliente
novo marcado para as oito da noite, anteontem. Se a hora da autpsia for confirmada,
achamos o nosso cara. Feeney sorriu, com ironia. - O nome dele  John Smith.
- Dar esse nome to comum  um golpe mais velho do que a arma do crime. -
Esfregou as mos com fora sobre o rosto. - O CIPC vai tentar descobrir o nome
verdadeiro do nosso rapaz.
- Bem, j esto trabalhando nisso - Feeney murmurou. Era um pouco protetor,
quase sentimental a respeito do trabalho do CIPC.
- No vo encontrar nada. O que temos aqui  um viajante do tempo, Feeney.
- ... - ele bufou -, um verdadeiro Jlio Verne.
- O que temos aqui  um crime tpico do Sculo XX - disse Eve, esticando as
mos. - As armas, a violncia excessiva, a notinha escrita a mo e deixada na cena do
crime. Talvez o nosso assassino seja um tipo de historiador, ou pesquisador, enfim.
Algum que gostaria de que as coisas fossem do jeito que eram no passado.
- Muita gente acha que as coisas poderiam ser melhores se fossem de algum outro
jeito.  por isso que o mundo est cheio de parques temticos de baixo nvel.
- O Centro Internacional de Pesquisas Criminalsticas no vai nos ajudar a entrar
na cabea desse cara. - Pensando, deixou cair as mos. -  preciso ter uma mente
humana para encarar esse jogo. O que  que ele est fazendo, Feeney? Por que est
fazendo isso?
- Est matando acompanhantes sexuais licenciadas.
- Prostitutas sempre foram um alvo fcil, desde Jack, o Estripador, certo?  uma
profisso vulnervel, mesmo hoje em dia. Apesar de todos os aparatos de segurana,
ainda estamos s voltas com clientes que batem nelas e as matam.
- Mas tambm no acontece com tanta frequncia - Feeney argumentou. - s
vezes, com alguns sadomasoquistas, a gente encontra um grupo que se entusiasma
demais com a brincadeira. Mas a maioria das acompanhantes est em mais
segurana do que as professoras.
- Ainda correm riscos. A profisso mais antiga com o crime mais antigo. Mas as
coisas mudaram, pelo menos algumas coisas. As pessoas geralmente no matam
mais com armas de fogo, hoje em dia. Elas so muito caras, e difceis de conseguir. O
sexo, por sua vez, no  o motivo forte que costumava ser.  barato e muito fcil de
conseguir. Temos mtodos diferentes de investigao e uma batelada de novos
motivos. Depois que voc limpa tudo isso, o fato que sobra  que as pessoas
continuam a matar outras pessoas. Continue cavando, Feeney. Preciso falar com
algumas figuras.
- O que voc precisa  de algumas horas de sono, garota.
- Deixe que ele durma - disse Eve, baixinho. - Deixe este canalha dormir. -
Levantando-se com deciso, ela se virou para o tele-link. Estava na hora de entrar em
contato com os pais da vtima.
No momento em que Eve se dirigia  suntuosa entrada do prdio do escritrio de
Roarke no centro da cidade, j estava acordada h mais de trinta e duas horas.
Passara pela tortura de ter que contar a pais chocados e chorosos que sua filha nica
estava morta. Depois, ficara olhando para o monitor at que os dados comearam a
se embaralhar diante de seus olhos.
O encontro com o senhorio de Lola havia sido outra tortura. Depois que o homem
conseguiu se recobrar, gastou mais de meia hora se lastimando e reclamando da
publicidade negativa e da possibilidade de queda no valor dos aluguis.
As pessoas no estavam nem a, pensou Eve, para a empatia humana.
As Indstrias Roarke em Nova York eram exatamente o que Eve esperava.
Arrojado, brilhante e imponente, o edifcio em si se lanava cento e cinquenta andares
para cima, em direo ao cu de Manhattan. Um arpo de bano, cintilante como
pedra molhada, cercado por acessos subterrneos e plataformas para transporte
areo, brilhantes como diamantes.
Por aquelas esquinas no havia vendedores ambulantes de churrasquinho,
reparou. Nem camelos rugindo do rapa com seus computadores de bolso, expostos
em coloridas bandejas flutuantes. Vendedores ambulantes no eram permitidos
naquele pedao da Quinta Avenida. Tal diviso em zonas fazia com que as coisas
fossem mais calmas por ali, ainda que menos emocionantes.
Do lado de dentro, o saguo principal ocupava um quarteiro inteiro da cidade,
exibindo trs restaurantes da moda, uma butique carssima, algumas lojas exclusivas
e um pequeno cinema para filmes de arte.
As lajotas brancas do piso tinham um metro quadrado cada uma, e brilhavam como
a superfcie da lua. Elevadores transparentes zuniam para cima e para baixo, lotados;
esteiras rolantes ziguezagueavam  esquerda e  direita, enquanto vozes sem rosto
guiavam os visitantes para os vrios pontos de interesse ou, no caso de negcios a
tratar, para o escritrio designado.
Para aqueles que queriam circular por ali por conta prpria, havia mais de uma
dezena de mapas mveis.
Eve se dirigiu a um monitor e recebeu uma educada oferta de ajuda.
- Roarke - pediu ela, aborrecida por ver que o nome dele no aparecia na listagem
do diretrio principal do edifcio.
- Desculpe. - A voz computadorizada tinha aquele tom de gentileza exagerada que
pretendia ser tranquilizadora, mas ao invs disso irritou ainda mais os nervos de Eve,
j  flor da pele. - No tenho autorizao para acessar esta informao.
- Roarke - repetiu Eve, segurando o distintivo na linha do scanner do computador.
Aguardou com impacincia enquanto o computador zumbia, sem dvida conferindo e
verificando sua identificao, alm de estar notificando o homem pessoalmente.
- Por favor, prossiga para a ala leste, Tenente Dalas. A senhorita ser recebida.
- Que bom.
Eve virou em uma esquina e passou por um corredor todo revestido de mrmore
que apresentava uma floresta de flores brancas como a neve, e que ela reconheceu
como no-me-toques.
- Tenente. - Uma mulher usando um tailleur vermelho de arrasar e um cabelo to
branco quanto as no-me-toques sorriu friamente. - Acompanhe-me, por favor.
A recepcionista enfiou um fino carto de segurana em uma fenda e colocou a
palma da mo de encontro a uma superfcie de vidro preto, para reconhecimento de
sua impresso. A parede se abriu, revelando um elevador privativo.
Entraram na cabine, e Eve no se surpreendeu quando ela pediu o ltimo andar,
em voz alta.
Tinha certeza de que Roarke no se contentaria com nada que no fosse o melhor.
Sua guia estava calada, e emitia um perfume discreto e sensvel que combinava
com os sapatos igualmente discretos e a insinuante boina. Eve admirava em segredo
as mulheres que conseguiam se arrumar impecavelmente, dos ps  cabea, sem
esforo aparente.
Diante de tal magnificncia serena, Eve se encolheu constrangida dentro de seu
casaco de couro surrado, e ficou pensando se j no estava na hora de gastar algum
dinheiro com um bom corte de cabelo, em vez de picotar as pontas ela mesma, como
fazia.
Antes de conseguir decidir sobre essas questes to fundamentais, duas portas se
abriram dando para um calmo e silencioso hall acarpetado, do tamanho de um
pequeno apartamento. Havia luxuriantes plantas verdes ali. Plantas de verdade: fcus,
palmeiras, e o que pareceu ser um arbusto de corniso com pequenas flores que
brotaram ali, embora estivessem fora de poca. Havia tambm um forte e penetrante
aroma de um apanhado de cravos-da-ndia, que floriam em tons de rosa e roxo vivo.
O jardim circundava uma confortvel rea de espera, com sofs em um tom
arroxeado, mesinhas de madeira envernizadas e abajures que eram certamente feitos
de bronze macio, com cpulas coloridas.
No centro da sala havia um balco circular, equipado to eficientemente quanto a
cabine de um piloto, cheio de monitores, teclados, medidores e tele-links. Dois
homens e uma mulher trabalhavam ali freneticamente, em um bale sincronizado
aparentemente sem interrupo.
Eve foi levada direto em frente, por um corredor lateral envidraado. Uma olhada
para baixo, e ela podia ver toda Manhattan. Ouvia-se msica no ar, que ela no
reconheceu que era Mozart. Para Eve, msica era algo que havia sido inventado
pouco depois do seu dcimo aniversrio.
A mulher com o tailleur arrasador parou mais uma vez, ofereceu uma amostra
fugaz de seu sorriso frio e perfeito, e ento falou a um microfone invisvel.
- Tenente Dalas, senhor.
- Pode mand-la entrar, Caro. Obrigado.
Mais uma vez, Caro colocou a mo sobre uma superfcie de vidro.
- Pode entrar, tenente - convidou, quando o painel se abriu.
- Obrigada. - Apenas por curiosidade, Eve ficou observando enquanto ela ia
embora, tentando compreender como era possvel algum caminhar to
graciosamente sobre saltos finos com quase dez centmetros de altura. Finalmente,
entrou na sala de Roarke.
O ambiente era, como esperava, to impressionante quanto o resto do seu quartelgeneral
em Nova York. Apesar da deslumbrante vista de Manhattan, que se
descortinava de trs das quatro paredes, do teto imponente, pontilhado de focos de
luz, e dos brilhantes tons de topzio e esmeralda dos estofados macios, era o homem
por trs da mesa em bano polido que dominava tudo.
Que diabo existe nesse homem?, pensou Eve mais uma vez, enquanto Roarke se
levantava e lhe lanava um sorriso.
- Tenente Dalas - disse ele, com aquele distante e fascinante sotaque irlands. - 
um prazer, como sempre.
- Pode ser que voc no pense assim quando eu terminar.
- Por que no vem at aqui e comeamos a conversar? - Ele levantou uma
sobrancelha. - Depois, ento, veremos. Aceita caf?
- No tente me distrair, Roarke. - Ela caminhou mais devagar. Ento, para
satisfazer a sua curiosidade, girou o corpo, olhando em volta de toda a sala. Era to
grande quanto um heliporto, e tinha todas as amenidades de um hotel de primeira
classe: servio de bar automatizado, uma poltrona de relaxamento muito bem
acolchoada e completa, com equipamento de realidade virtual, indutores de bemestar,
uma tela gigantesca, naquele momento apagada.  esquerda, um banheiro
completo, incluindo banheira de hidromassagem e tubo de secagem. Todo o
equipamento padro de escritrio, com a mais alta tecnologia, estava instalado.
Roarke ficou olhando para ela com uma expresso afvel. Admirava o modo com
que ela se movia, o jeito que aqueles olhos frios e rpidos tinham de captar tudo em
volta.
- Quer que eu lhe mostre o prdio, Eve?
- No. Como  que voc consegue trabalhar com tudo isso assim... - usando
ambas as mos, ela fez um gesto amplo em direo s paredes de vidro tratado -
completamente aberto.
- No gosto de me sentir confinado. Voc vai se sentar ou vai ficar vagando pela
sala?
- Vou ficar em p. Tenho algumas perguntas para lhe fazer, Roarke. Voc tem
direito a um advogado presente, neste momento.
- Vou ser preso?
- No agora.
- Ento, vamos reservar os advogados para quando eu for preso. Pergunte.
Embora ela mantivesse os olhos no mesmo nvel dos dele, sabia onde as mos de
Roarke estavam, enfiadas casualmente nos bolsos da cala. Mos revelavam
emoes.
- Na noite de anteontem - comeou ela -, entre oito e dez horas da noite. Voc
poderia verificar onde estava?
- Creio que fiquei aqui at pouco depois das oito. - Com a mo firme, consultou sua
agenda de mesa. - Desliguei o monitor s 8:17, deixei o prdio e fui de carro para
casa.
- Foi de carro - interrompeu ela -, dirigindo, ou foi levado pelo motorista?
- Eu mesmo dirigi. Mantenho um carro aqui. No gosto de deixar meus
empregados esperando at o horrio que me d na telha.
- Tremendamente democrtico de sua parte. - E, pensou, tremendamente
inconveniente tambm. Ela queria que ele tivesse um libi. - E depois?
- Quando cheguei, me servi de um conhaque, fui tomar um banho e troquei de
roupa. Tinha um jantar marcado com uma pessoa amiga.
- A que horas, e quem era essa pessoa amiga?
- Acredito que cheguei l por volta de dez horas. Gosto de ser pontual. Fui  casa
de Madeline Montmart.
- Madeline Montmart, a atriz? - Eve teve uma rpida viso de uma loura cheia de
curvas com uma boca ardente e olhos amendoados.
- Sim, ela mesma. Creio que comemos borracho, um tipo de pombo jovem, se essa
informao ajudar.
Eve ignorou o sarcasmo.
- Ningum pode confirmar suas atividades entre oito e dezessete e dez da noite?
- Algum dos empregados poderia ter notado minha passagem, mas lembre que eu
os pago muito bem e eles esto dispostos a dizer o que eu mandar que digam. - Sua
voz ficou mais cortante. Aconteceu outro assassinato.
- Lola Starr, acompanhante licenciada. Alguns detalhes vo ser liberados para a
mdia dentro de uma hora.
- E outros detalhes, no.
- Voc possui um silenciador, Roarke?
- Vrios. - Sua expresso no mudou. - Voc parece exausta, Eve. Passou a noite
toda acordada?
- Faz parte do trabalho. Voc possui um revlver suo, um SIG 2-10, fabricado em
1980?
- Adquiri um, h cerca de seis semanas. Sente-se.
- Conhecia Lola Starr? - Procurando em sua pasta, Eve puxou uma foto que
encontrara no apartamento de Lola. A linda garota com jeito travesso estava sorrindo,
ousada e cheia de vida.
Roarke abaixou o olhar para a foto quando Eve a pousou em sua mesa, e seus
olhos piscaram. Desta vez a sua voz estava com um trao de alguma coisa que
pareceu a Eve ser pena.
- Ela no tinha idade suficiente para ter licena de acompanhante.
- Fez dezoito anos h quatro meses. Requisitou a licena no dia do aniversrio.
- Nem teve tempo de mudar de ideia, no ? - Os olhos dele se levantaram para se
encontrar com os de Eve. Sim, ele estava com pena. - Eu no a conhecia. No saio
com prostitutas. Nem com crianas. - Pegou a foto, deu a volta na mesa, e a devolveu
a Eve.
- Sente-se.
- Alguma vez voc...
- Droga, sente-se aqui! - Com sbita fria, ele a pegou pelos ombros e a empurrou
sobre uma poltrona. A pasta se abriu, espalhando outras fotos de Lola que no tinham
nada a ver com jeito maroto.
Ela poderia t-las alcanado primeiro. Seus reflexos eram to bons quanto os dele.
Mas talvez Eve quisesse que ele as visse. Talvez precisasse disso.
Agachado, Roarke pegou uma das fotos que havia sido tirada na cena do crime, e
olhou com ateno.
- Meu Deus, Jesus! - disse ele, baixinho. - Voc acredita que eu possa ser capaz
de fazer isso?
- O que eu acredito no vem ao caso. Investigar... - parou de falar quando sentiu
que os olhos dele a estavam aoitando.
- Voc acredita que eu seja capaz disso? - repetiu ele, mais baixo, em um tom que
era cortante como uma lmina.
- No, mas tenho um trabalho a fazer.
- Seu trabalho  podre.
Ela pegou as fotos de volta, e as guardou, respondendo:
- Sim, de vez em quando, .
- Como consegue dormir  noite depois de olhar de perto para algo assim?
Ela hesitou. Embora conseguisse se recuperar em um piscar de olhos, Roarke
notou. Apesar de ficar intrigado pela reao instintiva e emocional de Eve, lamentava
ter sido a causa disso.
- Consigo dormir sabendo que vou pegar o canalha que fez isso. Saia do meu
caminho.
Ele ficou onde estava e colocou a mo em seu brao, que estava rgido.
- Um homem que tem a minha posio sabe ler as pessoas de modo rpido e
certeiro, Eve. No momento, estou lendo que voc est chegando ao seu limite.
- J disse, saia da minha frente.
Ele se levantou, mas, apertando mais o brao dela, colocou-a de p. Continuava
no caminho dela.
- Ele vai fazer isso de novo - disse, com calma. - E o que est consumindo voc 
no saber quando, nem onde, nem com quem.
- No me analise. Temos um departamento inteiro de psiquiatras na folha de
pagamento da polcia para isso.
- E por que j no foi se consultar com um deles? Anda tentando escapar pela
tangente para no ir ao Departamento de Testes.
Os olhos dela se estreitaram.
Ele riu, mas no havia nenhum trao de divertimento no sorriso.
- Tenho contatos, tenente. Voc foi convocada para fazer testes h vrios dias, um
procedimento padro aps a ocorrncia de uma morte justificada, o homem que voc
executou na mesma noite em que Sharon foi morta.
- Fique fora dos meus assuntos - disse ela, furiosa. - E danem-se os seus contatos.
- Do que tem medo? O que receia que eles possam encontrar, se derem uma boa
olhada dentro dessa cabea? Dentro desse corao?
- No tenho medo de nada. - Puxou o brao com fora para se livrar, mas ele
simplesmente colocou a mo em seu rosto. Um gesto to inesperado e to gentil que
seu estmago estremeceu.
- Deixe-me ajud-la.
- Eu... - Algo quase transbordou e se espalhou, como acontecera com as fotos. S
que dessa vez seus reflexos mantiveram tudo guardado. - Estou conseguindo lidar
com isso. - Ela se virou. Voc pode apanhar os objetos que lhe pertencem a qualquer
hora que queira depois das nove, a partir de amanh.
- Eve.
- O qu?
Ela mantinha os olhos focados na porta e continuava andando.
- Quero v-la esta noite.
- No.
Ele se sentiu tentado, muito tentado, a sair correndo atrs dela. Em vez disso,
porm, permaneceu onde estava.
- Eu posso ajudar voc nesse caso, Eve.
Cautelosa, ela parou e se virou. Se Roarke no estivesse sentindo naquele
momento uma desconfortvel sensao de frustrao sexual, era possvel que casse
na gargalhada diante da mistura de desconfiana e zombaria que viu nos olhos dela.
- De que modo?
- Conheo as pessoas que Sharon conhecia. - Enquanto falava, sentiu o escrnio
virar interesse. A desconfiana, no entanto, permaneceu. - No  preciso um
malabarismo mental muito grande para descobrir que voc est  procura de uma
conexo entre Sharon e a garota cujas fotos est carregando. Vou ver se consigo
achar alguma.
- Informaes vindas de um suspeito no tm muito peso em uma investigao.
Mas... - acrescentou, antes que ele pudesse falar - voc pode me avisar.
Ele sorriu, afinal.
-  de se estranhar que eu a queira nua em minha cama? Pode deixar que eu
aviso, tenente - e voltou para trs da mesa. - Nesse meio tempo, procure dormir um
pouco.
Quando a porta se fechou atrs dela, o sorriso desapareceu de seus olhos. Por um
longo momento, ele ficou sentado, em silncio. Apalpando o boto perdido que ainda
carregava no bolso, ativou a sua linha privativa e segura.
No queria que aquele telefonema aparecesse nos registros.
CAPTULO SETE
Eve ficou na frente da tela de segurana, diante do apartamento de Charles
Monroe, e j se preparava para se anunciar quando a porta se abriu. Ele estava de
smoking, com uma capa de casimira atirada de modo negligente sobre os ombros
para contrabalanar a textura cremosa de uma echarpe de seda. Seu sorriso estava
to meticulosamente ajustado quanto a roupa.
- Tenente Dalas, como  agradvel v-la novamente. - Seus olhos, cheios de
elogios que ela sabia que no merecia, analisavam-na de cima a baixo. - E que pena
que eu esteja de sada.
- No vou levar muito tempo. - Ela deu um passo para a frente e ele deu um passo
para trs. - Algumas perguntas apenas, Monroe, aqui, de modo bem informal, ou
formalmente, na Central de Polcia, na companhia de um representante seu, ou um
advogado.
- Entendo. - Suas sobrancelhas bem delineadas se levantaram. - Pensei que
tivssemos superado essa fase. Muito bem, tenente, pode perguntar - Ele fechou a
porta novamente. Vamos ficar no informal,
- Onde estava na noite de anteontem, entre oito e dez da noite?
- Anteontem  noite? - Pegando uma pequena agenda no bolso, teclou alguns
dados. - Ah, sim. Apanhei uma cliente s sete e meia para a apresentao das oito
horas no Teatro Monumental. Esto fazendo a remontagem de uma pea de Ibsen,
uma coisa depressiva. Sentamos na terceira fileira, no centro. A pea acabou pouco
antes das onze, e degustamos um jantar tardio, que pedimos para ser entregue aqui
mesmo. Fiquei envolvido com ela at as trs da manh. - O sorriso cintilou novamente
enquanto ele guardava a agenda. - Isso me livra?
- Se a sua cliente confirmar tudo.
- Tenente, voc est acabando comigo. - O sorriso se transformou em uma
mscara de dor.
- Algum est matando pessoas que tm a sua profisso - atirou ela de volta. -
Nome e nmero, Monroe. - Eve ficou aguardando, at que ele forneceu os dados,
desolado. - Voc conhecia uma mulher chamada Lola Starr?
- Lola, Lola Starr... no me soa familiar. - Pegou a agenda de novo, procurando na
seo de endereos. - Aparentemente, no. Por qu?
- Voc vai ouvir sobre ela nos noticirios da manh - foi tudo o que Eve lhe contou
enquanto abria a porta novamente. At agora, foram s mulheres, Charles, mas se eu
fosse voc, teria muito cuidado ao aceitar clientes novos.
Com uma dor de cabea martelando o crebro, ela seguiu at o elevador. Sem
conseguir resistir, deu uma olhada na direo da porta do apartamento de Sharon
DeBlass, onde a luz vermelha do lacre de segurana da polcia estava piscando.
Precisava dormir, disse a si mesma. Precisava ir para casa e esvaziar a cabea
por uma hora. Mas estava teclando a sua identificao para destravar o lacre e entrar
na casa de uma mulher morta.
Tudo estava em silncio, e no havia ningum. Ela no esperara outra coisa. De
algum modo, tinha a esperana de que surgisse um claro de intuio, mas tudo o que
sentiu foi o pulsar constante em suas tmporas. Ignorando-o, entrou no quarto.
As janelas haviam sido seladas tambm, com spray opaco, para impedir a mdia ou
algum curioso mrbido de passar voando em baixa velocidade por ali para bisbilhotar
a cena do crime. Ordenou s luzes que se acendessem, e as sombras
desapareceram, para revelar a cama.
Os lenis haviam sido retirados e levados para o laboratrio. Fluidos corporais,
cabelos e amostras de pele j haviam sido analisados e cadastrados. Havia uma
mancha sobre o colcho, onde o sangue havia passado atravs do cetim.
A cabeceira em relevo acolchoado estava toda respingada com sangue. Eve se
perguntou se algum se daria ao trabalho de limpar aquilo.
Olhou para a mesa. Feeney levara o notebook para poder procurar pistas nos
discos e na memria interna. Todo o quarto havia sido vasculhado e limpo. No
restava nada a fazer.
Mesmo assim, Eve foi at o armrio, procurando metodicamente em todas as
gavetas, mais uma vez. Quem ser que viria pegar todas aquelas roupas? Perguntou
a si mesma. As sedas, as rendas, as roupas de casimira e cetim de uma mulher que
gostava de sentir a textura dos tecidos caros sobre a pele.
A me, ela imaginava. Por que ela no preenchera um formulrio solicitando a
devoluo das coisas da filha?
Era algo para se pensar.
Entrou no closet, novamente passando por saias, vestidos, calas, capas que
estavam na moda, alm de cafets, jaquetas e blusas, sempre olhando dentro dos
bolsos e forros. Passou ento para os sapatos, todos guardados com capricho dentro
de caixas de acrlico.
Ela tinha apenas dois ps, pensou, com um pouco de irritao. Ningum precisava
de sessenta pares de sapatos. Com cara feia, enfiou a mo no fundo dos sapatos, no
cano das botas e na maciez do interior de plataformas de salto alto.
Lola no tinha tantos sapatos, pensava naquele momento. Dois pares de sapatos
de salto alto ridculos, um par de sanDalas de vinil e um par de tnis com
amortecedores traseiros, tudo empilhado em seu estreito closet.
Sharon, porm, tinha sido to organizada quanto ftil. Seus sapatos estavam todos
cuidadosamente organizados em fileiras de...
Aquilo estava errado. Com a pele arrepiada, Eve deu um passo para trs. Algo ali
estava errado. O closet era to grande quanto um quarto, e cada centmetro do
espao tinha sido meticulosamente utilizado. Agora, havia um buraco de quase trinta
centmetros nas prateleiras. Porque os sapatos estavam empilhados agora em seis
pilhas, em fileiras de oito.
No era essa a maneira que Eve os tinha encontrado quando estivera ali, nem a
forma com que os havia deixado. Eles estavam perfeitamente organizados de acordo
com a cor e o estilo. Em pilhas, ela se lembrava perfeitamente, de quatro, e em doze
fileiras.
Um pequeno erro, pensou, com um leve sorriso. Mas um homem que cometia um
erro estava predisposto a cometer outro.
- D para repetir, tenente?
- Ele recolocou as caixas dos sapatos de maneira errada, comandante. - Tentando
enfrentar o trfego, tremendo de frio enquanto o aquecedor do carro lhe oferecia um
tpido sopro de ar quente em volta dos dedos dos ps, Eve j estava chegando. Um
pequeno dirigvel para turistas deslizava a baixa altitude, com a voz do guia berrando
dicas para fazer compras na calada area, enquanto atravessavam a Quinta
Avenida. Uma equipe idiota de operrios, com licena especial para trabalhar durante
o dia, estava abrindo um tnel de acesso na esquina da Sexta Avenida com a Rua
Setenta e Oito. Eve falou mais alto, para vencer o barulho.
- O senhor pode verificar nos discos de gravao da cena do crime. Eu sei como o
closet estava arrumado. Fiquei impressionada pelo fato de que uma pessoa pudesse
ter tantas roupas e conseguir mant-las to organizadas. Ele voltou l.
- O criminoso voltou  cena do crime? - A voz de Whitney estava seca como
poeira.
- Os clichs so baseados em fatos. - Na esperana de pegar um caminho mais
tranquilo, ela virou para oeste, em uma rua transversal, e acabou empacada atrs de
um lento micronibus. Ser que ningum ficava dentro de casa em Nova York? - Se
no fosse assim, comandante, no seriam clichs - terminou ela, e colocou o carro no
piloto automtico para poder esquentar um pouco as mos colocando-as nos bolsos. -
H ainda outras coisas. Ela mantinha a bijuteria em uma gaveta separada. Anis em
uma seo, braceletes em outra, e assim por diante. Alguns colares estavam
embaraados quando eu os vi de novo.
- Mas o pessoal que limpou o lugar...
- Senhor, eu vasculhei todo o lugar mais uma vez, depois da limpeza. Tenho
certeza de que ele voltou l. - Eve mordeu os lbios de frustrao, e se lembrou de
que Whitney era um homem cauteloso. Todo administrador tinha que ser. - Ele
conseguiu passar pelo lacre da segurana e entrou. Procurava algo, algo que
esqueceu no local. Algo que ela possua. Alguma coisa que a gente deixou passar.
- Voc quer que o local seja vistoriado mais uma vez?
- Quero. E quero que Feeney volte aos arquivos de Sharon. Tem alguma coisa l,
em algum lugar. E  alguma coisa importante o bastante para ele se arriscar a voltar.
- Vou assinar uma autorizao, mas o secretrio no vai gostar muito disso. - O
comandante ficou em silncio por um instante. Ento, como se tivesse acabado de
lembrar que estavam conversando em uma linha totalmente segura, soltou: - Dane-se
o secretrio. Muito bom olho o seu, Eve.
- Obrigada... - mas ele j tinha desligado antes que ela pudesse acabar de
agradecer.
Duas de seis, pensou, e, na privacidade do seu carro, estremeceu mais do que
apenas pela ao do frio. Havia outras quatro pessoas l fora cujas vidas estavam nas
mos dela.
Depois de entrar na garagem, jurou que ia telefonar para o maldito mecnico no
dia seguinte. Se acontecesse como sempre, isso significava que ele ficaria com o
carro dela por uma semana, levando uma surra de algum chip idiota do sistema de
aquecimento do veculo. A ideia da papelada necessria para solicitar um carro
substituto atravs do departamento era terrvel demais para se considerar.
Alm do mais, ela j estava acostumada com aquele, apesar das suas pequenas
maluquices. Todos sabiam que os policiais uniformizados  que recebiam os melhores
veculos de terra e ar. Detetives tinham que se virar com as carroas.
Ela ia ter que se contentar com transporte pblico, ou ento pegar um carro
qualquer na garagem da polcia e pagar o preo da burocracia mais tarde.
Ainda pensando na confuso que ia armar e se lembrando de entrar em contato
com Feeney pessoalmente para faz-lo rever todos os discos de segurana da
semana no Gorham, subiu de elevador at o seu andar. Mal tinha acabado de
destrancar a porta e sua mo j estava no coldre da arma, empunhando-a.
O silncio dentro do apartamento estava errado. Soube na mesma hora que no
estava sozinha. O arrepio ao longo de sua pele a fez olhar de um lado para o outro,
mexendo os olhos e os braos nas duas direes, para a esquerda e para a direita.
Na quase inexistente luminosidade da sala, viu que as sombras se mantinham
imveis e o silncio se mantinha. Ento, sentiu um movimento que fez seus msculos
se retesarem e seu dedo se posicionar no gatilho.
- Reflexos excelentes, tenente. - Roarke se levantou da cadeira de onde estivera
descansando. De onde a estivera observando. To excelentes - continuou, com o
mesmo tom calmo, enquanto acendia uma lmpada -, que tenho certeza de que voc
no vai usar a arma em mim.
Ela poderia ter usado. Ela bem que poderia ter lhe dado um bom susto. Teria
servido para arrancar aquele sorriso complacente da cara dele. Mas qualquer arma
que fosse disparada significava uma papelada imensa que ela no estava disposta a
encarar s por vingana.
- Mas que diabos voc est fazendo aqui?
- Esperando por voc. - Seus olhos permaneceram nela enquanto levantava as
mos. - Estou desarmado. Pode vir verificar, se no acreditar na minha palavra.
Com muito cuidado e alguma relutncia, ela recolocou a arma no coldre.
- Imagino que esteja com um batalho de advogados muito caros e muito espertos,
Roarke, que possam conseguir livrar voc antes que eu acabe de fich-lo por invaso
de domiclio e tentativa de roubo. Por que voc no tenta me oferecer um bom motivo
para eu no me dar ao trabalho de jogar voc em uma cela por pelo menos duas
horas,  custa dos contribuintes?
Roarke ficou se perguntando se era algum tipo de perverso gostar tanto da
maneira com que ela arrasava com ele.
- No seria produtivo, tenente. E voc est cansada, Eve. Por que no se senta?
- No vou me dar o trabalho de perguntar como entrou aqui.
- Ela podia sentir que estava tremendo toda de raiva, e imaginava o quanto de
satisfao teria se conseguisse colocar os elegantes pulsos dele dentro de algemas. -
Voc  dono do prdio, ento esta pergunta responde a si mesma.
- Uma das coisas que admiro  que voc no perde tempo com o bvio.
- Minha pergunta  por qu?
- De repente, me vi pensando em voc, tanto em nvel profissional quanto pessoal,
depois que saiu do meu escritrio. - Ele sorriu, rpido e charmoso. - Voc comeu?
- Por qu? - repetiu.
Ele se encaminhou na direo dela, de modo que o facho de luz que vinha da
lmpada ficou brincando por trs dele.
- Profissionalmente, dei alguns telefonemas que podem ser do seu interesse.
Pessoalmente... - levou a mo at o rosto dela, os dedos no mais do que roando
seu queixo, o polegar se demorando sobre a pequena covinha. - Por algum motivo,
tenho a compulso de alimentar voc.
- Que telefonemas? - Embora soubesse que era o gesto de uma criana malcriada,
puxou o rosto para trs.
- Voc me permite? - perguntou ele no mesmo tom, e simplesmente sorriu
novamente, pegando o tele-link e teclando o nmero que queria. -Aqui fala Roarke.
Pode mandar subir a comida agora mesmo. - Desligou e sorriu para ela. - Voc no
faz objees a massa, no ?
- Em princpio, no. Mas fao objees quanto a ser manipulada.
- Isso  outra coisa de que gosto muito em voc. - E j que ela no ia querer se
sentar, ele o fez, ignorando o franzir de olhos dela, e pegou a cigarreira. - Gosto de
relaxar depois de uma refeio quente. Voc no relaxa o suficiente, Eve.
- Voc no me conhece o bastante para julgar o que eu fao e o que eu no fao.
E eu no disse que voc tinha permisso para fumar aqui.
Ele acendeu o cigarro, olhando-a atravs da nvoa leve e perfumada.
- Se voc no me prendeu por invaso de domiclio, no vai me prender por fumar.
Trouxe uma garrafa de vinho. Coloquei-a sobre a bancada da cozinha, para respirar.
Quer beber um pouco?
- O que eu quero... - Ela teve um sbito lampejo, e a fria veio to depressa que
mal conseguiu enxergar atravs dela. De um salto, ela se colocou na frente do
computador, pedindo acesso.
Isso o aborreceu, o suficiente para transparecer em sua voz.
- Se eu tivesse vindo xeretar seus arquivos, no teria ficado por aqui esperando
pela sua volta.
- Uma ova que no teria. Esse tipo de arrogncia tem a sua cara. - Mas seus
arquivos de segurana estavam intactos. Ela no tinha certeza se ficou aliviada ou
desapontada. At ver o pequeno pacote ao lado do monitor. - O que  isto aqui?
- No fao ideia. - Ele soprou mais uma nuvem de fumaa.
- Estava no cho, do lado de dentro da sua porta. Eu o peguei.
Eve j sabia o que era. O tamanho, o formato, o peso. E sabia que se fosse assistir
quele disco presenciaria a morte de Lola Starr.
Alguma coisa no jeito que os olhos dela mudaram o fez se levantar novamente,
com a voz mais gentil.
- O que  isso, Eve?
- Assunto oficial. Desculpe-me.
Foi direto at o quarto, fechou e trancou a porta.
Foi a vez de Roarke franzir os olhos. Foi at a cozinha, localizou os copos e serviu
um pouco do borgonha. Ela vivia de modo simples, reparou. Poucos objetos. Muito
pouco ali falava do seu passado, ou da sua famlia. Nenhum souvenir. Teve a tentao
de andar pelo quarto de Eve enquanto estava no apartamento, sozinho, para ver o que
mais poderia descobrir a respeito dela, mas resistira  ideia.
No tanto por respeito  privacidade da dona do apartamento, mas sim pelo
desafio que ela representava. Aquilo o provocava a tentar descobrir coisas a partir
dela mesma, em vez de se informar atravs de seus objetos pessoais.
Mesmo assim, achou tanto as cores simples quanto a falta de enfeites muito
elucidativas. Ela no vivia ali, pelo que ele podia ver; simplesmente existia naquele
local. Ela vivia, deduziu, no seu trabalho.
Experimentou o vinho e o aprovou. Depois de apagar o cigarro, levou os dois
clices de volta para a sala de estar. Decifrar o enigma de Eve Dalas prometia ser
mais do que interessante.
Quando ela voltou para a sala, quase vinte minutos depois, um garom todo
vestido de branco estava acabando de preparar os pratos em uma pequena mesa ao
lado da janela. Por mais gloriosos que fossem os aromas, no conseguiram abrir o
apetite de Eve. Sua cabea estava latejando novamente, e ela esquecera de tomar um
remdio para dor.
Com um murmrio, Roarke dispensou o garom. No disse nada at que a porta
de sada se fechasse e ele se visse a ss com Eve mais uma vez.
- Sinto muito.
- Pelo qu?
- Pelo que est afetando voc. - Com exceo daquela exploso de fria, ela
estava plida quando chegou no apartamento. Agora, porm, suas bochechas
estavam completamente sem cor, e seus olhos muito sombrios. Quando ele foi em sua
direo, ela simplesmente balanou a cabea uma vez, com fora.
- V embora, Roarke.
- Ir embora  fcil. Muito fcil. - Deliberadamente, colocou os braos em volta dela,
e a sentiu ficar rgida. - D um minuto a si mesma. - A voz dele era suave e
convincente. - Ser que importaria, realmente importaria a qualquer pessoa que no
voc mesma, se voc tirasse apenas um minuto para deixar isso de lado?
Ela balanou a cabea de novo, mas desta vez havia cansao em seu gesto. Ele
ouviu o suspiro escapar, e, tirando vantagem disso, chegou-a mais para perto. - Voc
no pode me contar?
- No.
Ele concordou, mas seus olhos brilharam com impacincia. Ele devia saber; nada
daquilo deveria ter importncia para ele. Ela prpria no devia ter importncia. Mas
muita coisa a respeito dela lhe interessava.
- Pode contar para mais algum, ento? - murmurou.
- No h mais ningum. - Reparando ento o que poderia ser deduzido disso, ela
se afastou. - Eu no quis dizer...
- Eu sei que no. - O sorriso dele era irnico e no muito divertido. - Mas no vai
haver ningum mais, para ns dois. No por algum tempo.
O passo que ela deu para trs no era uma fuga, mas uma declarao de
distanciamento.
- Voc est contando com muitas coisas como certas, Roarke.
- De modo algum. Nada  garantido. Voc  trabalho, tenente, uma grande
quantidade de trabalho. Seu jantar est esfriando.
Ela estava cansada demais para discutir, cansada demais para argumentar.
Sentou-se e pegou o garfo.
- Voc esteve no apartamento de Sharon DeBlass durante a ltima semana?
- No, por que faria isso?
- Por que algum faria? - Ela o estudou demoradamente. Ele fez uma pausa, e
ento compreendeu que a pergunta no era gratuita.
- Para reviver o evento - sugeriu ele. - Para ter certeza de que nada incriminador
havia sido deixado para trs.
- E como dono do prdio, voc poderia entrar l to facilmente quanto entrou aqui.
Sua boca se apertou ligeiramente. Irritao, ela avaliou, a irritao de um homem
que j estava farto de responder s mesmas perguntas. Era algo pequeno, mas uma
boa indicao da sua inocncia.
-  verdade - respondeu ele. - Eu no creio que tivesse dificuldade para fazer isso.
Minha chave mestra me colocaria l dentro.
No, pensou ela, a chave mestra no teria passado pelo lacre de segurana da
polcia. Isso ia requerer um nvel diferente de autoridade ou um especialista em
segurana.
- Imagino, tenente, que voc suspeita que algum fora do seu departamento
esteve no apartamento depois do assassinato.
- Pode crer que sim - concordou ela. - Quem lida com o seu sistema de segurana,
Roarke?
- Utilizo os servios da Lorimar, tanto para negcios quanto em minha casa. -
Levantou o clice. -  mais simples assim, porque eu sou o dono da companhia.
- Claro que . Suponho que voc conhea muita coisa a respeito de segurana,
tambm.
- Podemos dizer que eu tenho um interesse antigo por questes de segurana. Foi
por isso que comprei a companhia. - Pegou um pouco da massa com ervas, levou o
garfo at os lbios dela e ficou satisfeito quando a viu aceitar a poro oferecida. -
Eve, eu estou com a tentao de confessar tudo, s para tirar esse olhar infeliz de seu
rosto e v-la comer com tanto entusiasmo quanto da outra vez. No entanto, quaisquer
que sejam os meus crimes, e eles so muitos, sem dvida, nenhum deles inclui
assassinato.
Eve olhou para o prato e comeou a comer. O fato de ele conseguir ver o quanto
ela estava infeliz a incomodava.
- O que quis dizer ainda h pouco quando falou que eu era trabalho?
- Voc analisa as coisas com muita preciso e controle, com muito cuidado; pesa
as possibilidades, as opes. No  uma criatura movida por impulso, e, embora eu
acredite que voc possa ser seduzida, com o mtodo apropriado e o toque certo, isso
no seria um fato corriqueiro.
-  isso o que pretende fazer, Roarke? - Ela levantou os olhos de novo. - Tentar
me seduzir?
- Eu vou seduzir voc - rebateu ele. - Infelizmente, no esta noite. Alm disso,
quero descobrir o que a faz ser como . E quero ajud-la a conseguir o que deseja.
Neste exato momento, o que voc precisa  encontrar um assassino. Voc culpa a si
mesma
- acrescentou. - Isso  tolo e irritante.
- Eu no me culpo.
- Ento se olhe no espelho - Roarke falou, baixinho.
- No havia nada que eu pudesse fazer - Eve explodiu. Nada que eu pudesse fazer
para impedir coisa alguma do que aconteceu.
- E voc acha que deve ser capaz de parar isso agora, alguma coisa disso? Tudo?
- Isso  exatamente o que se espera que eu faa.
- Como? - Ele fez a cabea pender para o lado.
- Sendo esperta. - Ela empurrou a mesa. - Sendo precisa. Fazendo meu trabalho.
Havia algo mais ali, ele sentiu. Algo mais profundo. Juntou as mos sobre a mesa.
- E no  o que voc est fazendo agora?
As imagens invadiram-lhe o crebro. Todas as mortes. Todo o sangue. Todo o
desperdcio.
- Agora elas esto mortas. - O gosto das palavras era amargo em sua boca. -
Deveria haver algo que eu pudesse ter feito para impedir isso.
- Para impedir um assassinato antes que ele tivesse acontecido, voc teria que
estar dentro da cabea do assassino - disse ele, com calma. - Quem conseguiria
conviver com isso?
- Eu posso conviver com isso - atirou ela de volta. E era a pura verdade. Ela
poderia viver com qualquer coisa, menos com o fracasso. - Servir e proteger, isso no
 apenas um lema,  uma promessa. Se no consigo cumprir com a minha palavra,
no sou nada. E eu no as protegi, nenhuma delas. Posso servir, mas apenas depois
que elas j esto mortas. Que droga, ela era pouco mais do que um beb. Apenas um
beb, e ele a explodiu em pedaos. No cheguei a tempo. No estava l a tempo de
impedir, e deveria estar.
- Sua respirao foi cortada por um soluo, causando-lhe surpresa. Apertando a
boca com a mo, ela se deixou cair no sof. - Ah, Deus... - era tudo o que conseguia
dizer. - Deus, Deus!
Ele foi at ela. Por instinto, agarrou-lhe os braos com firmeza, em vez de abrala.
- Se no puder ou no quiser conversar a respeito do assunto comigo, vai ter que
fazer isso com algum. Voc sabe disso.
- Eu consigo lidar com o problema. Eu... - Mas o resto das palavras ficou em sua
garganta quando ele a sacudiu.
- E o que isso est custando a voc? - ele quis saber. - E o quanto ia fazer
diferena para algum se voc deixasse o segredo de lado? Por apenas um minuto,
deixasse de lado?
- No sei. - E talvez esse fosse o seu medo, ela compreendeu. Talvez no fosse
mais capaz de mostrar o distintivo, ou empunhar a arma, ou manter a prpria vida,
caso se permitisse pensar muito profundamente, ou sentir em demasia. - Eu a vejo -
disse Eve, soltando um suspiro profundo. - Eu a vejo sempre que fecho meus olhos ou
paro de me concentrar no que precisa ser feito.
- Conte-me.
Ela se levantou, pegou o seu clice de vinho e o dele, e voltou para o sof. Alguns
longos goles ajudaram a sua garganta seca, e acalmaram a parte pior dos seus
nervos. Era fadiga, avisou a si mesma, que a deixava to fraca a ponto de no
conseguir se segurar.
- A chamada veio quando eu estava a meio quarteiro de distncia. Tinha acabado
de encerrar um outro caso, e terminara de registrar os dados. A Central convocou a
unidade mais prxima. Violncia domstica. Isso  sempre complicado, mas eu estava
praticamente na porta. Ento, fui at l. Alguns vizinhos estavam do lado de fora,
todos falando ao mesmo tempo.
A cena voltou em sua mente, com nitidez, como um vdeo que j estivesse no
ponto exato da cena.
- Havia uma mulher de camisola, e estava gritando. Seu rosto estava machucado,
e um dos vizinhos estava tentando colocar uma atadura em seu brao. Ela estava
sangrando muito, ento eu pedi para chamarem uma ambulncia. Ela s ficava
dizendo: Ele a pegou. Ele pegou minha filhinha.
Eve tomou mais um gole.
- Ela me agarrou, me sujou toda de sangue, gritando, chorando e me dizendo que
eu tinha que impedi-lo, tinha que salvar a sua filhinha. Eu deveria ter pedido um
reforo, mas achei que no podia esperar. Subi as escadas, e j conseguia ouvi-lo
antes de chegar ao terceiro andar, onde ele havia se trancado. Estava possesso. Acho
que ouvi a garotinha gritar, mas no tenho certeza.
Fechou os olhos ento, rezando para que estivesse errada. Ela queria acreditar
que a criana j estava morta, j estava alm da dor. Ter estado to perto, apenas a
alguns passos... No, ela no poderia viver com aquilo.
- Ao chegar  porta, agi pelo procedimento padro. Soube o nome dele pelos
vizinhos, e assim o chamei pelo nome e falei tambm o nome da criana.
Normalmente, o contato fica mais pessoal, mais real, se voc usa os nomes das
pessoas. Ento eu me identifiquei e avisei que estava entrando. Mas ele continuava
esbravejando. Dava para ouvir as coisas se quebrando l dentro, mas j no se
conseguia ouvir a criana. Acho que eu pressenti. Antes de arrombar a porta, eu
pressenti. Ele usara a faca de cozinha para retalh-la por completo.
As mos de Eve tremiam enquanto ela levantava o copo novamente.
- Havia tanto sangue! Ela era to pequena, mas havia tanto sangue! No cho,
pelas paredes, em volta dele. Pude ver que o sangue ainda estava pingando da faca.
O rosto da menina estava virado para mim. Um rostinho com grandes olhos azuis,
como os de uma boneca.
Ela ficou em silncio por um instante e ento colocou o clice de lado.
- Ele estava drogado demais para a arma de choque fazer efeito. Continuou vindo
na minha direo. Havia sangue pingando da faca, e respingado em volta dele todo, e
ele continuava vindo. Ento, eu o olhei bem nos olhos, direto nos olhos. E o matei.
- E logo no dia seguinte - Roarke disse, com a voz calma voc mergulhou de
cabea em uma investigao de assassinato.
- A bateria de testes foi adiada. Vou faz-la dentro de um ou dois dias. - Ela
balanou os ombros. - Os psiquiatras vo achar que eu fiquei abalada por ter matado
o homem. Posso faz-los acreditar nisso, se for preciso. Mas no foi esse o caso. Eu
tinha que mat-lo, e consigo aceitar isso. - Olhou direto para os olhos de Roarke e
soube que podia falar para ele o que no tinha sido capaz de falar para si mesma. - Eu
queria mat-lo. Talvez at precisasse daquilo. Quando o vi morrer, pensei, Ele nunca
mais vai fazer isso com outra criana. E fiquei feliz por ter sido eu a elimin-lo.
- E voc acha que pensar isso  errado.
- Tenho certeza de que  errado. Sei que quando uma policial sente prazer por ter
matado algum, ou est envolvida em qualquer tipo de morte, ela ultrapassou um
limite.
- Qual era o nome da menina? - Ele se inclinou de modo que os seus rostos quase
se tocaram.
- Mandy. - E soltou um soluo antes que conseguisse impedir. - Tinha trs anos.
- Voc acha que ficaria assim arrasada se o tivesse matado antes de ele a ter
alcanado?
- Acho que jamais vou saber, no ? - perguntou ela, abrindo e fechando a boca
em seguida.
- Sim, voc sabe. - Ele colocou uma das mos sobre a dela, vendo-a franzir a testa
e olhar para baixo, para o contato dele. Sabe, passei a maior parte da vida tendo uma
antipatia bsica pela polcia, por uma razo ou por outra. Acho muito estranho que eu
tenha encontrado, sob circunstncias to extraordinrias, uma policial pela qual
consigo sentir respeito e atrao ao mesmo tempo.
Eve levantou os olhos de novo, e, embora a testa continuasse franzida, ela no
afastou a sua mo da dele.
- Esse  um elogio estranho.
- Aparentemente, ns dois temos um relacionamento estranho.
- Ele se levantou, colocando-a de p. - Agora, voc precisa dormir. - Olhou para o
jantar que ela mal tocara. - Mais tarde voc pode esquentar o resto, quando estiver
com o seu apetite de volta.
- Obrigada. Da prxima vez, agradeceria muito se voc esperasse at eu voltar,
antes de entrar na minha casa.
- Que progresso! - murmurou ele enquanto se encaminhava para a porta. - Voc
ento aceita o fato de que haver uma prxima vez. - E, com a sombra de um sorriso,
levou a mo que ainda segurava at os lbios. Notou espanto, desconforto e, pensou,
um trao de embarao em seus olhos quando pousou um leve beijo em seus dedos. -
At a prxima, ento - disse ele, e saiu.
Ainda franzindo o rosto, Eve esfregou os dedos nos jeans, enquanto ia para o
quarto. Despiu-se, deixando as roupas ficarem onde tinham cado. Atirou-se na cama,
fechou os olhos e se disps a dormir.
Estava quase cochilando quando se lembrou de que Roarke acabou no lhe
contando para quem telefonara e o que descobrira.
CAPTULO OITO
No seu escritrio, com a porta trancada, Eve reviu o disco do assassinato de Lola
Starr com Feeney. No piscou ao ouvir o leve espocar da arma com silenciador. Seu
sistema j no recuou, naquele momento, diante do estrago que a bala provocou na
carne.
A tela ficou parada nas letras finais: Duas de Seis. Ento, a tela ficou vazia. Sem
dizer uma palavra, Eve pegou o disco do primeiro assassinato, e eles assistiram
Sharon DeBlass morrer, mais uma vez.
- O que voc tem a me dizer? - perguntou Eve quando acabou.
- As gravaes foram feitas com uma MicroCam Trident, aquele modelo de cinco
mil dlares. Foi lanada h uns seis meses,  carssima. Mais de dez mil delas foram
vendidas em Manhattan, s na ltima temporada, sem contar as que entraram pelo
mercado paralelo, ou vieram de outros lugares. No  um nmero to grande quanto
se fosse o caso de um modelo mais barato, mas mesmo assim so cmeras demais
para tentarmos rastrear. - Ele olhou Para Eve, baixando os olhos logo em seguida. -
Adivinhe quem  o dono da Fbrica das Cmeras Trident.
- As Indstrias Roarke.
- Adivinhona! Aposto que as chances de o prprio chefo possuir uma dessas so
bem altas.
- Bem, certamente ele tem a facilidade de conseguir uma delas.
- Eve guardou esse detalhe na cabea e resistiu  lembrana da sensao que
sentira quando os lbios dele roaram seus dedos. - O assassino usa um
equipamento bem caro, de elite, ao qual poucos tm acesso, e que ele prprio
fabricou. Arrogncia ou burrice?
- Burrice no combina com esse rapaz.
- No, no combina. E a arma?
- Localizamos umas duas mil por a, em colees particulares
- comeou Feeney, mordiscando uma castanha de caju. - Trs mil no total, em toda
a cidade. Isso, contando apenas as que foram registradas - acrescentou, com um
sorriso discreto. - O silenciador no precisa de registro, pois no se qualifica como
mortal, por si s. Impossvel rastrear. - Recostando-se, comeou a tamborilar com os
dedos no monitor. - Quanto ao primeiro disco, andei examinando. Descobri algumas
sombras. Tenho certeza de que ele gravou mais do que o assassinato. S que no
consegui recuperar nenhuma imagem. Quem quer que tenha editado o disco conhecia
todos os recursos, ou tinha acesso a equipamento de edio automtica sofisticado.
- E quanto ao pessoal do laboratrio?
- O comandante ordenou que eles voltassem l para vasculhar tudo, mais uma vez,
a seu pedido. - Feeney olhou para o relgio.
- Devem estar no apartamento neste instante. Apanhei todos os discos recentes do
sistema de segurana do prdio e os analisei. Temos um buraco de vinte minutos,
comeando s trs e dez da manh, na noite de anteontem.
- O canalha voltou l valsando, com a maior cara-de-pau murmurou Eve. - A
vizinhana  podre, Feeney, mas  um prdio de alto padro. E ningum reparou nele,
em nenhuma das vezes; isso significa que  um sujeito comum, que se mistura com
facilidade em uma multido.
- Ou ento todos esto muito acostumados a v-lo por l.
- Porque talvez fosse um dos clientes regulares de Sharon. Agora me explique por
que um homem que  cliente regular de uma prostituta cara, sofisticada e experiente
escolhe uma outra, novata, de baixo nvel, poderamos dizer at ingnua como Lola
Starr, para ser sua segunda vtima?
- Ele gosta de variar? - Feeney apertou os lbios.
- No. - Eve balanou a cabea. - Talvez tenha gostado tanto da primeira
experincia que agora resolveu no ser to seletivo. Ainda faltam quatro, Feeney. Ele
nos contou logo de cara que era um assassino em srie. Anunciou isso para nos
mostrar que Sharon no tinha nenhuma importncia em particular. Era apenas a
primeira de seis. - Nesse ponto, ela soltou o ar com fora, insatisfeita. - Ento, por que
foi que ele voltou l? - perguntou baixinho a si mesma. - O que procurava?
- Talvez a equipe que foi fazer a nova busca nos diga.
- Talvez. - Pegou uma lista da mesa. - Vou pesquisar mais uma vez a lista de
clientes de Sharon, e depois vou ver a de Lola.
- Detesto ter que lhe dizer isso, Dalas. - Feeney limpou a garganta e pegou mais
uma castanha de caju. - O senador est exigindo para ser colocado a par dos nossos
avanos.
- No tenho nada de novo para ele.
- Voc vai ter que lhe dizer isso pessoalmente, esta tarde. Em Washington.
- Voc est brincando! - Ela parou a um passo da porta.
- O comandante acabou de me dizer. Voc est marcada para o nibus areo que
sai s duas da tarde. - Feeney pensou resignadamente em como seu estmago reagia
a viagens areas. - Detesto poltica.
Eve ainda estava rangendo os dentes por causa das instrues que recebera de
Whitney quando entrou apressada na rea de segurana
do Senador DeBlass, do lado de fora do seu gabinete no novo prdio do Senado,
em Washington.
Depois de apresentar as identificaes, tanto Eve quanto Feeney foram revistados
eletronicamente, e, de acordo com a nova Lei Federal de 2022, foram obrigados a
deixar as armas.
- Como se a gente estivesse planejando eliminar o sujeito bem aqui, enquanto ele
est sentado em sua mesa - sussurrou Feeney, enquanto eram encaminhados pelo
carpete vermelho, branco e azul.
- No me importaria de dar um susto de leve em vrias dessas figuras aqui da
Segurana. - Rodeada de ternos e sapatos envernizados, Eve parou com uma postura
ligeiramente torta na frente da porta brilhante do gabinete do senador, aguardando
enquanto a cmera interna os liberava.
- Se voc quer saber, acho que toda Washington ficou completamente paranica
desde os grandes atentados terroristas. Feeney olhou com desprezo para a cmera. -
Duas dzias de polticos morreram, e eles jamais se esqueceram daquilo.
A porta se abriu, e Rockman, imaculado em seu bem cortado terno de risca-de-giz,
acenou com a cabea.
- Ter uma boa memria  sempre vantajoso em poltica, Capito Feeney. Tenente
Dalas - acrescentou com outro aceno.
- Agradecemos a sua presteza em nos atender.
- No fazia ideia de que o senador e o meu chefe eram assim to prximos - disse
Eve enquanto entrava. - Ou que ambos estivessem assim to ansiosos por
desperdiar o dinheiro dos contribuintes.
- Talvez ambos considerem a Justia algo que possui um valor incalculvel. -
Rockman fez um gesto na direo da polida mesa de cerejeira macia, certamente de
valor incalculvel, onde DeBlass os aguardava.
O senador, pelo que Eve notou, havia se beneficiado da mudana de temperatura
que ocorrera no pas, muito quente na opinio dela, e tambm da revogao da Lei
dos Dois Mandatos. De acordo com a legislao atual, um poltico poderia manter seu
cargo por toda a vida. Tudo o que tinha a fazer era convencer seus eleitores a
reeleg-lo indefinidamente.
DeBlass certamente parecia estar em casa. Seu gabinete de paredes revestidas
em madeira era to silencioso quanto uma catedral e to reverente quanto sua imensa
mesa, que se assemelhava a um altar, com as cadeiras dos visitantes colocadas de
modo to subserviente como bancos de igreja.
- Sentem-se - rugiu DeBlass, e cruzou suas mos com ns dos dedos grossos
sobre a mesa. - Minhas informaes mais recentes so de que vocs no esto mais
prximos de encontrar o monstro que assassinou minha neta do que estavam h uma
semana. - Suas sobrancelhas pareceram cobrir os olhos. - Para mim, isso  algo difcil
de compreender, considerando os recursos do Departamento de Polcia de Nova York.
- Senador... - Eve se forou a manter em mente as resumidas instrues do
Comandante Whitney: ser respeitosa, usar de tato, e no lhe contar nada que ele j
no soubesse. - Estamos usando todos estes recursos para investigar e recolher
provas. Embora o departamento ainda no esteja, neste instante, em condies de
efetuar uma priso, todos os esforos possveis esto sendo feitos para trazer o
assassino de sua neta diante da Justia. O caso dela  nossa prioridade mais
importante, e o senhor tem a minha palavra de que vai continuar a ser, at que o caso
possa ser encerrado de modo satisfatrio.
O senador ouviu o pequeno discurso, aparentemente, com todo o interesse. Ento
se inclinou, dizendo:
- Estou no ramo de enrolar as pessoas h duas vezes mais anos do que voc tem
de idade, tenente. Assim, no me venha com seu nmero de sapateado ensaiado.
Vocs no descobriram nada.
Dane-se o tato, Eve decidiu, na mesma hora.
- O que ns temos, Senador DeBlass,  uma investigao complicada e delicada.
Complicada devido  natureza do crime; delicada devido  rvore genealgica da
vtima. Na opinio do meu comandante, eu sou a melhor escolha para conduzir as
investigaes.
O senhor est no seu direito de discordar. No entanto, me arrancar do trabalho
para vir at aqui defend-lo  uma perda de tempo. No caso, do meu tempo. - Ela se
levantou. - No tenho nada de novo para lhe relatar.
Com a viso de si mesmo e de Eve na marca do pnalti, Feeney se levantou
tambm com todo o respeito, dizendo:
- Tenho certeza de que o senhor compreende, senador, que a delicadeza de uma
investigao dessa natureza muitas vezes implica um avano lento.  difcil pedir para
que seja objetivo, j que estamos falando da sua neta, mas tanto a Tenente Dalas
quanto eu no temos outra escolha, a no ser a de sermos objetivos.
Com um gesto de impacincia, DeBlass balanou a mo, convidando-os a
sentarem-se novamente.
- Obviamente as minhas emoes esto envolvidas, aqui. Sharon era uma poro
importante da minha vida. Apesar do que ela se tornou, e por mais que eu tenha
ficado desapontado com suas escolhas, ela era sangue do meu sangue. - Sugou o ar
com fora e expirou lentamente. - No posso me contentar com pedaos, fragmentos
de informaes.
- Mas no h mais nada de novo que possamos dizer ao senhor - repetiu Eve.
- Vocs podem me contar a respeito da prostituta que foi assassinada h duas
noites. - Seus olhos voaram na direo de Rockman.
- Lola Starr - ele informou.
- Imagino que as suas fontes de informao sobre Lola Starr sejam to completas
quanto as nossas. - Eve preferiu falar olhando diretamente para Rockman. - Sim, ns
acreditamos que existe uma conexo entre os dois assassinatos.
- Minha neta pode ter sido desencaminhada - interrompeu DeBlass -, mas no
mantinha laos sociais com gente como Lola Starr.
Ora, ento as prostitutas tambm tinham o seu sistema de classes, pensou Eve,
com olhar cansado. Que novidade!
- Ainda no determinamos se elas se conheciam. Mas h poucas dvidas de que
ambas conheceram o mesmo homem. E que este homem as matou. Cada um dos
dois assassinatos seguiu um padro especfico. Usaremos esse padro para
encontrar o assassino. Antes, esperamos, que ele volte a matar.
- Vocs acreditam que ele o far. - afirmou Rockman.
- Estou certa que sim.
- A arma do segundo crime - quis saber DeBlass - era do mesmo tipo?
-  parte do padro - contou Eve. No queria revelar mais do que isso. - Existem
bsicas e inegveis similaridades entre os dois homicdios. No h dvida de que o
mesmo homem  o responsvel. - Mais calma, Eve tornou a se levantar. - Senador, eu
jamais conheci a sua neta, no tinha nenhum lao pessoal com ela, mas me sinto
pessoalmente ofendida por um assassinato. Vou atrs dele at peg-lo.  tudo o que
posso lhe dizer.
- Muito bem, tenente. - Ele a estudou por um momento e viu mais do que esperava
ver. - Obrigado por ter vindo.
Liberados, Eve caminhou com Feeney at a porta. Pelo espelho ela viu DeBlass
fazer um sinal para Rockman, e viu quando o auxiliar concordou. Ela esperou at se
ver fora do prdio antes de falar.
- O filho da me vai nos seguir.
- Hein?
- O co de guarda de DeBlass. Vai virar nossa sombra.
- Mas, para qu?
- Para ver o que a gente faz, aonde a gente vai. Por que voc manda seguir
algum? Vamos despist-lo no caminho - disse a Feeney, enquanto acenava para um
txi. - Fique de olho para ver se ele vai seguir voc at Nova York.
- Seguir a mim? E para onde  que voc vai?
- Vou seguir o meu faro.
No foi uma manobra das mais difceis. A ala leste do terminal de embarque da
National Transport estava sempre tumultuada. Ficava ainda pior na hora do rush,
quando todos os passageiros que se dirigiam para o norte ficavam esmagados uns
contra os outros andando pela linha de segurana e seguiam, como em rebanho,
conduzidos por vozes computadorizadas. Tanto o transporte pblico quanto as
aeronaves e veculos terra-ar pertencentes a particulares iam formar um grande
engarrafamento.
Eve simplesmente se perdeu na multido, ficou espremida em um terminal de
transferncia que ia para a ala sul, e pegou uma linha do metro que ia para a Virgnia.
Aps se acomodar no vago, ignorando a massa que saa s quatro horas e
seguia para casa, no paraso dos bairros elegantes, pegou o diretrio de bolso. Pediu
o endereo de Elizabeth Barrister, e depois instrues de como chegar l.
At agora seu nariz tinha funcionado. Estava na linha certa do metro, e teria que
fazer apenas uma baldeao em Richmond. Se continuasse com sorte, talvez
conseguisse encerrar a pequena viagem e estar de volta ao seu apartamento antes do
jantar.
Com o queixo apoiado no punho, brincava com os controles da tela do vdeo.
Normalmente teria passado direto pelas manchetes, algo que costumava fazer, mas,
quando um rosto muito familiar apareceu na tela, parou para olhar.
Roarke, pensou ela, estreitando os olhos. Esse cara realmente vive surgindo. Com
os lbios apertados, ligou o udio e colocou o fone de ouvido.
... e neste projeto internacional e multibilionrio, as Indstrias Roarke, Tokayamo e
Europa vo juntar as mos, anunciava o locutor. Levou mais de trs anos, mas
parece que o to esperado e discutido Olympus Resort vai finalmente comear a ser
construdo.
Olympus Resort. Eve ficou pensando naquilo, pesquisando em seus arquivos
mentais. Uma espcie de paraso de frias para os muito ricos e poderosos, lembrou.
Uma estao espacial construda e voltada totalmente para o prazer e entretenimento.
Torceu o nariz. No era a cara dele enterrar tanto tempo e dinheiro em ostentaes?
Se no perdesse a sua ltima camisa de seda feita sob medida naquilo,
provavelmente ia fazer outra fortuna.
Roarke, uma pergunta, por favor, pedia uma reprter.
Eve observou Roarke fazer uma pausa durante a descida de um comprido lance de
escadas e levantar apenas uma sobrancelha, exatamente do jeito que ela se lembrava
que ele fazia, diante da interrupo da reprter.
Poderia dizer-nos, senhor, por que gastou tanto tempo, esforo e uma
considervel quantidade de seu prprio capital neste projeto, que muitos acham que
jamais vai decolar?
Mas decolar  exatamente o que ele vai fazer, de certa forma, replicou Roarke.
Quanto ao porqu, o Olympus Resort vai ser um refugio dedicado ao prazer. No
consigo encontrar nada que valha mais a pena do que isso para investir o meu tempo,
esforo e capital.
Voc no conseguiria encontrar mesmo, Eve decidiu, e olhou para cima bem a
tempo de perceber que estava quase perdendo sua parada. Saiu correndo na direo
da porta do vago, xingou o computador que a repreendeu por ter corrido, e fez a
mudana de trem para Fort Royal.
Quando chegou novamente  superfcie, nevava. Flocos suaves e vacilantes
pousavam em seus cabelos e ombros. Os pedestres pisavam com fora, remexendo
toda a neve que j se acumulava nas caladas, mas quando ela conseguiu um txi e
lhe informou o destino, achou o redemoinho de neve mais pitoresco.
Ainda havia paisagens rurais para se apreciar, se a pessoa tivesse muito dinheiro e
prestgio. Elizabeth Barrister e Richard DeBlass possuam ambos, e sua casa era uma
imponente residncia de dois andares revestida com tijolos rosados, postada no alto
de uma elevao e rodeada de rvores.
A neve estava pura e intocada sobre o extenso gramado cercado, pelo que
pareceu a Eve serem cerejeiras com galhos nus guarnecidos por uma pesada camada
branca. O porto de segurana era uma sinfonia artstica de ferro encaracolado. Por
mais decorativo e leve que parecesse, Eve tinha certeza de que era seguro como um
cofre. Inclinando-se para fora da janela do txi, Eve exibiu o distintivo para o scanner.
- Tenente Dalas. Departamento de Polcia do Estado de Nova York.
- A senhorita no est registrada na lista de pessoas que esto sendo aguardadas,
Tenente Dalas.
- Sou a policial encarregada do caso DeBlass, e preciso fazer algumas perguntas 
Senhora Barrister ou ao Senhor Richard DeBlass.
Houve uma pausa, durante a qual Eve comeou a tremer de frio.
- Por favor, salte do veculo, Tenente Dalas, e aproxime-se do scanner para uma
identificao mais apurada.
- Lugar difcil de entrar - o motorista do txi resmungou, mas Eve simplesmente
encolheu os ombros e obedeceu.
- Identificao confirmada. Por favor, libere seu transporte, Tenente Dalas. A
senhorita ser recebida no porto.
- Ouvi dizer que apagaram a filha deles em Nova York - disse o motorista enquanto
Eve pagava a corrida. - Aposto que eles no esto querendo se arriscar. Quer que eu
v um pouco para trs e fique esperando a senhora sair?
- No, obrigada. Mas vou anotar o seu nmero e pedir para que venha me pegar
quando estiver pronta para ir embora.
Com uma pequena saudao, o motorista deu r e foi embora. O nariz de Eve j
estava comeando a ficar dormente quando ela avistou o pequeno carro eltrico que
se aproximava do porto. As volumosas grades de ferro trabalhado comearam a se
abrir.
- Por favor, aproxime-se e entre no carro - um computador convidou. - A senhorita
ser levada at a casa. A Senhora Barrister vai receb-la.
- Estupendo. - Eve entrou no carro e se deixou ser levada silenciosamente at os
degraus da frente da casa de tijolos. No momento em que comeava a subir a escada,
a porta se abriu.
Ou os criados eram obrigados a usar roupas pretas, ou a famlia ainda estava de
luto. Eve foi educadamente encaminhada para uma sala ao lado do saguo.
Enquanto a casa de Roarke havia simplesmente sussurrado ostentao, aquela ali
exibia uma fortuna antiga. Os carpetes eram espessos, as paredes todas revestidas
de seda. As largas janelas ofereciam uma estonteante viso de montes que se
sucediam e neve que caa. E solido, pensou Eve. O arquiteto deveria ter
compreendido que as pessoas que iriam morar ali preferiam se sentir isoladas.
- Tenente Dalas. - Elizabeth se levantou. Havia um trao de nervosismo no
movimento estudado, na postura rgida e, Eve notou, nos olhos tristes e sombrios que
mostravam pesar.
- Obrigada por me receber, Senhora Barrister.
- Meu marido est em uma reunio l dentro. Posso interromp-lo, se houver
necessidade.
- No creio que haja.
- A senhorita veio por causa de Sharon.
- Sim.
- Por favor, sente-se. - Elizabeth indicou uma poltrona estofada com um tecido em
tom de marfim. - Posso lhe oferecer alguma coisa?
- No, obrigada. Vou tentar no tomar muito do seu tempo. No sei quanto do meu
relatrio a senhora teve a chance de ler...
- Li tudo - interrompeu Elizabeth. - Eu acho. Pareceu-me bem completo. Como
advogada, tenho toda a certeza de que, quando a senhorita encontrar a pessoa que
matou minha filha, ter construdo um caso bem slido.
-  o que pretendo. - Os nervos dela esto  flor da pele, reparou Eve, observando
a forma com que Elizabeth retorcia os dedos. - Sei que este  um momento muito
difcil para a senhora.
- Ela era minha nica filha - disse Elizabeth, simplesmente.
- Meu marido e eu ramos... somos... partidrios da poltica de ajuste da
natalidade. Dois pais - explicou com um sorriso fino.
- Um s herdeiro. A senhorita tem alguma informao nova para me oferecer?
- No, no momento. A profisso de sua filha, Senhora Barrister, provocava algum
atrito na famlia?
Com outro dos seus gestos lentos e estudados, Elizabeth alisou a saia longa e
respondeu:
- No era a profisso que eu sonhei que a minha filha seguisse. Evidentemente, a
escolha foi dela.
- Seu sogro deve ter se oposto a isso. Com certeza, sendo um poltico, ele era
contra.
- As ideias do senador sobre a legislao sexual em vigor so bem conhecidas.
Como lder do Partido Conservador, ele est,  claro, trabalhando para mudar as
atuais leis referentes ao que popularmente se chama de Questes Sociais.
- A senhora compartilha das ideias dele?
- No, no compartilho, embora no consiga compreender a relevncia deste fato.
Eve balanou a cabea. Ah, havia atritos ali, sem dvida. Eve ficou se perguntando
se a advogada fluente e despojada concordava em alguma coisa com o sogro
falastro.
- Sua filha foi morta possivelmente por um cliente, ou possivelmente por um amigo
pessoal. J que a senhora e sua filha tinham desentendimentos causados por seu
estilo de vida, seria bastante improvvel que ela tivesse confidenciado  senhora
alguma coisa a respeito das pessoas que conhecia em nvel profissional ou pessoal.
- Entendo. - Elizabeth cruzou as mos e se forou a pensar como advogada. - A
senhorita est supondo que, como me dela, como uma mulher que poderia ter
compartilhado alguns pontos de vista semelhantes, Sharon poderia ter me procurado,
talvez para dividir comigo alguns dos detalhes mais ntimos de sua vida. Apesar de
seus esforos, os olhos de Elizabeth se encheram de lgrimas. - Lamento, tenente,
mas no foi o caso. Sharon raramente me contava alguma coisa. Certamente jamais a
respeito de seus assuntos. Ela estava... afastada de mim e do pai dela. Na verdade,
afastada da famlia inteira.
- Ento, a senhora no saberia, caso ela tivesse um amante em particular, de
algum com quem estivesse envolvida em um nvel mais pessoal? Um homem que
talvez pudesse ter um acesso de cimes?
- No. Posso lhe dizer que no acredito que ela tivesse algum assim. Sharon
tinha... - Elizabeth respirou profundamente para se acalmar antes de continuar -
desprezo pelos homens. Sabia que podia atra-los. Desde muito novinha, ela sempre
soube. E os achava tolos.
- Acompanhantes profissionais so rigidamente avaliadas. Uma antipatia, ou um
desprezo, como a senhora colocou,  geralmente uma das razes para ter a licena
negada.
- Mas ela tambm era muito esperta. No havia coisa alguma em sua vida que
desejasse e no encontrasse um meio de conseguir. Exceto a felicidade. Sharon no
era uma mulher feliz. - Elizabeth continuou, e engoliu o bolo que parecia estar preso
na garganta. Eu a mimei,  verdade. No posso culpar ningum por isso, exceto a
mim mesma. Queria ter mais filhos. - Ela apertou a mo sobre os lbios at lhe
parecer que eles haviam parado de tremer. - Filosoficamente, eu era contra ter outros
filhos, e meu marido tinha uma posio muito clara a respeito disso. Mas nada disso
impedia a nsia de querer mais crianas para amar. Eu amava Sharon, demais. O
senador vai lhe dizer que eu a estraguei, eu a mimei demais, fui indulgente com ela. E
ele tem razo.
- Eu diria que desempenhar o papel de me era um direito seu, no dele.
Essas palavras trouxeram a sombra de um sorriso aos olhos de Elizabeth.
- O mesmo podemos dizer dos erros, e eu os cometi muitos. Richard tambm,
embora a amasse tanto quanto eu. Quando Sharon se mudou para Nova York,
tivemos atritos com ela por causa disso. Richard chegou a implorar para que ela no
fosse. Eu a ameacei. E acabei afastando-a, tenente. Ela me disse que eu no a
compreendia, jamais a tinha compreendido e nunca conseguiria isso, e que eu
enxergava apenas o que queria, a no ser que estivesse em um tribunal; o que ocorria
em minha prpria casa, era invisvel para mim.
- O que ela estava querendo dizer?
- Que eu era melhor como advogada do que como me, suponho. Depois que ela
partiu, eu me senti magoada, zangada. Recuei, certa de que ela me procuraria. Mas
ela no o fez,  claro.
Parou de falar por um momento, como se estivesse recolhendo os
arrependimentos.
- Richard foi visit-la uma ou duas vezes, mas no adiantou nada, e serviu apenas
para aborrec-lo. Acabamos deixando o assunto de lado, deixamos Sharon para l.
At recentemente, quando senti que precisvamos fazer uma nova tentativa.
- E por que, recentemente?
- Os anos passam - murmurou Elizabeth. - Eu imaginava que ela fosse ficar
cansada do seu estilo de vida, com o tempo, e que talvez comeasse a lamentar o
rompimento com a famlia. Fui v-la pessoalmente, h coisa de um ano. Mas ela
apenas se mostrou hostil, na defensiva, e finalmente me insultou quando tentei
convencla a voltar para casa. Richard, embora j tivesse desistido, se ofereceu para
ir at l conversar com Sharon. Mas ela se recusou a receb-lo. At mesmo Catherine
tentou - murmurou ela, e massageou de forma distrada para aplacar a dor entre os
olhos. - Ela foi visitar Sharon h poucas semanas.
- A Deputada DeBlass foi at Nova York para ver Sharon?
- No especificamente. Catherine estava na cidade para uma campanha de
arrecadao de fundos, e fez questo de ver Sharon e tentar conversar com ela. -
Elizabeth apertou os lbios. - Fui eu que pedi isto a ela.  que, quando eu tentei
reabrir um canal de comunicao com Sharon, ela no estava interessada. Eu a tinha
perdido - continuou Elizabeth, baixinho - e, quando percebi, era tarde demais para
recuper-la. J no sabia sequer como traz-la de volta. Tinha esperana de que
Catherine pudesse ajudar, sendo da famlia, mas sem ser me dela.
Olhou para Eve novamente.
- Tenente, a senhorita deve estar achando que era eu que deveria ter ido mais uma
vez, em pessoa. Que era meu dever ir.
- Senhora Barrister...
- A senhorita tem razo,  claro. - Elizabeth balanou a cabea. - Mas Sharon se
recusou a confiar em mim. Achei que deveria respeitar sua privacidade, como sempre
fizera. Nunca fui uma daquelas mes que ficam espionando o dirio da filha.
- Dirio? - Eve ligou as antenas. - Ela mantinha um dirio?
- Sim, ela sempre teve um dirio, desde menina. Mudava a senha de acesso a ele,
regularmente.
- E depois de adulta?
- Tambm. Ela se referia a ele de vez em quando, e soltava piadinhas a respeito
dos segredos que s ela sabia e sobre as vrias pessoas que conhecia e que ficariam
apavoradas ao ver o que ela havia escrito sobre elas.
No havia nenhum dirio no inventrio, Eve lembrou. Essas coisas podiam ser to
pequenas quanto um batom. Se o pessoal do laboratrio que vasculhara tudo no o
encontrara da primeira vez...
- A senhora por acaso tem um desses dirios?
- No. - Repentinamente alerta, Elizabeth olhou para cima.
- Sharon os guardava em um cofre bancrio, me parece. Ela os mantinha l, todos
eles.
- Ela usava algum banco aqui da Virgnia?
- No que eu saiba. Vou verificar e ver o que consigo encontrar. Posso procurar
nas coisas que ela deixou aqui.
- Agradeceria muito. Se a senhora se lembrar de alguma coisa, qualquer coisa, um
nome, um comentrio, no importa que parea casual, por favor, entre em contato
comigo.
- Certo. Ela nunca me falava dos amigos, tenente. Eu me preocupava com isso, ao
mesmo tempo que costumava ter esperanas de que a falta de amigos pudesse trazla
de volta para casa e tir-la da vida que escolhera. Cheguei at mesmo a usar um
dos meus amigos pessoais, imaginando que ele pudesse ser mais persuasivo que eu.
- E quem era esse amigo?
- Roarke. - Elizabeth ficou novamente com lgrimas nos olhos e lutou para evitlas.
- Poucos dias antes de ela ser assassinada, eu o chamei aqui. Conhecemo-nos h
anos. Perguntei-lhe se ele poderia conseguir que ela fosse convidada para uma festa
 qual eu j sabia que ele ia comparecer; e se ele poderia abord-la. Ele se mostrou
relutante. Roarke no  o tipo de homem que se mete em problemas familiares. Mas
apelei para a nossa amizade. Pedi que ele encontrasse um meio de fazer amizade
com ela, e que mostrasse a Sharon que uma mulher atraente no precisa usar apenas
a sua aparncia para se sentir valorizada. Ele fez isso por mim, e por meu marido.
- A senhora pediu a ele que desenvolvesse um relacionamento com Sharon? -
perguntou Eve, com cautela.
- Pedi que ele se tornasse amigo dela - corrigiu Elizabeth. Para se mostrar
presente quando ela precisasse. Pedi isso a ele porque no h ningum em quem eu
confie mais. Sharon havia se isolado completamente de todos ns, e eu precisava de
algum em quem pudesse confiar. Ele jamais a magoaria, entenda. Jamais magoaria
algum que eu amasse.
- Porque ele ama a senhora?
- Porque se importa com ela. - Richard DeBlass falou, da porta. - Roarke se
importa muito com Beth e comigo, alm de algumas outras pessoas selecionadas.
Amar? No acredito que ele fosse correr o risco de sentir uma emoo to instvel.
- Richard! - O controle de Elizabeth oscilou quando ela se colocou de p. - Eu no
o esperava to cedo.
- Acabamos antes do previsto. - Foi at a mulher e fechou as mos sobre as dela. -
Voc deveria ter me chamado, Beth.
- Eu no quis... - Ela parou de falar, olhando para ele, sem resposta. - Pensei que
pudesse lidar com isso sozinha.
- Voc no tem que lidar com nada sozinha. - Manteve a mo fechada sobre a da
mulher enquanto se voltava para Eve. - A senhorita deve ser a Tenente Dalas.
- Sim, Senhor DeBlass. Eu tinha algumas perguntas e achei que seria mais fcil se
viesse faz-las pessoalmente.
- Eu e minha mulher estamos dispostos a cooperar em tudo o que pudermos. - E
continuou de p, uma posio que pareceu a Eve uma mistura de poder e
distanciamento.
No havia vestgios dos nervos de Elizabeth ou de sua fragilidade no homem que
estava diante dela. Ele estava assumindo o controle, Eve decidiu, protegendo a
mulher e guardando as prprias emoes com igual cuidado.
- A senhorita estava fazendo perguntas a respeito de Roarke
- continuou. - Posso perguntar por qu?
- Eu contei  tenente que eu tinha pedido a Roarke para se encontrar com Sharon.
Para tentar...
- Ah, Beth! - Ele, com um gesto que mostrava tanto cansao quanto resignao,
balanou a cabea. - O que poderia ele conseguir? Por que trouxe o nome dele para
dentro desta histria?
Elizabeth deu um passo para se afastar dele, com o rosto to cheio de desespero
que o corao de Eve se comoveu.
- Eu sei que voc me disse para deixar isso para l, que ns tnhamos que
esquec-la. Mas eu precisava tentar mais uma vez. Ela poderia ter se conectado com
ele, Richard. Ele tem jeito para essas coisas, - Ela comeou a falar mais depressa,
com as palavras se atropelando. - Roarke poderia t-la ajudado, se eu tivesse pedido
isso a ele mais cedo. Quando ele dispe de tempo, no h quase nada que no
consiga. Mas ele no teve tempo suficiente. Nem a minha menina.
- Tudo bem - murmurou Richard, e colocou a mo no brao dela. - Tudo bem.
Ela conseguiu se controlar novamente, retrocedeu e voltou a se aproximar,
perguntando:
- O que posso fazer agora, tenente, a no ser pedir por justia?
- Eu vou lhe conseguir justia, Senhora Barrister.
- Acredito que v. - Fechou os olhos e se agarrou a isto. Antes, no tinha tanta
certeza, mesmo depois de Roarke ter me ligado para falar a seu respeito.
- Ele ligou para a senhora... para discutir o caso?
- Ligou para saber como estvamos, e para me dizer que achava que a senhorita
viria me ver pessoalmente em breve. - Ela quase sorriu. - Ele raramente se engana.
Disse-me que eu ia ach-la competente, organizada e dedicada. A senhorita . Estou
grata por ter tido a chance de constatar isso por mim mesma e saber que a senhorita
est encarregada das investigaes sobre o assassinato de minha filha.
- Senhora Barrister - Eve hesitou apenas por um momento antes de assumir o
risco. - E se eu lhe dissesse que Roarke  um dos suspeitos?
Os olhos de Elizabeth se arregalaram, mas voltaram a se acalmar quase de
imediato.
- Eu lhe diria, tenente, que a senhorita est tomando um caminho totalmente
errado.
- Porque Roarke  incapaz de cometer um assassinato?
- No, no diria isso. - Para Elizabeth era um alvio pensar, apenas por um
momento, em termos objetivos. - Incapaz de um ato insensato, sim. Ele poderia matar
a sangue frio, mas jamais algum indefeso. Poderia matar, e no me surpreenderia se
o fizesse. Mas faria a algum o que fizeram com Sharon? Antes, durante e depois?
No. No Roarke.
- No. - Richard fez eco  voz da mulher, e sua mo buscou a dela mais uma vez. -
No Roarke.
No Roarke, Eve pensou novamente quando j estava no txi a caminho do metro.
Mas por que, afinal, ele no lhe contou que se encontrara com Sharon DeBlass para
prestar um favor pessoal  sua me? E o que mais ele no lhe havia contado?
Chantagem. De algum modo, ela no conseguia v-lo como vtima de chantagem.
Ele no daria a mnima para o que fosse dito ou divulgado a seu respeito. Mas o dirio
mudava as coisas, e tornava a chantagem um novo e intrigante motivo.
O que ser que Sharon registrara naqueles dirios, e a respeito de quem? E onde,
afinal, estavam os malditos dirios?
CAPTULO NOVE
Foi fcil despist-lo - disse Feeney, enquanto empurrava para o lado algo que
passava por caf da manh na lanchonete da Central de Polcia. - Eu vi que ele
estava me marcando. Depois, ficou procurando em toda parte por voc, mas havia
gente demais. Ento, entrei correndo no avio.
Feeney encarava os ovos irradiados acompanhados de caf forte e puro sem
torcer o nariz, e continuou:
- Ele entrou no avio tambm, mas viajou na Primeira Classe. Quando samos, ele
j estava esperando, e foi s a que reparou que voc no estava l. - Feeney apontou
para Eve com o garfo. Ficou revoltado e deu um telefonema. Ento fui eu que fiquei
atrs dele e o segui at o Hotel Regente. Eles no gostam muito de contar nada sobre
os hspedes, no Regente. Quando a gente mostra o distintivo, ficam muito ofendidos.
- Ento voc explicou, com todo o tato, a respeito de deveres cvicos.
- Certo. - Feeney empurrou seu prato vazio para a fenda de reciclagem, esmagou a
xcara vazia com a mo e a colocou no mesmo buraco. - Ele deu dois telefonemas.
Um para Washington e um para a Virgnia. Depois fez uma ligao local, para o nosso
chefo, o Secretrio de Segurana.
- Merda.
- Sim. O Secretrio Simpson anda mexendo os pauzinhos para DeBlass, no h
dvida. Faz a gente pensar que pauzinhos so esses.
Antes que Eve tivesse chance de fazer algum comentrio, seu comunicador tocou.
Ela atendeu  chamada, que vinha do seu comandante.
- Dalas, esteja na Seo de Testes, em vinte minutos.
- Senhor, tenho um encontro com um informante a respeito do caso Colby, s nove
horas.
- Marque isso para outra hora. - Sua voz estava sem emoo.
- Vinte minutos.
- Acho que ns conhecemos um daqueles pauzinhos - disse Dalas, enquanto
guardava lentamente o comunicador.
- Parece que DeBlass est desenvolvendo um interesse pessoal por voc. -
Feeney estudou o rosto dela. No havia um tira em toda a fora que no detestasse a
Seo de Testes. - Voc vai conseguir passar por isso, numa boa?
- Sim, claro. S que vai me tomar a maior parte do dia, Feeney. Faa um favor
para mim. Pesquise os bancos de Manhattan. Preciso saber se Sharon DeBlass
mantinha um cofre em algum deles. Se no encontrar nada, estenda a pesquisa para
as regies vizinhas.
- Certo.
A Seo de Testes era um labirinto de corredores compridos, alguns deles
envidraados e outros pintados em um tom de verde-claro, que supostamente era
calmante. Mdicos e tcnicos usavam branco. A cor da inocncia e,  claro, do poder.
Quando Eve entrou na primeira ala de vidros reforados, o computador,
educadamente, ordenou que ela retirasse a arma. Eve a tirou do coldre, colocou-a na
bandeja e ficou observando enquanto era levada para longe por uma correia
deslizante.
Aquilo a fez se sentir nua antes mesmo de ser encaminhada  Sala de Testes l-C,
onde mandaram que ela se despisse.
Colocando as roupas no banco designado para isso, tentou no pensar nos
tcnicos que a estavam observando em seus monitores ou atravs das mquinas
cruelmente silenciosas que deslizavam ao redor dela com suas luzes piscantes e
impessoais.
O exame fsico foi fcil. Tudo o que ela tinha que fazer era ficar de p sobre a
marca no cho, no centro de um cilindro, e ficar olhando as luzes apitarem e piscarem
enquanto seus rgos internos e ossos eram avaliados em busca de possveis falhas.
Ento, era permitido que ela vestisse um macaco azul e se sentasse enquanto
uma mquina se aproximava em ngulo, diante dela, para examinar os olhos e
ouvidos. Outra, que saa de uma das fendas na parede, fazia um teste padro para
medir reflexos. Para dar um toque pessoal, um tcnico entrava para tirar uma amostra
de sangue.
Por favor, saia pela porta marcada Testes 2-C. A Fase Um est completa, Dalas, Tenente
Eve.
Na sala adjacente, Eve recebeu instrues para se deitar sobre uma mesa
acolchoada para a varredura do crebro. Ningum queria nenhum tira com um tumor
no crebro incitando-os a sair por a explodindo civis, pensou, entediada.
Eve conseguia ver os tcnicos atravs da parede de vidro, enquanto o capacete
era abaixado sobre sua cabea.
Ento os jogos comearam.
A mesa em que estava se ajustou para a posio de sentada e ela foi brindada
com uma sesso de realidade virtual. O simulador a colocou em um veculo em meio a
uma perseguio em alta velocidade. Sons explodiam em seus ouvidos: o barulho das
sirenes, gritos de ordens conflitantes que vinham do comunicador do painel. Ela
conseguiu ver que se tratava de uma unidade padro da polcia, totalmente armada.
Ela estava com o controle do veculo, e tinha que desviar e fazer manobras bruscas
para evitar passar por cima de uma variedade de pedestres que o computador
colocava em seu caminho.
Com uma parte do crebro, tinha conscincia de que os seus sinais vitais estavam
sendo monitorados: presso sangunea, pulsao, at mesmo a quantidade de suor
que saa de seus poros e a saliva que era formada e logo secava em sua boca. Estava
quente, quase insuportavelmente quente. Eve tirou um fino de um veculo que
transportava comida e que surgiu fazendo barulho na sua frente.
Ela reconheceu o local. Era a antiga zona porturia do lado leste. Conseguia sentir
o cheiro: gua, peixe podre e suor. Trabalhadores temporrios, usando seus
macaces azuis, estavam em busca de um donativo ou de um dia de trabalho. Passou
voando baixo por um grupo deles que se acotovelavam, tentando um posto de
trabalho em frente a um centro de alocao de operrios.
Suspeito armado com facho direcional e explosivo de mo. Procurado por roubo com
homicdio.
Que timo, pensou Eve enquanto continuava ziguezagueando de um lado para o
outro atrs dele. Realmente timo. Pisou fundo no acelerador, deu um golpe de
direo e arrancou o pra-lama do veculo em fuga, provocando uma chuva de
fagulhas. Um jorro de chamas passou zunindo ao lado de suas orelhas quando ele
atirou nela. O dono de um dos vages de carga do porto mergulhou para escapar do
carro, junto com vrios clientes. Fardos de arroz voaram para todos os lados, junto
com palavres.
Ela golpeou mais uma vez o alvo com o prprio carro, ordenando ao seu grupo de
apoio que se colocasse mais adiante em posio de barricada.
Desta vez, o carro perseguido estremeceu e se inclinou. Enquanto ele lutava para
manter o controle do veculo, ela usou o prprio carro para golpe-lo e obrig-lo a
parar. Fez a sua identificao padro aos gritos e o avisou enquanto se projetava do
carro. Ele saiu atirando e ela o alvejou, fazendo-o cair.
O choque que recebeu da arma fez o sistema nervoso do suspeito se alterar. Eve o
observou enquanto ele tremia no cho e se urinava todo, para a seguir desmaiar.
Mal tinha tido tempo de respirar e se reajustar ao mundo real, e os cretinos dos
tcnicos a jogaram em uma nova cena. Os gritos, os gritos da garotinha; o rugir furioso
do homem que era pai da menina.
Tinham conseguido reconstruir a cena quase  perfeio, utilizando o prprio
relatrio que ela fizera, imagens do local e o espelho de sua memria, cujo
levantamento tinham acabado de fazer com o scanner.
Eve no se importava de xing-los, mas segurou seu dio e sua dor, e se viu
sendo atirada novamente no passado, subindo as escadas e de volta ao seu
pesadelo.
No havia mais gritos da garotinha. Ela bateu na porta, anunciando o seu nome e
informando o seu posto. Avisando o homem no outro lado da porta, tentando acalmlo.
- Putas! Vocs so todas putas! Entre, sua piranha. Vou mat-la. A porta se
rompeu como se fosse de papelo, quando Eve a arrombou com o ombro.
- Ela era igual  me, igual  maldita me dela. Pensou que podiam escapar de
mim. Pensou que podiam. Eu resolvi o problema. Acabei com as duas. E agora vou
acabar com voc, sua tira piranha.
A garotinha estava olhando para ela com os olhos vidrados, imensos, mortos.
Olhos de boneca. Seu indefeso corpinho estava mutilado, com o sangue se
espalhando, formando uma poa, e pingando da faca.
Ela o mandou parar. Seu filho da me, abaixe a arma. Abaixe a droga da faca!
Mas ele continuava vindo. Ela o atingiu com a arma de atordoamento, mas ele
continuava vindo.
A sala cheirava a sangue, a urina, a comida queimada. As luzes estavam fortes
demais, no havia cortinas, e a luminosidade era ofuscante, e tudo adquiria um relevo
berrante. Uma boneca com o brao faltando estava sobre o sof rasgado, uma janela
torta deixava entrar na sala um brilho vermelho vivo de um anncio luminoso em non
do outro lado da rua, a mesa barata de plstico moldado estava revirada, e havia a
tela rachada de um tele-link quebrado.
A garotinha com olhos mortos. A poa de sangue que se espalhava. E o brilho
agudo e gosmento de sangue que vinha da faca.
- Vou enfiar isso dentro da sua xereca, como acabei de fazer com ela.
Ela o atordoou mais uma vez. Seus olhos ficaram mais arregalados e furiosos,
cheios de Zeus caseiro, a maravilhosa droga que transformava homens em deuses,
com todo o poder e insanidade que acompanhavam os delrios de imortalidade.
A faca com a lmina vermelha e encharcada veio com um golpe de cima para
baixo, zunindo no ar.
E ela o abateu.
O choque penetrou primeiro em seu sistema nervoso. Seu crebro morreu antes,
de modo que seu corpo comeou a sofrer convulses e tremia sem parar, enquanto os
olhos se transformavam em vidro. Resistindo  necessidade de gritar, ela chutou a
faca para longe da sua mo ainda trmula e olhou para a criana.
Os imensos olhos de boneca olhavam fixamente para ela, e lhe diziam, uma vez
mais, que ela chegara tarde demais.
Forando o corpo a relaxar, ela no deixou que nada mais penetrasse em sua
mente, a no ser o relatrio que tinha que fazer.
A sesso de simulao com o uso de realidade virtual estava terminada. Seus
sinais vitais foram registrados novamente, antes de Eve ser levada para a fase final
dos testes. A entrevista com a psiquiatra.
Eve no tinha nada contra a Doutora Mira. Era uma profissional dedicada  sua
vocao. Se trabalhasse em um consultrio particular, ganharia o triplo do salrio que
conseguia no Departamento de Segurana da Polcia.
Tinha uma voz calma, com um leve sotaque da classe alta da Nova Inglaterra.
Seus olhos azul-claros eram gentis e penetrantes. Aos sessenta anos, parecia
confortvel com a meia-idade, e muito longe de parecer uma pessoa idosa.
Seus cabelos tinham um tom de mel escuro, e viviam presos na parte de trs da
cabea em um coque muito elaborado e impecvel. Usava um palet em tom de rosa,
absolutamente limpo e sem rugas, com um tranquilizador alfinete circular, de ouro, na
lapela.
No, Eve no tinha nada contra ela, pessoalmente. Simplesmente detestava
psiquiatras.
- Tenente Dalas. - Mira se levantou de uma poltrona azul quando Eve entrou na
sala.
No havia nenhuma mesa, nenhum computador  vista. Aquele era um dos
truques, Eve sabia. Fazer com que os avaliados se sentissem relaxados e
esquecessem que estavam sob intensa observao.
- Doutora. - Eve se sentou na poltrona que Mira indicara.
- Estava para me servir de um pouco de ch. Voc me acompanha?
- Claro.
Mira se moveu com graa at o aparelho, ordenou dois chs, e levou as xcaras
at as poltronas.
- Foi uma pena que o seu teste tenha sido adiado, tenente. Com um sorriso, ela se
sentou e provou o ch. - As concluses do processo so mais apuradas e certamente
mais benficas quando as observaes so feitas nas vinte e quatro horas seguintes
ao incidente.
- Foi algo que no pudemos evitar.
- Estou ciente. Seus resultados preliminares so satisfatrios.
- Que bom!
- Voc continua a recusar a auto-hipnose?
-  opcional. - Eve detestou o tom defensivo de sua voz.
- Sim,  verdade. - Mira cruzou as pernas. - Voc passou por uma experincia
muito difcil, tenente. Existem alguns sinais de fadiga fsica e emocional.
-  que estou trabalhando em outro caso, que est exigindo muito de mim e me
tomando muito tempo.
- Sim, tambm tenho essa informao. Est tomando o medicamento padro para
induo de sono?
Eve experimentou o ch. Era, como ela suspeitara, floral, no aroma e no sabor.
- No. No estou tomando. J passamos por isso antes. As plulas para dormir 
noite so opcionais, e eu opto por no ingeri-las.
- Porque elas limitam o seu controle,
- Isso mesmo. - Eve olhou para a psiquiatra. - No gosto de ser colocada para
dormir, e tambm no gosto de estar aqui. No aprecio estupro cerebral.
- Voc considera nossos testes um tipo de estupro?
No havia um s tira em toda a Fora que no achasse isso. Eve respondeu:
- No  algo que se faz por escolha, certo? Mira suspirou, intimamente.
- Tenente, a eliminao de um suspeito, no importam as circunstncias,  uma
experincia traumtica para um policial. Se o trauma afetar as emoes, as reaes e
a atitude, o desempenho do policial vai diminuir. Se o uso de fora terminal foi
provocado por um problema fsico, tal problema deve ser localizado e reparado.
- Conheo as regras, doutora. Estou cooperando por completo. Apenas no sou
obrigada a gostar disso.
- No, no . - Mira, de modo elegante, equilibrou a sua xcara sobre o joelho. -
Tenente, esta  a sua segunda eliminao terminal. Embora isso no seja fora do
comum para uma policial com o seu tempo de servio, h muitos outros que jamais
precisaram tomar tal deciso. Gostaria de saber como se sente a respeito da escolha
que fez, e dos resultados.
Gostaria de ter sido mais rpida, Eve pensou. Gostaria de que aquela criana
estivesse brincando com suas bonecas agora, em vez de estar sendo cremada.
- Considerando que a minha nica escolha era deix-lo me retalhar em pedaos ou
impedi-lo, me sinto bem com a deciso que tomei. Minhas advertncias foram feitas, e
ignoradas. A arma de atordoamento no teve efeito. A prova de que ele ia, realmente,
matar, estava bem no cho entre ns, em uma poa de sangue. Portanto, tambm no
tive problemas com os resultados.
- Voc se sentiu perturbada pela morte da criana?
- Acredito que qualquer pessoa se sentiria perturbada pela morte de uma criana.
Especialmente em se tratando do assassinato monstruoso de algum indefeso.
- E voc nota algum paralelo entre a criana e voc? - perguntou Mira, baixinho, e
viu que Eve se retraiu e se fechou. Tenente, ns duas sabemos que estou
perfeitamente ciente das suas experincias de infncia. Voc sofreu abusos,
fisicamente, sexualmente e emocionalmente. Foi abandonada quando tinha oito anos.
- Isso no tem nada a ver com...
- Acho que tem muito a ver com o seu estado mental e emocional - Mira
interrompeu. - Durante dois anos, entre os seus oito e dez anos, voc viveu em um
abrigo, enquanto seus pais eram procurados. No tem lembrana dos primeiros oito
anos de sua vida, nem do seu nome, nem das circunstncias ou do local de
nascimento.
Embora os olhos de Mira fossem suaves, eram agudos e astutos.
- Voc recebeu o nome de Eve Dalas e foi finalmente colocada para adoo. No
teve controle sobre nada disso. Foi uma criana sofrida e dependente do sistema, que
de muitas maneiras falhou com relao a voc.
Foi necessria toda a fora de vontade de Eve para manter os olhos e a voz firmes
quando disse:
- Da mesma forma que eu, parte do sistema, falhei em meu dever de proteger a
criana. A senhora quer saber como me sinto a respeito, Doutora Mira?
Deprimida. Doente. Arrasada.
- Eu sinto que fiz tudo o que poderia fazer. Passei novamente pelo problema
atravs da simulao em realidade virtual, e tomei a mesma atitude, mais uma vez.
Porque no h como mudar aquilo. Se eu pudesse ter evitado que a criana morresse,
teria feito isso. Se pudesse ter prendido o suspeito, eu o teria feito.
- Mas essas questes estavam fora do seu controle. Megera esperta, Eve pensou.
- Estava sob meu controle a ao terminal de matar o suspeito. Aps utilizar todas
as opes padronizadas, fiz uso do meu controle sobre a situao. A senhora leu o
meu relatrio. Foi uma ao terminal vlida e justificvel.
Mira ficou calada por um momento. Suas habilidades, ela sabia, jamais haviam
sido capazes sequer de arranhar a muralha de defesa externa de Eve.
- Muito bem, tenente. Voc est liberada para reassumir suas funes, sem
restries. Mira estendeu a mo antes mesmo de Eve poder se levantar. -Agora, c
entre ns e extra-oficialmente...
- H alguma coisa? Mira simplesmente sorriu.
-  verdade que com muita frequncia a mente protege a si mesma. A sua se
recusa a trazer  tona os primeiros oito anos de sua vida. Mas aqueles anos fazem
parte de voc. Posso ajudar a traz-los de volta, quando estiver pronta. E, Eve... -
acrescentou com aquela voz calma e controlada -, posso ajud-la a lidar com eles.
- Eu transformei a mim mesma no que sou, e posso viver com isso. Talvez no
queira me arriscar a viver com o resto que ficou para trs. - Eve se levantou e
caminhou em direo  porta. Quando se virou para trs, Mira continuava sentada da
mesma forma que tinha estado, com as pernas cruzadas e uma das mos segurando
a linda xcara. O aroma da infuso de flores continuava no ar. - Agora, um caso
hipottico, doutora - comeou Eve, e ficou aguardando pela concordncia de Mira. -
Uma mulher que possui considerveis privilgios financeiros e sociais escolhe se
transformar em uma prostituta. - Diante da sobrancelha levantada de Mira, Eve xingou
baixinho, com impacincia. - No precisamos enfeitar a terminologia, doutora. Ela
escolhe ganhar a vida fazendo sexo. Esfrega isso na cara de sua famlia bemposicionada,
incluindo o seu av ultraconservador. Por qu?
-  difcil descobrir um motivo especfico atravs de informaes to genricas e
pouco delineadas. A razo mais bvia seria a que essa mulher s consegue descobrir
valor em si mesma e desenvolver a auto-estima atravs de suas habilidades sexuais.
Ela adora ou detesta o ato.
Intrigada com a resposta, Eve se afastou um pouco da porta.
- Se detestasse o ato, por que se tornaria uma profissional nisso?
- Para punir.
- A si mesma?
- Certamente, e a todos aqueles prximos dela.
Para punir, Eve ficou analisando. O dirio. Chantagem.
- Se um homem mata, doutora - continuou ela -, de forma cruel e brutal. Se o
assassinato est vinculado a sexo, e  executado de uma maneira nica e bem
especfica. Ele grava tudo, depois de ter enganado um sofisticado sistema de
segurana. Uma cpia da gravao do assassinato  enviada  pessoa responsvel
pela investigao. Uma mensagem  deixada na cena do crime, uma mensagem que
vangloria o ato. O que  esse homem?
- Voc no est me dando muitas informaes - Mira reclamou, mas Eve
conseguiu ver que conseguira captar a sua ateno.
- Diria que ele  inventivo, comeou ela. - Uma pessoa que planeja tudo,  um
voyeur. Confiante, talvez convencido e arrogante. Voc disse que o ato teve detalhes
especficos, ento mostra que ele quer deixar a sua marca, e quer tambm exibir as
suas habilidades, o seu crebro. Usando a sua experincia, observao e talentos de
deduo, tenente, acha que ele gostou do ato de assassinar?
- Sim. Acho que ele se deleitou, adorou tudo.
- Ento ele certamente vai querer se deleitar novamente Mira acenou com a
cabea.
- J o fez. Dois assassinatos, com menos de uma semana entre eles. Ele no vai
esperar muito, antes de cometer o terceiro, vai?
-  duvidoso. - Mira tomou mais um pouco de ch, como se estivessem discutindo
as ltimas tendncias da moda. - Os dois assassinatos esto conectados de alguma
forma, h algo mais em comum, alm do executante e do mtodo?
- Sexo - respondeu Eve.
- Ah... - Mira colocou a cabea para o lado. - Com toda a nossa tecnologia, com os
surpreendentes avanos que foram alcanados no campo da gentica, ns ainda
somos incapazes de controlar as virtudes humanas e suas falhas. Talvez sejamos
humanos demais para nos permitirmos essa interferncia. As paixes so necessrias
para o esprito humano. Aprendemos isso no comeo deste sculo, quando a
engenharia gentica quase ficou fora de controle.  uma pena que algumas paixes
se distoram. Sexo e violncia. Para alguns, isso ainda  um casamento natural.
Levantou-se para pegar as xcaras e coloc-las ao lado da mquina, e disse:
- Estou interessada em saber mais a respeito desse homem, tenente. Se e quando
voc decidir que quer um perfil completo dele, espero que me procure.
-  um caso com Cdigo Cinco.
- Entendo - disse Mira, olhando para trs.
- Se ns no conseguirmos peg-lo antes do prximo ataque, pode ser que eu
mude de ideia e venha v-la.
- Estarei disponvel.
- Obrigada.
- Eve, lembre-se de que mesmo as mulheres fortes e que fizeram a si mesmas
possuem pontos fracos. No tenha medo deles.
Eve sustentou o olhar de Mira por mais um instante.
- Tenho trabalho a fazer - disse, por fim.
A sesso de testes a deixou tremendo. Eve compensou isso, mostrando-se
grosseira e criando um clima de antagonismo com seu informante, o que quase a fez
perder uma dica importante em um caso envolvendo contrabando de produtos
qumicos. Seu estado de esprito continuava longe de estar elevado quando se
apresentou de volta na Central de Polcia. No havia mensagem alguma de Feeney.
Os outros policiais de sua seo sabiam exatamente onde Eve passara o dia, e
fizeram o possvel para ficar fora do caminho dela. Como resultado disso, ela
trabalhou sozinha e contrariada, por uma hora.
Seu ltimo esforo foi tentar uma ligao para Roarke. No ficou surpresa nem
particularmente desapontada quando foi informada de que ele no estava disponvel.
Deixou um e-mailpara ele, pedindo um encontro, e depois deu o dia por encerrado.
Pretendia afogar as mgoas em alguma bebida barata, ouvindo msica medocre
enquanto assistia  apresentao de Mavis no Esquilo Azul.
O lugar tinha um nvel baixssimo, e ficava muito prximo de ser uma espelunca. A
luz era fraca, a clientela facilmente irritvel, e o servio, deplorvel. Exatamente tudo o
que Eve procurava para aquela noite.
A msica alta a atingiu como uma onda violenta, assim que entrou. Mavis estava
conseguindo manter sua curiosa voz esganiada acima do som da banda, que
consistia em um nico rapaz, todo tatuado, que pilotava um instrumento eletrnico.
Eve dispensou a oferta de um sujeito de casaco com capuz, que lhe props um
drinque em uma das cabines privativas para fumantes. Conseguiu passar atravs da
multido at chegar a uma mesa, apertou um boto para pedir uma dose dupla de
nocaute e se recostou para apreciar a apresentao de Mavis.
Ela no era to m assim, Eve decidiu. Nem to boa, tambm, mas os clientes no
eram muito exigentes. Mavis estava usando tinta sobre o corpo naquela noite, com
seu pequeno e curvilneo corpo servindo de tela para respingos e listras em laranja e
violeta, com manchas estrategicamente colocadas em um tom de esmeralda. O som
dos braceletes e correntes que usava se misturava enquanto ela tremulava o corpo
em volta do palco elevado e apertado. Um passo abaixo, a massa humana girava,
acompanhando-a.
Eve observou um pequeno pacote fechado que passava de mo em mo em volta
da pista de dana. Drogas,  claro. O governo havia feito uma guerra contra elas,
depois as legalizara, a seguir as ignorara. Finalmente, tentou regulamentar seu uso.
Nada parecia ter funcionado.
Eve no conseguiu se empolgar com a ideia de fazer uma batida policial, e em vez
disso levantou a mo e acenou para Mavis.
A parte vocal da cano acabou assim, de repente. Mavis pulou para fora do palco,
apertou-se entre a multido e encostou o quadril pintado na beira da mesa de Eve.
- Oi, estranha!
- Estou bem, Mavis. Quem  o artista?
- Ah, um cara que eu conheo. - Mavis virou de costas e bateu na ndega
esquerda com a unha de trs centmetros de comprimento. - Caruso,  o nome dele.
Veja aqui, ele me autografou. Est tocando de graa, s para tornar seu nome
conhecido. - Seus olhos reviraram quando viu uma garonete colocar um copo
comprido, cheio de um lquido espumante azul, na frente de Eve. Voc pediu um
nocaute? Era melhor pegar logo um martelo e se colocar desmaiada.
-  que hoje o dia foi um coco - murmurou Eve, tomando o primeiro e terrvel gole. -
Nossa! Isto aqui no podia estar pior.
- Posso dar uma parada no showpor um tempinho e ficar aqui com voc. -
Preocupada, Mavis chegou mais perto.
- No, estou legal. - Eve arriscou a vida tomando mais um gole. - S passei para
dar uma olhada no seu nmero, e deixar a cabea esfriar um pouco. Mavis, voc no
est usando esse troo que est rolando por aqui, est?
- Ei, qual ? - Mais preocupada do que insultada, Mavis sacudiu o ombro de Eve. -
Estou careta, limpa. Voc sabe disso.
Tem sempre algum bagulho diferente passando por aqui, mas  tudo coisa leve.
Umas plulas de felicidade, alguns calmantes, uns adesivos para deixar ligado. - Ela
cutucou Eve. - Se voc est a fim de dar uma dura por aqui, bem que podia pelo
menos esperar pelo meu dia de folga.
- Desculpe. - Aborrecida consigo mesma, Eve esfregou as mos sobre o rosto. -
No estou pronta para consumo humano, no momento. Volte para l e cante. Gosto
de ouvir voc.
- T bem. Mas se quiser companhia na hora de cair fora, me d um sinal. Acho que
d para eu sair.
- Obrigada. - Eve se recostou e fechou os olhos. Foi uma surpresa quando a
msica ficou mais calma, quase melodiosa. Se voc no abrisse os olhos e visse o
ambiente, at que no era to mau.
Por vinte crditos Eve poderia ter colocado os culos especiais para aumentar o
bem-estar e relaxar um pouco com as luzes e formas que combinavam e
acompanhavam a msica. Naquele momento, porm, preferia o breu total em seus
olhos.
- Isto aqui no se parece muito com o seu gabinete de trabalho contra a injustia,
tenente.
Eve levantou os olhos e deu de cara com Roarke.
- Para todo lado que eu me viro, voc aparece.
Ele se sentou diante dela. A mesa era to pequena que seus joelhos batiam um no
outro. Sua forma de se ajustar ao pequeno espao foi deixar as coxas escorregarem
por entre as dela.
- Foi voc que me chamou, lembra? E deixou este endereo na Central quando
saiu.
- Eu queria um encontro, no um companheiro de bebida. Olhando para o drinque
sobre a mesa, ele se inclinou e deu uma cheirada.
- Nem vai conseguir, com esse veneno.
- Esta espelunca no serve vinhos finos nem scotch envelhecido.
- Por que no vamos, ento, a algum lugar que sirva? - Ele colocou a mo sobre a
dela com o simples objetivo de v-la olhar com cara feia e puxar a mo.
- Estou com um mau humor terrvel, Roarke. Marque um encontro para quando for
bom para voc, e depois caia fora.
- Um encontro para qu? - A cantora chamou sua ateno. Ele levantou uma
sobrancelha, vendo-a rolar os olhos e fazer gestos.
- Olhe, Eve, a no ser que a cantora esteja tendo algum tipo de ataque, me parece
que ela est fazendo sinais para voc.
Resignada, Eve olhou para cima e balanou a cabea.
-  uma amiga minha. - Ela balanou a cabea mais enfaticamente quando Mavis
sorriu e levantou os dois polegares. - Ela acha que eu me dei bem.
- E est certa. - Roarke pegou o drinque e o colocou sobre uma mesa ao lado,
onde mos vorazes lutaram para peg-lo. Acabei de salvar a sua vida.
- Mas que droga...
- Se quer ficar bbada, Eve, pelo menos escolha alguma coisa que vai deixar o seu
estmago bem revestido. - Ele procurou no cardpio, contraindo os olhos. - No h
nada desse tipo que possa ser adquirido aqui. - Levantando-se, pegou-a pela mo. -
Venha comigo.
- Estou muito bem aqui.
Com toda a pacincia, ele se abaixou at que seu rosto ficou a poucos centmetros
do dela.
- Voc est com a esperana de ficar bbada o suficiente para dar alguns socos
em algum, sem se preocupar muito com as consequncias. Comigo, voc no
precisa ficar bbada, nem tem que se preocupar. Pode me dar quantos socos quiser.
- Por qu?
- Porque h algo de muito triste em seus olhos. E isso me incomoda. - Enquanto
ela estava tentando lidar com a surpresa dessa declarao, ele a colocou de p e j
estava se encaminhando com ela para a porta.
- Vou para casa - ela decidiu.
- No, no vai.
- Escute, meu chapa...
Isso foi tudo o que ela conseguiu dizer antes de perceber que suas costas foram
atiradas de encontro  parede e sentiu que sua boca estava sendo esmagada pela
dele. Eve no lutou. Sua respirao tinha sido sugada pelo inesperado do gesto, pela
tempestade que sentiu nele e pelo choque de uma carncia sbita que a atingiu por
dentro como um punho cerrado.
Foi muito rpido, segundos apenas, antes de ela conseguir liberar a boca.
- Pare com isso - ela exigiu, e se odiou ao perceber que a sua voz no era mais do
que um suspiro trmulo.
- No importa o que pense - comeou ele, lutando para manter a prpria
compostura - existem momentos em que voc precisa de algum. - Com a
impacincia tremendo em torno dele, Roarke puxou-a para fora. - Onde est o seu
carro?
Ela fez um gesto em direo  ponta do quarteiro e o deixou empurr-la pela
calada, dizendo:
- Eu no sei qual  o problema com voc.
- Parece que o meu problema  voc. Sabe com que estava parecendo? - ele
reclamou, enquanto escancarava a porta do carro.
- Sentada naquele lugar com os olhos fechados cheios de olheiras?
- Descrever a cena serviu apenas para aumentar sua raiva. Ele a empurrou para o
banco do carona e deu a volta no carro para tomar ele mesmo o lugar do motorista. -
Qual  a porcaria do seu cdigo?
Fascinada com o aoite de sua exploso temperamental, ela se virou para digitar o
cdigo pessoalmente. Com a tranca desativada, ele apertou a ignio e se afastou
com rapidez dali.
- Eu estava tentando relaxar - disse Eve, com cuidado.
- Mas voc no sabe como - atirou ele de volta. - Guardou tudo a dentro e depois
no conseguiu se livrar da carga. Est caminhando sobre uma linha totalmente reta,
Eve, mas ela  muito estreita.
-  para fazer isso que eu fui treinada.
- Voc no sabe contra o que est lutando, desta vez.
- E voc sabe. - Seus dedos, ao lado, apertaram a ponta do banco.
- Vamos conversar sobre isso mais tarde. - Ele ficou em silncio por alguns
instantes, tentando recompor suas emoes.
- Prefiro conversar agora. Fui visitar Elizabeth Barrister ontem.
- Eu sei. - Mais calmo, ele j estava se ajustando melhor ao ritmo sacolejante do
carro. - Voc est gelada. Ligue o aquecedor.
- Est quebrado. Por que no me contou que ela tinha pedido a voc para se
encontrar com Sharon e conversar com ela?
- Porque Beth me pediu isso em sigilo.
- Qual  o seu relacionamento com Elizabeth Barrister?
- Somos amigos. - Roarke lanou um olhar de lado para Eve. - Tenho poucos
amigos. Ela e Richard esto entre eles.
- E o senador?
- Detesto profundamente o seu ar podre, pomposo e hipcrita - disse Roarke com
toda a calma. - Se ele conseguir ser nomeado por seu partido para concorrer 
presidncia, vou colocar tudo o que possuo na campanha do seu oponente. Mesmo
que seja o demnio em pessoa.
- Voc devia aprender a falar com franqueza, Roarke - disse ela, com a sombra de
um sorriso irnico. - Sabia que Sharon mantinha um dirio?
-  uma suposio natural. Ela era uma mulher de negcios.
- No estou falando de registros profissionais. Era um dirio. Um dirio pessoal.
Segredos, Roarke. Chantagem.
- Ora, ora... - Ele no disse mais nada enquanto trabalhava a informao. - Voc
encontrou o seu motivo.
- Isso ainda precisa ser definido. Voc tem muitos segredos, Roarke.
Ele soltou uma meia gargalhada ao parar diante do porto de casa.
- Voc realmente acha que eu poderia ser a vtima de uma chantagem, Eve?
Imagina que alguma mulher sem rumo e pattica como Sharon ia desenterrar alguma
informao sobre mim que voc, por exemplo, no conseguisse, e us-la para me
prejudicar?
- No. - Seria muito simples. Eve colocou a mo em seu brao. - No vou entrar
com voc, Roarke. - Aquilo no era assim to simples.
- Se eu estivesse trazendo voc aqui para fazermos sexo, ns teramos sexo.
Ambos sabemos disso. Voc queria me ver. Est querendo experimentar o tipo de
arma que foi usada para matar Sharon e a outra vtima, no est?
- Sim. - Eve soltou um breve suspiro.
- Esta  a sua oportunidade.
Os portes se abriram, e ele entrou com o carro.
CAPTULO DEZ
O mesmo mordomo com rosto de pedra estava de guarda na porta. Pegou o
casaco de Eve, com o mesmo ar de leve desaprovao.
- Mande servir caf na sala de tiro, por favor - Roarke ordenou, enquanto
encaminhava Eve escada acima.
Ele estava segurando sua mo novamente, mas Eve decidiu que no se tratava de
um gesto sentimental, mas uma garantia de que ela no se recusaria ir em frente.
Poderia ter dito a ele que estava muito confusa para ir a qualquer lugar, mas descobriu
que apreciava a pequena demonstrao de desagrado por baixo das maneiras
impecveis do homem ao seu lado.
Ao chegarem no terceiro andar, ele passou pela coleo rapidamente, escolhendo
as armas sem afobao nem hesitao. Manipulava aquelas antiguidades com a
competncia da experincia e, notou Eve, a descontrao do uso habitual.
No era um homem que simplesmente comprava as armas para possu-las, mas
algum que fazia uso delas. Ela ficou imaginando se isso contava pontos contra ele.
Ou se ele se importava.
Depois de colocar as armas que selecionara em uma mala de couro, foi at a
parede.
Tanto o console de segurana quanto a porta em si estavam to bem camuflados
em meio a um mural que retratava uma floresta, que ela jamais os teria descoberto. A
imensa iluso visual se abriu para o lado, revelando um elevador.
- Este carro  especial - explicou, enquanto Eve entrava na cabine com ele. - Leva
a alguns lugares restritos. Raramente deso com convidados at a rea de
treinamento de tiro.
- Por qu?
- Minha coleo, e o uso que fao dela, so reservados para os poucos que
conseguem apreci-la.
- Quantas dessas peas voc compra no mercado negro?
- Sempre no papel de tira, no ? - Lanou aquele olhar especial para Eve, e ela
teve certeza de que ao falar isso ele estava prendendo o riso. - Compro apenas
atravs de fontes legais, naturalmente. - Seus olhos desceram at a bolsa que Eve
trazia pendurada no ombro. - Pelo menos enquanto voc continuar com o seu
gravador ligado.
Ela no pde deixar de sorrir de volta.  claro que seu gravador estava ligado. E 
claro que ele sabia disso. Foi uma prova do interesse dela o fato de ter aberto a bolsa
e desligado o gravador manualmente.
- E o outro, de reserva? - perguntou ele, suavemente.
- Voc  espertinho demais para o seu prprio bem, sabia? Disposta a se arriscar,
enfiou a mo no bolso. O gravador adicional era quase to fino como uma folha de
papel. Eve usou a ponta da unha para desativ-lo. - E quanto a voc, agora, Roarke? -
Olhou em volta do elevador quando as portas se abriram. - Existem cmeras e
microfones espalhados em cada centmetro deste lugar.
-  claro. - Esticou o brao de novo para conduzi-la para fora da cabine.
O teto era alto. O ambiente tinha um p-direito elevado e era surpreendentemente
espartano, considerando-se o amor que Roarke
devotava ao conforto. As luzes se acenderam no instante em que eles colocaram
os ps na sala, iluminando paredes lisas pintadas em um tom de areia, um conjunto
de cadeiras de espaldar alto e mesas onde uma bandeja contendo um bule de prata e
xcaras de porcelana j estava pronta.
Ignorando aquilo, Eve foi direto at um console preto brilhante e perguntou:
- Para que serve isto?
- Para uma srie de coisas. - Roarke pousou a mala que carregava sobre uma rea
plana e apertou a palma da mo sobre uma tela de identificao. Surgiu um brilho
suave por baixo dela, enquanto suas impresses eram lidas e aceitas, e ento as
luzes e mostradores do painel se acenderam. - Mantenho um grande suprimento de
munio aqui. - Ele apertou uma srie de botes. Uma bandeja na base do console foi
ejetada. - Tome, voc vai precisar disso. - De uma segunda bandeja, ele pegou
protetores de ouvido e culos de segurana.
- O que  tudo isso, uma espcie de hobbyt - perguntou Eve, enquanto ajustava os
culos. As lentes pequenas e claras envolveram suas rbitas e os plugues para
proteo de ouvido se adaptaram confortavelmente  sua anatomia.
- Sim,  como um hobby.
Sua voz parecia um eco distante, e chegava atravs dos plugues do ouvido,
ligando-os e isolando todos os outros sons. Roarke escolheu um revlver de calibre 38
e o carregou.
- Isto aqui era o equipamento padro da polcia em meados do Sculo XX. A partir
do novo milnio, as armas de nove milmetros passaram a ser usadas.
- As RS-50 foram as armas preferidas durante a Revoluo Urbana - acrescentou
Eve. - E tambm durante toda a dcada de
30 do Sculo XXI.
- Voc estudou a lio. - Ele levantou a sobrancelha, satisfeito.
- Pode crer que sim. - Ela olhou para a arma na mo dele.
- Aprendi, entrando na mente de um assassino.
- Ento voc deve estar sabendo que o laser manual que est dentro do seu coldre
no tinha muito apelo popular at uns vinte e cinco anos atrs.
- O laser NS, com modificaes, tem sido a arma padro da polcia desde 2023. -
Ela olhou para a arma, franzindo os olhos quando ele fechou o cilindro. - No vi
nenhuma arma a laser em sua coleo.
- So brinquedos para tiras, tenente. - Seu olhar se encontrou com o dela, e havia
um trao de riso nele. - So armas ilegais, mesmo para colecionadores. - Apertou um
boto. Na parede ao fundo apareceu um holograma, to surpreendentemente real que
Eve piscou e tremeu ligeiramente, mas logo a seguir se refez.
- Excelente qualidade de imagem - murmurou ela, observando o homem imenso,
com ombros largos como os de um touro, que segurava uma arma que ela no
conseguiu identificar.
- Ele  uma rplica perfeita de um daqueles criminosos brutamontes, tpicos do
Sculo XX. Est com uma AK-47 nas mos.
- Certo. - Ela apertou os olhos para ver melhor. Era mais dramtico do que as fotos
e os vdeos nos quais ela estudara. Uma arma muito popular entre as gangues
urbanas e os traficantes de droga da poca.
- Uma arma de ataque - murmurou Roarke. - Feita para matar. Depois que eu o
ativar, se ele conseguir atingir o alvo, voc vai sentir um ligeiro tremor. Choque eltrico
de baixa intensidade, bem melhor do que a agresso mais dramtica de uma bala de
verdade. Quer experimentar?
- V voc primeiro.
- Tudo bem. - Roarke ativou a tela. O holograma ganhou vida e veio vindo,
balanando a arma. Os efeitos sonoros entraram em ao, de imediato.
A onda repentina de sons ambientais foi to repentina que fez Eve recuar um
passo. Depois, ouviu obscenidades sendo gritadas, barulhos de rua e a exploso
rpida e muito forte do disparo.
Eve observou, de queixo cado, enquanto a imagem esguichou algo que se parecia
demais com sangue. O peito amplo do homem parecia explodir com o impacto,
enquanto seu corpo era lanado para trs. A arma voou em espiral para o ar, e ento
tudo sumiu.
- Meu Deus.
Roarke abaixou a arma, ligeiramente surpreso consigo mesmo por estar se
exibindo, como um menino campeo de jogos eletrnicos e disse:
- No d para mostrar o que uma arma como esta pode fazer ao penetrar em carne
e osso, a no ser que a imagem seja bem realstica.
- , acho que no. - Ela engoliu em seco. - Ele atingiu voc?
- No desta vez.  claro que, quando  apenas um contra um, e quando voc
consegue adivinhar os movimentos do oponente, no  muito difcil vencer a disputa.
Roarke apertou mais botes, e o atirador morto l estava de volta, inteiro e pronto
para atacar. Roarke tomou sua posio com facilidade e de modo automtico, Eve
pensou, como se fosse um tira veterano. Ou, para usar sua prpria expresso, como
se fosse um criminoso brutamontes.
Abruptamente, a imagem comeou a se mexer, e, enquanto Roarke atirava, outros
hologramas comearam a aparecer, em rpida sucesso. Um homem com um tipo de
arma comprida e de aparncia cruel, uma mulher com cara de deboche apontando
uma arma de cano longo, uma Magnum 44, Eve reconheceu, e um menino pequeno e
aterrorizado carregando uma bola.
Eles atacaram e atiraram, xingando, gritando e sangrando. Quando tudo acabou, o
menino estava sozinho no cho, chorando.
- Uma rodada aleatria como esta  mais difcil - disse-lhe Roarke. - Meu ombro foi
atingido.
- O qu? - Eve piscou e focou os olhos nele novamente. Seu ombro?
- No se preocupe, querida. - Ele riu para ela. - Foi s de raspo.
O corao de Eve estava martelando em seus ouvidos, no importava o quanto ela
dissesse a si mesma que sua reao tinha sido ridcula.
- Um tremendo brinquedo, Roarke. Diverso garantida. Voc joga sempre?
- De vez em quando. Pronta para experimentar?
Se ela podia encarar uma sesso de realidade virtual, decidiu, podia lidar com
aquilo.
- Eu topo. Escolha outro padro aleatrio.
-  isso que admiro em voc, tenente. - Roarke selecionou a munio e carregou a
arma. - Sempre encara de frente. Vamos fazer uma rodada de treino primeiro.
Ele fez aparecer um alvo tradicional simples, com crculos e um ponto no meio.
Ficou atrs dela, colocando o revlver calibre 38 em suas mos, com as dele por
cima. Apertou sua face de encontro  dela.
- Voc tem que mirar, porque esta arma no tem sensor de calor e movimento,
como a sua. - Ajustou os braos dela at ficar satisfeito. - Quando estiver pronta para
atirar, deve apertar o gatilho, e no bombe-lo. Vai dar um pequeno coice. No  to
suave ou silenciosa quanto o seu laser.
- Entendi - ela assentiu, baixinho. Era tolice se sentir sensvel s suas mos sobre
as dela,  presso de seu corpo, e ao cheiro dele. - Voc est me apertando.
Ele virou a cabea, apenas o suficiente para fazer seus lbios roarem a ponta de
sua orelha. Era uma orelha inocente, com lbulo no furado, quase doce, como a de
uma criana.
- Eu sei. Tenho que apertar voc mais do que est acostumada. Pode ser que voc
se sinta intimidada. No sinta.
- Eu no me intimido. - E, para provar, apertou o gatilho. Os braos dela foram
arremessados para trs, deixando-a aborrecida. Ela atirou de novo, e depois uma
terceira vez, deixando de atingir o centro, bem na mosca, por menos de dois
centmetros. - Caramba, d para sentir o baque, no ? - Ela girou os ombros para os
lados, fascinada pelo modo com que eles respondiam ao movimento da arma em sua
mo.
- Isso torna o ato mais pessoal. Voc tem uma boa mira. Estava impressionado,
mas falava com um tom suave. -  claro que uma coisa  atirar em um alvo circular, e
outra  atirar em um corpo. Mesmo sendo uma simulao.
Aquilo era um desafio?, ela se perguntou. Bem, j estava preparada.
- Tem mais quantas balas aqui?
- Vamos recarregar a arma totalmente. - Ele programou uma nova srie. A
curiosidade e, ele tinha que admitir, o ego, o fizeram escolher uma bem difcil. - Est
pronta?
- Estou. - Lanou um olhar de relance para ele e ajustou a postura.
A primeira imagem foi a de uma velhinha agarrada a uma sacola de compras com
as duas mos. Eve quase arrancou fora a cabea de um pedestre, mas firmou o dedo
a tempo. Um pequeno movimento surgiu  esquerda, e ela atirou em um assaltante
antes que ele pudesse atingir a velhinha com o cano de ferro que tinha nas mos.
Uma pequena fisgada no quadril esquerdo a fez desviar o olhar de novo, e eliminar um
homem careca que apontava uma arma semelhante  dela.
Eles vieram depressa e em grande quantidade, ento.
Roarke a observava, sem piscar. No, ela realmente no se intimidava, ele avaliou.
Seus olhos permaneciam focados e frios. Olhos de policial. Ele sabia que a adrenalina
de Eve estava em nvel elevado, e que sua pulsao estava martelando. Seus
movimentos, no entanto, eram rpidos e suaves, to estudados como os de um bale.
Seu queixo estava levantado, e a mo, firme.
E ele a desejava, compreendeu ento, sentindo uma presso no peito. Ele a
desejava desesperadamente.
- Conseguiram me atingir duas vezes - disse, quase para si mesma. Abriu o
tambor, sozinha, e o recarregou, como vira Roarke fazer. - Um tiro no quadril, outro na
barriga. Isso me torna uma tira morta ou em pssimas condies. Coloque outra srie.
Roarke atendeu, e ento colocou as mos nos bolsos e ficou observando o
trabalho dela.
Quando acabou, Eve pediu para experimentar o modelo suo. Preferiu o peso e o
desempenho deste. Havia definitivamente uma vantagem sobre um revlver, ela
refletiu. Era mais rpido, a resposta era mais precisa, tinha maior poder de fogo e
dava para recarregar em segundos.
Nenhuma das duas armas se adaptou to confortavelmente  sua mo quanto o
laser, embora ela tivesse achado ambas eficientes, de uma forma primitiva e horrvel.
E os estragos que causavam, a carne dilacerada, o sangue que espirrava, tudo
tornava a morte algo terrivelmente nojento.
- Voc foi atingida desta vez? - perguntou Roarke.
- No, estou limpa. - Embora as imagens j tivessem ido embora, ela continuava a
olhar fixamente para a parede, e os reflexos mentais do que vira brincavam em sua
cabea. - O que elas podem fazer com um corpo... - comentou baixinho enquanto
abaixava a arma. - Ter utilizado uma destas, ter que enfrentar o uso delas dia aps
dia, sabendo que elas tambm poderiam ser usadas contra voc. Quem seria capaz
de enfrentar isso - ponderou -, sem ser um pouco insano?
- Voc seria. - Ele removeu os protetores auriculares e os culos do rosto dela. - A
conscincia e a dedicao ao dever no devem ser comparadas a nenhum grau de
fraqueza. Voc passou pela bateria de testes. Foi difcil, mas voc conseguiu.
- Como  que voc soube disso? - Com cuidado, colocou os protetores ao lado dos
dele.
- Como  que eu soube que voc andou fazendo testes hoje? Tenho contatos.
Como  que eu sei que foi difcil para voc? - Ele envolveu-lhe o queixo com a mo
em concha. - Porque posso ver isso - disse, suavemente. - Seu corao luta com sua
cabea. No sei se voc tem a percepo de que  isto que a torna to boa no seu
trabalho. Ou to fascinante para mim.
- No estou tentando deixar voc fascinado. Estou  procura do homem que usou
as armas que acabei de experimentar; no para sua defesa, mas para seu prazer. -
Ela olhou diretamente nos olhos dele. - No foi voc.
- No, no fui eu.
- Mas voc sabe de algo.
Ele passou com carinho a ponta de seu polegar sobre a covinha do queixo de Eve
antes de abaixar a mo.
- No estou to certo de que sei de alguma coisa. - Foi at a mesa e serviu um
pouco de caf. - Armas do Sculo XX para cometer crimes tpicos do Sculo XX, por
motivos comuns no Sculo XX?
- Ele olhou para ela de relance. - Esse seria o meu palpite.
-  uma deduo simples demais.
- Mas diga-me, tenente, voc consegue brincar de jogos de deduo em Histria,
ou  uma pessoa por demais entrincheirada no agora?
Ela j havia feito a mesma pergunta a si mesma, e estava aprendendo.
- Sou uma pessoa flexvel.
- No, no . Mas  esperta. Quem quer que tenha assassinado Sharon, tinha um
conhecimento, talvez uma afinidade, ou at mesmo uma obsesso pelo passado. -
Sua sobrancelha se levantou, zombeteira. - Eu tenho um bom conhecimento de certos
acontecimentos do passado, e sem dvida uma afinidade por eles. Obsesso?
- Ele deu de ombros. - Isso voc ter que julgar por si mesma.
- Estou trabalhando nisso.
- Estou certo que sim. Vamos fazer um apanhado com o antiquado raciocnio
dedutivo, sem computadores nem anlises tcnicas. Vamos estudar a vtima. Voc
acredita que Sharon era uma chantagista, e isso encaixa. Era uma mulher brava e
desafiadora que precisava de poder. E queria ser amada.
- Voc descobriu tudo isso depois de se encontrar com ela apenas duas vezes?
- Descobri pelos encontros - ofereceu o caf a ela - e por conversas com pessoas
que a conheciam. Amigos e pessoas chegadas achavam que ela era uma mulher
impressionante e enrgica, embora muito reservada. Uma mulher que desprezou a
famlia, ainda que pensasse neles com frequncia. Algum que adorava viver, embora
gostasse de remoer os problemas. Imagino que ns dois j analisamos muita coisa
dessa mesma rea.
- Eu no sabia que voc estava analisando alguma rea relacionada com uma
investigao da polcia, Roarke. - A irritao tomou conta de Eve.
- Beth e Richard so meus amigos, e eu levo as minhas amizades muito a srio.
Eles esto sofrendo, Eve. E no gosto de saber que Beth est se culpando pelo que
aconteceu.
Ela se lembrou dos olhos assustados e dos nervos  flor da pele, e suspirou.
- Tudo bem, eu aceito esse argumento. Com quem voc andou conversando?
- Amigos, como disse, conhecidos, scios. - Ele colocou o caf de lado enquanto
Eve tomava o dela com vagar e circulava pela sala. -  estranho, no , quantas
opinies diferentes e percepes distintas voc pode ouvir a respeito de uma mesma
mulher. Pergunte a um, e vai ouvir que Sharon era leal e generosa. Pergunte a outro e
saber que ela era vingativa e calculista. Um terceiro a via como uma pessoa viciada
em festas, e que jamais conseguia encontrar suficiente excitao na vida. A pessoa a
seguir lhe dir que ela gostava de passar noites calmas, sozinha. Tinha vrios rostos,
a nossa Sharon.
- Usava um rosto diferente para cada pessoa.  bem comum.
- E qual rosto, ou qual papel, a matou? - Roarke pegou um cigarro e o acendeu. -
Chantagem. - Pensativo, soprou uma perfumada nuvem de fumaa. - Ela poderia ser
boa nisso. Gostava de escavar a vida das pessoas e podia apresentar muito charme
enquanto fazia isso.
- E ela usou esse charme em voc.
- Descaradamente. - O sorriso descontrado surgiu de novo.
- Eu no estava disposto a trocar informaes por um pouco de sexo. Mesmo que
ela no fosse a filha de um amigo e uma profissional, no teria conseguido me atrair
usando essas armas. Prefiro um tipo diferente de mulher. - Seus olhos se encontraram
com os de Eve novamente, de modo meditativo. - Ou pensei que preferisse. Ainda no
consegui descobrir por que o tipo de mulher intensa, decidida e cheia de espinhos de
repente me atrai, de forma to inesperada.
- Isso no  lisonjeiro. - Eve se serviu de mais caf e ficou olhando para ele por
sobre a borda da xcara.
- No era para ser. Embora para algum que tem um cabeleireiro mope e
incompetente, e no faz uso dos produtos de beleza padro, voc  uma mulher
surpreendentemente agradvel de se olhar.
- No tenho tempo para ir a cabeleireiros, nem tempo para produtos de beleza. -
Nem, ela decidiu, a disposio de discutir esse assunto. - Continuando a deduo. Se
aceitarmos que Sharon DeBlass foi morta por uma de suas vtimas de chantagem,
onde  que entra Lola Starr?
- Um problema, no ? - Roarke deu uma tragada forte e contemplativa. - Elas no
parecem ter mais nada em comum alm da escolha da profisso.  muito duvidoso
que sequer se conhecessem ou compartilhassem o mesmo gosto para a escolha de
clientes. No entanto houve um deles que, pelo menos por pouco tempo, conheceu as
duas.
- Um que escolheu as duas.
- Sim, voc colocou melhor a questo - concordou Roarke, levantando a
sobrancelha.
- O que voc quis dizer quando falou que eu no sabia em que estava me
metendo?
A hesitao dele foi to leve, to bem disfarada, que quase no deu para
perceber.
-  que eu no estou bem certo se voc compreende o poder que DeBlass possui
ou pode usar. O escndalo do assassinato de sua neta poderia lhe trazer mais poder.
Ele quer a presidncia, e quer ditar a moral e os costumes do pas e do exterior.
- Voc est querendo dizer que ele poderia usar a morte de Sharon politicamente?
Como?
- Poderia retratar a neta como uma vtima da sociedade Roarke apagou o cigarro -
e a atividade de sexo para obter lucro como a arma do crime. Como pode um mundo
que permite a prostituio legalizada, o completo controle da natalidade, dos ajustes
sexuais, e assim por diante, no assumir a responsabilidade pelos resultados?
Eve poderia apreciar essa discusso, mas balanou a cabea.
- DeBlass tambm quer eliminar o banimento das armas. Sharon foi morta por uma
arma que na verdade no est disponvel, sob as leis atuais.
- O que torna tudo mais traioeiro. Ser que Sharon no teria sido capaz de se
defender se ela tambm estivesse armada? - Quando Eve comeou a discordar, ele
balanou a cabea. - No importa muito qual  a resposta, apenas a pergunta em si.
Ser que nos esquecemos dos fundadores deste pas, e dos princpios bsicos do
projeto de nossa nao? O nosso direito de portar armas. Uma mulher  assassinada
em sua prpria casa, em sua prpria cama, vtima da liberdade sexual, e indefesa. E
vtima, sim, muito mais, de seu declnio moral.
Ele deu a volta para desmontar o console e continuou:
-  claro que voc vai argumentar que assassinato por arma de fogo era a regra e
no a exceo no tempo em que qualquer pessoa que tivesse o dinheiro e a vontade
podia comprar uma arma, mas ele vai abafar isso. O Partido Conservador est
ganhando terreno, e ele  o ponta-de-lana. - Roarke ficou observando enquanto ela
se servia de mais caf. - J ocorreu a voc que pode ser que ele no queira que o
criminoso seja pego?
- Por que motivo? - com a guarda baixa, ela o olhou admirada. - Alm do nvel
pessoal, isso no daria a ele ainda mais munio? Vejam, aqui est o lixo humano
imoral, a escria que assassinou a minha pobre e desencaminhada neta.
- Mas isso  um risco, voc no acha? Talvez o assassino seja algum respeitvel
e importante, um pilar da sua comunidade, egualmente desencaminhado. - Ele
esperou um momento, aguardando que ela analisasse as ideias por completo. - Quem
voc imagina que quis ter certeza de que voc passaria por aquela bateria de testes
no meio deste caso? Quem  que est vigiando cada passo que voc d, monitorando
cada etapa de sua investigao? Quem ser que est cavando o seu passado e a sua
vida pessoal, tanto quanto seu desempenho profissional?
- Eu suspeito que DeBlass fez um pouco de presso no caso da bateria de testes. -
Abalada, ela pousou a xcara. - Ele no confia em mim, ou ento ainda no conseguiu
decidir se eu sou competente o suficiente para comandar a investigao. E ele fez
com que Feeney e eu fssemos seguidos desde que samos de Washington. - Ela
soltou um longo suspiro. - Como  que voc sabe que ele anda pesquisando a minha
vida? S porque voc tambm est fazendo isso?
Ele no se importou com a raiva nos olhos dela, ou a acusao. Ele preferia aquilo
ao olhar de preocupao que outra mulher teria mostrado.
- No, porque eu o estou vigiando, enquanto ele vigia voc. Resolvi que ia ser
muito mais satisfatrio aprender sobre voc atravs da prpria fonte, com o tempo, do
que lendo relatrios. - Ele se aproximou, passando os dedos pelos cabelos picados
dela. Respeito a privacidade das pessoas com quem me importo. E eu me importo
muito com voc, Eve. No sei por qu, exatamente, mas voc faz brotar alguma coisa
em mim.
Quando ela comeou a recuar, ele apertou mais os dedos, e completou:
- Estou cansado de todas as vezes que temos um momento a ss voc colocar um
assassinato no meio.
- Existe um assassinato entre ns.
- No. No mximo, ele foi apenas o que nos trouxe at aqui.  esse o problema?
Voc no consegue se livrar da Tenente Dalas por tempo suficiente para se deixar
sentir?
-  quem eu sou.
- Ento,  quem eu quero. - Seus olhos tinham escurecido ainda mais com o
desejo impaciente. A frustrao que sentia era consigo mesmo, por ser to
inacreditavelmente levado a um ponto em que poderia, a qualquer momento, implorar.
- A Tenente Dalas no teria medo de mim, mesmo que Eve tivesse.
O caf a tinha ligado. Era aquilo que estava deixando seus nervos to tensos.
- No tenho medo de voc, Roarke.
- No tem? - Ele chegou mais perto, enfiando as mos por baixo da lapela de sua
blusa. - O que acha que vai acontecer se voc passar por cima da linha?
- Muita coisa - murmurou. - Mas no o suficiente. Sexo no  o ponto alto da minha
lista de prioridades.  uma distrao.
- Certamente que ! - A raiva em seus olhos se acendeu e se transformou em um
sorriso. - Quando bem executado. J no est na hora de voc me deixar mostrar isso
a voc?
Ela apertou os braos dele, sem ter certeza se queria chegar mais perto ou se
afastar.
- Isso  um erro.
- Ento temos que fazer com que valha a pena - ele balbuciou antes que sua boca
capturasse a dela.
Eve se colou nele.
Os braos dela envolveram-no, com os dedos se perdendo em seus cabelos. O
corpo dela batia de encontro ao dele, vibrando, enquanto o beijo foi ficando mais
intenso, e a seguir quase brutal. Ele tinha uma boca quente, beirando o cruel. O
choque daquele calor enviou chamas internas de reao direto ao centro dela.
Ao mesmo tempo, as mos rpidas e impacientes dele j estavam puxando sua
blusa para fora dos jeans, apalpando sua pele. Em resposta, ela se arrastava em
direo a ele, desesperada para passar pela seda e alcanar-lhe a carne.
Ele teve uma viso de si mesmo empurrando-a lentamente para o cho, e dando
fortes estocadas dentro dela at que seus gritos ecoassem pela sala como disparos, e
ele se aliviasse, jorrando como sangue. Seria rpido e feroz. E tudo acabaria.
Com a respirao causando-lhe tremores internos dentro do pulmo, ele recuou de
repente. O rosto dela estava afogueado, sua boca j intumescida. Ele rasgara a blusa
dela na altura do ombro.
Uma sala cheia de violncia, com o cheiro de plvora ainda impregnando o ar, e
vrias armas ao alcance da mo.
- Aqui, no. - Ele a carregou, quase  fora, at o elevador. No instante em que a
porta se abriu, ele j havia arrancado fora a manga rasgada. Atirou-a contra a parede
do fundo enquanto as portas se fechavam, e ficou tateando o seu coldre. - Tire essa
droga. Tire logo isso.
Ela alcanou o fecho e deixou o coldre ficar pendurado em uma mo, enquanto
lutava para abrir os botes da roupa dele com a outra.
- Por que voc usa tantas roupas? - perguntou ela.
- Da prxima vez, no vou usar. - Ele acabou de rasgar a blusa dela, jogando-a
para o lado. Por baixo, ela usava uma combinao colante fina, quase transparente,
que revelava seios pequenos e firmes. E mamilos endurecidos. Ele fechou a mo
sobre eles, e observou os olhos dela ficarem vidrados. - Onde gosta de ser tocada?
- Voc est indo muito bem. - Ela teve que espalmar a mo na parede lateral para
no perder o equilbrio.
Quando as portas se abriram novamente, eles estavam fundidos, um contra o
outro. Saram formando crculos, e os dentes dele estavam enterrados, arranhando a
lateral da garganta dela. Eve deixou a bolsa e o coldre carem no cho.
Deu uma rpida olhada no quarto: janelas amplas, espelhos, cores neutras.
Conseguia sentir o cheiro de flores e sentiu a textura de um carpete sob seus ps.
Enquanto lutava para livr-lo das calas, conseguiu avistar a cama.
- Minha Nossa!
Era gigantesca, e parecia um lago pintado de azul-marinho, encapsulado entre
colunas altas de madeira entalhada. Ficava sobre uma plataforma e embaixo de uma
clarabia em forma de domo. Em frente havia uma lareira de pedra verde-claro, onde
madeira perfumada crepitava.
- Voc dorme aqui?
- Esta noite eu no pretendo dormir.
Ele interrompeu o olhar de admirao dela levantando-a e levando-a pelos dois
degraus acima, at a plataforma, atirando-a na cama.
- Tenho que me apresentar na Central s sete horas.
- Cale a boca, tenente.
- Est bem.
Com um semi-sorriso, ela rolou por cima dele e apertou a boca de encontro  de
Roarke. Uma energia selvagem e incontrolvel estava surgindo dentro dela. Eve no
conseguia se mover rpido demais, suas mos no eram to velozes a ponto de
satisfazer seu desejo.
Chutando as botas, deixou que ele abaixasse os jeans ao longo dos quadris. Uma
onda de prazer atravessou-a quando o ouviu gemer. Muito tempo se passara desde
que ela sentira a tenso e o calor do corpo de um homem pela ltima vez. Muito
tempo desde que desejara isso.
A necessidade de libertao daquela fora era compulsiva e feroz. No momento
em que ambos ficaram nus, ela poderia ter se sentado de pernas abertas sobre ele e
t-lo satisfeito. Mas ele trocou suas posies, e abafou seus protestos com um longo e
violento beijo.
- Para que a pressa? - murmurou ele, fazendo a mo deslizar at envolver-lhe o
seio. Ficou olhando para o rosto dela enquanto o polegar calmamente lhe torturava o
mamilo. - Eu ainda nem consegui olhar para voc.
- Eu quero voc.
- Eu sei. - Ele se ajeitou, ainda por cima, e deixou a mo escorrer lentamente do
ombro dela at a coxa, enquanto seu olhar acompanhava o prprio movimento. Sentiu
o sangue bombear em toda a sua regio pbica. - Voc tem um corpo comprido,
magro... - A mo dele apertou levemente o seio. - Pequeno, muito delicado. Quem
poderia imaginar?
- Quero voc dentro de mim.
- Voc quer apenas uma parte de mim dentro de voc.
- Droga! - comeou ela, e a seguir gemeu quando ele enterrou a cabea e tomoulhe
um dos seios na boca.
Ela se retorceu toda de encontro a ele, e de encontro quela boca que a sugava,
to gentilmente a princpio que era uma tortura, para a seguir ficar mais forte e mais
rpida, at que ela mesma teve que morder os lbios para no gritar. As mos dele
continuavam explorando-a por toda parte, acendendo pequenas fogueiras de carncia
em locais exticos.
No era aquilo que ela costumava obter. Sexo, quando Eve resolvia aproveitar, era
rpido, simples, e satisfazia uma necessidade bsica. Mas aquilo era um dedilhar de
emoes, uma guerra completa em seu sistema, uma batalha entre os sentidos.
Ela tentou colocar uma das mos entre eles, para alcan-lo, quando o sentiu duro
e pesado de encontro a ela. Puro pnico se instalou quando ele a agarrou pelos
pulsos e levantou suas duas mos acima da cabea.
- No faa isso! - disse ela.
Ele quase a liberou por reflexo, antes de olhar bem para seus olhos. Viu pnico,
at mesmo medo, mas desejo tambm.
- Voc no pode estar sempre no controle, Eve. - Enquanto falava, roou
lentamente a mo livre pela sua coxa. Ela tremeu, e seus olhos perderam o foco por
um momento quando os dedos dele acariciaram a parte de trs dos seus joelhos.
- No! - repetiu ela, lutando por um pouco de ar.
- No, o qu? No encontre um ponto fraco, no o explore?
- Experimentalmente, ele acariciou aquela pele sensvel, tracejando com os dedos
uma trilha em direo ao ponto mais quente dela, e depois para trs novamente. A
respirao dela vinha em golpes ofegantes naquele instante, enquanto lutava para
girar o corpo e rolar para o lado dele.
- Parece que  tarde demais - murmurou ele. - Voc quer o gozo sem a intimidade?
- Ele comeou uma trilha de beijos lentos, com a boca aberta, at a base da garganta.
Trabalhava com os quadris por cima dela enquanto o corpo dela trepidava como um
fio desencapado, por baixo dele. - Voc no precisa de um parceiro para isso. E esta
noite voc tem um. Pretendo lhe dar tanto prazer quanto obter.
- No posso. - Ela se esfregava contra ele, empinava o corpo, mas cada
movimento frentico trazia novas e devastadoras sensaes maravilhosas.
- Solte-se. - Ele estava louco para t-la, mas a luta dela para se segurar era um
desafio, e o deixava enfurecido.
- No posso.
- Eu vou fazer voc se soltar, e vou observar o momento em que isso acontecer. -
Ele deslizou para cima dela novamente, sentindo cada tremor e cada frmito, at que
seu rosto estava junto do dela mais uma vez. Apertou a palma da mo com firmeza
entre o pequeno monte que ficava entre as suas pernas.
- Seu canalha! - A respirao dela era sibilante. - Eu no consigo.
- Mentira! - disse ele, com calma, e ento fez deslizar um dos dedos para baixo,
sobre ela, para dentro dela. O gemido dele se misturou com o dela quando ele
encontrou o seu ponto mais apertado, quente e molhado. Colando o corpo no dela
para ter mais controle, focalizou o seu rosto e viu a mudana do pnico para o choque,
e a seguir a transformao do choque em um olhar vtreo e indefeso.
Ela se sentiu escorregando, lutou de volta, mas a fora que a empurrava era forte
demais. Algum gritou quando ela caiu, e ento seu corpo implodiu. Em um momento,
a tenso era cruel, mas ento uma lana de prazer a atravessou, aguda e quente.
Ofuscada, desorientada, ela se sentiu ficar mole.
Ele enlouqueceu com aquilo.
Puxou-a para cima, na direo dele, de forma que ela estava quase de joelhos,
ainda com a cabea pesando em seu ombro.
- Mais uma vez - exigiu ele. Puxando-lhe a cabea para trs, ele invadiu sua boca
com a dele. - Agora, mais uma vez.
- Sim. - A sensao estava ressurgindo depressa. Eram suas necessidades, como
dentes que a apertavam por dentro. Livres, suas mos deslizaram sobre ele, e seu
corpo arqueou para trs de modo fluido e solto, de modo que os lbios dele pudessem
saborear onde e o que desejassem.
O clmax seguinte dela o fez estremecer por dentro como se fossem garras. Com
um som que parecia um grunhido, ele a empurrou para trs, colocou-a de costas,
levantou-lhe os quadris bem para o alto, ajeitou-a e se lanou dentro dela. Ela o
apertou como se fosse um punho quente e insacivel.
Suas unhas arranharam as costas dele, e seus quadris subiam e desciam
enquanto ele dava constantes estocadas. Quando sentiu que as mos dela
escorregavam sem vida, pendendo dos ombros suados dele, finalmente ele se
esvaziou por completo dentro dela.
CAPTULO ONZE
Ela no falou nada, por um longo tempo. No havia nada realmente a dizer. Ela
dera um passo inapropriado, com os olhos bem abertos. Se houvesse consequncias,
pagaria por elas.
Agora, precisava recolher toda a dignidade que conseguisse, para ir embora.
- Tenho que ir. - Com o rosto voltado para o lado, ela se sentou, pensando em
como conseguiria encontrar suas roupas.
- Acho que no. - A voz de Roarke era preguiosa, confiante, e provocava raiva.
No instante em que ela tentou sair da cama, ele agarrou seu brao, desequilibrou-a e
a fez cair de costas na cama novamente.
- Olhe, diverso  diverso.
- Claro que . Mas eu no sei se qualificaria o que acabou de acontecer aqui como
diverso. Acho que foi muito intenso para isso. E eu ainda no terminei com voc,
tenente. - Quando viu os olhos dela se apertarem, sorriu. - Bem, era isso o que eu
queria que...
Ele perdeu a respirao e com ela as palavras quando o cotovelo dela atingiu-lhe o
estmago. Com um piscar de olhos, ela reverteu suas posies. O bem posicionado
cotovelo estava agora lhe apertando a traquia, perigosamente.
- Escute aqui, meu chapa, eu venho e vou,  hora que eu quiser; portanto, verifique
bem o seu ego.
Ele levantou as mos pedindo paz, como se fossem bandeiras brancas. O cotovelo
dela se levantou alguns centmetros, e ento ele se deslocou e pulou.
Ela era violenta, forte e esperta. Isso foi mais uma razo para, depois de uma briga
suada, ela se sentir enfurecida ao se ver por baixo dele, mais uma vez.
- Atacar uma policial vai lhe custar de um a cinco anos, Roarke. E vai ser em uma
cela, no em uma casa de deteno com salas acolchoadas.
- Voc no est usando seu distintivo. No est usando nada, por falar nisso. - Ele
deu-lhe um pequeno belisco no queixo. No se esquea de colocar isso no relatrio.
Pronto, foi-se a dignidade, ela decidiu.
- No quero lutar com voc. - Ficou satisfeita por sua voz estar saindo calma, at
mesmo razovel. - Simplesmente preciso ir.
Ele se ajeitou por cima dela, e notou quando seus olhos se abriram e depois se
colocaram semicerrados quando ele a penetrou novamente.
- No, no feche os olhos. -A voz dele era um sussurro rouco. Ento ela ficou
olhando para ele, incapaz de resistir  nova onda de prazer. Ele mantinha o ritmo
lento, agora, com estocadas longas e profundas que remexiam com a sua alma.
A respirao dela ficou mais acelerada, mais densa. Tudo o que conseguia
enxergar era o rosto dele, tudo o que conseguia sentir era aquele maravilhoso deslizar
do corpo dele dentro do dela, a incansvel frico de seu membro que lhe provocou
um orgasmo que a fez estremecer por dentro com uma sensao dourada.
Seus dedos se uniram aos dela, e seus lbios se curvaram sobre os dela. Eve
sentiu o corpo sobre ela enrijecer, e um instante depois ele enterrou o rosto em seus
cabelos. Depois ficaram imveis, com os corpos ainda unidos, mas sem fazer
movimento. Ele virou a cabea e pousou um beijo em sua tmpora.
- Fique - pediu ele. - Por favor.
- Sim. - Ela fechou os olhos ento. - Tudo bem, eu fico.
Eles no dormiram. No foi fadiga, e sim uma sensao de embarao o que a
atingiu no momento em que Eve entrou no chuveiro de Roarke, nas primeiras horas da
manh.
Ela no passava a noite com homens. Sempre tomara todo o cuidado para manter
sua vida sexual simples, direta e, claro, impessoal. No entanto, ali estava ela, na
manh seguinte, deixando-se ser golpeada pelos jatos fortes e quentes do chuveiro
dele. Roarke havia conquistado e a seguir invadido partes de seu corpo que ela
julgara inexpugnveis.
Estava tentando se arrepender de tudo. Parecia-lhe importante que ela percebesse
e reconhecesse o seu erro e seguisse em frente. Mas era difcil se arrepender de algo
que fizera com que seu corpo se sentisse to vivo e real, mantendo os sonhos a
distncia.
- Voc parece tima assim toda molhada, tenente.
Eve virou a cabea quando Roarke entrou por entre os jatos que vinham de todos
os lados.
- Vou precisar de uma camisa emprestada.
- Vamos achar alguma. - Apertou um boto de controle na parede azulejada e
colocou a mo em concha sob um bico, para pegar um punhado de lquido claro e
cremoso.
- O que voc est fazendo?
- Lavando o seu cabelo - murmurou ele, e comeou a espalhar e massagear a sua
pouca quantidade de cabelo ensopado com xampu. - Vai ser gostoso sentir o cheiro
do meu sabonete em voc. - Ele sorriu. - Voc  uma mulher fascinante, Eve. Aqui
estamos ns, molhados, nus, ambos quase mortos depois de uma noite memorvel, e
voc continua me vendo com olhos muito frios e desconfiados.
- Voc  um personagem que causa desconfiana, Roarke.
- Acho que isso  um elogio. - Abaixou a cabea para morder o lbio dela enquanto
o vapor os envolvia, e o jato do chuveiro comeou a martelar como se fosse o pulso
de um corao. - Diga-me o que quis dizer da primeira vez em que fizemos amor,
quando voc falou Eu no posso!.
Ele colocou a cabea dela para trs, e Eve fechou os olhos em sinal de defesa,
enquanto a gua fazia escorrer o resqucio de xampu.
- No me lembro de todas as coisas que falei.
- Lembra, sim. - De outro bico, ele bombeou um sabo lquido verde que cheirava a
floresta silvestre. Observando-a, ele esfregou o lquido sobre os ombros dela, depois
pelas costas abaixo, e ento em volta de sua cintura, voltando pela frente at alcanar
e envolver os seios. - Voc nunca tinha tido um orgasmo antes?
- Claro que j. -  verdade que ela sempre comparara o orgasmo a um sutil
espocar da rolha de uma garrafa de stress, e no a uma violenta exploso que
destruiu toda uma vida de conteno.
- Voc est querendo se exibir, Roarke.
- Estou? - Ser que ela no sabia que aqueles olhos frios, aquela muralha de
resistncia que lutava por reconstruir em torno dela era um desafio irresistvel?
Obviamente no, ele decidiu. Apertando levemente seus mamilos escorregadios por
causa do sabonete, ele sorriu quando a viu sugar a respirao. - Acho que vou me
exibir de novo.
- No tenho mais tempo para isso - disse ela depressa, e se viu comprimida contra
a parede azulejada. - Foi tudo um erro, para comear. Tenho que ir.
- No vai levar muito tempo. - Ele sentiu uma violenta exploso de luxria ao
agarr-la pelos quadris e suspend-la. No foi um erro antes, no vai ser um erro
agora. Preciso ter voc, neste instante.
A respirao dele estava ficando mais acelerada. Deixava-o espantado notar o
quanto ainda era capaz de desej-la. Ficava desconcertado por ela ser to cega e no
notar o quanto ele estava se sentindo desamparado, dominado pela necessidade que
tinha dela. E o enfurecia saber que ela podia, simplesmente por existir, ser a causa
dessa fraqueza.
- Segure-se em mim - ele exigiu, com a voz rouca e com um tom de irritao. -
Droga, agarre-se com fora em mim.
Ela j estava agarrada. Ele a penetrou com tanta fora que a deixou pregada na
parede com a fora de uma ereo que a preenchia a ponto de explodir. Seus
gemidos frenticos e indefesos ecoavam pelas paredes. Ela queria odi-lo por aquilo,
por fazer dela uma vtima das prprias paixes reprimidas e agora desenfreadas. Mas
se agarrou com fora a ele, e deixou sua cabea girar, tonta e sem controle.
Ele atingiu o clmax com violncia e espalmou a mo sobre a parede, mantendo o
brao rgido para conseguir manter o equilbrio, enquanto as pernas dela
escorregavam lentamente para fora dos quadris dele. De repente ele parecia zangado,
furioso por ela ter conseguido arrancar toda a sua capa de finesse, at o ponto em que
ele no se sentiu mais do que um animal no cio.
- Vou lhe arranjar uma camisa - disse ele, bruscamente, e ento saiu, pegando
uma toalha em uma prateleira e a deixando sozinha sob os jatos que pareciam vir em
ondas.
Quando ela havia acabado de se vestir, franzindo os olhos por causa da sensao
de seda pura sobre a pele, j havia uma bandeja de caf na mesa da pequena rea
ntima do quarto.
As notcias da manh eram despejadas em baixo volume, vindas da tela, enquanto
no canto inferior da tela corriam nmeros e estimativas. Cotaes da Bolsa. O monitor,
instalado em um console, estava aberto na primeira pgina de um dos jornais do dia.
No o Times, ou um dos tablides de Nova York, Eve notou. Parecia japons.
- Voc tem tempo para o caf da manh? - Roarke se sentou, provando o caf. Ele
no estava conseguindo dar toda a ateno s notcias da manh. Gostou de v-la
enquanto ela se vestia: o jeito com que suas mos hesitaram ao vestir a camisa dele,
para ento encolher os ombros; o modo como seus dedos fecharam os botes com
rapidez; o rpido rebolar dos quadris enquanto entrava no jeans.
- No, obrigada. - Eve no estava certa de sua atitude naquele momento. Ele havia
transado loucamente com ela no chuveiro, at fz-la revirar os olhos; ento saiu e
voltou, reencarnado em seu papel de anfitrio corts. Ela prendeu o cinturo com o
coldre antes de atravessar a sala e aceitar o caf puro que ele j lhe havia servido.
- Sabe, tenente, voc usa sua arma do mesmo jeito que outras mulheres usam um
colar de prolas.
- S que isso no  um acessrio de moda.
- Voc entendeu mal. Para algumas mulheres, jias so to vitais quanto um
membro do corpo. - Entortou a cabea, para analis-la melhor. - A camisa  grande
para voc, mas ficou bem.
- Vou devolv-la para voc. - Eve ficou imaginando se alguma coisa que usasse e
que custasse mais do que uma semana do seu salrio poderia no lhe ficar bem.
- Tenho muitas outras. - Ele se levantou, deixando-a novamente nervosa ao traar
uma linha ao longo de seu queixo com a ponta do dedo. - Fui grosso e rude, ainda h
pouco. Sinto muito.
O pedido de desculpas, to calmo e inesperado, a deixou embaraada.
- Esquea. - Afastando-se, ela terminou de tomar o caf e colocou a xcara de lado.
- No vou esquecer. Nem voc. - Tomou-lhe a mo e a levou aos lbios. Nada
poderia t-lo agradado mais do que o rpido ar de desconfiana em seu rosto. - Voc
no vai me esquecer, Eve. Vai pensar em mim, talvez no com carinho, mas vai
pensar em mim.
- Estou no meio de uma investigao de assassinato. Voc  parte dela.  claro
que vou pensar em voc.
- Querida - comeou ele, e notou, satisfeito, o jeito com que o uso da palavra
carinhosa a fez franzir a testa -, voc vai estar pensando no que poderei fazer para
voc. Infelizmente no vou poder fazer mais nada, a no ser ficar imaginando, por
alguns dias.
Ela soltou a mo e pegou a bolsa, da maneira mais casual que conseguiu.
- Vai a algum lugar, Roarke?
- Os trabalhos preliminares do projeto do resort requerem a minha ateno e a
minha presena na Estao Espacial FreeStar One, para algumas reunies com a
diretoria. Vou ficar preso por l, a vrias centenas de milhares de quilmetros de
distncia, por alguns dias.
Uma emoo a atingiu, embora ela no estivesse pronta para admitir que fosse
desapontamento.
- Sei, ouvi que voc est coordenando os contratos para esse gigantesco projeto
de mordomia para os ricos entediados.
- Quando o resort ficar pronto - sorriu ele -, vou lev-la at l. Pode ser que voc
mude de opinio. Nesse meio tempo, gostaria de contar com a sua discrio. Essas
reunies so confidenciais. H ainda algumas pontas soltas para acertar, e no seria
bom se meus concorrentes descobrissem que ns estamos to perto de dar incio 
construo. Muito poucas pessoas sabero que eu no vou estar em Nova York.
- E por que me contou? - Ela estava penteando os cabelos com os dedos.
- Aparentemente, cheguei  concluso de que voc  uma pea-chave. - To
desconcertado pela afirmao quanto ela, Roarke a encaminhou at a porta. - Se
precisar entrar em contato comigo, avise Summerset. Ele pode conect-la comigo.
- O mordomo?
Roarke sorriu enquanto desciam as escadas.
- Sim, ele vai providenciar tudo. Devo ficar fora por cinco dias, no mximo uma
semana. Quero v-la novamente. - Parou e tomou o rosto dela em suas mos. -
Preciso v-la novamente.
A pulsao dela deu um salto, como se no tivesse nada a ver com o resto do seu
corpo.
- Roarke, o que est acontecendo aqui?
- Tenente - ele se inclinou e tocou os lbios dela com os dele -, h indcios de que
estamos tendo um romance. - E caiu na gargalhada, beijando-a em seguida
novamente, com fora e urgncia. - Acho que se eu tivesse encostado uma arma na
sua cabea voc no teria ficado to aterrorizada. Bem, h vrios dias pela frente para
voc analisar esse assunto com cuidado, no ?
Eve tinha a sensao de que vrios dias no iam ser suficientes.
Ao chegarem ao p da escada, l estava Summerset, com o rosto de pedra e o
pescoo duro, segurando o casaco de Eve. Ela pegou o casaco e olhou de relance
para trs na direo de Roarke, enquanto levantava os ombros e dizia:
- Boa viagem!
- Obrigado. - Roarke colocou uma das mos sobre o ombro dela antes que ela
comeasse a caminhar em direo  porta. Eve, tenha cuidado. - E, aborrecido
consigo mesmo, deixou cair as mos. - Manterei contato.
- Certo. - Saiu apressada, e quando olhou para trs a porta j estava fechada.
Assim que abriu a porta do carro, reparou em um aparelho de recados eletrnicos que
estava no banco do motorista. Recolhendo-o, colocou-se atrs do volante. Enquanto
dirigia em direo ao porto, apertou o boto para ouvir a mensagem. Foi a voz de
Roarke que saiu do aparelho.
- No gosto da ideia de voc tremer, a no ser que eu seja a causa disso.
Permanea aquecida.
Franzindo os olhos, ela enfiou o aparelho no bolso antes de ligar o aquecimento do
carro. A onda forte de calor a fez dar um grito de surpresa.
Foi sorrindo por todo o caminho, at a Central de Polcia.
Eve se trancou em sua sala. Ainda faltavam duas horas para seu turno comear, e
ela pretendia usar cada minuto daquele tempo analisando os homicdios De Blass-
Starr. Quando o turno comeasse oficialmente, suas tarefas iriam diversificar-se em
outros casos, nos estgios mais variados, que tambm estavam sendo investigados.
Por uma questo de rotina, ela se conectou com o Centro Internacional de
Pesquisas Criminalsticas, para que lhe fossem transmitidos todos os dados
disponveis at o momento, e pediu uma cpia impressa para rever mais tarde. As
informaes eram deprimentes, de to reduzidas, e no acrescentavam nada de
slido ao caso.
Temos que voltar, pensou ela, aos jogos de deduo. Sobre a mesa ela colocara
fotos das vtimas. J conhecia intimamente aquelas duas mulheres. Talvez agora,
depois da noite que passara com Roarke, ela conseguisse compreender melhor o que
as havia impulsionado.
Sexo era uma ferramenta poderosa para voc usar contra algum, ou para algum
usar contra voc. Aquelas duas mulheres quiseram utilizar o sexo com destreza, e
control-lo. Por fim, foi isso que as matou.
Uma bala no crebro tinha sido a causa oficial das mortes, mas Eve via o sexo
como o gatilho.
Era a nica conexo que havia entre as duas, e a nica coisa que as ligava ao
assassino.
Pensativa, pegou no revlver calibre 38. Ele j parecia familiar em sua mo. Agora,
ela sabia exatamente qual era a sensao no momento em que ele era disparado, a
forma com que o impacto violento subia em ondas pelo brao. O som que fazia
quando o dispositivo mecnico e as leis da fsica faziam a bala sair voando.
Ainda segurando a arma, colocou para reproduzir o disco que havia confiscado e
viu a morte de Sharon DeBlass mais uma vez.
O que voc sentiu, seu canalha? Ela se perguntou. O que sentiu ao apertar o
gatilho e enviar aquele projtil de chumbo para dentro dela, quando o sangue espirrou
para todo lado, quando os olhos dela reviraram, mortos?
O que voc sentiu?
Com os olhos apertados, recolocou o disco. J estava quase imune ao horror de
tudo aquilo. Havia, ela notou, uma trepidao quase imperceptvel na imagem, como
se ele tivesse esbarrado na cmera.
Voc sentiu o golpe no brao?, perguntava a si mesma. Isso deixou voc chocado,
a maneira com que o corpo dela voou para trs, a distncia enorme at onde seu
sangue respingou?
Ser que era por isso que ela podia ouvir o fraco sugar da respirao dele, e sua
lenta expirao, antes de a imagem mudar?
O que voc sentiu?, perguntou ela de novo. Nusea, prazer, ou satisfao pura e
fria?
Ela chegou mais perto do monitor. Sharon j estava cuidadosamente arrumada e
toda a cena preparada enquanto a cmera a filmava com objetividade e, tambm,
decidiu Eve, com frieza.
Ento por que o esbarro? Por que o suspiro curto na hora do disparo?
E a nota. Pegou o plstico selado e o leu mais uma vez. Como  que voc sabia
que ficaria satisfeito para parar na sexta vtima? Voc j as escolheu? J as
selecionou?
Sem ficar satisfeita, ejetou o disco, guardou-o no lugar, junto com o 38. Colocou o
disco de Lola Starr, pegou na segunda arma e repetiu todo o processo.
No houve sobressalto no disparo, desta vez. No houve um sugar sbito de
respirao. Tudo ocorreu de modo estvel, preciso, exato. Desta vez ele j sabia,
pensou Eve, o que ia sentir, como o corpo dela reagiria, qual seria o cheiro do sangue.
Mas voc no a conhecia. Ou ela no conhecia voc. Em sua agenda voc estava
marcado apenas como John Smith, um novo cliente.
Como foi que a escolheu? E como vai escolher a prxima?
Pouco antes das nove, quando Feeney bateu na porta, ela estava estudando um
mapa de Manhattan. Ele parou bem atrs dela, debruou-se sobre seus ombros e
exalou um hlito de hortel.
- Est pensando em se mudar?
- No, estou estudando Geografia. Aumente a imagem em cinco por cento - ela
ordenou ao computador. A imagem se ajustou. - Primeiro assassinato, segundo
assassinato - disse, apontando com a cabea para os pequenos pontos vermelhos na
Broadway e no lado oeste do Village. E aqui  a minha casa. - Havia um ponto verde
pulsando junto da Nona Avenida.
- Sua casa?
- Ele sabe onde eu moro. Esteve l duas vezes. Estes so os lugares onde
podemos coloc-lo. Estava com a esperana de conseguir delimitar uma rea, mas ele
se espalha para onde quer, e faz o mesmo com a segurana. - Permitindo-se emitir
um pequeno suspiro, ela se recostou na cadeira. - Trs sistemas diferentes de
segurana. O de Lola Starr era quase inexistente. Porteiro eletrnico, que no
funcionava. Segundo outros moradores, j estava quebrado h duas semanas. O de
Sharon DeBlass era sofisticado. Chave com cdigo para entrar, placa para impresso
da mo, segurana completa em todo o prdio, com udio e vdeo. Teve que ser
violada no local. O pulo no tempo da gravao ocorreu apenas em um dos elevadores,
e no corredor da vtima. A segurana do meu edifcio no  to moderna. At eu podia
violar a entrada, qualquer arrombador decente tambm poderia. S que eu tenho uma
fechadura especial da polcia na porta, Sistema Cinco Mil. Voc tem que ser realmente
um profissional para invadir, sem precisar do cdigo mestre.
Batendo com as pontas dos dedos na mesa, ela olhou para o mapa com cara feia,
e continuou:
- Ele  um especialista em sistemas de segurana e conhece as suas armas...
armas antigas, Feeney. Est enturmado com o departamento de procedimentos da
polcia, o suficiente para conseguir me indicar como investigadora principal poucas
horas depois do primeiro crime. No deixa impresses digitais nem fluidos corpreos.
Nem sequer uma droga de um plo pubiano. O que tudo isso significa para voc?
Feeney sugou o ar atravs dos dentes e se balanou para a frente e para trs
sobre os calcanhares.
- Acho que  tira. Ou militar. Talvez paramilitar, ou da segurana do governo. Pode
ser algum que tenha como hobby brincar com sistemas de segurana. Existe um
monte por a. Possivelmente um criminoso profissional, mas isso  improvvel.
- Por que improvvel?
- Se o cara anda ganhando a vida cometendo crimes, por que um assassinato?
No houve lucro algum em nenhuma dessas duas mortes.
- Tudo bem, ento ele pode estar de frias - disse Eve, mas sem conseguir
convencer nem a si mesma.
- Talvez. Levantei todos os criminosos sexuais conhecidos, cruzei os dados no
CIPC. No apareceu ningum que se encaixe nesse modus operandi. Voc j viu o
relatrio? - perguntou ele, apontando para a tela do CIPC.
- No. Por qu?
- Eu j vasculhei, agora de manh. Voc ficaria surpresa de saber que
aconteceram quase cem ataques com armas de fogo no ano passado, em todo o pas.
E outros tantos casos acidentais, tambm. - Ele levantou os ombros. - Tinha de tudo.
Armas contrabandeadas, caseiras, do mercado negro, de colecionadores.
- Mas nada que se encaixe no nosso perfil.
- No. - Ele mexeu a boca, contemplativo. - Havia pervertidos, tambm, embora
seja mais difcil rastrear os dados. Tem um que  o meu favorito. Um sujeito de Detroit
que matou quatro, antes de ser achado. Gostava de fisgar mulheres com o corao
solitrio e ia at a casa delas. Ao chegar l, dava um sonfero para a vtima, tirava
toda a roupa dela e lhe cobria o corpo inteiro, dos ps  cabea, com tinta vermelha
que brilha no escuro.
- Esquisito.
- Letal. A pele tem que respirar. Assim, ela comeava a sufocar, e enquanto a
pobre se asfixiava em direo  morte, ele brincava com ela. Mas no transava, no.
No havia esperma, nem penetrao. Ele ficava s alisando o corpo dela com as
mozinhas sedentas.
- Cristo, isso  doena!
- ... Bem, enfim. De repente ele ficou um pouco apressado com uma delas e
comeou a esfreg-la antes que a tinta secasse por completo. A, j viu, um pouco da
tinta saiu, e ela comeou a acordar e se mexer. Ele entrou em pnico e fugiu. Ento,
nossa garota nua, quase toda coberta de tinta, ainda zonza por causa do
tranquilizante, mas muito revoltada, saiu correndo pela rua e comeou a gritar. A
polcia chegou e a encontrou bem depressa, porque ela brilhava mais que um anncio
luminoso. Comearam ento a dar uma busca padro. Encontraram o nosso rapaz a
apenas alguns quarteires dali, e o pegaram com a mo na massa, porque ele estava
com a mo vermelha por ter passado...
- J sei, no me diga.
- Por ter passado a mo na moa - Feeney completou, com um sorriso cruel. -
Vamos l, reconhea, essa foi boa... Mo na massa, mo na moa... - Quando Dalas
simplesmente rolou os olhos para cima, Feeney decidiu que os amigos da sua seo
iam apreciar a histria e o trocadilho muito mais do que ela. - Enfim, Eve, a gente
talvez tenha um pervertido nas mos. Vou dar uma olhada nos arquivos dos tarados e
das profissionais. Talvez a gente tenha sorte. Prefiro essa ideia a achar que foi um
policial.
- Eu tambm. - Com os lbios apertados, Eve girou a cabea para olhar para ele. -
Feeney, voc possui uma coleo pequena, conhece um pouco sobre armas de fogo
antigas.
Ele levantou as mos e depois juntou os pulsos.
- Eu confesso. Pode me prender. Ela quase riu.
- Conhece algum outro policial que colecione armas?
- Claro, alguns.  um hobby meio caro, mas a maioria dos que eu conheo
coleciona rplicas. E por falar em coisas caras - acrescentou ele, passando o dedo na
manga da camisa de Eve -, bonita roupa, essa sua. Teve algum aumento?
-  emprestada - respondeu baixinho, e ficou surpresa ao notar que precisou se
controlar para no ficar vermelha. - Verifique esses colecionadores para mim, Feeney.
Aqueles que tm armas genunas.
- Ahn, Dalas... - Seu sorriso desapareceu quando Feeney pensou na perspectiva
de ter que investigar os prprios colegas. Detesto fazer isso.
- Eu tambm. Verifique-os, mesmo assim. Por enquanto, s os que trabalham aqui
na cidade.
- Certo. - Ele soltou um suspiro, perguntando-se se ela compreendia que o seu
prprio nome teria que aparecer na lista. Que porcaria de maneira de comear o dia.
Agora, tenho um presente para voc, garota. Havia um memorando em cima da minha
mesa quando eu cheguei. O Secretrio de Segurana est a caminho da sala do
nosso comandante. Quer ver ns dois.
- Ah, dane-se!
- Vou para l em cinco minutos - disse Feeney, olhando para o relgio. - Talvez
seja melhor voc colocar uma suter ou algo assim por cima dessa roupa, seno o
Simpson vai dar uma olhada em voc e chegar  concluso de que o nosso salrio
est alto demais.
- Ah, dane-se voc, tambm.
O Secretrio Edward Simpson era uma figura imponente. Com mais de um metro e
oitenta e todo arrumado, gostava de usar ternos escuros e gravatas de cores
berrantes. Seus cabelos castanhos, ondulados, exibiam alguns fios brancos.
Era um fato bem conhecido por todo o Departamento que alguns detalhes
especiais foram acrescentados pelo seu esteticista pessoal. Seus olhos eram de um
azul-claro, quase metlico, uma cor que, segundo pesquisas, inspirava a confiana
dos eleitores. Todos sabiam que ele raramente demonstrava algum humor, e a sua
boca parecia uma vrgula fina que mostrava comando. Olhando para ele, qualquer um
via uma imagem de poder e autoridade.
Era decepcionante saber o quanto ele usava ambos para alcanar pontos no
intoxicante jogo da poltica.
Ele se sentou, unindo as mos em um V invertido. Eram mos macias, que
rebrilhavam com um trio de anis de ouro. Sua voz, quando ele abriu a boca, tinha a
ressonncia e a impostao da fala de um ator.
- Comandante, capito, tenente... Ns temos aqui uma situao muito delicada.
Tinha tambm o senso de tempo de um ator. Fez uma pausa e deixou aqueles
olhos duros e azuis olharem demoradamente para cada um dos rostos.
- Todos vocs sabem o quanto a mdia aprecia o sensacionalismo - continuou ele. -
Nossa cidade conseguiu, durante os cinco anos sob a minha jurisdio, diminuir a taxa
de criminalidade em cinco por cento. Isso d uma mdia de um por cento ao ano.
Entretanto, diante dos recentes eventos, no  este avano que ser alardeado pela
imprensa. J h manchetes a respeito desses dois assassinatos. Matrias que
questionam a investigao e exigem respostas.
Whitney, que detestava Simpson at a raiz dos cabelos, respondeu com calma.
- Faltam detalhes s histrias, secretrio. O Cdigo Cinco no caso DeBlass torna
impossvel que cooperemos com a imprensa ou forneamos notcias.
- Por no fornecermos notcias - respondeu Simpson de volta -, estamos
permitindo que eles especulem. Vou fazer uma declarao oficial esta tarde. - Ele
levantou a mo quando Whitney comeou a protestar. -  necessrio oferecer ao
pblico algo palpvel, para faz-lo ter confiana de que o Departamento est com o
problema sob controle. Mesmo no sendo o caso. - Seus olhos se focaram em Eve. -
Como principal investigadora, tenente, voc tambm participar da entrevista coletiva.
Meu gabinete est preparando uma declarao para voc fazer.
- Com todo o respeito, Secretrio Simpson, no posso divulgar para a imprensa
nenhum detalhe do caso que possa prejudicar as investigaes.
- Tenente, eu tenho trinta anos de experincia. - Ele puxou um fiapo de linha
grudado na manga do palet. - Acho que sei conduzir uma entrevista coletiva. Em
segundo lugar - continuou, dispensando-a ao desviar o olhar de volta para o
Comandante Whitney -,  fundamental que as ligaes que a mdia anda fazendo
entre os crimes DeBlass e Starr sejam quebradas. O Departamento no pode ser
responsvel por provocar algum embarao pessoal ao Senador DeBlass, ou causar
danos  sua posio, ao colocar os dois casos no mesmo nvel.
- O assassino j fez isso por ns - disse Eve, por entre os dentes.
Simpson dignou-se olhar para ela mais uma vez.
- Oficialmente, tenente, no existe conexo alguma. Se algum lhe perguntar se h
alguma ligao, negue.
- Se algum lhe perguntar - corrigiu Eve -, minta.
- Guarde a tica pessoal para voc mesma. Isto  realidade. A brisa de um
escndalo que comea aqui e reverbera em Washington acaba voltando para ns
como um vendaval. Sharon DeBlass est morta h mais de uma semana, e voc no
achou nada at agora.
- Temos a arma - discordou ela. - Temos um motivo possvel, como chantagem, e
uma lista de suspeitos.
- Sou o Secretrio de Segurana do Estado, tenente. - Seu rosto ficou vermelho, e
ele se levantou da cadeira. - A baguna que vocs fizerem sou eu que vou ter de
consertar. J est na hora de parar de escavar a lama e fechar o caso.
- Senhor - Feeney deu um passo  frente -, a Tenente Dalas e eu...
- Podem estar no Setor de Controle de Trfego em um estalar de dedos. - Simpson
completou.
- No ameace meus policiais, Simpson. - Com os punhos cerrados, Whitney se
colocou de p. - Voc faz o seu jogo, sorri para as cmeras, e baba ovo em
Washington, mas no venha invadir a minha praia e ameaar o meu pessoal. Eles
esto no caso e vo continuar. Se quiser mudar isso, ter que passar por cima de
mim.
O vermelho do rosto de Simpson virou roxo. Fascinada, Eve observou uma veia
latejar em sua tmpora.
- Se o seu pessoal apertar algum boto errado,  a sua bunda que vai estar na
reta, Whitney. Por enquanto, estou com o Senador DeBlass sob controle, mas ele no
est satisfeito de ver a investigadora do caso ir correndo pressionar a nora dele,
invadindo a privacidade do seu luto para lhe fazer perguntas embaraosas e
irrelevantes. O Senador DeBlass e sua famlia so vtimas, e no suspeitos, e lhes
devem ser concedidos respeito e dignidade, durante a investigao.
- Pois eu tratei Elizabeth Barrister e Richard DeBlass com respeito e dignidade. -
Deliberadamente, Eve mostrou indignao.
- Nosso encontro aconteceu com o consentimento deles, e total cooperao. No
fui informada de que receber permisso do senhor ou do senador para conduzir meu
trabalho conforme achasse necessrio era uma condio para esse caso.
- E eu no vou tolerar a imprensa especulando e insinuando que este
Departamento perturba pais de luto, ou querendo saber por que a investigadora
principal resistiu a uma ordem para se submeter aos testes de praxe, aps eliminar um
criminoso.
- Os testes da Tenente Dalas foram adiados por ordem minha
- disse Whitney, com fria quase incontrolvel. - E com a sua aprovao!
- Estou ciente disso. - Simpson girou a cabea. - Estou apenas falando das
especulaes da imprensa. Vamos estar, todos ns, sendo analisados por um
microscpio, at que esse assassino seja preso. Os procedimentos da Tenente Dalas
e todos os seus atos sero vasculhados, e sero dissecados pela opinio pblica.
- Meus procedimentos aguentam isso.
- E os seus atos? - perguntou Simpson, com um sorriso leve.
- Como vai conseguir justificar o fato de que est prejudicando o caso e a sua
posio nele, ao embarcar em uma relao pessoal com um suspeito? E qual voc
acha que dever ser a minha posio oficial quando vier  tona que voc passou a
noite com esse suspeito?
O controle a manteve no lugar, fez seus olhos ficarem vazios e sua voz firme.
- Tenho certeza de que o senhor colocaria a corda no meu pescoo para se livrar,
Senhor Secretrio.
- Sem hesitar - concordou ele. - Esteja na Prefeitura. Meio-dia. Em ponto.
Quando a porta se fechou atrs dele, o Comandante Whitney se sentou
novamente, comentando:
- Cago, filho da me! - A seguir os seus olhos, afiados como navalhas, se viraram
para Eve. - E voc, que merda  essa que anda fazendo?
Eve aceitou - foi forada a aceitar - que a sua privacidade no tinha mais
importncia.
- Passei a noite com Roarke. Foi uma deciso pessoal, e fora do horrio de
trabalho. Na minha opinio profissional, como investigadora principal, ele foi eliminado
como suspeito. No nego que o meu comportamento foi desaconselhvel.
- Desaconselhvel? - Whitney explodiu. - Por que no tenta defini-lo como burro?
Ou como uma tentativa de suicdio para sua carreira? Mas que droga, Dalas, ser que
voc no consegue segurar seus hormnios? No esperava isso de voc.
Nem ela esperava isso de si mesma.
- Isso no afeta a investigao, ou minha capacidade de continuar nela. Se o
senhor pensa diferente, est errado. Se me tirar do caso, vai ter que levar meu
distintivo tambm.
Whitney ficou olhando fixamente para ela por mais um instante e ento xingou de
novo.
- Certifique-se, Dalas, com absoluta firmeza, de que Roarke est realmente fora
dessa lista pequena de suspeitos. Obtenha certeza total disso, ou ento faa uma
autuao contra ele em trinta e seis horas. E depois faa a si prpria uma pergunta
especial.
- J me fiz essa pergunta - ela interrompeu, sentindo um alvio inesperado que s
ela conhecia ao ver que ele no exigiu o seu distintivo, por mais algum tempo. - Como
 que Simpson soube onde eu passei a noite? Estou sendo seguida e monitorada. A
outra pergunta  o porqu disso. Ser por ordem de Simpson ou de DeBlass? Ou ser
que algum deixou vazar essa informao para Simpson a fim de atingir a minha
credibilidade e, por conseguinte, a investigao?
- Espero que voc descubra. - Ele apontou a porta com o polegar. - Agora tente se
segurar na coletiva com a imprensa, Dalas.
Eles no tinham dado nem trs passos pelo corredor quando Feeney entrou em
erupo.
- Mas que diabos voc est fazendo, Dalas? Meu Deus!
- No foi nada planejado, certo? - Apertou o boto do elevador com fora e enfiou
as mos nos bolsos. - E veja se no me enche!
- Mas ele est na nossa lista, que j  curta.  uma das ltimas pessoas, pelo que
sabemos, que viu Sharon DeBlass viva. Tem mais dinheiro do que Deus, e pode
comprar qualquer coisa, inclusive imunidade.
- Ele no se encaixa nesse perfil. - Entrou ventando no elevador e berrou o nmero
do seu andar. - Eu sei o que estou fazendo.
- Sabe, nada! Em todos esses anos que conheo voc, nunca a vi ter sequer uma
quedinha por um cara suspeito. De repente, leva um tombo completo e trepa com um.
- Foi s sexo. Nem todos ns temos uma vida boa e confortvel, com um parceiro
bom e agradvel. Eu queria que algum me tocasse, e ele estava a fim. No  da sua
conta com quem eu durmo.
Ele a agarrou pelo brao antes que ela pudesse sair do elevador, porta afora.
- Pare com isso! Eu me preocupo com voc!
Eve lutou para controlar a raiva por estar sendo questionada, por estar sendo
testada, por ter seus momentos mais ntimos invadidos. Virou-se e abaixou a voz, para
que as pessoas que estavam passando pelo corredor no os escutassem.
- Eu sou uma boa policial, Feeney?
-  a melhor com quem j trabalhei.  por isso que eu...
- O que  que determina um bom policial? - Ela levantou a mo.
- Crebro, coragem, pacincia, sangue-frio, instinto. - Ele suspirou.
- Meu crebro, minha experincia e meus instintos me dizem que no foi Roarke.
Todas as vezes que me viro para apontar para ele, bato em uma parede. No foi ele.
Tenho a pacincia, tambm, Feeney, e o sangue-frio para manter minha posio at
descobrirmos quem foi.
- E se voc estiver errada dessa vez, Dalas? - Os olhos dele grudaram nos dela.
- Se eu estiver errada, eles no vo nem precisar pedir o meu distintivo de volta. -
Ela teve que inspirar profundamente para se acalmar. - Feeney, se eu estiver errada a
respeito disso, a respeito dele, ento estou acabada. Acabada de vez. Porque, se eu
no sou uma boa policial, eu no sou nada.
- Nossa, Dalas, no...
- Pesquise aquela lista de policiais para mim, est bem? - Ela balanou a cabea. -
Tenho que dar alguns telefonemas.
CAPTULO DOZE
Entrevistas coletivas deixavam Eve com um gosto amargo na boca. Estava em p
na escadaria da Prefeitura da cidade, sobre um palanque armado por Simpson, que
estava com a sua gravata patritica e o alfinete de ouro com o smbolo da campanha
Eu Amo Nova York pregado na lapela. Com seu jeito de irmo mais velho da cidade,
sua voz se elevava e abaixava enquanto lia a declarao.
Uma declarao, Eve pensou com desgosto, cheia de mentiras, meias-verdades e
um monte de elogios a si mesmo. De acordo com Simpson, ele no sossegaria at
que o assassino da jovem Lola Starr fosse levado aos tribunais.
Quando questionado sobre se havia alguma ligao entre o caso Lola Starr e a
morte misteriosa da neta do Senador DeBlass, negou com segurana.
No era o seu primeiro erro, Eve pensou, aborrecida, e certamente no seria o
ltimo.
As palavras mal haviam sado de sua boca, quando ele foi interpelado aos gritos
pela competente reprter do Canal 75, Nadine Furst.
- Secretrio Simpson, eu possuo informaes que mostram que o homicdio de
Lola Starr est ligado ao caso DeBlass, e no s pelo fato de as duas mulheres terem
a mesma profisso.
- Ora, Nadine. - Simpson exibiu o seu sorriso paciente de tio boa-praa. - Todos
ns aqui sabemos que algumas informaes so frequentemente passadas a voc e
aos seus colegas, muitas vezes de forma inexata. Foi por isso que eu criei o CVD,
Centro de Verificao de Dados, logo no primeiro ano de meu mandato como
Secretrio de Segurana.  s verificar no CVD que voc vai obter dados precisos.
Eve conseguiu segurar um sorriso irnico, mas Nadine, com seus astutos olhos de
gata e crebro rpido, no se intimidou.
- Minha fonte assegura que a morte de Sharon DeBlass no foi um acidente, como
afirma o CVD, e sim assassinato. Tanto Sharon DeBlass quanto Lola Starr foram
mortas pelo mesmo mtodo, e pelo mesmo homem.
Essa declarao causou furor no mar de reprteres, uma saraivada de perguntas e
exigncias que fizeram Simpson comear a suar por baixo da camisa bordada com
monograma.
- O Departamento mantm sua posio de que no h ligao entre esses dois
lamentveis incidentes - berrou Simpson, mas Eve notou pequenos sinais de pnico
cintilarem em seus olhos. - Meu gabinete apoia totalmente os investigadores.
Todos os olhares agitados se voltaram na mesma hora para Eve, e ela soube,
naquele instante, que estava na hora de ser atirada aos lobos de corpo inteiro.
- A Tenente Dalas - completou o secretrio -, uma policial veterana com mais de
dez anos de experincia na Fora, est encarregada do caso Lola Starr. Ficar feliz
em responder s suas perguntas.
Presa na armadilha, Eve deu um passo  frente, enquanto Simpson se abaixava
para ouvir de um assessor com cara de fuinha Um conselho rpido ao p do ouvido.
As perguntas choveram sobre ela, e Eve ficou aguardando, filtrando cada uma
delas, at encontrar uma que pudesse responder.
- Como Lola Starr foi assassinada?
- A fim de proteger a credibilidade das investigaes, no estou autorizada a
divulgar o mtodo usado. - Ela aguentou os gritos, xingando Simpson por dentro. -
Posso apenas afirmar que Lola Starr, uma acompanhante autorizada com dezoito
anos de idade, foi assassinada, com violncia e premeditao. As provas mostram
que foi morta por um cliente.
Aquilo os acalmou por algum tempo, Eve notou. Vrios reprteres se conectaram
com suas bases para passar a informao.
- Foi um crime sexual? - gritou algum, e Eve levantou uma sobrancelha.
- Acabei de afirmar que a vtima era uma prostituta e que foi morta por um cliente.
Junte os dados.
- E Sharon DeBlass tambm foi morta por um cliente? quis saber Nadine.
Eve se virou e manteve os olhos fixos no rosto felino da reprter.
- O Departamento no divulgou nenhuma nota afirmando que Sharon DeBlass foi
assassinada.
- Minhas fontes afirmam que a senhorita  a investigadora principal dos dois casos.
Esta informao  correta?
Terreno com areia movedia. Eve entrou nele.
- Sim. Sou a investigadora principal em vrios casos que esto em aberto.
- Por que razo eles designariam uma investigadora qualificada e veterana, com
dez anos de servios, para um caso de morte acidental?
- Quer que eu defina a palavra burocracia? - Eve sorriu. Isso arrancou alguns risos
do grupo, mas no tirou Nadine da trilha.
- O caso DeBlass ainda est em aberto?
Qualquer resposta poderia virar um ninho de marimbondos. Eve optou pela
verdade.
- Sim, e vai permanecer em aberto at que eu, como investigadora principal, esteja
satisfeita com os resultados. Entretanto continuou ela, fazendo a voz abafar os gritos -,
no darei mais nfase  morte de Sharon DeBlass do que a qualquer outra, incluindo
Lola Starr. Qualquer caso que caia em minhas mos  tratado igualmente,
independente da posio familiar ou social da vtima. Lola Starr era uma jovem de
famlia simples. No tinha status social, nem influncia poltica, ou amigos
importantes. Agora, depois de chegar a Nova York h poucos meses, est morta.
Assassinada. Merece o melhor que eu puder lhe dar, e  isso que vai obter.
Eve deu uma olhada panormica na multido e fixou o olhar em Nadine.
- Voc quer uma histria, Senhorita Furst. Eu quero um assassino. No meu modo
de ver, o que eu quero  mais importante do que o que a senhorita quer, ento isso 
tudo o que eu tenho a dizer.
Eve girou nos calcanhares, lanou um olhar fulminante para Simpson e foi embora.
Ainda podia ouvir quando ele lutava com outras perguntas enquanto ela se dirigia para
o carro.
- Dalas! - Nadine, usando sapatos de salto baixo para criar estilo e dar mais
agilidade, saiu correndo atrs dela.
- J disse que terminei. Pergunte ao Simpson.
- Olhe, se eu quiser ficar patinhando nessa lengalenga, posso ir pegar material no
CVD. Aquela foi uma declarao muito apaixonada, Dalas. No me pareceu algo
escrito pelo assessor de discursos do Secretrio Simpson.
- Gosto de falar por mim mesma. - Eve chegou ao carro e comeou a abrir a porta
quando Nadine tocou-lhe o ombro.
- Voc gosta de jogar limpo - disse Nadine. - Eu tambm. Escute, Dalas, ns duas
temos mtodos diferentes, mas os objetivos so os mesmos. - Satisfeita por ter
conseguido captar a ateno de Eve, sorriu. Quando seus lbios se curvaram, o rosto
formou Um tringulo perfeito, dominado por oblquos olhos verdes.
-No vou apelar para aquela velha ladainha de que a opinio pblica tem o direito
de saber.
- Ainda bem, porque ia perder seu tempo.
- O que vou lhe dizer  que temos duas mulheres mortas no intervalo de uma
semana. Minhas informaes e meu instinto me dizem que ambas foram
assassinadas. No acredito que voc v me confirmar isso.
- Acertou.
- O que eu proponho  um acordo. Voc me diz se eu estou na pista certa, e eu
seguro qualquer informao que possa estragar a sua investigao. Quando tiver algo
slido e estiver pronta para atacar, voc me d um aviso. E eu consigo imagens
exclusivas da priso, ao vivo.
Achando aquilo quase divertido, Eve se encostou ao carro.
- E o que voc vai me dar em troca de tudo isso, Nadine? Um aperto de mo e um
sorriso?
- Em troca, vou lhe passar tudo o que a minha fonte j me trouxe. Tudinho.
- Inclusive o nome da fonte? - Naquele momento, Eve ficou interessada.
- No poderia fazer isso, mesmo que quisesse. O caso  que eu tambm no sei.
O que eu tenho, Dalas,  um disco, que foi entregue no estdio, aos meus cuidados.
Nesse disco esto cpias de todos os seus relatrios, incluindo as autpsias das duas
vtimas, e dois vdeos horrendos de duas mulheres sendo mortas.
- Aqui, !... - Se voc tivesse metade do material que est me dizendo, j teria
colocado no ar em um piscar de olhos.
- Pensei nisso - Nadine admitiu. - Mas esse caso  mais do que apenas uma
questo de pontos no ibope. Muito mais. Quero uma histria completa, Dalas, uma
bem grande, que possa me garantir um Pulitzer, um Prmio Internacional de Imprensa
e algumas outras distines.
Os olhos dela mudaram, e ficaram mais sombrios. No estava mais sorrindo
quando continuou.
- Acima de tudo, eu vi o que algum fez com aquelas mulheres. Talvez a histria
tenha mais importncia, mas isso no  tudo. Tentei encostar Simpson na parede, e
tentei colocar voc tambm. Gostei do jeito com que voc escapou. Pode fazer esse
acordo comigo, ou eu posso continuar por conta prpria. A escolha  sua.
Eve esperou um pouco. Uma frota de txis passou ao largo, e tambm um
maxinibus, com o motor eltrico zumbindo.
- Combinado, Nadine. - Antes que os olhos da reprter pudessem se acender de
triunfo, Eve se virou para ela. - Se voc me trapacear, Nadine, se pensar, sequer, em
me aprontar alguma, pode preparar o enterro.
- Parece justo.
- Encontre-me no Esquilo Azul, ento, em vinte minutos.
A multido da tarde no clube estava entediada demais para algo alm de
simplesmente curtir seus drinques. Eve conseguiu uma mesa de canto, pediu uma
Pepsi Classic e uma macarronada com molho vegetariano. Nadine se sentou em
frente a ela. Escolheu o especial de frango acompanhado de batatas fritas sem leo.
Uma indicao, Eve pensou com tristeza, da imensa diferena de salrio entre uma
policial e uma reprter.
- O que voc conseguiu? - quis saber Eve.
- Uma imagem vale mais do que centenas de milhares de palavras. - Nadine tirou
um computador de mo de dentro da bolsa. Uma bolsa vermelha, de couro, Eve notou
com inveja. Ela tinha uma fraqueza por couro e cores vivas, fraqueza que raramente
tinha condies de satisfazer.
Nadine colocou o disco e entregou o pequeno computador para Eve. No
adiantava muito soltar palavres, decidiu Eve enquanto Via seus prprios relatrios
desfilando pela tela. Pensativa, deixou o disco rodando at chegar aos dados
confidenciais de Cdigo Cinco, Os relatrios mdicos oficiais, as descobertas do
Instituto Mdico Legal. Parou quando os vdeos comearam a aparecer. No havia
necessidade de ela olhar mortes enquanto comia.
- Est tudo a, certinho? - perguntou Nadine, quando Eve devolveu o computador.
- Est.
- Ento, o cara  algum que  ligado em armas antigas, especialista em sistemas
de segurana e usa os servios de prostitutas.
- As provas apontam para esse perfil.
- E at que ponto voc j conseguiu diminuir a lista de suspeitos?
- Obviamente, no consegui muito.
Nadine esperou enquanto seu prato era servido, antes de falar.
- Deve estar havendo um bocado de presso poltica em cima de voc, por parte
do Senador DeBlass.
- No fao esse jogo poltico.
- O seu chefe faz. - Nadine deu uma garfada no frango. Eve deu um sorriso forado
ao ver a reprter franzir os olhos. - Meu Deus, isso  terrvel. - Filosoficamente,
comeou a comer as batatas fritas. - No  segredo para ningum que o Senador
DeBlass  o principal nome para a indicao do Partido Conservador, neste vero.
Nem que o idiota do Simpson est sonhando em ser governador. Pelo que eu vi no
show de ainda h pouco, parece que eles esto querendo abafar tudo.
- At agora, oficialmente, no h nenhuma ligao entre os dois casos. Mas eu
estava sendo sincera quando falei em igualdade, Nadine. No me importa quem  o
vov de Sharon DeBlass. Vou descobrir quem a matou.
- E quando descobrir, ele vai ser acusado dos dois assassinatos, ou s da morte
de Lola Starr?
- Isso vai depender do promotor. Pessoalmente, eu no ligo a mnima, desde que o
veja executado.
-  esta a diferena entre ns duas, Dalas. - Nadine balanou uma batata frita com
o garfo e acabou colocando-a na boca. Eu quero tudo. Quando voc o agarrar e eu
soltar toda a histria, o promotor no vai ter escolha. Os estilhaos vo deixar DeBlass
ocupado durante meses.
- Agora, quem  que est fazendo jogo poltico?
- Ei, eu s fao a reportagem, no planejo a histria. - Nadine levantou os ombros.
- E esta aqui tem de tudo: sexo, violncia e dinheiro. Ainda por cima, ter um nome
como o de Roarke envolvido vai levantar o ibope at as nuvens.
Muito lentamente, Eve engoliu o macarro e disse:
- No h provas ligando Roarke aos crimes.
- Ele conhecia Sharon DeBlass,  amigo da famlia. Puxa, ele  o dono do prdio
em que ela foi morta. Tem uma das maiores colees de armas do mundo, e dizem
que tem tima pontaria.
- S que no conseguimos rastrear nenhuma das armas dos crimes at ele. E ele
no tinha ligao com Lola Starr.
- Pode ser que no; mas, mesmo como personagem secundrio, Roarke  sempre
manchete. E tambm no  segredo de estado que ele e o senador andaram se
desentendendo no passado. O cara tem gelo nas veias - acrescentou, encolhendo os
ombros. - No acho que fosse ter algum problema em se ligar a dois assassinatos a
sangue-frio. No entanto... - Ela fez uma pausa para levantar o seu drinque. - Ele
tambm  fantico por manter a sua privacidade.  difcil imagin-lo como algum que
ia sair se exibindo, enviando discos com as imagens dos assassinatos para uma
reprter. Quando algum faz isso, quer publicidade, mas tambm precisa muito
escapar impune.
- Teoria interessante. - Eve j aguentara demais. Uma dor de cabea estava
comeando a se insinuar por trs dos olhos, e aquele macarro no ia cair bem.
Levantou-se e se inclinou sobre a mesa at chegar bem perto da reprter. - Vou lhe
dar outra teoria, formulada por uma policial. Quer saber quem  a sua fonte, Nadine?
- Claro que quero! - Seus olhos brilharam.
- Sua fonte  o assassino. - Eve fez uma pausa, para observar a luz se apagar nos
olhos de Nadine. - Se eu fosse voc, ia comear a tomar muito cuidado, amiga.
Eve saiu a passos largos. Foi direto para os fundos do palco. Tinha esperana de
que Mavis estivesse no cubculo estreito que servia de camarim. Naquele momento,
precisava de um rosto familiar.
Eve a encontrou enrolada em um cobertor e espirrando em um leno de papel
esfarrapado.
- Peguei uma droga de um resfriado. - Mavis olhou com os olhos vidrados e
inchados, e assoou o nariz como se fosse uma corneta. - Devo ser maluca, sem usar
nada no corpo, a no ser a porcaria de uma tinta, por mais de doze horas, no meio
deste inverno horroroso.
Cautelosa, Eve manteve distncia.
- Est tomando alguma coisa?
- Estou tomando tudo. - Ela apontou para a mesa, cheia de remdios que
dispensavam receita e alguns cosmticos, para disfarar o rosto vermelho. - Isso 
uma tremenda conspirao da indstria farmacutica, Eve. Conseguimos acabar com
praticamente todas as doenas conhecidas, pragas e infeces. Bem,  claro que de
vez em quando aparece alguma nova, para dar aos pesquisadores algo para fazer.
Mas nenhum desses mdicos com olhar brilhante e nenhum desses computadores
especializados em diagnsticos conseguem descobrir como curar a porra do resfriado.
E voc sabe por qu?
Eve no conseguiu prender o riso. Esperou at que Mavis acabasse com outra
rodada de espirros.
- Por qu?
- Porque a indstria farmacutica precisa vender remdios. Sabe quanto  que
custa um simples envelope de comprimidos contra sinusite?  mais caro do que as
injees anticncer. Juro.
- V ao mdico e pegue uma receita para diminuir os sintomas.
- J fiz isso, tambm. A droga do remdio s funciona por oito horas, e eu tenho
que me apresentar hoje  noite. Vou ter que esperar at as sete horas para poder
tomar.
- Devia estar em casa, na cama.
- Esto dedetizando o prdio. Um engraadinho falou que viu uma barata. - Ela
espirrou de novo, olhando em seguida para Eve com olhos pequenos de coruja, atrs
de clios sem rmel. - E voc, o que est fazendo aqui?
- Tinha alguns assuntos para resolver. Olhe, veja se descansa. Ns nos vemos
mais tarde.
- No, fique um pouquinho. Estou chateada. - Pegou a garrafa de um lquido rosa
de aspecto nojento e bebeu um pouco daquilo pelo gargalo. - Ei, que blusa legal.
Ganhou algum bnus, ou algo assim?
- Algo assim.
- Venha, sente-se aqui. Eu ia ligar para voc, mas estava muito ocupada
detonando os pulmes. Era o Roarke aquele cara que veio em nosso refinado
estabelecimento na noite passada, no era?
- , aquele era o Roarke.
- Quase desmaiei quando ele se sentou junto de voc  mesa. Qual  o lance?
Voc o est ajudando com alguma coisa relacionada com segurana ou algo assim?
- Dormi com ele. - Eve deixou escapar, e Mavis respondeu a isso com um engasgo
incontrolvel na garganta.
- Voc... Roarke. - Com os olhos cheios dgua, pegou mais lenos de papel. - Meu
Deus, Eve. Minha Nossa, voc nunca dorme com ningum. E agora est me dizendo
que dormiu com Roarke?
- Essa informao no  muito exata. Ns no dormimos.
- No dormiram. - Mavis soltou um gemido. - Por quanto tempo?
- Sei l. - Eve levantou o ombro. - Passei a noite l. Oito, nove horas, eu acho.
- Horas. - Mavis estremeceu ligeiramente. - E voc aguentou firme.
- Aguentei.
- Ele  bom? Pergunta idiota - completou, depressa. - Se no fosse, voc no teria
ficado a noite toda. Puxa, Eve, que bicho pegou voc? Alm daquele bicho
incrivelmente energtico dele?
- No sei. Foi burrice. - Ela passou a mo pelos cabelos. Nunca tinha sido desse
jeito comigo, antes. No pensei que isso pudesse... que eu pudesse. Nunca tinha sido
importante, e ento de repente... merda.
- Meu amor. - Mavis puxou a mo de dentro do cobertor e agarrou os dedos tensos
de Eve. - Voc tem bloqueado suas necessidades normais a vida inteira por causa de
coisas que mal lembra. Algum acabou de encontrar um jeito de penetrar nessa
barreira. Voc devia estar feliz.
- Mas isso o coloca na cadeira do piloto, no ?
- Ah, isso  besteira - interrompeu Mavis antes que Eve pudesse continuar. - Sexo
no tem que ser uma corrida de poder. E com certeza tambm no precisa ser um
castigo.  para ser divertido. E de vez em quando, se voc tiver sorte, acaba se
tornando algo especial.
- Talvez. - Eve fechou os olhos. - Ah, Deus. Mavis, coloquei minha carreira na
marca do pnalti.
- De que voc est falando?
- Roarke est envolvido em um caso que estou investigando.
- Ai!... que merda! - Teve que interromper a conversa de novo para assoar o nariz.
- Voc no vai ter que prend-lo por alguma coisa, vai?
- No. - Depois, repetiu, com mais nfase. - No! Mas, se eu no acertar as coisas
direitinho, e bem depressa, com um lindo lao de enfeite, estou fora. Ferrada. Algum
est me usando, Mavis.
- Seus olhos se afiaram novamente. - Esto deixando livre um dos caminhos, e
bloqueando a passagem em outros. No sei por qu. E, se eu no descobrir bem
depressa, isso vai me custar tudo o que eu tenho.
- Ento voc vai ter que descobrir, no ? - Mavis apertou os dedos de Eve.
Ela ia descobrir, Eve prometeu a si mesma. J passava das dez da noite quando
finalmente entrou na portaria de seu prdio. Se no queria pensar em mais nada
naquele momento, no era crime algum. Acabara de engolir uma repreenso vinda do
gabinete do secretrio, por se desviar do comunicado oficial durante a entrevista
coletiva.
O apoio extra-oficial do comandante no ajudava muito a diminuir a dor da
ferroada.
Ao chegar em casa, foi verificar seus e-mails. Sabia que era bobagem, aquela
esperana irritante de que poderia encontrar alguma mensagem de Roarke.
No havia nenhuma. Mas o que encontrou lhe causou um calafrio na espinha.
A mensagem em vdeo veio sem remetente, e tinha sido enviada de um posto
pblico. A garotinha. Seu pai morto. O sangue.
Eve reconheceu os ngulos da gravao oficial do laboratrio da polcia, feita para
documentar o local do assassinato e justificar a morte do criminoso.
O udio entrou. Uma reproduo da gravao que ela mesma fizera dos gritos da
menina. O momento em que ela bateu na porta. O aviso, e todo o horror que se
seguiu.
- Seu canalha - balbuciou. - Voc no vai conseguir me atingir com isso. No vai
conseguir usar essa menina para me atingir.
Mas seus dedos estavam tremendo no momento em que saiu do e-mail. E deu um
pulo quando o interfone tocou.
- Quem ?
-  o Hennessy, do apartamento 2-D. - O rosto plido e honesto do seu vizinho de
baixo apareceu na tela. - Desculpe, Tenente Dalas. No sabia ao certo o que fazer.
Est havendo um problema aqui embaixo, no apartamento dos Finestein.
Eve suspirou e se lembrou visualmente do casal de idosos. Calmos, amigveis,
viciados em TV.
- Qual  o problema?
-  que o Senhor Finestein est morto, tenente. Emborcou na cozinha, enquanto a
mulher estava fora, jogando mah-jongg com as amigas. Achei que talvez a senhorita
pudesse vir at aqui embaixo.
- Claro. - Suspirou de novo. - Vou descer. No toque em nada, Senhor Hennessy,
e tente manter as pessoas afastadas. - Pela fora do hbito, ligou direto para a
Central, fez o rpido aviso de um caso de morte ainda no comunicado e avisou que
estava indo para o local.
Encontrou o apartamento calmo, com a Senhora Finestein sentada no sof da sala
de estar, com as mos pequenas e brancas cruzadas, pousadas no colo. Seu cabelo
era todo branco, tambm, como uma nevasca em volta de um rosto que estava
comeando a se enrugar, apesar dos cremes e tratamentos antienvelhecimento. A
velha senhora sorriu gentilmente ao avistar Eve.
- Sinto muito por incomodar voc, querida.
- No se preocupe. A senhora est bem?
- Sim, estou bem. - Seus olhos azuis se encontraram com os de Eve. - Era a noite
do nosso jogo semanal, meu com as meninas. Ao chegar em casa, encontrei-o cado
sobre a mesa da cozinha. Ele andou comendo torta de ovos. Joe era louco por doces,
at demais. - Ela olhou para Hennessy, que estava em p, trocando o peso do corpo
de um p para o outro, desconfortvel. - No sabia bem o que fazer, e fui bater na
porta do Senhor Hennessy.
- Fez bem. O senhor pode ficar aqui junto com ela por um minuto, por favor? -
perguntou a Hennessy.
A disposio dos aposentos era igual  do apartamento de Eve. Tudo estava
meticulosamente arrumado, apesar da abundncia de pequenos enfeites, bibels e
lembranas.
Na mesa da cozinha, junto do arranjo de flores de porcelana, Joe Finestein perdera
a vida, e parte considervel da dignidade.
Sua cabea estava desmoronada, metade para dentro e metade para fora de uma
tigela de torta de ovos. Eve tentou sentir-lhe a pulsao, sem encontrar nenhuma. A
pele j estava bem fria. Seu palpite era de que ele j estava morto h uma hora e
quinze, um pouco mais, ou um pouco menos.
- Joseph Finestein - ela recitou para o gravador, conforme as regras. - Homem,
aproximadamente cento e quinze anos. Sem sinais de entrada forada no
apartamento, nem violncia. No h marcas no corpo.
Eve chegou mais perto, verificou os olhos surpresos e ainda esbugalhados de Joe,
e cheirou a torta. Depois de terminar as anotaes preliminares, voltou para a sala, a
fim de liberar Hennessy e conversar com a viva.
J passava de meia-noite quando conseguiu chegar na cama. A exausto parecia
estar grudada nela como uma criana chata e teimosa. Esquecer tudo era o que ela
queria naquele momento, rezava por isso.
Sem sonhos, ordenou ao subconsciente. Tire a noite de folga.
Acabara de fechar os olhos quando o tele-link, ao lado da cama, apitou.
- Frite no inferno, quem quer que seja - murmurou, e ento cuidadosamente
levantou o lenol para cobrir os ombros nus e ligou o monitor.
- Tenente. - A imagem de Roarke sorriu para ela. -Acordei voc?
- Mais cinco minutos e teria me acordado. - Ela se ajeitou na cama enquanto o
udio sibilou devido  interferncia espacial.
- Estou vendo que voc j chegou no lugar para onde ia, afinal.
- Cheguei. A viagem atrasou s um pouquinho. Pensei em ligar antes que voc se
deitasse.
- Por algum motivo em particular?
- Porque gosto de olhar para voc. - O sorriso dele desapareceu quando observou
melhor o rosto dela. - O que h de errado, Eve?
Por onde voc quer que eu comece?, pensou ela, mas encolheu os ombros.
- Tive um dia puxado que acabou com um dos meus vizinhos e seu inquilino
batendo as botas em cima do lanche noturno. Caiu de cara em cima de uma torta de
ovos.
- Bem, h maneiras piores de morrer, imagino. - Virou a cabea e falou com
algum perto dele. Eve viu uma mulher passar rapidamente por trs dele e sair da
tela. - Acabei de dispensar minha assistente - explicou. - Queria que ficssemos a ss
para perguntar se voc est usando alguma coisa no corpo, por baixo desse lenol.
Ela olhou para baixo e levantou uma sobrancelha, respondendo:
- Parece que no.
- Por que no tira o lenol?
- De jeito nenhum. No vou satisfazer seu teso descontrolado atravs de uma
transmisso interespacial, Roarke. Use a imaginao.
- Estou usando. Estou imaginando o que vou fazer para agrad-la da prxima vez
em que colocar as mos em voc. Meu conselho  que descanse bastante, tenente.
- Roarke, precisamos ter uma conversa, depois que voc voltar. - Ela queria sorrir,
mas no conseguiu.
- Podemos conversar, tambm. Sempre achei conversar com voc muito
estimulante, Eve. Agora veja se dorme um pouco.
- Sim, vou mesmo. A gente se v, Roarke.
- Pense em mim, Eve.
Ele terminou a transmisso, mas continuou sentado sozinho, olhando com o rosto
franzido para o monitor apagado. Havia algo nos olhos dela, pensou. Ele j conhecia
os sinais daquele olhar, e conseguia atravessar o disfarce e atingir as emoes.
Aquele algo era preocupao.
Girando a cadeira, olhou para a vista l fora, um espao gigantesco de estrelas
respingadas. Eve estava longe demais para que ele pudesse fazer mais do que
simplesmente matutar sobre o que poderia estar havendo com ela.
E se perguntou, novamente, por que ela importava tanto para ele.
CAPTULO TREZE
Eve analisou, frustrada, o relatrio da busca por algum cofre particular de Sharon
DeBlass nos bancos da cidade. Sem registro, sem registro, sem registro.
Nada em Nova York, nem em New Jersey ou Connecticut. Nada em Washington,
nem na Virgnia.
Ela devia ter alugado algum espao, em algum lugar, pensou.
Sharon mantinha dirios, e os tinha enfiado em algum lugar onde pudesse acesslos
em segurana, e bem depressa.
Naqueles dirios, Eve estava convencida, havia um motivo para
assassinato.
Como no estava com vontade de mandar Feeney fazer outra busca ainda mais
ampla, ela mesma comeou a pesquisar, iniciando com a Pensilvnia, depois indo
para oeste e norte, at chegar ao Canad e Quebec. Em pouco menos do dobro do
tempo que Feeney teria levado, ela encerrou a busca sem achar nada.
A seguir, indo para o sul, seguiu por Maryland, e foi descendo at a Flrida. O
computador comeou a fazer um barulho estranho enquanto trabalhava. Eve deu um
urro de advertncia e chutou a torre. Jurou que ia enfrentar a complicao de
requisitar uma mquina nova se aquela ali aguentasse pelo menos at o fim daquele
caso.
Mais por teimosia do que por esperana, fez uma busca pelas regies do interior
do pas, e j estava indo para os estados da Costa Oeste.
Voc era muito esperta, Sharon, Eve pensava, enquanto os resultados negativos
continuavam a aparecer. Mais esperta do que devia. Garanto que no ia guardar nada
fora do pas, nem fora do planeta, onde tudo teria que passar pela Alfndega, a cada
viagem. Para que ir to longe, em algum lugar onde voc precisasse de transporte
especial ou documentos de viagem? Voc ia querer acesso imediato.
Se a sua me sabia que voc mantinha dirios, talvez outras pessoas soubessem,
tambm. E voc se vangloriava disso porque gostava de deixar as pessoas
desconfortveis. E porque sabia que eles estavam muito bem escondidos.
Mas tinha que ser em algum lugar bem perto, droga, pensou Eve, fechando os
olhos para focar em sua mente a mulher que estava comeando a conhecer to bem.
Bem perto, para poder sentir o poder, para us-lo e brincar com as pessoas.
Mas no podia ser nenhum lugar to fcil de achar que qualquer um pudesse
rastrear, ter acesso ao material e estragar a brincadeira. Ento, voc usou um nome
falso. Alugou um cofre em um banco usando um outro nome, s para garantir. E,
sendo esperta o suficiente para usar um nome diferente, escolheria um que fosse
bsico, que fosse familiar. Um que no fosse lhe dar muita dor de cabea.
Era to simples, Eve compreendeu, enquanto digitava no teclado o nome de
Sharon Barrister. To simples que tanto ela quanto Feeney tinham deixado passar.
Eve se deu bem na lista do Banco Brinkstone Internacional, em Newark,
Newjersey.
Sharon Barrister tinha no apenas um cofre particular, mas tambm uma carteira
de aes no valor de trezentos e vinte e seis mil dlares, e oitenta e cinco centavos.
Sorrindo para a tela, acionou sua ligao direta com o gabinete do promotor.
- Preciso de um mandado de segurana - anunciou.
Trs horas depois, j estava de volta ao gabinete do Comandante Whitney,
tentando no ranger os dentes.
- Ela tem outro cofre, em algum lugar - insistiu Eve. - E os dirios esto nele.
- Ningum a est impedindo de continuar procurando, Dalas.
- timo, eu sei. - Ela circulava em volta de toda a sala enquanto falava. A energia
estava sendo bombeada em todo o seu corpo, e ela queria ao. - E o que vai fazer a
respeito disso? Agitou a mo para a pasta que estava sobre a mesa do comandante.
- J lhe trouxe o disco que peguei no cofre do banco e a listagem que imprimi. Est
tudo aqui, comandante, uma lista de gente chantageada, com nomes e valores. E o
nome do Simpson est nela, direitinho, em ordem alfabtica.
- Eu sei ler, Dalas. - Whitney resistiu  vontade de massagear a base do crnio,
que estava tensa. - O Secretrio de Segurana no  a nica pessoa com o
sobrenome Simpson desta cidade, muito menos do pas.
-  ele! - Eve estava soltando fumaa, e no havia onde colocar o vapor. - Ns dois
sabemos disso. E h tambm um monte de outros nomes interessantes a. Um
governador, um bispo catlico, a lder respeitvel de uma Organizao Internacional
de Defesa da Mulher, dois policiais de alta patente, um ex-vice-presidente...
- J vi todos os nomes - Whitney interrompeu. - Ser que voc est consciente da
sua posio, Dalas, e das consequncias? Ele levantou a mo para mant-la calada. -
Alguns nomes e nmeros colocados arrumados em duas colunas no significam
nadinha. Se estes dados sarem deste gabinete, j era. Voc est liquidada, e a
investigao tambm.  isso o que voc quer?
- No, senhor.
- Consiga os dirios, Dalas, ache uma ligao entre Sharon DeBlass e Lola Starr, e
ento a gente v para onde vai a partir da.
- Simpson est todo sujo. - Ela se inclinou sobre a mesa. - Ela conhecia Sharon
DeBlass; ele estava sendo chantageado. E est fazendo tudo o que pode para
prejudicar a investigao.
- Ento vamos ter que passar por cima dele, no ? Whitney colocou a pasta
dentro do seu cofre pessoal. - Ningum pode saber o que temos aqui, Dalas. Nem
mesmo Feeney. Isto est claro?
- Sim, senhor. - Vendo que ia ter que se satisfazer com aquilo, ela foi em direo 
porta. - Comandante, gostaria de assinalar que h uma pessoa que no consta nessa
lista. O nome de Roarke no est nela.
- Foi como eu disse, Dalas. - Os olhos de Whitney se encontraram com os dela e
ele acenou com a cabea. - Eu sei ler.
O indicador de mensagens estava piscando quando Eve voltou  sua sala. Uma
olhada na lista de e-mails constatava duas chamadas do mdico legista. Impaciente,
Eve colocou sua batata quente de lado e respondeu ao chamado.
- Acabei de conferir os testes que fiz em seu vizinho, Dalas. Voc acertou na
mosca.
- Ah, que inferno! - Ela passou a mo no rosto. - Envie os resultados para mim, que
eu pego por aqui.
Quando Hetta Finestein abriu a porta, um aroma de sache de lavanda misturado
com o cheiro fermentado de po feito em casa envolveu Eve.
- Tenente Dalas.
Ela ofereceu um sorriso discreto e deu um passo para trs, convidando Eve a
entrar. Na sala, a tela de projeo estava sintonizada em um programa de entrevistas
e bate-papo, onde pessoas que estivessem assistindo em casa podiam se conectar e
enviar imagens hologrficas de si prprias at o estdio, para interao completa. O
tema parecia ser os altos salrios pagos s mes profissionais. Naquele instante a tela
estava cheia de mulheres e crianas de diferentes idades e opinies.
- Que gentileza a sua, ter aparecido. Tive tantas visitas hoje.  uma espcie de
conforto. Gostaria de alguns biscoitos caseiros?
- Claro, obrigada. - Eve estava se sentindo uma pessoa podre. Sentou-se no sof e
percorreu com os olhos o pequeno e bemcuidado apartamento. - A senhora e o
Senhor Finestein tinham uma padaria?
- Ah, sim. - A voz de Hetta vinha da cozinha, com os rudos de seus movimentos
agitados. - Tivemos a loja at alguns anos atrs. Era um sucesso. As pessoas adoram
comida de verdade, voc sabe. E, sem querer me gabar, tenho uma mo muito boa
para tortas e bolos.
- E a senhora prepara um bocado de coisas em casa, tambm. Hetta voltou com
uma bandeja cheia de cookies dourados.
- Sim.  um dos meus prazeres. Muitas pessoas no fazem ideia da alegria que d
saborear um cookie feito em casa. H um monte de crianas que jamais
experimentaram acar de verdade.  extremamente caro, sim, mas vale a pena.
Eve experimentou um dos cookies e foi obrigada a concordar.
- Imagino que foi a senhora mesma que preparou a torta de ovos que seu marido
estava comendo quando ele morreu.
- Certamente. No admito comidas prontas ou feitas com ingredientes artificiais em
minha casa - informou Hetta, com orgulho. -  claro que Joe avanava em tudo o que
eu fazia e devorava tudo, mal saa do forno. No existe um AutoChef no mercado que
seja to confivel e completo, nem que tenha a criatividade e os instintos de uma boa
cozinheira ou doceira.
- Ento a senhora realmente preparou a torta, Senhora Finestein.
- Sim, preparei. - Ela piscou, acabando por fechar os olhos.
- Senhora Finestein, a senhora sabe o que foi que matou o seu marido?
- Sim, eu sei. - Ela sorriu com suavidade. - Gulodice. Eu avisei para ele no comer
aquilo. Avisei especificamente para que ele no tocasse naquela torta. Expliquei que
era uma encomenda para a Senhora Hennessy, do outro lado do corredor.
- Senhora Hennessy. - Essa informao fez Eve recuar vrios passos,
mentalmente. -A senhora...
-  claro que eu sabia que ele ia acabar comendo a torta, de qualquer jeito. Era
muito egosta no que se referia a comida.
- Ser que ns poderamos, ahn... - Eve limpou a garganta
- desligar esse programa?
- Hein? Ah, desculpe. - A agitada anfitri deu pequenos tapas no prprio rosto. -
Isso foi to grosseiro. Estou to acostumada a deixar a tela ligada o dia todo que nem
reparei. Ahn... Programa... no... Tela, desligar!
- O som tambm - disse Eve, pacientemente.
-  claro. - Balanando a cabea enquanto o som continuava a encher o ambiente,
Hetta pareceu envergonhada. - Jamais consegui me acostumar com essa coisa desde
que trocamos o aparelho para comando de voz, em vez de controle remoto. Som,
desligar, por favor! Pronto, agora est melhor, no est?
A amvel senhora era capaz de preparar uma torta envenenada, mas no
conseguia controlar a prpria televiso, Eve pensou. Existia mesmo todo tipo de
gente.
- Senhora Finestein, no quero lhe dizer mais nada at acabar de ler os seus
direitos. At ter certeza de que a senhora os compreendeu bem. No  obrigatrio que
a senhora faa nenhuma declarao agora - comeou Eve, enquanto Hetta continuava
a sorrir com ternura.
Hetta esperou at que Eve acabasse de recitar seus direitos legais, antes de falar.
- Eu sabia que no ia escapar. Sabia mesmo. E nem contava com isso.
- Escapar do qu, Senhora Finestein?
- Da punio por ter envenenado Joe. No entanto... - apertou os lbios, como uma
criana. - Tenho um neto que  advogado, um rapaz muito esperto. Acho que ele vai
explicar que, uma vez que eu avisei a Joe, muito especificamente, para que ele no
comesse aquela torta, a culpa na verdade foi mais dele do que minha. Enfim... - disse
ela, e esperou com pacincia.
- Senhora Finestein, a senhora est me dizendo que adicionou um composto de
cianeto sinttico  receita de uma torta de ovos, com a inteno especfica de matar o
seu marido?
- No, querida. O que estou lhe dizendo  que adicionei cianeto e uma dose extra
de acar em uma torta, e avisei a meu marido para no tocar nela. Joe, eu fui bem
clara, no pegue nem um pedacinho daquela torta de ovos. Eu a preparei com
ingredientes especiais, e no  para voc. Entendeu bem, Joe?
- Ele me disse que tinha entendido direitinho, sim. - Hetta sorriu mais uma vez. -
Depois, bem na hora de sair para o meu jogo com as meninas, avisei a ele mais uma
vez, para ter certeza absoluta. Estou falando srio, Joe. No toque naquela torta!
Sabia que ele ia acabar comendo, mas isso cabia a ele decidir, no ? Deixe que eu
lhe fale a respeito de Joe - continuou ela, em tom de conversa descontrada, e pegou
na bandeja de cookies para oferecer mais um a Eve. Ao ver que ela hesitava em
aceitar, Hetta riu alegremente. - Ora, querida, estes aqui so totalmente seguros, juro
para voc. Acabei de dar uma dzia deles quele garotinho do andar de cima.
E, para provar o que dizia, pegou um ela mesma e o comeu, antes de continuar.
- Onde  que eu estava, mesmo? Ah, sim, falando de Joe. Ele  o meu segundo
marido, sabe? amos fazer cinquenta anos de casados agora em abril. Era um bom
companheiro, e excelente padeiro e confeiteiro, tambm. Alguns homens, porm,
jamais deviam se aposentar. Nos ltimos anos ele estava se tornando uma pessoa
muito difcil de se conviver. Mal-humorado, vivia reclamando o tempo inteiro, sempre
achando defeitos em tudo. E no deixava restinhos de comida nem na ponta dos
dedos. No conseguia passar ao lado de uma torta de amndoas sem devor-la
inteira, na mesma hora.
Pelo fato de que aquilo parecia quase razovel, Eve esperou um momento.
- Senhora Finestein, a senhora o envenenou porque ele comia demais?
- Parece que foi por isso, mas a coisa vai mais longe. - As bochechas rosadas de
Hetta se mexeram. - Voc  to jovem, querida, e ainda no tem famlia, no ?
- No.
- A famlia  uma fonte de conforto, e uma fonte de irritao. Ningum de fora
jamais conseguir compreender o que se passa na privacidade de um lar. Joe no era
um homem fcil de aturar, e acho, embora no goste de falar mal dos mortos, que ele
tinha desenvolvido maus hbitos. Tinha um prazer especial em me aborrecer e
magoar, e em estragar minhas pequenas alegrias. No ms passado, por exemplo, ele
comeu, de propsito, metade do bolo Torre de Prazer que eu preparara especialmente
para a Competio Internacional Betty Crocker. Depois ainda veio me dizer que a
massa estava muito seca. - Sua voz bufou de raiva, para provar o bvio insulto
daquilo. - D para imaginar?
- No - disse Eve, baixinho. - No d.
- Bem, ele fez isso s para me deixar louca. Era o jeito que tinha de sentir que
exercia poder sobre mim, entende? Ento eu preparei a torta, avisei para que ele no
tocasse nela, e sa para jogar mah-jongg com as meninas. No fiquei nem um pouco
surpresa quando voltei e vi que ele no tinha me atendido. Era um gluto, como voc
pode ver. - Fez um gesto com o cookie que tinha na mo, antes de dar a ltima
dentada, com delicadeza. - Este  um dos sete pecados capitais, a gula. Pareceu-me
justo que ele acabasse morrendo pela boca, pagando seu prprio pecado. Tem
certeza de que no quer mais um biscoitinho?
O mundo com certeza era um lugar completamente doido, decidiu Eve, se as
velhinhas envenenavam tortas de ovos. E com aquele comportamento de vov
antiquada, calma e carinhosa, avaliou, a velha era bem capaz de escapar da cadeia.
E, no caso de ser condenada, ia acabar na cozinha da priso, preparando
alegremente bolos e massas para as outras detentas.
Eve completou o relatrio, fez uma refeio rpida na lanchonete, e ento voltou
ao trabalho, para estudar a nova pista do caso Sharon, que estava em fogo brando.
No tinha coberto nem metade dos bancos de Nova York quando a mensagem
chegou, e Eve atendeu:
- Sim, aqui  Dalas falando.
A resposta que obteve foi uma imagem que surgiu na tela. Uma mulher morta,
arrumada de modo familiar demais sobre lenis empapados de sangue.
TRS DE SEIS
Eve ficou olhando fixamente para a mensagem colocada sobre o corpo e rugiu
para o computador:
- Faa o rastreamento da ligao. Descubra o endereo. Agora, droga.
Assim que o computador respondeu, acionou a Equipe de Emergncia.
- Aqui fala Dalas, Tenente Eve, Identificao 5347BQ. Prioridade A. Qualquer
unidade disponvel dirija-se  Rua 89 Oeste, nmero 156, apartamento 2119. No
entrem no prdio. Repito, no entrem no prdio. Detenham todas as pessoas que
estiverem saindo do edifcio. Ningum entra no apartamento, seja civil ou militar.
Estimativa de minha chegada no local: dez minutos.
- Registrado, Dalas, Tenente Eve. - O andride de planto falava de modo frio e
sem pressa. - As unidades cinquenta e trinta e seis esto disponveis para apoio. Vo
aguardar a chegada. Prioridade A. Emergncia desconectando.
Eve agarrou a bolsa e o kit de trabalho e saiu.
Ao chegar ao apartamento, entrou sozinha, com a arma na mo e pronta. A sala de
estar estava bem-arrumada, at mesmo aconchegante, cheia de almofades
convidativos e tapetes franjados. Havia um livro jogado no sof e uma pequena
depresso ao lado dele, indicando que algum passara algum tempo ali, encolhida e
lendo. Franzindo a testa diante daquela imagem, Eve se dirigiu para a porta que ficava
adiante.
O pequeno aposento estava montado para ser um escritrio, com uma
escrivaninha muito bem-arrumada, e havia pequenos vestgios da personalidade da
dona, representada pela cesta de flores de seda perfumadas, um vidro largo cheio de
balas de goma e uma caneca branca decorada com um corao vermelho.
A escrivaninha ficava de frente para a janela, e esta dava para um outro prdio,
onde ningum se dera o trabalho de colocar telas protetoras de privacidade. Ao longo
de uma das paredes estava uma nica prateleira, com vrios outros livros, uma caixa
larga para discos, outras para e-memos, um pequeno ba de tesouro que funcionava
como porta-lpis e blocos de papel reciclado. Ao lado havia uma figura meio torta feita
de barro, com a aparncia de um cavalo, e que certamente fora feita por uma criana.
Eve se virou no cmodo e abriu a porta da parede oposta.
J sabia o que a esperava. Seu estmago no reagiu. O sangue ainda estava bem
fresco. Com um pequeno suspiro, guardou a arma no coldre, sabendo que estava
sozinha com a morta.
Atravs do spray protetor que espalhara nas mos, sentiu a temperatura do corpo.
Ainda estava quente.
A vtima tinha sido posicionada na cama com o revlver colocado cuidadosamente
entre as pernas.
Pareceu a Eve uma Ruger P-90, uma arma de combate feita de metal brilhante,
muito popular como defesa domstica, e usada durante a Revolta Urbana. Leve,
compacta e totalmente automtica.
No foi usado um silenciador desta vez, mas ela era capaz de apostar que o quarto
era  prova de som, e que o assassino sabia disso.
Foi at a penteadeira redonda, bem feminina e cheia de objetos, e abriu uma
pequena bolsa rstica de juta, que estava na moda. Dentro, encontrou a licena de
acompanhante sexual da morta.
Uma mulher bonita, avaliou. Sorriso agradvel, olhos diretos, e uma atraente pele
morena.
- Georgie Castle - Eve recitou para o gravador. - Mulher, cinquenta e trs anos.
Acompanhante sexual licenciada. A morte provavelmente ocorreu entre sete e sete e
quarenta e cinco da noite. Causa da morte, ferimentos a bala, informao a ser
confirmada pelo mdico legista. Trs pontos visveis de entrada dos projteis: testa,
peito e genitlia. Muito provavelmente os tiros foram disparados por uma antiga arma
de mo, estilo combate, deixada na cena do crime. No h sinais de estrangulamento,
nem indcios de a entrada no apartamento ter sido forada. Tambm no h sinais de
roubo.
Um sussurro atrs dela fez Eve pular de lado e pegar na arma. Agachada, com os
olhos duros e frios, olhou para um gordo gato cinza que entrara de mansinho no
quarto.
- Que susto! De onde  que voc veio? - Ela soltou um longo suspiro de alvio
enquanto tornava a guardar a arma. - H um gato no local - acrescentou para o
gravador, e quando ele piscou os olhos para ela, fazendo brilhar um olho verde e outro
dourado, abaixou-se para acarici-lo.
O ronronar lhe pareceu o de uma mquina pequena e bem lubrificada.
Colocando-o de lado, pegou no comunicador e ordenou a entrada da Equipe de
Homicdios.
Pouco tempo depois, Eve estava na cozinha, observando o gato que farejava com
delicado desdm uma tigela de comida que ela conseguira encontrar. Nesse instante,
ouviu o som de vozes alteradas, do lado de fora do apartamento.
Quando foi investigar, encontrou a jovem policial que deixara de guarda na porta.
Tentava impedir a entrada de uma mulher frentica e muito determinada.
- Qual  o problema, policial?
- Tenente. - Com bvios sinais de alvio, a jovem se dirigiu  oficial superior. - Esta
civil exige entrar no apartamento. Eu estava...
-  claro que eu exijo entrar. - O cabelo ruivo escuro da mulher estava bem
cortado, com pontas que balanavam e rodavam em torno de seu rosto a cada
sacudida do corpo. - Esta  a casa da minha me. Quero saber o que vocs esto
fazendo aqui.
- E como se chama sua me? - Eve a interpelou.
- Senhora Castle. Senhora Georgie Castle. Houve algum arrombamento? - A raiva
se transformou em preocupao enquanto ela tentava se espremer para passar por
Eve. - Ela est bem? Mame!
- Venha comigo. - Eve pegou-a pelo brao, com firmeza, e a encaminhou pela sala
at a cozinha. - Qual  o seu nome?
- Samantha Bennett.
O gato deixou a tigela de lado e veio para se enroscar entre as pernas de
Samantha. Com um gesto que Eve reconheceu como automtico e habitual,
Samantha se abaixou para coar a cabea do animal, entre as orelhas.
- Onde est a minha me? - Naquele momento, a preocupao comeou a se
transformar em medo, e a voz de Samantha ficou entrecortada.
No havia nada que Eve detestasse mais em seu trabalho do que aquilo. Nenhum
aspecto do trabalho da polcia afetava seus sentimentos com lminas to cegas e
cruis.
- Sinto muito, Senhorita Bennett. Sinto de verdade, mas a sua me est morta.
Samantha no disse uma palavra. Seus olhos, com o mesmo tom de mel escuro
dos olhos da me, perderam o foco. Antes que ela desabasse, Eve a acomodou em
uma cadeira.
- Deve haver algum engano - conseguiu dizer. - Tem que haver um engano.
Tnhamos combinado de ir ao cinema. Sesso das nove. Sempre vamos ao cinema s
teras. - Ela olhou para Eve com olhos desesperadamente esperanosos. - Ela no
pode estar morta. Mal completou cinquenta anos, e  muito saudvel.  muito forte.
- No h engano algum. Sinto muito.
- Foi um acidente? - Seus olhos se encheram de lgrimas, que comearam a
transbordar. - Ela sofreu algum acidente?
- No, no foi um acidente. - No havia outra maneira de contar, a no ser relatar
toda a verdade. - Sua me foi assassinada.
- No, isso  impossvel. - As lgrimas continuavam a cair. Sua voz tropeava nos
soluos com dificuldade, enquanto ela continuava a balanar a cabea, em atitude de
negao. - Todos gostavam dela. Todos. Ningum ia querer machuc-la. Quero v-la.
Quero v-la, agora.
- No posso permitir que faa isso.
- Mas ela  minha me. - As lgrimas caam-lhe no colo enquanto a voz ficava
mais alta. - Tenho o direito de v-la. Quero ver a minha me.
Eve apertou os ombros de Samantha com as duas mos, forando-a a se sentar
novamente na cadeira da qual se levantara bruscamente.
- Voc no vai v-la. No ia ajudar em nada. No seria bom para voc. O que vai
fazer  responder s minhas perguntas, e isso vai servir para que eu encontre a
pessoa que fez isso com ela. Agora, me diga, quer tomar alguma coisa? Quer que eu
chame algum para voc?
- No. No. - Samantha remexeu na bolsa  procura de um leno. - Meu marido,
meus filhos. Eu vou ter que contar a eles. E ao meu pai. Como vou contar a eles?
- Onde est o seu pai, Samantha?
- Ele mora... ele mora em Westchester. Meus pais se divorciaram h uns dois
anos. Ele ficou com a casa porque mame queria se mudar para a cidade. Ela queria
comear a escrever livros. Sonhava em se tornar escritora.
Eve se virou para a mquina de gua tratada sobre a bancada da pia e encheu um
copo, entregando-o a Samantha.
- Voc sabe o que a sua me fazia para ganhar a vida?
- Sim. - Samantha apertou os lbios com fora, e amarrotou o leno mido entre os
dedos gelados. - Ningum conseguia convenc-la a largar essa vida. Ela costumava
rir e dizer que j era tempo de fazer algo bem chocante na vida, e tambm que era
uma maravilhosa fonte de pesquisa para seus livros. Minha me... Samantha
interrompeu a frase para beber um gole da gua - se casou muito nova. Alguns anos
atrs, disse que precisava ir em frente com a vida dela, ver o que mais havia no
mundo. No conseguimos convenc-la do contrrio, tambm. Jamais algum
conseguia convenc-la a fazer o que no quisesse.
Comeou a chorar de novo, cobrindo o rosto e soluando baixinho. Eve pegou no
copo que ela mal tocara e esperou, deixando a primeira onda de choque e o pesar
passarem.
- O divrcio foi complicado? Seu pai ficou zangado?
- Desconcertado. Confuso. Triste. Ele a queria de volta, e sempre falava que essa
era apenas mais uma das fases passageiras dela. Ele... - A pergunta que apareceu
por trs do questionamento de Eve de repente a atingiu, e ela abaixou as mos. - Ele
jamais a machucaria. Nunca, nunca, nunca. Ele a amava. Todos a amavam. Era algo
inevitvel.
- Tudo bem. - Eve poderia lidar com aquilo mais tarde. Voc e sua me eram
amigas ntimas?
- Sim, muito ntimas.
- Alguma vez ela conversou com voc a respeito dos clientes dela?
- s vezes. Isso me deixava um pouco sem graa, mas ela sempre achava uma
maneira de fazer com que tudo aquilo parecesse escandalosamente engraado.
Conseguia esse tipo de coisa. Chamava a si prpria de Vov Sexy, e a gente tinha
que rir.
- Alguma vez ela mencionou algum que a fizesse se sentir desconfortvel?
- No. Sabia lidar bem com as pessoas. Era parte do charme dela. Pretendia levar
essa vida s at conseguir ter seus livros publicados.
- Alguma vez ela mencionou os nomes de Sharon DeBlass ou Lola Starr para
voc?
- No. - Samantha comeou a ajeitar o cabelo para trs, e ento sua mo parou
em pleno ar. - Starr. Lola Starr. J ouvi esse nome, no noticirio. Ouvi falar dela. Foi
assassinada. Ah, meu Deus, ah, Deus!... - Samantha abaixou a cabea, fazendo os
cabelos cair em cascata. Eles cobriram seu rosto como duas asas.
- Vou pedir para um policial acompanh-la at em casa, Samantha.
- No posso deix-la. No posso deix-la aqui, sozinha.
- Sim, pode sim. Eu vou cuidar dela. - Eve colocou as duas mos sobre as mos
de Samantha. - Prometo a voc que vou cuidar muito bem dela. Vamos l. - Com
gentileza, ajudou Samantha a se levantar. Enlaou o brao em torno da cintura da
jovem ainda confusa e a levou at a porta. Queria que ela sasse antes que a equipe
terminasse o trabalho no quarto. - Seu marido est em casa?
- Sim, est em casa com as crianas. Temos dois filhos, um com dois anos e o
outro com seis meses. Tony ficou com eles em casa.
- timo. Qual  o seu endereo?
O choque estava comeando a sedimentar. Eve tinha a esperana de que o
entorpecimento que podia notar no rosto de Samantha pudesse ajud-la, enquanto ela
recitava um endereo de alta classe em Westchester.
- Policial Banks!
- Sim, Tenente!
- Leve a Senhora Bennett para casa. Vou pedir para enviarem outro policial para
ficar de guarda na porta. Fique junto da famlia enquanto precisarem de ajuda.
- Sim, senhora. - Com cuidado e compaixo, a policial guiou Samantha at os
elevadores. - Venha por aqui, Senhora Bennett - murmurou.
Samantha se encostou meio mole, como se estivesse embriagada, na policial, e
perguntou a Eve:
- Voc vai mesmo cuidar bem dela?
- Prometo! - Eve encarou fixamente os olhos destroados de Samantha.
Uma hora depois, Eve entrava na Central de Polcia com um gato debaixo do
brao.
- Oi, tenente. Estou vendo que conseguiu agarrar um gato gatuno. - O sargento de
planto riu gostosamente da prpria piada.
- Assim voc me mata de rir, Riley. O comandante ainda est aqui?
- Esperando por voc. Pediu para que voc fosse ao gabinete dele assim que
aparecesse. - Ele se inclinou para fazer um carinho no bichano, que ronronava. - Voc
encarou outro homicdio, no foi?
- Foi.
O som de um beijo estalado a fez virar o rosto e notar a presena de um sujeito
bonito, com olhar malicioso, que usava um macaco de pra-quedista feito de fibra
elstica. O macaco e o filete de sangue que escorria pela lateral de sua boca, eram
aproximadamente da mesma cor. Seus acessrios eram duas algemas finas e pretas,
que o mantinham preso pelo brao, prximo a um banco comprido. O rapaz algemado
esfregou a mo livre pela parte da frente das calas e piscou para Eve.
- Ei, gata. Tem um presentinho aqui dentro para voc.
- Avise ao Comandante Whitney que j estou subindo - ela pediu a Riley, que j
estava rolando os olhos, depois de ouvir a cantada.
Sem conseguir resistir, Eve foi at o banco e se inclinou para o rapaz, o suficiente
para sentir um cheiro azedo de vmito.
- Essa foi uma proposta muito charmosa - murmurou ela, e depois arqueou a
sobrancelha quando o homem abriu a braguilha e balanou a sua personalidade
diante dela. Ao ver aquilo, Eve disse:
- Olhe ali, gatinha, que gracinha... um pnis bem pequenininho. - Ela sorriu,
chegando ainda mais perto. -  melhor guardar seu pintinho, babaca, e cuidar bem
dele, porque a minha gatinha aqui pode pensar que  um filhote de camundongo, dar
uma dentada nele e arranc-lo fora.
Ficou se sentindo muito melhor ao ver que o que havia de orgulho e alegria
murchou no rosto dele, antes mesmo de fechar o zper. O bom humor durou quase at
o momento em que ela entrou no elevador e ordenou o andar do Comandante
Whitney.
Ele j estava esperando, com Feeney, olhando o relatrio que ela enviara
diretamente da cena do crime. Pela prpria natureza da repetio exigida pelos
procedimentos policiais, Eve relatou tudo de novo, verbalmente.
- Ento, esse a  o gato - disse Feeney.
- No tive coragem de entreg-lo  filha da vtima, do jeito que ela estava. -
Encolheu os ombros. - E tambm no pude deix-lo l. - Com a mo livre, pegou a
bolsa. - Os discos dela. Est tudo etiquetado. Dei uma olhada nos encontros
assinalados para hoje. O ltimo do dia estava marcado para as seis e meia. John
Smith. Aqui est a arma. - Ela colocou o plstico selado com a arma do crime sobre a
mesa de Whitney. - Parece que  uma Ruger modelo P-90.
- Est aprendendo, garota - disse Feeney, dando uma olhada e concordando com
a cabea.
- Andei queimando as pestanas, estudando isso.
-  do incio do sculo, provavelmente ano 2008 ou 2009. Afirmou Feeney
enquanto revirava a arma selada nas mos. - Est em excelentes condies. Nmero
de srie intacto. No vai levar muito tempo para rastrear - acrescentou, mas mexeu
com os ombros. - S que ele  esperto demais para usar uma arma registrada.
- Mesmo assim, pesquise - ordenou Whitney, e apontou Para a unidade auxiliar do
outro lado da sala. -J ordenei vigilncia constante no seu edifcio, Dalas. Se ele tentar
enviar outro disco para voc, vamos film-lo.
- Se ele continuar fiel ao mtodo, o disco vai chegar nas prximas vinte e quatro
horas. At agora ele manteve o mesmo padro, embora cada uma das vtimas tenha
sido um tipo diferente: com Sharon DeBlass temos uma vtima com glamour e
sofisticao; com Lola Starr, temos aquela do tipo principiante, quase infantil; agora,
com esse novo ataque, temos o conforto. Uma mulher ainda jovem, mas madura.
- Estamos interrogando os vizinhos - continuou ela. - Vou conversar com a famlia
novamente, pesquisar a ao do divrcio. Parece que ela aceitou receber esse cliente
por impulso. Tinha um encontro marcado com a filha para todas as teras-feiras.
Queria que Feeney pesquisasse as chamadas que ela recebeu, para ver se esse
cliente a contactou pessoalmente. Esse, ns no vamos conseguir esconder da
imprensa, comandante. E eles vm com tudo em cima da gente.
- J estou trabalhando no controle da mdia.
- Esse caso pode ser mais quente do que a gente imagina disse Feeney, olhando
por cima do monitor. Seus olhos se encontraram com os de Eve, de um jeito que fez o
sangue dela gelar.
- A arma do crime est registrada. Foi comprada em um leilo da Sothebys que
aconteceu no ltimo outono, por um comprador no declarado. Foi registrada em
nome de Roarke.
Eve ficou sem fala por um momento, mas no se importou.
- O padro foi quebrado - ela conseguiu dizer, por fim. Isso  uma burrice, e
Roarke no  um homem burro.
- Tenente...
- A arma foi plantada, comandante. Isso  bvio. Arrematada em leilo por um
comprador no declarado. Qualquer hacker de segunda categoria conseguiria forjar a
identidade de algum e dar um lance. Como  que foi feito o pagamento? - perguntou,
virando-se para Feeney.
- Vou ter que acessar os registros da Sothebys quando eles abrirem, amanh.
- Aposto que foi em dinheiro, por transferncia eletrnica. O leiloeiro recebe a
grana, por que iam querer saber de onde veio? Sua voz podia parecer calma, mas sua
cabea estava a mil. - E a entrega. Meu palpite  que foi feita em uma estao pblica
de retirada eletrnica automtica. No  necessrio identificao para pegar a
mercadoria. Tudo o que algum precisa  da senha para o cdigo de entrega.
- Dalas - pediu Whitney, com pacincia -, traga-o aqui para um interrogatrio.
- No posso fazer isso.
- Isso  uma ordem direta, Dalas. - Os olhos do comandante permaneceram
inalterados e frios. - Se voc tem algum problema pessoal, deixe para resolver em sua
hora de folga.
- No posso traz-lo aqui - repetiu ela -, porque ele est na Estao Espacial
FreeStar, a uma distncia bastante considervel do local do crime.
- Se ele simulou ter ido para a Estao FreeStar...
- No simulou - interrompeu ela. - E foi a que o assassino cometeu um erro. A
viagem de Roarke  totalmente confidencial, pouqussimas pessoas sabiam dela. Pelo
que consta, para todo mundo ele est bem aqui, em Nova York.
O Comandante Whitney inclinou a cabea.
- Ento  melhor confirmar o paradeiro dele. Agora.
O estmago de Eve deu uma reviravolta no momento em que fez a ligao do
prprio tele-link de Whitney. Em poucos segundos, estava ouvindo a voz seca de
Summerset.
- Summerset, aqui  a Tenente Dalas. Preciso entrar em contato com Roarke.
- Roarke est em reunio, tenente. No pode ser incomodado.
- Roarke disse a voc para me colocar em contato com ele se eu precisasse,
droga. Isso  assunto da polcia. Informe o nmero de acesso dele imediatamente,
seno vou at a para rebocar sua bunda magra at a delegacia, por obstruo da
Justia.
- No estou autorizado a informar onde ele est. - O rosto de Summerset se
contraiu ao ouvir as palavras de Eve. - Posso, entretanto, transferir a sua ligao para
ele. Por favor, aguarde na linha.
As palmas das mos de Eve comearam a suar enquanto a tela do tele-link tomou
a colorao azul do modo de espera, e uma melodia teve incio. Ficou imaginando de
quem tinha sido a ideia de colocar aquela msica melosa para tocar. Certamente no
era ideia de Roarke. Ele tinha classe demais para isso.
Ah, Deus, o que  que ela ia fazer se ele no estivesse onde falou que estaria?
A tela azul se contraiu at se transformar em um ponto luminoso, e a seguir se
abriu novamente. L estava Roarke, com um trao de impacincia no olhar e um
pequeno sorriso nos lbios.
- Tenente. Voc me pegou em um momento complicado. Posso retornar a ligao
daqui a pouco?
- No. - Ela podia ver com o canto do olho que Feeney j estava rastreando a
origem da transmisso. - Preciso confirmar seu paradeiro, o local em que voc est.
- Meu paradeiro? - Suas sobrancelhas se franziram. Ele devia ter reparado alguma
coisa no rosto de Eve, embora ela pudesse jurar que tinha mantido a expresso to
sria e ilegvel como uma pedra.
- O que houve de errado, Eve? O que aconteceu?
- Seu paradeiro, Roarke. Por favor, me diga, eu preciso confirmar.
Ele permaneceu em silncio, estudando-a. Eve ouviu algum se dirigir a ele.
Roarke dispensou a pessoa, com um gesto rpido.
- Estou no meio de uma reunio com a Cmara Presidencial da Estao Espacial
FreeStar, cuja localizao  Quadrante Seis, rea de Conexo Alfa. Cmera, girar! -
ele ordenou, e o link intergalctico circulou, exibindo toda a sala. Muitos homens e
mulheres estavam sentados em volta de uma mesa larga e circular.
O espao porto comprido e em forma de arco apareceu ao longe, exibindo uma
imensa quantidade de estrelas e o perfeito globo terrestre azul-esverdeado, ao fundo.
- Localizao da transmisso confirmada - informou Feeney, a meia voz. - Ele se
encontra exatamente onde afirma estar.
- Roarke, por favor, coloque o tele-link no modo de privacidade.
Sem a mais leve mudana na expresso, ele colocou o fone de ouvido com
microfone.
- Sim, tenente, pode falar.
- Uma arma registrada em seu nome acaba de ser confiscada na cena de um
homicdio. Tenho que pedir a voc que comparea para interrogatrio na primeira
oportunidade. Tem todo o direito de trazer o seu advogado. Na verdade, eu o
aconselho a trazer o advogado - acrescentou ela, com a esperana de que ele fosse
compreender a nfase. - Se voc no comparecer nas prximas quarenta e oito horas,
a Guarda Espacial da Estao vai escolt-lo de volta at a Terra. Voc compreendeu
os seus direitos e as suas obrigaes nesse caso?
- Certamente. Vou fazer os preparativos. At logo, tenente. A tela se apagou.
CAPTULO QUATORZE
Mais abalada do que conseguia admitir, Eve entrou na sala da Doutora Mira na
manh seguinte. A convite dela, sentou-se e cruzou as mos, para evitar qualquer
movimento de inquietao que pudesse trair seu estado.
- Doutora, j teve tempo de traar um perfil?
- Voc me pediu urgncia. - De fato, Mira ficara acordada quase a noite toda lendo
relatrios e usando o seu treinamento e a sua capacidade de fornecer diagnsticos
psquicos para a formao de um perfil. - Gostaria de mais tempo para trabalhar nisso,
mas posso lhe fornecer uma viso geral.
- Certo. - Eve se inclinou. - Como ele ?
- Ele  quase que certamente correto. Tradicionalmente, crimes dessa natureza
no so cometidos por pessoas do mesmo sexo.  um homem com inteligncia acima
da mdia, tendncias sociopatas e voyeursticas.  ousado, mas no se arrisca,
embora provavelmente pense que sim. - Com seu jeito gracioso, ela uniu os dedos e
cruzou as pernas. - Seus crimes so bem planejados. Seu prazer e satisfao vm da
seleo das vtimas, da preparao do plano e da sua execuo.
- Por que prostitutas?
- Controle. Sexo  controle. Morte  controle. E ele sente
a necessidade de controlar pessoas, situaes. O primeiro assassinato
foi provavelmente por impulso.
- Por qu?
- Foi pego de surpresa pela prpria violncia, pela prpria capacidade de ser
violento. Teve uma reao forte, pelo solavanco que sentiu, pela inspirao ofegante e
pela expirao trmula. Recuperou-se e sistematicamente se protegeu. No quer ser
apanhado, mas quer, precisa mesmo, ser admirado e temido. Isso explica as
gravaes.
- Ele usa armas de colecionadores - continuou a mdica, com a mesma voz
moderada. - Isso  um smbolo de status, de
dinheiro. Mais uma vez, poder e controle. Ele as deixa para trs no local do crime
para poder mostrar como ele  especial entre os homens. Aprecia a violncia visvel
das armas e o seu aspecto impessoal. Gosta do seu poder de matar de uma distncia
confortvel, e da indiferena emocional disso. Decidiu o nmero de vtimas para
mostrar que  organizado e tem preciso.  ambicioso.
E - Ele poderia estar com as seis mulheres em mente desde o comeo? Seis alvos
definidos?
- A nica ligao confirmada entre as trs vtimas  a sua profisso - comeou
Mira, e viu que Eve j tinha chegado  mesma concluso, mas queria uma
confirmao. - Ele estava com a profisso em mente. Minha opinio  de que a
escolha das mulheres  casual.  bem provvel que ele tenha uma posio de alto
nvel, certamente um cargo de responsabilidade. Se for casado ou tiver um parceiro
sexual, esse parceiro, seja ele ou ela,  subserviente. Tem um conceito muito baixo
das mulheres. Ele as degrada e as humilha, depois de mortas, para mostrar a sua
repulsa e superioridade. No tem a percepo desses atos como crimes, e sim como
momentos de poder pessoal e auto-afirmao.
- A prostituio, masculina ou feminina - continuou a mdica -, permanece como
uma profisso de baixo padro na mente de muitas pessoas. As mulheres no so
seres iguais a ele; uma prostituta est abaixo de sua qualificao, mesmo quando ele
a usa para liberar a si mesmo. E ele gosta do trabalho que faz, tenente. Gosta muito.
- Ele considera isso um trabalho, doutora, ou uma misso?
- No, ele no tem uma misso. Apenas ambies. Isso no tem a ver com
religio, no  uma declarao moral, nem uma postura social.
- No, a afirmao  pessoal, e a postura  de poder.
- Sim, concordo - disse Mira, satisfeita com o funcionamento franco e direto da
mente de Eve. - Para ele, trata-se de um interesse, um novo e fascinante hobby do
qual ele se descobriu adepto.  um homem perigoso, tenente, no s porque no
possui conscincia, mas porque  bom naquilo que faz. E o sucesso o alimenta.
- Ele vai parar na sexta vtima - murmurou Eve. - Com esse mtodo. Mas vai
encontrar outra forma criativa de matar.  vaidoso demais para voltar atrs na palavra
que deu para as autoridades, mas est gostando demais do seu passatempo para
desistir dele.
- D at para pensar, tenente - Mira virou um pouco a cabea -, que voc j leu o
meu relatrio. Acho que est comeando a entender o criminoso muito bem.
- Sim, pea por pea - concordou Eve. Havia mais uma pergunta que ela queria
fazer, uma pergunta que a deixara rolando na cama durante uma noite longa e insone.
- Para se proteger e tornar o jogo ainda mais difcil, doutora, ele seria capaz de
contratar algum, pagar algum para matar uma das vtimas que tivesse escolhido,
enquanto ele prprio estivesse protegido por um libi?
- No. - Os olhos de Mira mostraram compaixo ao observar que Eve fechara os
olhos de alvio. - Na minha opinio, ele tem necessidade de estar l. Para ver, para
gravar, mas acima de tudo para passar pela experincia. No quer satisfao indireta.
Nem acredita que voc vai ser mais esperta do que ele. Est adorando v-la sofrer
com esse problema, tenente.  um observador de pessoas, e creio que comeou a se
interessar por voc no momento em que soube quem era a responsvel principal pela
investigao.
Ele a observa, e sabe que voc se importa. Na viso dele, isso  uma fraqueza a
ser explorada; e ele faz isso oferecendo a voc, de presente, a cena dos assassinatos;
e no em seu local de trabalho, mas em sua prpria casa.
- Ele j mandou o ltimo disco. Estava na minha correspondncia da manh,
postado de uma agncia automtica do centro da cidade, mais ou menos uma hora
depois do crime. Ns havamos colocado o prdio sob vigilncia. Ele deve ter
imaginado isso e achou um meio de contornar o problema.
-  um manipulador nato. - Mira entregou a Eve um disco e uma pasta com o perfil
inicial. -  um homem inteligente e maduro. Maduro o suficiente para refrear os
impulsos, um homem com recursos financeiros, e imaginao. Quase nunca
demonstra suas emoes, e raramente as deixa transparecer. Para ele,  uma
questo de intelecto e, como voc disse, de vaidade.
- Agradeo muito que tenha conseguido tudo isso para mim em to pouco tempo.
- Eve - disse Mira, antes que ela tivesse a chance de se levantar -, h mais uma
coisa. A arma que foi largada no local do ltimo crime. O homem que fez esses crimes
no cometeria um erro to tolo quanto o de deixar para trs uma arma que pudesse
ser rastreada. O diagnstico do computador rejeitou essa ideia com uma probabilidade
de 93,4 por cento.
- A arma estava l - disse Eve, em tom neutro. - Eu mesma a recolhi.
- Como estou certa de que era o que ele queria que voc fizesse.  muito provvel
que ele tenha apreciado implicar outra pessoa para acabar tumultuando a
investigao, e dar um n no seu desenvolvimento. E  igualmente provvel que ele
tenha escolhido uma determinada pessoa em particular para atingir voc, distrair voc,
ou at para magoar voc. Inclu tudo isso no perfil que montei. Agora, em nvel
pessoal, quero lhe dizer que estou preocupada com o interesse que ele tem por voc.
- Vou fazer com que ele fique muito mais preocupado com o meu interesse por ele.
Obrigada, doutora.
Eve foi diretamente at o gabinete de Whitney para entregar o perfil psicolgico.
Com um pouco de sorte, a essa hora, Feeney j deveria ter verificado suas suspeitas
a respeito da compra e entrega da arma do crime.
Se ela estava certa, e ela tinha que acreditar que estava, aquilo e o peso do perfil
que Mira traara iriam livrar Roarke.
Ela j sabia, pelo jeito com que Roarke olhara para ela... atravs dela, durante
aquele ltimo contato entre eles, que seus deveres profissionais haviam destrudo
qualquer tipo de ponte pessoal que eles estivessem construindo.
Ficou ainda mais certa disso quando juntou tudo, entrou no gabinete e encontrou
Roarke l.
Ele deveria ter usado transporte particular, ela concluiu. Teria sido impossvel, para
ele, chegar to depressa pelos caminhos normais. Ele simplesmente inclinou a cabea
sem dizer nada, enquanto ela atravessava a sala para entregar o disco e a pasta ao
Comandante Whitney.
- Aqui est o perfil construdo pela Doutora Mira.
- Obrigado, tenente. - Seus olhos se desviaram para os de Roarke. - A Tenente
Dalas vai encaminh-lo  rea de interrogatrio. Agradecemos muito a sua
cooperao.
Roarke continuou sem dar uma palavra. Simplesmente se levantou e esperou por
Eve para ir com ela at a porta.
- Voc tem o direito de estar com o seu advogado presente comeou ela, enquanto
chamava o elevador.
- Estou ciente do fato. Estou sendo acusado de algum crime, tenente?
- No. - Xingando-o mentalmente, entrou no elevador e pediu a rea B. - Isto 
apenas um procedimento padro.  Seu silncio continuou at que ela ficou com
vontade de gritar. Droga, eu no tenho outra escolha.
- No tem? - perguntou ele, em um murmrio, e saiu na frente dela quando as
portas se abriram.
-  o meu trabalho. - As portas da rea de interrogatrio se abriram sozinhas e a
seguir se fecharam, atrs deles. As cmeras de segurana que qualquer ladro
comum saberia que estavam escondidas em todas as paredes entraram em
funcionamento automaticamente. Eve se sentou em uma mesa pequena e esperou
que ele se sentasse de frente para ela.
- Estes procedimentos esto sendo gravados. Voc compreende isso?
- Sim.
- Tenente Dalas, Identificao 5347BQ, entrevistadora. Entrevistado, Roarke.
Dados iniciais e contagem de tempo. O entrevistado abriu mo da presena de um
advogado. Esta afirmao  correta?
- Sim, o entrevistado abriu mo da presena de um advogado.
- O senhor tem alguma ligao com uma acompanhante sexual licenciada,
chamada Georgie Castle?
- No.
- J esteve no edifcio de nmero 156 da Rua Oitenta e Nove Oeste?
- No, no acredito que tenha estado.
- O senhor possui uma Ruger modelo P-90, arma automtica de combate,
fabricada em 2005?
-  provvel que eu possua uma arma desta marca, modelo e ano de fabricao.
Para facilitar os trabalhos, vamos dizer que possuo.
- Quando adquiriu a citada arma?
- Mais uma vez, devo afirmar que teria que verificar. - No piscou, no tirou os
olhos dos dela, nem por um momento. Possuo uma coleo de armas bem completa,
e no tenho todos os detalhes dela na cabea, nem no computador de bolso.
- O senhor adquiriu a arma em questo em um leilo na Sothebys?
-  possvel. Frequentemente adiciono novas peas  minha coleo atravs de
leiles.
- Leiles com lances de comprador no declarado?
- Ocasionalmente.
O estmago dela, que j estava apertado, comeou a rodar.
- O senhor aumentou a sua coleo com a arma citada adquirindo-a pelo sistema
de lance por comprador no declarado em um leilo da Sothebys que foi realizado no
dia dois de outubro do ano passado?
Roarke pegou seu palm computer no bolso e procurou a data informada.
- No. No tenho registro desse fato. Estava em Tquio nessa data, envolvido em
reunies de negcios. A senhorita poder verificar isso facilmente.
Droga, droga, pensou ela. Voc sabe que isso no  resposta.
- Representantes so muitas vezes utilizados em leiles.
-  verdade. - Olhando para ela sem demonstrar emoo, guardou o pequeno
computador no bolso, novamente. - Se a senhorita fizer uma verificao junto 
Sothebys, ser informada de que eu no uso representantes. Quando decido adquirir
algo,  porque j o vi com os prprios olhos. Uma avaliao pessoal da mercadoria j
 o bastante para mim. Se e quando eu decido dar algum lance, sempre o fao
pessoalmente. No caso de um leilo no declarado, eu estaria assistindo a ele
diretamente, ou participando dele atravs do tele-link.
- No  tradio nesse ramo fazer um lance eletrnico fechado, ou autorizar um
representante para chegar at um determinado teto?
- No me preocupo muito com tradies. O fato  que eu poderia mudar de ideia a
respeito caso realmente desejasse adquirir alguma coisa. Por um motivo ou por outro,
poderia perder interesse no objeto.
Ela compreendeu o significado indireto de sua declarao, e tentou aceitar que ele
tinha acabado de terminar a ligao com ela.
- A citada arma - continuou Eve - registrada em seu nome e adquirida em leilo por
um comprador no declarado na Sothebys, em outubro do ano passado, foi usada
para assassinar Georgie Castle, aproximadamente s sete e meia da noite passada.
- Eu sei, e a senhorita tambm sabe que eu no estava em Nova York s sete e
meia da noite passada. - Seu olhar perscrutou o seu rosto. - A senhorita rastreou a
transmisso, no foi?
Ela no respondeu  pergunta. No podia.
- Sua arma foi achada na cena do crime.
- J estabelecemos o fato de que ela  minha?
- Quem tem acesso  sua coleo?
- Eu. Apenas eu.
- Seus empregados?
- No. Como deve lembrar, os estojos onde elas ficam expostas so trancados.
Apenas eu possuo a senha para abri-los.
- Senhas podem ser descobertas.
- Pouco provvel, mas possvel - concordou ele. - Entretanto, a no ser que a
palma de minha mo seja utilizada para entrada, qualquer estojo aberto por qualquer
outro meio faz soar um alarme.
Droga, me d uma abertura. Ser que ele no conseguia ver que ela estava do
lado dele, tentando salv-lo?
- Alarmes podem ser desativados - insistiu ela.
-  verdade. S que, se qualquer estojo for aberto sem a minha autorizao, todas
as entradas da sala se fecham e se trancam automaticamente. No h como sair, e a
segurana  notificada de imediato. Posso lhe assegurar, tenente, que  bem seguro e
 prova de riscos. Costumo proteger o que me pertence.
Ela olhou quando Feeney entrou, fazendo um sinal com a cabea. Eve se
levantou.
- Com licena.
Quando as portas se fecharam atrs deles, Feeney colocou as mos nos bolsos.
- Voc acertou em cheio, Dalas. Lance eletrnico, transao em dinheiro,
mercadoria enviada para uma estao pblica de retirada eletrnica automtica. O
figuro da Sothebys confirma que este  um procedimento incomum para Roarke. Ele
sempre participa em pessoa, ou por tele-link direto. Nunca usou esse tipo de
transao antes, em mais de quinze anos em que trabalha com eles.
- Isso confirma o que Roarke acabou de declarar. - Ela se permitiu expirar de
satisfao. - O que mais?
- Fiz uma pesquisa no registro da arma. A Ruger s apareceu nos arquivos sob o
nome de Roarke h uma semana. No h como segur-lo diante disso. O comandante
mandou que ns o liberssemos.
- Obrigada, Feeney. - Ela no podia se permitir o sentimento de alvio, pelo menos
por enquanto, e simplesmente concordou.
Entrando novamente na sala, afirmou:
- Voc est liberado.
- Simples assim? - Ele levantou-se quando ela j estava voltando para a porta
aberta.
- No temos motivos, neste momento, para det-lo aqui, nem lhe causarmos
nenhum outro inconveniente.
- Inconveniente? - Foi at perto dela, e a porta se fechou depois que ele saiu. - 
assim que voc chama isso? Um inconveniente?
Ele tinha, Eve disse a si mesma, todo o direito de estar com raiva, de estar
sentindo aquele amargor. Ela, por sua vez, estava sendo obrigada a fazer o trabalho
dela.
- Trs mulheres esto mortas. Todas as possibilidades tm de ser exploradas.
- E eu sou apenas uma das suas possibilidades? - Ele esticou o brao. A sbita
violncia do movimento de suas mos segurando-a pela blusa a deixou surpresa. -
Afinal de contas,  s isso que existe entre ns?
- Sou uma policial. No posso deixar passar nada, nem supor coisa alguma.
- No pode confiar - ele interrompeu. - Em nada nem em ningum. Se as coisas
tivessem se inclinado para o outro lado s um pouquinho, voc teria me prendido?
Teria me colocado atrs das grades, Eve?
- Chega pra l! - Com os olhos em fogo, Feeney surgiu no corredor. - Largue-a,
agora!
- Deixe-nos sozinhos, Feeney.
- De jeito nenhum. - Ignorando Eve, ele empurrou Roarke.
- No venha para cima dela, no, seu figuro. Ela quase se ferrou por sua causa.
E, do jeito que as coisas ficaram, podia ter at mesmo perdido o emprego. O
Secretrio Simpson j a estava preparando para oferecer como cordeiro de sacrifcio,
por ter sido burra o bastante para dormir com voc.
- Cale a boca, Feeney.
- Ora, que droga, Dalas!
- Mandei calar a boca. - Mais calma, e se sentindo longe de Roarke, ela olhou para
ele. - O Departamento agradece muito pela sua cooperao - disse a Roarke e,
arrancando a sua mo que ainda agarrava sua blusa, virou-se e foi embora.
- Que diabo voc est dizendo com isso, Feeney? - quis saber Roarke.
- Olhe, eu tenho mais o que fazer do que perder meu tempo com voc. - Feeney
simplesmente bufou.
Roarke o atirou de encontro a uma parede.
- Sinta-se  vontade para me fichar por atacar um policial, Feeney, mas me conte o
que quis dizer a respeito de Simpson.
- Quer mesmo saber, figuro? - Feeney olhou em volta,  procura de um local onde
houvesse uma relativa privacidade, e ento apontou com a cabea para a porta do
banheiro dos homens.
- Venha at a minha sala e eu lhe conto.
Eve ficou com o gato como companhia. Lamentava o fato de ter que devolver o
felino gordo e intil para a famlia de Georgie. J teria feito isso, mas encontrou
conforto e companheirismo at mesmo naquela pattica bola de plos.
Apesar de tudo, ficou irritada pelo som do interfone. Companhia humana no era
bem-vinda. Particularmente, como ela verificou pela tela do aparelho, Roarke.
Estava sensvel demais e bancou a covarde. Deixando o interfone tocar, sem
atender, voltou para o sof e se enroscou ali com o gato. Se tivesse um cobertor 
mo, teria se enfiado debaixo dele, com a cabea e tudo.
O som de sua fechadura se abrindo momentos depois a fez pular do sof.
- Seu filho da me - disse ela, ao ver Roarke entrar. - Voc ultrapassa limites
demais.
- Por que voc no me contou? - Ele simplesmente enfiou a sua chave mestra de
volta no bolso.
- No quero ver voc. - Ela se odiou ao sentir que a voz mostrava mais desespero
do que raiva. - Veja se voc se manca e vai embora.
- No gosto de ser usado para magoar voc.
- Voc j faz isso muito bem sem precisar de ajuda.
- E voc espera que eu no tenha reao alguma quando voc me acusa de
assassinato? Quando acredita nisso?
- Eu jamais acreditei. - A voz saiu entre os dentes, quase um sibilo passional de
raiva. - Nunca acreditei nisso - ela repetiu. S que coloquei os sentimentos pessoais
de lado e fiz o meu trabalho. Agora, caia fora.
E foi andando em direo  porta. Quando ele a agarrou, ela jogou o brao para
trs e o atingiu, de modo rpido e brusco. Ele nem sequer tentou se desviar do golpe.
Calmamente limpou o sangue que escorria da boca com as costas da mo enquanto
ela permanecia em p, rgida, com a respirao rpida e audvel.
- V em frente - convidou ele. - D outro golpe. No precisa se preocupar. Eu no
bato em mulheres, e nem as mato.
- Deixe-me sozinha. - Ela se virou e agarrou o encosto do sof onde o gato ainda
estava deitado, observando-o com frieza. As emoes estavam transbordando, e
parecia que seu peito ia explodir. - Voc no vai me fazer sentir culpada por algo que
eu tinha obrigao profissional de fazer.
- Voc me partiu em dois, Eve. - Aquilo o enfureceu novamente, admitir isso, saber
que ela podia devast-lo com tanta facilidade. - Voc no poderia ter me dito que
acreditava em mim?
- No. - Ela apertou os olhos com fora. - Meu Deus, ser que voc no percebe
que poderia ter sido pior se eu tivesse feito isso? Se Whitney no conseguisse
acreditar que eu seria objetiva, se Simpson tivesse a mais leve desconfiana de que
eu ia demonstrar algum grau de tratamento preferencial, teria sido muito pior. Eu
poderia no ter providenciado o perfil psicolgico to depressa. Poderia no ter
colocado Feeney em prioridade total no rastreamento da arma, a fim de eliminar a
causa provvel.
- No tinha pensado nisso - disse ele, baixinho. - No tinha pensado. - Quando
colocou a mo sobre o ombro dela, Eve se desvencilhou, e se virou para ele com os
olhos em fogo.
- Droga, eu disse a voc para trazer um advogado. Avisei a voc. Se Feeney no
tivesse apertado os botes certos, eles poderiam ter segurado voc l. S conseguiu
escapar porque Feeney fez um bom trabalho, e porque o perfil psicolgico no se
encaixou.
Ele a tocou de novo, e ela deu um novo puxo com o brao.
- Achei que eu no precisava de um advogado. Tudo o que eu precisava era de
voc.
- No importa. - Ela lutou para se controlar. -J est feito. O fato de voc ter um
libi indestrutvel para a hora do crime e a prova de que a arma foi obviamente
plantada tiram o foco de voc.
- Ela se sentia doente, insuportavelmente cansada. - Pode ser que isso no o livre
completamente, mas os perfis traados pela Doutora Mira valem ouro. Ningum
questiona seus diagnsticos. Ela j eliminou voc, e isso pesa muito junto ao
Departamento e  Promotoria.
- Eu no estava preocupado com o Departamento, ou com a Promotoria.
- Pois deveria
- Parece que eu lhe dei muito trabalho. Desculpe.
- Esquea.
- J vi olheiras demais debaixo dos seus olhos desde que a conheci. - Ele passou
a ponta do polegar sobre eles. - No gosto de me sentir responsvel por essas que
estou vendo agora.
- Sou responsvel por mim mesma.
- E eu no tive nada a ver com voc colocar o seu emprego em perigo?
Droga de Feeney, pensou ela, com dio.
- Eu mesma tomo as minhas decises. E pago pelas consequncias.
No desta vez, pensou ele. No sozinha.
- Na noite depois daquela em que estivemos juntos - disse ele -, quando eu liguei
para voc, deu para perceber que estava preocupada, mas voc afastou aquilo do
rosto. Feeney me disse exatamente o porqu da sua preocupao naquela noite. Seu
amigo zangado queria que eu sofresse por torn-la infeliz. Conseguiu.
- Feeney no tinha o direito de...
- Talvez no. E no precisaria ter feito isso se voc tivesse confiado em mim. -
Tomou os dois braos dela para parar os movimentos rpidos. - E no d as costas
para mim - ele avisou, com a voz baixa. - Voc  boa em jogar as pessoas para fora
da sua vida, Eve. Mas isso no vai funcionar comigo.
- E o que voc esperava, que eu tivesse corrido para voc chorando? Ai, Roarke,
voc me seduziu, e agora eu estou em apuros. Socorro! Ora, pare com isso, voc no
me seduziu. Fui para cama com voc porque quis. Quis tanto que no pensei em
tica. Agora veio a rebordosa, mas eu estou aguentando bem. No preciso de ajuda.
- No quer ajuda, isso com certeza.
- No preciso de ajuda. - Ela no queria se humilhar brigando para escapar dele
naquele momento, mas permaneceu passiva.
- O comandante ficou satisfeito por voc no estar envolvido com os assassinatos.
Voc est limpo, ento o Departamento vai oficialmente registrar tudo como um erro
de julgamento de minha parte, e eu tambm vou. Se estivesse errada a respeito de
voc, a seria diferente.
- Se estivesse errada a respeito de mim, isso lhe teria custado o distintivo.
- Sim. Teria me custado o distintivo. Eu perderia tudo o que tenho. E teria
merecido. S que nada disso aconteceu, ento acabou. Vamos em frente.
- E voc acha realmente que eu vou simplesmente sair e ir embora?
Isso a enfraqueceu, a cadncia suave e gentil que surgiu em sua voz.
- No posso me permitir ficar com voc, Roarke. No posso me dar ao luxo de me
envolver com algum.
Ele deu um passo  frente, colocou as mos no encosto do sof e a deixou presa
entre os dois braos.
- Eu tambm no posso me dar ao luxo de ficar com voc, mas isso no parece me
importar.
- Olhe...
- Desculpe por ter magoado voc - murmurou ele. - Sinto de verdade por no ter
confiado em voc, e sinto tambm por t-la acusado de no confiar em mim.
- Eu no esperava que voc achasse algo diferente disso, ou agisse de modo
diferente.
Aquilo o machucou mais do que o golpe no rosto.
- No. Sinto muito por isso, tambm. Voc arriscou muita coisa por mim. Por qu?
No havia respostas fceis.
- Eu acreditei em voc.
- Obrigado. - Ele beijou-lhe a sobrancelha.
- Foi um apelo ao meu senso de julgamento - comeou ela, deixando escapar um
suspiro trmulo quando ele tocou seu rosto com os lbios.
- Vou ficar com voc esta noite. - Ento beijou-lhe a tmpora. - Quero ter certeza
de que voc vai dormir bem.
- Sexo como sedativo?
Ele franziu os olhos, mas esfregou os lbios suavemente sobre os dela.
- Se voc quiser. - Levantou-a do cho, deixando-a envergonhada. - Vamos ver se
conseguimos encontrar a dose certa.
Mais tarde, com as luzes ainda baixas, ele a observou. Ela dormia com o rosto
para baixo, esparramada e mole de cansao. Para agradar a si mesmo, deslizou a
mo de leve pelas costas dela abaixo, sobre a pele lisa, os ossos finos e a
musculatura delgada. Ela no se moveu.
Experimentalmente, deixou os dedos passarem pelos cabelos dela, como se
estivesse penteando-os. Eram grossos como plo de marta, com tons de conhaque
forte e ouro velho, e com um corte lamentvel. Sentiu vontade de sorrir enquanto
traava os dedos sobre os lbios dela. Cheios, firmes e impetuosamente reativos.
Embora estivesse surpreso por ter sido capaz de lev-la ainda mais alm do que
ela experimentara antes, ele estava impressionado pelo conhecimento que tinha,
inesperadamente, se apossado dele.
Quanto mais longe, ele se perguntou, eles conseguiriam ir?
Sabia apenas que tinha se despedaado quando acreditou que ela o julgara
culpado. O sentimento de traio e desiluso foi imenso, enfraquecedor, algo que ele
no sentia h tantos anos, que j perdera a conta.
Ela o trouxera de volta a um ponto de vulnerabilidade do qual ele j escapara. Ela
tinha o poder de mago-lo. Eles conseguiam magoar um ao outro. Aquilo era algo a
ser analisado com muito cuidado.
Naquele momento, porm, a questo mais premente era quem estava querendo
atingir a ambos. E por qu.
Ele ainda estava tentando decifrar o problema quando tomou-lhe a mo, juntou os
prprios dedos com os dela e se deixou escorregar para o mundo dos sonhos, ao seu
lado.
CAPTULO QUINZE
Ele j tinha ido embora, quando ela acordou. Era melhor assim. As manhs traziam
uma espcie de intimidade casual que a deixava nervosa. Ela j estava mais envolvida
com ele do que jamais estivera com algum. Aquela qumica que havia entre eles
tinha o potencial, ela sabia, de reverberar pelo resto de sua vida.
Eve tomou uma chuveirada rpida, enfiou-se em um robe e foi at a cozinha. L
estava Roarke, de calas e com a camisa ainda desabotoada, analisando o jornal da
manh pelo monitor.
Parecia perfeitamente  vontade, ela notou com uma fisgada de satisfao e
horror.
- O que est fazendo?
- Hein? - Ele olhou para cima e esticou o brao para trs para abrir o AutoChef. -
Preparando caf para voc.
- Preparando caf para mim?
- Ouvi voc se movimentando pelo apartamento. - Pegou as xcaras e as levou at
o lugar em que ela estava, ainda encostada no portal. - Voc no faz isso com muita
frequncia.
- Eu me movimentar pelo apartamento?
- No. - Ele riu e tocou os lbios dela com os dele. - Sorrir para mim. Simplesmente
sorrir para mim.
Ento ela estava sorrindo? Nem havia notado.
- Achei que voc j tinha ido embora. - Dando a volta na pequena mesa, olhou
para o monitor. Cotaes da Bolsa, naturalmente. - Voc deve ter se levantado cedo.
- Tinha umas ligaes a fazer. - Ele a observou, apreciando o jeito com que
passava os dedos pelos cabelos midos. Um tique nervoso que ele tinha certeza de
que ela mesma desconhecia. Pegou o tele-link porttil que colocara sobre a mesa e o
colocou de volta no bolso. - Era uma conferncia que estava marcada com o grupo da
Estao Espacial para hoje, s cinco da manh, pelo nosso horrio.
- Ah... - Ela provou o lquido, perguntando-se como conseguira viver sem o sabor
do caf de verdade logo pela manh. - Sei como essas reunies eram importantes
para voc. Sinto muito.
- Conseguimos bater o martelo na maior parte dos detalhes. Posso resolver o resto
por aqui mesmo.
- Voc no vai voltar para l?
- No.
Eve se virou para o AutoChef, e dedilhou o teclado, vendo que o seu cardpio
estava muito limitado.
- A maioria das coisas est acabando. Quer uma rosca, ou algo assim?
- Eve. - Roarke pousou a xcara de caf e colocou as mos sobre os ombros dela. -
Por que no quer que eu saiba que voc ficou feliz por eu no precisar mais viajar
hoje?
- Bem, o seu libi est de p. No  da minha conta se voc...
- Ela parou de falar quando ele a virou para encar-lo. Ele estava com ar zangado.
Ela podia ver em seus olhos e se preparou para a briga que vinha. O que ela no
esperava era o beijo, o modo com que a sua boca se fechou com firmeza sobre a
dela, o jeito com que seu corao comeou a bater mais devagar, sonhando dentro do
peito dela.
Ento, deixou que ele a segurasse, deixou que sua cabea se aninhasse na curva
de seu ombro e disse:
- No sei como lidar com isso, Roarke - murmurou. - No tenho precedentes nessa
rea. Preciso de regras. Regras slidas.
- Eu no sou um dos casos que voc precisa resolver.
- No sei o que voc . S sei que tudo isso est indo rpido demais. No deveria
nem ter comeado. Eu no deveria ter permitido que isso comeasse.
- Por qu? - Ele a afastou um pouco para que pudesse analisar o seu rosto.
-  complicado. Tenho que me vestir. Tenho que ir para o trabalho.
- Oferea-me ao menos uma dica, alguma coisa. - Seus dedos apertaram com
mais fora os ombros dela. - No sei o que voc , tambm.
- Sou uma policial - ela soltou. -  isso o que eu sou. Tenho trinta anos e s
consegui me sentir chegada a duas pessoas, durante toda a minha vida. E mesmo
com elas,  mais fcil de me segurar.
- Segurar o qu?
- Deixar que se tornem muito importantes. Quando algo se torna importante
demais, pode moer voc, at no sobrar nada. Eu j me senti assim. No quero me
sentir da mesma forma novamente.
- Quem machucou voc?
- No sei. - Mas sabia. Ela sabia. - No me lembro e no quero me lembrar. Fui
uma vtima; quando voc passa por isso, tem que fazer tudo o que for necessrio para
que no acontea de novo. Isso era tudo o que eu era antes de entrar para a
Academia de Polcia. Uma vtima, sempre com outras pessoas apertando os botes,
tomando as decises, me atirando de um lado para o outro.
- E  isso que voc acha que eu estou fazendo?
-  isso que est acontecendo.
Havia perguntas a serem feitas. Perguntas, ele podia ver no rosto dela, que iam ter
que esperar. Talvez fosse a hora de assumir um risco. Enfiou a mo no bolso e pegou
o que carregava l dentro.
Desconcertada, Eve olhou para baixo, para o simples boto cinza que estava na
palma da mo dele.
- Isso  do meu palet.
- . Pertence a um palet que no fica muito bem em voc. Voc precisa de cores
mais fortes. Encontrei-o em minha limusine. Estou querendo lhe devolver h algum
tempo.
- Oh... - Mas, quando ela esticou a mo, ele fechou os dedos em volta do boto.
- Uma pequena mentira. - Com ar divertido, riu para si mesmo. - Na verdade, no
tive a mnima inteno de devolv-lo para voc.
- Voc tem alguma tara por botes, Roarke?
- Ando carregando isto comigo de um lado para o outro, como um garotinho
carrega um cacho do cabelo da namorada.
Os olhos dela voltaram a se encontrar com os dele, e algo muito doce circulou por
dentro dela. Ainda mais doce porque ela notou que ele tinha ficado sem graa.
- Isso  esquisito - disse ela.
- Tambm acho. - Mas guardou o boto de novo no bolso.
- E sabe mais o que eu acho, Eve?
- No fao ideia.
- Acho que estou apaixonado por voc.
Ela sentiu a cor sumir completamente do seu rosto, e sentiu os msculos ficarem
moles, ao mesmo tempo que o corao subiu como um mssil para bater na garganta.
- Isso ...
- Sei,  difcil encontrar a palavra certa, no ? - Ele passou as mos pelas costas
dela de cima a baixo, e depois para cima de novo, mas no a puxou para mais perto. -
Estive pensando muito a respeito disso, e eu mesmo no consegui encontrar a palavra
exata. Mas devo agora voltar ao que queria provar.
- E voc quer provar alguma coisa? - Ela umedeceu os lbios.
- Quero provar um ponto muito interessante e importante. Estou, ponto por ponto,
tanto em suas mos quanto voc est nas minhas. Estou igualmente desconfortvel,
embora talvez no to resistente  ideia, por me encontrar nessa posio. No vou
deixar voc ir embora at conseguir descobrir o que fazer a respeito disso.
- Isso... ahn... complica as coisas.
- Tremendamente - ele concordou.
- Roarke, ns nem ao menos conhecemos um ao outro. Fora do quarto.
- Conhecemos, sim. Somos duas almas perdidas. Ns dois voltamos as costas
para algo e nos transformamos em outra coisa. No  de admirar que o destino tenha
decidido fechar o crculo do que at ento havia sido, para ns, um caminho reto.
Temos que decidir agora at que ponto queremos continuar acompanhando a curva.
- Tenho que me concentrar nessa investigao. Isso tem que ser a minha
prioridade.
- Eu compreendo. Mas voc tambm tem direito a uma vida pessoal.
- A minha vida pessoal, esta parte dela, nasceu a partir da investigao. E o
assassino a est transformando em algo ainda mais pessoal. Plantar aquela arma
para que as suspeitas cassem diretamente sobre voc foi uma resposta direta ao
nosso envolvimento. Ele est focado em mim.
- O que quer dizer? - A mo de Roarke desdobrou a lapela do robe dela.
Regras, ela lembrou a si mesma. Havia regras. E ela estava a ponto de quebr-las.
- Vou lhe contar tudo o que puder, enquanto me visto. - Eve entrou no quarto, com
o gato se enroscando em suas pernas e andando na sua frente. - Voc se lembra
daquela noite em que voc estava aqui quando eu cheguei em casa? O pacote que
encontrou no cho?
- Sim, aquilo a deixou preocupada.
- Olhe, tenho at um agente por ser boa atriz. - Com uma espcie de sorriso,
despiu o robe. - Sou quem melhor disfara as emoes, a melhor cara de pquer em
toda a polcia.
- Ganhei meu primeiro milho no jogo.
- Srio? - Enfiou uma suter por cima da cabea, tentando se lembrar de no
mudar de assunto. - O pacote era uma gravao do assassinato de Lola Starr. Ele
tambm j tinha me trazido um disco com a morte de Sharon DeBlass.
- Ele esteve dentro do seu apartamento. - Uma flecha gelada o atravessou.
Ela estava ocupada, pois acabara de descobrir que no tinha nenhuma roupa de
baixo limpa, e no notou o tom gelado de sua voz.
- Pode ser que tenha entrado, pode ser que no. No houve sinais de
arrombamento. Pode ter enfiado por baixo da porta. Foi o que fez da primeira vez. O
disco de Georgie, esse ele enviou pelo correio. Tnhamos colocado o prdio sob
vigilncia. - Resignada, colocou as calas sobre a pele, sem nada por baixo. - Ou ele
sabia ou sentiu que estvamos  espera. Mas fez questo que eu recebesse os
discos, todos os trs. J sabia que eu era a responsvel pelas investigaes, quase
que antes de mim mesma.
Ela saiu catando duas meias, teve sorte, e achou um par cujas cores eram as
mesmas.
- Ele ligou para mim e transmitiu o vdeo da cena do assassinato de Georgie Castle
poucos minutos depois de ter acabado com ela. - Sentou-se na beira da cama e
colocou as meias. - Plantou uma arma e se certificou de que ela podia ser rastreada.
Para atingir voc. Sem contar como seria inconveniente uma acusao de assassinato
e o que ela faria  sua vida, Roarke; se eu no tivesse o apoio do comandante nisso,
j estaria fora do caso, e fora do Departamento, em um piscar de olhos. Ele sabe de
tudo o que se passa na Central de Polcia. Sabe de tudo o que acontece na minha
vida.
- Felizmente, ele no sabia que eu no estava nem mesmo no planeta.
- Isso foi um refresco para ns dois. - Ela localizou as botas, e as calou. - S que
isso no vai faz-lo parar. - Levantando-se, pegou o coldre. - Ele ainda vai tentar me
pegar, e fazer isso atravs de voc  a melhor aposta dele.
Roarke a observou enquanto verificava o laser em um gesto automtico, antes de
prend-lo, e perguntou:
- Por que voc?
- Ele no tem uma opinio muito elevada a respeito das mulheres. Eu diria que o
est incomodando demais o fato de ser uma mulher que est  frente das
investigaes. Isso diminui o status dele. - Encolhendo os ombros, passou os dedos
pelos cabelos, para ajeit-los. - Pelo menos, esta  a opinio da psiquiatra.
Pensativamente, ela arrancou o gato que estava comeando a subir pela sua
perna e o atirou na cama, onde ele se virou de costas para ela e comeou a se
lamber.
- E  tambm a opinio da psiquiatra que ele possa tentar eliminar voc atravs de
algum modo mais direto?
- No combina com o padro.
- E se ele quebrar o padro? - Roarke enfiou as mos nos bolsos para tentar evitar
a ponta de medo que sentia.
- Eu consigo me defender sozinha.
- E vale a pena arriscar a sua vida por causa de trs mulheres que j esto
mortas?
- Sim. - Ela percebeu a fria que pulsava na voz dele e a enfrentou. - Vale a pena
arriscar a minha vida para obter justia para trs mulheres que j esto mortas, e para
tentar evitar que as outras trs sejam assassinadas. Ele est s na metade do
caminho. Deixou uma nota junto de cada um dos corpos. Queria que soubssemos,
desde o incio, que ele tinha um plano. E est nos desafiando a impedi-lo. Uma de
seis, duas de seis, trs de seis. Vou fazer tudo o que puder para evitar que ele cometa
o quarto assassinato.
- Coragem com fora total. Foi essa a primeira coisa que admirei em voc. Agora 
o que me aterroriza.
Pela primeira vez ela foi at ele e colocou a mo em seu rosto. Quase no mesmo
instante, deixou cair a mo e recuou, sem graa.
- J fui policial por dez anos, Roarke, e jamais consegui mais do que algumas
escoriaes e marcas roxas. No se preocupe com isso.
- Acho que voc vai ter que comear a se acostumar a ter algum se preocupando
com voc, Eve.
No foi isso que ela planejara. Saiu do quarto para apanhar o casaco e a bolsa.
- S estou lhe contando tudo isso, Roarke, para que voc entenda contra o que eu
estou lutando. O porqu de no poder dividir as minhas energias para comear a
analisar o que est acontecendo entre ns.
- Sempre vo aparecer outros casos.
- S peo a Deus que no sejam sempre casos como este. No se trata de
assassinato por dinheiro, ou algo passional. No  nada desesperado nem um ato
frentico.  frio e calculado. ...
- Diablico?
- Sim. - Ela ficou aliviada por ele ter dito a palavra antes dela. No ficou parecendo
to tolo. - Por mais que tenhamos avanado na rea de Engenharia Gentica,
tecnologia in vitro e programas sociais, ainda no conseguimos controlar as falhas
bsicas do ser humano: violncia, luxria, inveja.
- Os sete pecados capitais.
-  verdade. - Ela se lembrou da velha senhora e sua torta envenenada. - Agora,
tenho que ir.
- Voc vai me procurar quando sair do trabalho, logo mais?
- No sei a hora em que vou poder sair da Central. Seria...
- Mas voc vem?
- Sim.
Ento Roarke sorriu, e Eve sabia que ele estava esperando que ela tomasse a
iniciativa. Tinha certeza de que ele sabia o quanto era difcil para ela ir at onde ele
estava, colocar os lbios para cima, e apert-los de encontro aos dele, ainda que de
forma casual.
- A gente se v.
- Eve. Voc devia usar luvas.
- Eu sei. - Ela digitou o cdigo para abrir a porta, e lanou um sorriso rpido para
ele, por cima dos ombros. - S que eu vivo perdendo as luvas.
Seu bom humor durou at ela entrar em sua sala e encontrar DeBlass e seu
assessor  espera dela.
Deliberadamente, DeBlass olhou para seu relgio de ouro.
- Seu horrio de entrada no servio mais parece o de um banqueiro do que o de
uma policial, Tenente Dalas.
Ela sabia muito bem que passavam poucos minutos das oito, mas arrancou fora o
casaco, respondendo:
-  verdade.  que por aqui ns levamos uma vida muito despreocupada e
exuberante. H algo que eu possa fazer pelo senhor, senador?
- Soube que aconteceu mais um assassinato. Estou obviamente insatisfeito com os
seus progressos. Entretanto, vim aqui para amenizar os danos. No quero o nome de
minha neta ligado ao das duas outras vtimas.
- Ento deve procurar pelo Secretrio Simpson, ou pela sua assessora de
imprensa.
- No me lance esse sorrisinho debochado, minha jovem. DeBlass se inclinou para
a frente. - Minha neta est morta. Nada pode mudar isso. Mas no vou aturar ver o
nome DeBlass sujo e enlameado pela morte de duas prostitutas comuns.
- O senhor me parece ter uma opinio muito baixa sobre as mulheres, senador. -
Teve o cuidado de no sorrir desta vez, e ficou observando-o, pensativa.
- Muito pelo contrrio; eu as reverencio. E  exatamente por isso que aquelas que
se vendem, aquelas que desrespeitam a moralidade e a decncia comum me causam
revolta.
- O senhor inclui a sua neta?
Ele quase caiu da cadeira, com o rosto vermelho e os olhos saltando. Eve tinha
quase certeza de que ele a teria agredido se Rockman no tivesse se colocado entre
eles.
- Senador, a tenente est apenas provocando o senhor. No lhe d esta
satisfao.
- No admito que voc emporcalhe o nome da minha famlia. - DeBlass estava
respirando muito rpido, e Eve ficou se perguntando se ele tinha algum antecedente
de problemas cardacos. Minha neta pagou muito caro pelos seus erros, e no vou ver
as outras pessoas que eu amo arrastadas e expostas ao ridculo publicamente. E no
vou tolerar as suas insinuaes desprezveis.
- Estou apenas tentando colocar as coisas no devido lugar. Era fascinante assistir
 sua batalha interna para se recompor. E estava sendo muito difcil conseguir, ela
notou, pois as mos dele tremiam e o peito arfava. - Estou tentando encontrar o
homem que matou Sharon, senador. Suponho que isso tambm seja prioritrio em sua
agenda.
- Encontr-lo no vai trazer de volta a minha neta. - Ele se sentou novamente,
obviamente exausto pela exploso. - O que me importa agora  proteger o que restou.
Para conseguir isso, o caso de Sharon deve ser desvinculado das outras mulheres.
Eve no gostava da opinio dele, mas tambm no se importava com a colorao
vermelha do seu rosto.
- Quer que eu lhe sirva um pouco de gua, Senador DeBlass? Ele concordou com
a cabea e acenou para ela. Eve saiu para o corredor e pegou um copo de gua
mineral. Ao voltar, a respirao dele j estava mais regular, e suas mos estavam
mais firmes.
- O senador anda exigindo demais de si mesmo - comentou Rockman. - O seu
projeto de lei para regulamentao de questes morais vai ser apresentado ao
Senado amanh. A presso dessa tragdia familiar representa um peso enorme.
- Compreendo isso. Estou fazendo tudo o que posso para resolver o caso. - Eve
virou um pouco a cabea para o lado. Presso poltica tambm  um peso muito
grande sobre uma investigao. No me agrada ser monitorada em meu tempo livre.
- Como disse? - Rockman sorriu com suavidade. - Poderia explicar melhor?
- Eu fui seguida, e o meu relacionamento pessoal com um civil foi relatado ao
Secretrio Simpson. No  segredo algum que Simpson e o senador so muito
ligados.
- O senador e o Secretrio Simpson dividem uma aliana pessoal e poltica -
confirmou Rockman. - Entretanto, no seria tico, e muito menos serviria aos
interesses do senador, monitorar um membro da fora policial. Eu lhe asseguro,
tenente, que o Senador DeBlass est envolvido demais com sua prpria dor e as
responsabilidades que tem diante da nao para se preocupar com as suas... relaes
pessoais. Chegou ao nosso conhecimento, porm, atravs do Secretrio Simpson,
que a senhorita teve vrios contatos com Roarke.
- Um oportunista amoral. - O senador colocou o copo de lado com um empurro. -
Um homem que no se deteria diante de nada a fim de aumentar o prprio poder.
- Um homem - acrescentou Eve - que foi investigado e se comprovou isento de
qualquer conexo com esta investigao.
- O dinheiro compra a imunidade - disse DeBlass, com cara de nojo.
- No nesta sala. Estou certa de que o senhor vai solicitar o relatrio do caso ao
comandante. Nesse meio tempo, quer isso suavize ou no o seu pesar, pretendo
achar o homem que matou sua neta.
- Imagino que eu deva fazer elogios  sua dedicao. DeBlass se levantou. -
Tenha cuidado apenas para que a sua dedicao no prejudique a reputao da
minha famlia.
- O que o fez mudar de ideia, senador? - quis saber Eve, intrigada. - Na primeira
vez em que conversamos, o senhor me ameaou de perder o emprego, caso eu no
levasse o assassino de Sharon s barras da Justia, e depressa.
- Ela est enterrada - foi tudo o que ele disse, e saiu.
- Tenente - Rockman mantinha a voz baixa -, quero repetir que a presso sobre o
Senador DeBlass  enorme, capaz de esmagar um homem menos forte. - Ele soltou o
ar lentamente. - A verdade  que tudo isso arrasou com a esposa dele. Ela teve um
colapso.
- Sinto muito.
- Os mdicos no sabem se ela vai conseguir se recuperar. Essa tragdia adicional
fez o filho deles enlouquecer de dor; a sua filha j se isolara do resto da famlia e vivia
afastada. Para o Senador, a nica esperana de restaurar a sua famlia  deixar a
morte de Sharon, e o horror de tudo isso, passar.
- Ento seria uma atitude mais sbia, para o senador, recuar e deixar os
procedimentos devidos com o Departamento de Polcia.
- Tenente... Eve - disse ele, com um raro e rpido lampejo de charme. - Gostaria
de poder convenc-lo disso. Mas acredito que isso seria to infrutfero quanto tentar
convenc-la a deixar Sharon descansar em paz.
- Pode ter certeza disso.
- Bem, ento - ele colocou a mo sobre o brao dela, por um breve instante -,
temos que fazer tudo o que pudermos para acertar as coisas. Foi bom rev-la.
Eve fechou a porta atrs de si e ficou considerando o caso. DeBlass certamente
tinha o tipo de temperamento estourado que podia levar  violncia. Quase sentiu
pena por saber que ele no tinha tambm o controle e o clculo para ter planejado
meticulosamente trs assassinatos.
De qualquer modo, ela teria que passar por um mau pedao se conectasse um
radical senador linha dura de direita com duas prostitutas de Nova York.
Talvez ele estivesse protegendo a sua famlia, ela avaliou. Ou talvez estivesse
protegendo Simpson, um aliado poltico.
Isso era podrido demais, decidiu Eve. Ele at poderia trabalhar em favor de
Simpson, se o secretrio estivesse envolvido com os homicdios de Lola Starr e
Georgie Castle. Mas um homem jamais protegeria o assassino da prpria neta.
Era uma pena que ela no estivesse procurando por dois homens diferentes, Eve
meditou. Mesmo assim, ela ia dar algumas beliscadas, pesquisando as bases de
Simpson.
De modo objetivo, avisou a si mesma. No podia se esquecer de que havia uma
forte possibilidade de que DeBlass no soubesse que um dos seus amigos polticos
favoritos estivesse sendo chantageado por sua nica neta.
Tinha que descobrir isso.
Por ora, no entanto, tinha outro pressentimento para seguir. Localizou o nmero de
Charles Monroe e ligou para ele.
Sua voz estava pastosa de sono, e seus olhos pareciam pesados.
- Voc passa o tempo todo na cama, Charles?
- O mximo que posso, Tenente Docinho. - Ele passou a mo sobre o rosto e
sorriu para ela. -  assim que eu penso em voc.
- Bem, pois no pense. Tenho algumas perguntas.
- Ora, voc no pode vir at-aqui para faz-las pessoalmente? Estou quentinho, nu
e muito s.
- Cara, no sabe que existe uma lei que probe o assdio sexual a uma policial?
- Estou falando de um trabalho avulso, autnomo. J lhe disse que podemos
manter as coisas em nvel estritamente pessoal.
- No, vamos mant-las no nvel estritamente impessoal. Voc tinha uma colega de
profisso chamada Georgie Castle. Por acaso a conhecia?
- Bem, na verdade, conhecia. - O sorriso sedutor sumiu de seu rosto. - No muito
bem, mas eu a conheci em uma festa, h cerca de um ano. Era nova no ramo.
Divertida, atraente. Legal, voc sabe. A gente emplacou.
- Emplacou, de que modo?
- De um modo amigvel. Tomvamos um drinque de vez em quando. Uma vez,
Sharon estava sem hora para atender alguns clientes, e eu arranjei para que ela os
enviasse para a Georgie.
- Ento elas se conheciam. - Eve deu um pulo. - Sharon e Georgie?
- No, no acredito. Pelo que me lembro, Sharon entrou em contato com Georgie,
perguntou se ela estava interessada em alguns clientes novos. Georgie deu o sinal
verde, e isso foi tudo. Ah, sim, Sharon comentou alguma coisa a respeito de Georgie
ter lhe enviado uma dzia de rosas. Rosas de verdade, como presente de
agradecimento. Sharon adorava essas regras de etiqueta  moda antiga.
-  que ela era apenas uma garota  moda antiga - comentou Eve, entre dentes.
- Quando eu soube que Georgie estava morta, aquilo doeu muito, pode acreditar.
Com Sharon foi um susto, mas no se pode dizer que tenha sido uma grande
surpresa. Ela vivia na beira do abismo. Mas Georgie era totalmente centrada,
entende?
- Pode ser que eu precise de mais alguma coisa, Charles. Fique pela rea.
- Se for para voc...
- Ai, cai fora - ordenou ela, antes que ele pudesse se meter a engraadinho. - O
que sabe a respeito dos dirios de Sharon?
- Ela nunca deixou que eu lesse nem um deles, sequer - disse, descontrado. -
Costumava brincar com ela a respeito daquilo. Acho que uma vez ela me contou que
fazia dirios desde criana. Voc conseguiu algum? Ei, eu apareo em alguma
histria?
- Onde  que ela os guardava?
- Dentro do apartamento, eu acho. Onde mais? Essa era a questo, Eve meditou.
- Se voc se lembrar de mais alguma coisa a respeito de Georgie ou sobre os
dirios, entre em contato comigo.
- De dia ou de noite, Tenente Docinho. Pode contar comigo.
- Certo. - Ela ficou rindo depois que cortou a ligao.
O sol j estava se pondo quando ela chegou na casa de Roarke. Eve no estava
se considerando fora de servio. O favor que ia pedir ficara fervilhando em sua cabea
o dia todo. Ela decidira fazer, depois desistira, e ficou vacilando a respeito, at se
sentir enojada.
Por fim saiu da Central de Polcia, pela primeira vez em muitos meses, na hora
exata do seu final de turno. Com o pouco progresso que fizera ficando ali, no
precisava ficar por mais tempo.
Feeney no achou nada, e deu em um beco sem sada em sua procura por um
segundo cofre bancrio. Trouxera, com bvia relutncia, a lista que Eve pedira com os
nomes dos policiais. Ela tinha a inteno de fazer uma pesquisa sobre cada um deles,
no momento certo e quando tivesse tempo.
Com uma ponta de remorso, compreendeu que ia usar Roarke.
Summerset abriu a porta, com seu usual desdm.
- A senhorita chegou antes do momento em que era aguardada, tenente.
- Se ele no estiver, posso esperar.
- Ele est na biblioteca.
- E onde fica, exatamente?
Summerset se permitiu um quase imperceptvel bufar. Se Roarke no lhe tivesse
ordenado que levasse Eve assim que chegasse, ele a teria enfiado em alguma sala
pequena e mal iluminada para esperar.
- Queira me acompanhar, por favor.
- O que, exatamente, eu tenho, Summerset, que faz com que o seu santo no
cruze com o meu?
- No fao ideia do que a senhorita quer dizer, tenente. Com suas costas retas, ele
a conduziu, subindo um lance de escadas e a seguir continuando por um largo
corredor. - A biblioteca anunciou ele, com ar reverente, e abriu a porta para ela.
Eve jamais vira tantos livros juntos em toda a sua vida. Nem mesmo achava que
pudessem existir tantos assim, fora de museus. As paredes estavam literalmente
revestidas por eles, de modo que a sala de dois andares positivamente cheirava a
livros.
No andar de baixo, sentado no que certamente era um sof de couro, Roarke
estava reclinado, bem  vontade, com um livro nas mos e o gato no colo.
- Eve. Voc chegou cedo. - Colocou o livro de lado e pegou o gato enquanto se
levantava.
- Nossa, Roarke, onde foi que voc arranjou tudo isso?
- Os livros? - Deixou o olhar circular pela sala. A luz da lareira danava e se
modificava sobre as lombadas coloridas. Outro de meus interesses. Voc no gosta
de ler?
- Claro, de vez em quando. Mas os discos so muito mais prticos.
- E muito menos estticos. - Acariciou o cangote do gato, levando-o ao xtase. -
Sinta-se  vontade para pegar emprestado qualquer um que queira.
- Acho que no.
- Que tal um drinque?
- Isso eu aceito.
Seu tele-link comeou a tocar.
- Deve ser a ligao que estou esperando. Por que no nos serve um pouco do
vinho que deixei respirando em cima da mesa?
- Certo. - Eve pegou o gato dos braos de Roarke e foi atender ao pedido. Como
queria ficar escutando a conversa, ela se forou a manter uma distncia estratgica do
lugar onde ele ficara murmurando.
Isso lhe deu a oportunidade de dar uma olhada de perto nos livros e analisar os
ttulos. Alguns eram de autores dos quais ela j ouvira falar. Mesmo estudando em
escolas pblicas, ela foi obrigada a ler Steinbeck e Chaucer, Shakespeare e Dickens.
O currculo escolar a levara tambm a conhecer Stephen King, John Grisham, Toni
Morrison e Sue Grafton.
Mas ali havia dezenas, talvez centenas de nomes dos quais ela nunca ouvira falar.
Ficou imaginando como algum seria capaz de organizar tantos livros, quanto mais llos.
- Desculpe-me - disse ele, quando desligou o tele-link. Era uma coisa urgente.
- Tudo bem.
- O gato est ficando muito agarrado com voc, Eve. - Ele tomou o vinho que ela
servira.
- No acredito que ele seja particularmente leal a algum. Mas ela tinha que admitir
que gostava do jeito com que o bichano se enroscava debaixo da sua mo, quando
ela o acariciava. - No sei o que vou fazer com ele. Liguei para a filha de Georgie, e
ela disse que no tinha coragem de vir peg-lo. Quando eu insisti, acabei fazendo-a
chorar.
- Voc poderia ficar com ele.
- No sei. Bichos de estimao precisam de cuidados.
- Os gatos so admiravelmente auto-suficientes. - Roarke se sentou no sof e ficou
esperando que ela fosse para junto dele. - E ento, quer me contar como foi o seu
dia?
- No muito produtivo. E o seu?
- Muito produtivo.
- Aqui tem um bocado de livros - falou Eve, sem saber o que dizer e sabendo que
estava adiando o assunto importante.
- Tenho um carinho especial por eles. Mal conseguia ler o meu nome quando tinha
seis anos, e ento encontrei um exemplar muito velho de um livro de Yeats.  um
escritor irlands bastante conhecido - acrescentou quando viu o olhar vazio de Eve.
Fiquei morrendo de vontade de compreender tudo aquilo, ento comecei a aprender
sozinho.
- Voc no frequentou a escola?
- No quando conseguia evitar. Estou vendo problemas no fundo dos seus olhos,
Eve - murmurou.
Ela soltou o ar com fora. De que adiantava ficar adiando o problema quando ele
conseguia ver atravs dela?
-  que eu tenho mesmo um problema. Quero fazer uma investigao completa
sobre o Secretrio Simpson. Obviamente, no posso usar os caminhos normais, nem
usar o computador da minha casa e nem o da Central. No minuto em que eu tentasse
remexer na vida do chefo, seria descoberta.
- E voc est se perguntando se eu tenho algum sistema de dados seguro e que
no esteja registrado.  claro que tenho.
-  claro - ela concordou baixinho. - Um sistema de dados no registrado  uma
violao do Cdigo 453-B, pargrafo 35.
- Voc no faz ideia de como eu fico excitado quando voc recita esses nmeros
de leis e pargrafos de cor, tenente.
- No tem graa. E o que eu vou pedir a voc  ilegal.  uma contraveno muito
grave violar eletronicamente a privacidade de um policial do estado.
- Voc pode prender a ns dois depois que acabarmos.
- Isto  srio, Roarke. Eu sempre sigo as regras, e agora estou pedindo a voc que
me ajude a fazer algo contra a lei.
- Eve, minha querida - ele se levantou e a colocou em p -, voc no faz ideia da
quantidade de leis que eu j violei. - Pegou a garrafa de vinho e a deixou pendurada
entre dois dedos, enquanto enlaava Eve pela cintura. -J tomava conta de um jogo
de dados clandestino aos dez anos - comeou ele, levando-a para fora da biblioteca. -
Foi a herana de meu velho e adorado pai, que acabou com a garganta cortada em
um beco de Dublin.
- Sinto muito.
- No ramos muito chegados. Ele era um canalha, e ningum gostava dele, muito
menos eu. Summerset, vamos jantar s sete e trinta - acrescentou Roarke enquanto
se viravam em direo  escada. - Mas ele me ensinou, com a ajuda de alguns socos
na minha cara, a jogar os dados, as cartas, a aprender as probabilidades. Era um
ladro, no muito bom, como ficou provado pelo fim que teve. Eu era melhor.
Roubava, trapaceava, e passei algum tempo aprendendo as artes do contrabando.
Portanto, como v, no pense que voc est me corrompendo com esse pedido to
trivial.
Ela no olhou para ele, que digitava o cdigo para abrir uma porta do segundo
andar, no momento em que perguntou:
- Voc ainda?...
- Voc quer saber se eu ainda roubo, trapaceio e fao contrabando at hoje? -
Virou-se e tocou o rosto dela com a mo. Voc ia odiar se fosse assim, no ? Chego
a ter vontade de dizer que sim, e que pretendo desistir de tudo s por causa de voc.
Mas aprendi h muito tempo que h jogos ainda mais excitantes por serem legais. E
que ganhar  muito mais gostoso quando voc consegue a vitria sem precisar
preparar o baralho. - Ele beijou a sobrancelha de Eve e entrou no quarto. - Temos, no
entanto, que nos manter sempre em forma.
CAPTULO DEZESSEIS
Comparada com as outras partes da casa que ela j conhecia, aquela sala era
espartana, projetada rigorosamente para o trabalho. No havia esttuas sofisticadas,
nem lustres pendentes. O console largo, em forma de U, os equipamentos de acesso
a redes de comunicaes, pesquisas e informaes eram totalmente pretos, cheios de
controles e pontos para conexo de monitores.
Eve j ouvira que o Centro Internacional de Pesquisas Criminalsticas, o CIPC,
tinha o mais avanado sistema de banco de dados do pas. Suspeitava que o de
Roarke estava no mesmo nvel.
Ela no era nenhuma especialista em computao, mas viu logo de cara que
aquele equipamento era incomparavelmente superior a qualquer um que a Polcia de
Nova York e a Secretaria de Segurana usavam, ou tinham condio de ter, mesmo
na arrogante Diviso de Deteco Eletrnica.
A parede comprida que ficava de frente para o console estava totalmente tomada
por seis imensas telas. Uma segunda estao de trabalho auxiliar exibia uma pequena
central de tele-link revestida de metal brilhante, um segundo aparelho de fax a laser,
uma unidade de envio e recepo de hologramas, e vrios outros equipamentos de
informtica que ela no identificou.
O trio de estaes de comunicao tinha monitores individuais, ligados a tele-links
prprios.
O piso era feito de placas vitrificadas, com padro em forma de diamantes e em
cores neutras que se misturavam uns com os outros, como se houvesse um lquido
entre eles. Uma nica janela mostrava imagens da cidade, e pulsava com as ltimas
cores do sol que desaparecia lentamente.
Parecia que, mesmo ali, Roarke fazia questo de uma atmosfera especial.
- Que aparelhagem! - comentou Eve.
- No  to confortvel quanto a do meu escritrio, mas tem o bsico. - Roarke se
ps atrs do console principal e colocou a mo espalmada na tela de identificao. -
Roarke. Ligar equipamento.
Ouviu-se um zumbido discreto, e todas as luzes do console se acenderam. - Este 
um novo sistema de identificao por impresso palmar conjugado a identificador
vocal - continuou, e fez um gesto para que Eve se aproximasse. - Liberar dados no
nvel de segurana amarelo.
Aps o leve aceno de cabea que ele fez, Eve espalmou a mo na tela e sentiu o
leve calor do raio de leitura.
- Dalas.
- Pronto. - Roarke se sentou ao lado dela. - Agora, o sistema vai aceitar seus
comandos de voz e mo.
- O que  nvel de segurana amarelo?
- O suficiente para lhe fornecer todos os dados que voc precisa pesquisar - ele
sorriu -, mas sem autonomia para anular um comando meu.
- Humm... - Eve olhou para os controles, todas aquelas luzes piscando
pacientemente, e a mirade de pequenas telas e medidores. Ela desejava que Feeney
estivesse ali, com seu crebro que parecia computadorizado. - Quero uma pesquisa
sobre Edward T. Simpson, Secretrio de Segurana de Nova York. Todos os dados
financeiros.
- Direto no corao - murmurou Roarke.
- No tenho tempo a perder. Este equipamento pode ser rastreado?
- No apenas ele  impossvel de ser rastreado, como tambm no deixa vestgios
da pesquisa que  feita.
- Simpson, Edward T. - anunciou o computador, com uma voz feminina e sensual. -
Dados financeiros sendo pesquisados.
Ao ouvir a voz, Eve levantou a sobrancelha e Roarke sorriu.
- Prefiro trabalhar com vozes melodiosas - explicou ele.
- O que eu ia perguntar - retornou ela -  como voc consegue acessar os dados
sem que aparea, no Compuguard, o programa de proteo do sistema.
- Nenhum sistema  totalmente resistente  invaso ou quebra de sigilo, nem
mesmo o onipresente Compuguard. Ele  excelente para barrar o hacker de nvel
mdio, ou a maioria dos ladres eletrnicos. Com o equipamento certo, no entanto,
fica comprometido. Eu tenho o equipamento certo. E aqui esto os dados. Tela um
ordenou.
Eve olhou para a frente e viu o relatrio financeiro completo de Simpson aparecer
no monitor grande. Ali estavam todas as movimentaes usuais: aluguel de carros,
financiamentos, extratos de cartes de crdito, e todas as suas transaes eletrnicas
automticas.
- A conta do American Express  salgada - ela avaliou. - E acho que ningum sabe
que ele possui uma casa em Long Island.
- S que esses no so motivos para assassinato. Ele mantm um padro
bancrio de Categoria A. Isso quer dizer que ele paga tudo o que deve. Ah, e aqui
est um extrato bancrio. Tela dois.
Eve estudou os nmeros, mas no ficou satisfeita.
- No h nada de errado. Depsitos e retiradas na mdia esperada, pagamento de
contas por transferncia, tudo batendo com o relatrio de crdito. O que  Jeremys?
- Vesturio masculino - explicou Roarke, com um quase imperceptvel sorriso de
desdm. - Roupas de segunda classe.
- S que  muito dinheiro para gastar em roupas - comentou ela, torcendo o nariz.
- Querida, assim vou ter que corromper voc. Essa quantia s  exagerada pelo
fato de serem roupas de qualidade inferior. - Ela fungou e enfiou os polegares no
bolso da frente das calsas largas.
- E aqui est a conta de investimentos. Tela trs. Pouca personalidade -
acrescentou Roarke, depois de dar uma rpida olhada.
- Como assim?
- Olhe os investimentos, esto todos a. Tudo de baixo risco. Ttulos pblicos,
alguns fundos mtuos, um punhado de blue chips. E tudo aqui mesmo no planeta.
- E o que h de errado com isso?
- Nada, se voc se contenta em deixar o dinheiro parado, acumulando poeira. -
Deu uma olhada para ela, de lado. - Voc investe seu dinheiro, tenente?
- Sim, claro. - Eve ainda estava tentando compreender as abreviaes e pontos
percentuais na tela. - Acompanho o ndice das aes duas vezes por dia.
- No  um bom padro para o seu dinheiro. - Ele quase tremeu ao dizer isso.
- E o que devo fazer?
- Coloque o que voc tem nas minhas mos e eu dobro o valor para voc em seis
meses.
- No estou aqui para ficar rica. - Ela simplesmente franziu os olhos, ainda
tentando ler o relatrio de investimentos.
- Ora, querida - corrigiu ele, com aquele leve sotaque irlands. - Todos ns
estamos.
- E quanto s contribuies polticas e humanitrias, esse tipo de coisa?
- Acesso  lista de gastos para iseno fiscal - ordenou Roarke. - Mostrar na tela
dois.
Eve aguardou e comeou a bater com a mo na perna, impaciente, enquanto os
dados comearam a aparecer.
- Ele coloca o dinheiro onde o corao est - murmurou ela, analisando os
pagamentos feitos ao Partido Conservador e ao fundo de campanha do Senador
DeBlass.
- Fora isso, no  muito generoso. Humm... - A sobrancelha de Roarke se
levantou. - Interessante... temos aqui uma contribuio muito importante para a
Organizao dos Valores Morais.
- Esse  o nome de um grupo extremista, no ?
- Eu a chamaria assim, mas os adeptos preferem pensar nela como uma
organizao dedicada a salvar a ns, pobres pecadores, de ns mesmos. DeBlass 
um dos seus defensores ferrenhos.
Eve estava concentrada, como se estivesse pesquisando em seu arquivo mental, e
disse:
- Eles so suspeitos de sabotar os principais bancos de dados de vrias das
grandes clnicas de controle de natalidade.
- Imagine, todas aquelas mulheres decidindo por si prprias se querem ou no
engravidar, e quantos filhos desejam. - Roarke estalou a lngua. - A que ponto o
mundo est chegando? Obviamente, algum precisa faz-las voltar  realidade.
- Claro. - Ainda insatisfeita, Eve enfiou as mos nos bolsos.
- Essa  uma ligao perigosa para algum como Simpson. Ele gosta de ficar em
cima do muro e posar de moderado.
- Para disfarar suas tendncias e conexes conservadoras. Nos ltimos anos,
vem removendo com cautela as camadas mais radicais. Quer ser governador, e talvez
acredite que DeBlass consiga coloc-lo l. Poltica  um jogo de toma-l-d-c.
- Poltica. O disco de chantagem de Sharon DeBlass estava cheio de polticos.
Sexo, assassinato, poltica - murmurou Eve. Quanto mais as coisas mudam...
- Sim, mais continuam como sempre foram. Os casais ainda se entregam a rituais
para se cortejarem, os seres humanos seguem se matando, e os polticos continuam a
beijar bebs e a mentir.
Algo no estava certo, e ela desejou mais uma vez que Feeney estivesse ali.
Assassinatos tpicos do Sculo XX, pensou, cometidos por motivos tpicos do Sculo
XX. E ainda havia mais uma coisa que no mudara desde o ltimo milnio: impostos.
- D para conseguirmos a Declarao do Imposto de Renda dele? Os ltimos trs
anos?
- Isso  um pouco mais complicado. - A boca de Roarke se abriu quase em um
sorriso diante do desafio.
- E tambm  um delito federal. Escute, Roarke...
- Espere um instante. - Apertou um boto, e um teclado manual surgiu da parte de
baixo do console. Um pouco surpresa, Eve observou enquanto os dedos dele
bailavam sobre as teclas. Onde foi que voc aprendeu a fazer tudo isso? - Mesmo
com todo o treinamento exigido pelo Departamento, ela ia pouco alm das pesquisas
manuais.
- Um pouco aqui, um pouco ali - respondeu ele, distrado -, durante a minha
juventude perdida. Tenho que passar pelo sistema de segurana para conseguir
invadi-lo, e isso vai levar algum tempo. Por que no pega um pouco mais de vinho
para ns?
- Olhe, Roarke, eu no devia ter pedido. - Com um ataque de conscincia, ela
chegou mais perto dele. - No posso deixar que isso prejudique voc...
- Shhh... - Suas sobrancelhas se franziram, em concentrao, enquanto tentava
achar um caminho atravs do labirinto da segurana do sistema.
- Mas...
- Ns j abrimos a porta, Eve. - Levantou a cabea, e um forte ar de impacincia
lhe encheu os olhos. - Agora, ou a gente entra ou desiste e vai embora.
Eve pensou nas trs mulheres mortas, porque ela no conseguira impedir. No
sabia o suficiente para ter impedido. Balanando a cabea para a frente, ela se virou.
O batuque sobre as teclas recomeou.
Depois de servir o vinho, ela foi at o console e ficou em p diante das telas.
Estava tudo em ordem, meditou. Avaliao de crdito com a categoria mais elevada;
pagamento das contas rigorosamente em dia; quantidade de investimentos
relativamente pequena e, sups, bem conservadora.  claro que ele gastava mais
dinheiro do que a mdia das pessoas nos quesitos roupas, vinhos e jias. Mas no era
crime ter um gosto refinado e caro. Pelo menos quando a pessoa pagava por tudo o
que comprava. Nem mesmo a segunda casa era uma infrao, ou crime.
Algumas das contribuies polticas eram inesperadas para algum que se dizia
moderado, mas mesmo assim no havia nada de criminoso nisso.
Eve escutou Roarke xingando baixinho e olhou para trs. Era como se ela nem
estivesse ali. O estranho  que ela no imaginava que ele tivesse os requisitos
tcnicos para acessar os sistemas manualmente. Pelo que Feeney comentava, aquela
era uma arte quase perdida, exceto para pessoas da rea tcnica e os hackers.
No entanto, ali estava ele, rico, privilegiado e sofisticado, quebrando a cabea
sobre um problema normalmente delegado aos empregados mal pagos que faziam
hora extra em servios de escritrio.
Por um instante, ela se permitiu esquecer o que estavam fazendo e sorriu para ele.
- Sabe, Roarke, voc  uma gracinha.
Ela compreendeu ento que, pela primeira vez, tinha conseguido realmente
surpreend-lo. Levantando a cabea, ele mostrou um olhar espantado que durou
quase dois segundos. Ento, o sorriso astuto voltou ao seu rosto. O sorriso que fazia o
corao dela disparar.
- Voc vai ter que me agradar bem mais do que isso, tenente. Consegui coloc-la
l dentro.
- Est brincando? - Uma forte excitao se espalhou por seu sistema enquanto ela
girava o corpo de frente para as telas. Mostre logo.
- Telas quatro, cinco e seis.
- Chegamos no fundo do pote. - Eve franziu a testa ao ver o total de ganhos brutos.
- Parece que tudo est, como direi... dentro do esperado para o salrio que ele ganha.
- ... Um pouco de juros e dividendos adquiridos atravs de investimentos... -
Roarke estava analisando todas as pginas. Alguns pagamentos recebidos por
palestras e discursos. Ele vive perto do limite, mas dentro de suas posses, de acordo
com o que os dados esto mostrando.
- Droga! - Ela entornou o resto do vinho com um gole s.
- Que outros dados pode haver?
- Vindo de uma mulher esperta, essa  uma pergunta incrivelmente ingnua.
Contas clandestinas - explicou ele. - Dois conjuntos de livros contbeis so o mtodo
mais consagrado e tradicional de se esconder entrada ilcita de dinheiro.
- Mas se  dinheiro ilcito, quem  que seria burro o bastante para document-lo?
- Uma pergunta muito antiga. O caso  que as pessoas fazem isso. Ah, como
fazem! Sim - acrescentou ele, respondendo  pergunta que no chegou a ser feita
sobre seus prprios mtodos contbeis. -  claro que eu tambm fao.
- No quero nem saber dessas coisas - retrucou Eve, lanando-lhe um olhar duro.
- O caso  que, pelo fato de fazer, sei bem como se faz. Movimentou os ombros. -
As cartas dele esto todas aqui na mesa, no  o que parece? - Com alguns
comandos, Roarke fez com que todos os relatrios da Receita Federal se reunissem
em uma s tela. - Agora vamos um pouco alm. Computador, quero as contas, no
exterior, de Simpson, Edward T.
- No h outros dados conhecidos - respondeu a mquina.
- Sempre h outros dados - murmurou Roarke, sem desistir. Voltou a atacar as
teclas, e algo comeou a zumbir.
- Que barulho  esse, Roarke?
-  a mquina me dizendo que cheguei em uma parede macia... - Como se fosse
um operrio, abriu os punhos da camisa e arregaou as mangas. O gesto fez Eve
sorrir. - Quando existe uma parede, sempre h algo por trs dela.
Continuou a trabalhar com uma s mo, enquanto bebia o vinho com a outra.
Quando repetiu o comando, a resposta foi diferente.
- Dados protegidos.
- Ah, agora estamos nos entendendo.
- Como  que voc consegue...
- Shh... - ordenou ele de novo, e Eve se deixou afundar em um silncio impaciente.
- Computador, faa uma varredura numrica e alfabtica de todas as combinaes de
senha. - Satisfeito com o progresso da pesquisa, ele se recostou na cadeira. - Isso vai
levar algum tempo. Por que no vem at aqui?
- Voc me mostra como  que consegue... - Ela parou de falar, pega de surpresa,
quando Roarke a colocou em seu colo. Ei, isso  importante.
- Isso tambm. - Tomou-lhe a boca, fazendo a mo subir devagar do quadril at
pouco abaixo da curva do seio. - Pode levar uma hora, talvez mais, at achar a senha
correta. - Aquelas mos geis e espertas j estavam se movimentando sob o suter
dela. Pelo que eu me lembro, voc no gosta de perder tempo.
- No, no gosto. - Aquela era a primeira vez em toda a sua vida que ela se
sentava no colo de algum, e a sensao no era nem um pouco desagradvel.
Comeou a afundar, mas um zumbido mecnico a fez se colocar reta de novo.
Completamente muda, observou o momento em que uma cama veio deslizando,
saindo de um painel na parede lateral. - Ora, o homem que tem tudo conseguiu falar.
- Vou ter. - Ele enganchou um dos braos sob as pernas dela, levantando-a no ar. -
Logo, logo.
- Roarke. - Ela se viu obrigada a admitir que, pelo menos por essa vez, estava
apreciando ser levantada e carregada.
- Fale.
- Eu achava que a sociedade, a propaganda, os filmes e a mdia colocavam nfase
demais no sexo.
- Voc achava isso?
- Achava. - Sorrindo, ela movimentou o corpo, de modo rpido e gil, deixando-o
desequilibrado. - S que mudei de ideia - completou, enquanto os dois caam em cima
da cama.
Ela j aprendera que o ato de fazer amor podia ser intenso, arrebatador, at
mesmo perigosamente excitante. S no sabia que tambm podia ser divertido. Foi
uma revelao para si prpria descobrir que era capaz de rir e brincar de luta sobre a
cama, como se fosse uma criana.
Beijos rpidos e beliscados, ccegas, risinhos descontrolados que a deixavam sem
respirar. Ela nem se lembrava de alguma vez ter dado risinhos tolos como aqueles em
toda a sua vida, enquanto prendia Roarke de costas no colcho.
- Peguei voc.
- Pegou mesmo. - Deliciado com ela, ele deixou que ela o mantivesse preso
enquanto cobria seu rosto de beijos. - Agora que me imobilizou, o que vai fazer a
seguir?
- Usar voc,  claro. - Ela mordeu, com pouca delicadeza, o lbio inferior dele. -
Curtir voc. - Com as sobrancelhas arqueadas, puxou a camisa dele para fora da
cala, desabotoou-a e a abriu para os lados. - Voc tem um corpo fantstico. - Para se
satisfazer, correu as mos pelo peito dele. - Costumava achar que essas coisas
tambm eram valorizadas em demasia. Afinal, qualquer pessoa que tenha dinheiro
pode ter um corpo sarado.
- Mas eu no comprei o meu - disse Roarke, surpreso por se ver defendendo o
prprio fsico.
- No, mas voc tem uma academia de ginstica privativa neste lugar, no tem? -
Dobrando-se para a frente, fez os lbios percorrerem os ombros dele. - Quero que
voc me mostre, uma hora dessas. Acho que gostaria de ver voc suar.
Ele rolou por cima dela, trocando as posies. Sentiu-a se petrificar e a seguir
relaxar o corpo sob as mos que a prendiam. Sinal de progresso, pensou. Um comeo
de confiana.
- Estou pronto para malhar junto com voc, tenente, a qualquer hora. - Ele puxou o
suter por cima da cabea dela. Quando voc quiser.
Ele liberou as mos dela, e se comoveu ao sentir que ela levantava o corpo e
trazia o dele com ela de volta, para abra-lo.
Ela era to forte, pensou, enquanto o tom de seu ato de amor mudava da
brincadeira para a ternura. Ela era to macia. To problemtica. Ele a tomou com todo
o vagar e muito cuidado depois da primeira subida e a viu se elevar, escutando seu
gemido baixo e melodioso enquanto seu corpo absorvia cada choque aveludado.
Ele precisava dela. Saber o quanto ele precisava dela ainda tinha o poder de
deix-lo abalado. Ele se ajoelhou, levantando-a. As pernas dela o envolveram como
laos de seda, e seu corpo se arqueou, largado, para trs. Conseguiu colocar a boca
sobre a dela, saboreando a carne quente enquanto se movia dentro de seu corpo de
modo compassado, lento e constante.
Cada vez que ela estremecia, uma nova onda de prazer o atravessava. A garganta
dela era um banquete branco e delgado ao qual ele no podia resistir. Ele a banhava
com os lbios, mordiscava e cheirava enquanto a pulsao sob aquele pedao de pele
sensibilizada latejava como um corao.
E ela chamou por ele com a voz entrecortada, envolvendo sua cabea com as
mos e trazendo-o de encontro ao seu corpo, que balanava, balanava e balanava.
Eve descobriu que fazer amor a deixava mole e aquecida. A lenta excitao e
depois a suave e longa finalizao a deixaram energizada. No se sentiu estranha ao
vestir novamente as roupas, ainda sentindo o cheiro dele em sua pele. Sentiu-se
orgulhosa.
- Eu me sinto bem quando estou perto de voc. - Dizer isso em voz alta a deixou
surpresa, pois essas palavras davam a ele, como dariam a qualquer pessoa que as
ouvisse, uma vantagem sobre ela, ainda que pequena.
E ele compreendeu que, para ela, admitir isso era o equivalente a um grito
declarado de devoo, vindo de outra mulher.
- Fico feliz. - Traou uma linha com a ponta do dedo ao longo do rosto dela, e o
enfiou na pequena covinha de seu queixo.
- Tambm gosto da ideia de ficar perto de voc.
Ela se virou depois de ouvir isso, e se atravessou na cama para acompanhar as
sequncias de nmeros que passavam rapidamente pela tela do console.
- Por que voc me contou a respeito de sua infncia em Dublin, sobre o seu pai e
as coisas que fazia?
- Voc no ficaria com algum que no conhecesse. - Ele apreciava as costas dela
enquanto enfiava a camisa para dentro das calas. - Voc me contou um pouco da
sua vida, eu lhe contei um pouco da minha. E espero que, em algum momento, voc
me conte quem machucou voc quando era menina.
- J lhe disse que no me lembro. - Eve detestava o leve sinal de pnico que sentiu
na voz. - No preciso lembrar.
- No fique tensa - murmurou ele ao se aproximar para massagear-lhe os ombros.
- No vou pressionar. Sei exatamente o que significa ter que se reconstruir, Eve.
Afastar-se do que havia antes.
De que serviria explicar a ela que no importa para onde a pessoa fuja, ou a
velocidade com que corra, o passado est sempre dois passos atrs dela?
Em vez disso, Roarke a envolveu, colocando os braos em torno de sua cintura, e
ficou satisfeito quando ela fechou a mo sobre a dele. Sabia que ela estava prestando
ateno nos monitores do outro lado da sala. E notou o instante em que ela percebeu
algo.
- Filho da me, olhe s para aqueles nmeros, Roarke: rendimentos e gastos.
Esto muito parecidos. So praticamente iguais.
- So exatamente iguais - Roarke corrigiu, e a liberou, sabendo que a policial que
havia nela ia querer se sentir livre. Iguais at o ltimo centavo.
- Mas isso  impossvel. - Ela tentava fazer os clculos matemticos de cabea. -
Ningum gasta exatamente o mesmo que ganha, no no papel. Todo mundo sempre
carrega pelo menos um pouco de dinheiro no bolso, para comprar alguma coisa no
camelo, ou pegar uma Pepsi na mquina, dar uma gorjeta para o entregador de pizza.
Tudo bem, reconheo que quase todas as despesas so feitas por carto ou
transferncia eletrnica, mas sempre tem que haver algum dinheiro vivo circulando. -
Ela parou de falar e se virou para ele. - Voc j sacou o que h. Por que diabos no
me diz nada?
- Achei que seria mais interessante esperar at encontrarmos o esconderijo dele. -
Ele viu o momento em que a luz amarela de pesquisa, que piscava, se tornou verde. -
E parece que conseguimos. Ora, um homem tradicional, o nosso Simpson. Como eu
suspeitava, ele confia nos respeitveis e discretos bancos suos. Exiba os dados na
tela cinco - comandou.
- Cacete! - Eve perdeu a fala ao ver as quantias nos relatrios dos bancos.
- Os valores esto em francos suos - explicou Roarke. Converta para dlares
americanos e mostre na tela seis. Veja s, a carteira de rendimentos e impostos dele
quase triplicou, no acha, tenente?
- Eu sabia que ele andava levando algum. - O sangue de Eve estava acelerado. -
Droga, eu sabia. E olhe s para as retiradas no ano passado, Roarke. Vinte e cinco mil
dlares por trimestre, em todos os trimestres. D cem mil dlares. - Virou-se para ele,
e seu sorriso esmaeceu. - Isso bate com os valores da lista de Sharon... Simpson,
cem mil dlares. Ela estava sugando dinheiro dele.
- Pode ser que voc consiga provar isso.
- E com certeza vou provar. - Comeou a andar de um lado para o outro. - Ela o
tinha na mo. Talvez fosse algo relacionado com sexo, talvez um caso de suborno.
Provavelmente uma combinao de pequenos e terrveis pecados. Ento ele pagava a
ela para ficar calada. - Eve enfiou as mos nos bolsos e as tirou de novo. Talvez ela
tenha aumentado o cacife. Talvez ele tenha ficado cansado e cheio de ser descascado
em cem mil dlares por ano s para se garantir. Ento acabou com ela. Algum est
tentando melar as investigaes, o tempo todo. Algum que tem o poder e as
informaes necessrias para complicar as coisas. Tudo aponta direto para ele.
- E quanto s outras duas vtimas?
Eve estava com a cabea a mil. Droga, ela estava trabalhando as ideias.
- Ele usava os servios de uma prostituta. Podia ter usado outras. Sharon e a
terceira vtima se conheciam, ou pelo menos sabiam uma da outra. Uma delas pode
ter conhecido Lola, ou mencionado o nome dela, talvez at mesmo t-la sugerido
como opo para ele. Ai, inferno, ela pode tambm ter sido uma escolha aleatria. Ele
se empolgou com as emoes do primeiro assassinato. Ficou assustado, mas tambm
se sentiu ligado.
Parou de andar pela sala por um tempo, o suficiente para lanar um olhar para
Roarke. Ele pegara um cigarro, o acendera, e estava olhando para ela.
- DeBlass  um dos aliados de Simpson - continuou ela. E Simpson tem se
mostrado totalmente a favor do projeto de lei em defesa da moral, que DeBlass vai
apresentar no Senado. As vtimas so apenas prostitutas, ele pensa. Para ele, so
simplesmente piranhas legalizadas, e uma delas o est chantageando. Quanto perigo
a mais ela poderia representar para ele, assim que sasse a sua candidatura para
governador? - Ela parou de andar novamente e se virou. - Ah, estou falando um monte
de besteiras.
- Para mim, tudo pareceu bem razovel.
- No quando voc avalia o sujeito. - Lentamente, ela esfregou os dedos entre as
sobrancelhas. - Simpson no tem cabea para isso. Sim, eu at acho que ele seria
capaz de matar, Deus sabe o quanto ele adora se sentir no controle de tudo, mas
conseguir executar uma srie de assassinatos to bem planejados? Ele  um
burocrata, um administrador, uma imagem, no  um policial. No consegue nem se
lembrar do nmero de um Cdigo Penal, a no ser que um auxiliar sopre no ouvido
dele. Suborno  fcil,  apenas um negcio. E matar tomado por pnico, paixo ou
fria, sim,  possvel. Porm, planejar e executar um plano como este, passo a passo?
No. Ele no  esperto o bastante nem para lidar com suas aparies pblicas.
- Ento, teve ajuda de fora.
- Pode ser. Se eu conseguisse pression-lo, talvez descobrisse.
- Posso ajudar voc nisso. - Roarke deu uma ltima tragada, pensativo, antes de
apagar o cigarro. - O que voc acha que a mdia faria se recebesse uma transmisso
annima com todas as contas clandestinas de Simpson?
Eve abaixou a mo que levantara para passar nos cabelos.
- Iriam pendur-lo numa corda. E se ele souber de alguma coisa, mesmo com uma
legio de advogados em volta, pode ser que a gente consiga sacudi-lo at ele deixar
cair alguma coisa.
-  isso a. A bola est com voc, tenente.
Eve pensou nas regras, nos processos adequados, no sistema do qual ela se
tornara parte integrante. E pensou ento nas trs mulheres mortas, e nas outras trs
que talvez conseguisse salvar.
- H uma reprter. O nome  Nadine Furst. Mande tudo para ela.
Ela resolveu no passar a noite com ele. Sabia que ia receber um telefonema, e
era melhor estar em casa e sozinha quando isso acontecesse. Pensou que nem
conseguiria dormir, mas acabou deslizando para o mundo dos sonhos.
Sonhou primeiro com assassinatos. Sharon, Lola, Georgie, cada uma delas
sorrindo ao olhar para a cmera. Viu o instante de medo em seus olhos, rpido como
um relmpago, antes de serem atiradas para trs sobre os lenis recm-aquecidos
pelo sexo.
Papai. Lola o chamara de papai. E Eve foi atirada ento em um sonho mais
doloroso, mais antigo e aterrorizante.
Ela era uma boa menina. Tentava ser boa, sem causar problemas. Quando voc
causava problemas, a polcia vinha, levava voc e a colocava em um buraco fundo e
escuro, cheio de insetos e aranhas que passeavam por cima de seu corpo, com patas
pegajosas.
Ela no tinha amigos. Quando voc tinha amigos era obrigada a inventar histrias
para explicar de onde tinham vindo aquelas marcas roxas. Ou tinha que dizer que era
desastrada, quando na verdade no era. Ou contar como levara um tombo, mesmo
sem ter cado. Alm do mais, eles nunca moravam no mesmo lugar por muito tempo.
Se morassem, as malditas assistentes sociais comeavam a aparecer, metendo o
bedelho, fazendo perguntas. E eram as malditas assistentes sociais que iam chamar
os policiais para colocla naquele buraco escuro cheio de insetos rastejantes.
Seu pai j havia avisado.
Ento, ela era uma boa menina que no tinha amigos e se mudava o tempo todo
de um lugar para o outro, sempre que a levavam.
Mesmo assim, parecia no fazer diferena.
Ela podia ouvi-lo chegar. Sempre o ouvia. Mesmo quando estava em sono
profundo, o contato dos ps descalos dele com o piso a acordava mais depressa do
que o ribombar de um trovo.
Oh, por favor, por favor, por favor. Ela rezava, mas no chorava. Se chorasse,
apanhava, e ele acabava fazendo as coisas secretas do mesmo jeito. As coisas
dolorosas e escondidas que ela sabia, de algum modo, mesmo aos cinco anos, que
eram erradas.
Ele dizia que ela era uma boa menina. Durante todo o tempo em que ele fazia as
coisas secretas com ela, ficava dizendo que ela era uma boa menina. Mas ela sabia
que era m, e que um dia seria punida.
s vezes ele a amarrava. Sempre que ouvia a sua porta abrir, ela se lamuriava
baixinho, rezando para que ele no a amarrasse daquela vez. Ela no tentaria resistir,
no tentaria, se pelo menos ele a deixasse solta. Se pelo menos ele no tapasse a
sua boca com a mo, ela no ia gritar, nem pedir ajuda.
- Onde est a minha garotinha? Onde est a minha boa garotinha?
As lgrimas se acumulavam no canto dos olhos enquanto as mos dele entravam
por baixo dos lenis, apalpando, sondando, apertando. Ela conseguia sentir o hlito
dele em seu rosto. Um cheiro doce, de bala.
Os dedos dele se cravavam dentro dela, e a outra mo descia sobre a boca,
apertando-a sempre que ela se preparava para gritar. Ela no conseguia evitar aquilo.
- Fique quieta. - A respirao dele ficava mais rpida, em uma acelerao enjoativa
que ela no compreendia. Seus dedos apertavam-lhe as bochechas, no lugar em que,
pela manh, haveria marcas roxas. - Seja uma boa menina. Isso... Boa menina.
Ela j no conseguia ouvir os grunhidos dele por causa da gritaria que havia dentro
de sua cabea. Por dentro, ela berrava sem parar. No, papai. No, papai.
- No! - O grito saiu pela garganta de Eve no mesmo instante em que ela se
levantou da cama. Sentiu arrepios em toda a pele suada, e comeou a tremer sem
parar enquanto puxava as cobertas para cima.
Ela no se lembrava. No queria se lembrar de nada. E confortou a si mesma
encolhendo os joelhos at apertar a testa de encontro a eles. Foi s um pesadelo, e j
estava passando. Ela ia fazer com que ele passasse, j havia feito isso antes. At que
no restava mais nada, a no ser uma leve sensao de enjoo.
Ainda trmula, ela se levantou e se agasalhou com o robe para combater o frio.
Durante o banho, deixou a gua escorrer pelo rosto at conseguir respirar
pausadamente outra vez. Sentindo-se mais firme, pegou uma lata de Pepsi, enfiou-se
de novo na cama e ligou o monitor em um dos canais de notcias.
E se acomodou para esperar.
Era a notcia principal do telejornal das seis da manh, e foi apresentada por uma
Nadine que, naquele momento, parecia ter olhos de gata. Eve j estava
completamente vestida quando recebeu a ordem para se apresentar imediatamente 
Central de Polcia.
CAPTULO DEZESSETE
Qualquer satisfao pessoal que Eve pudesse estar sentindo ao tomar parte da
equipe que interrogava Simpson, ela escondeu muito bem. Em considerao 
posio dele, usaram a sua prpria sala da Secretaria de Segurana, em vez da sala
de interrogatrio.
As amplas janelas e a brilhante mesa de acrlico no conseguiam esconder o fato
de que Simpson estava em srios apuros. As pequenas gotas de suor acima do seu
lbio superior indicavam que ele conhecia muito bem a extenso do seu problema.
- A mdia est tentando desacreditar a Secretaria de Segurana
- Simpson comeou, usando a declarao meticulosamente preparada por seu
principal assessor. - Diante do fracasso visvel das investigaes sobre a morte brutal
de trs mulheres, a imprensa est tentando provocar uma caa s bruxas. Como
Secretrio de Segurana, sou um alvo bvio.
- Secretrio Simpson. - Nem mesmo pelo tremular de um clio o Comandante
Whitney demonstrou o seu jbilo interior. Sua voz era grave, e seu olhar, sombrio. Seu
corao celebrava o momento.
- Independente dos motivos, ser necessrio que o senhor explique as
divergncias demonstradas em suas declaraes financeiras.
Simpson estava sentado, petrificado, enquanto um de seus advogados se inclinava
e murmurava algo em seu ouvido.
- No admiti haver nenhuma divergncia em minhas contas. Se existe alguma, no
 do meu conhecimento.
- No  do seu conhecimento, Secretrio Simpson, a existncia de mais de dois
milhes de dlares?
- J requisitei a presena de meus contadores. Obviamente, se existe um erro de
qualquer natureza, foi cometido por eles.
- O senhor confirma ou nega que a conta corrente com o nmero 4.789.112.749-9
pertence ao senhor?
Aps outra breve consulta com o advogado, Simpson concordou com a cabea.
- Eu confirmo essa informao. - Mentir a respeito disso s serviria para apertar o
lao.
Whitney lanou um olhar para Eve. Eles j haviam concordado entre eles que a
questo da conta era assunto para a Receita Federal. Tudo o que queriam  que
Simpson confirmasse que a conta era sua.
- Poderia nos explicar, Secretrio Simpson, a retirada de cem mil dlares, em
quatro parcelas de vinte e cinco mil dlares, uma a cada trimestre, no decorrer do ano
passado? - quis saber Eve.
Simpson puxou, com desconforto, o n da gravata.
- No vejo motivo para lhe dar satisfaes sobre como gasto o meu dinheiro,
Tenente Dalas.
- Ento talvez possa esclarecer como  que essas mesmas quantias foram listadas
por Sharon DeBlass e relacionadas com o seu nome.
- No sei do que a senhorita est falando.
- Temos provas de que o senhor pagou a Sharon DeBlass a quantia de cem mil
dlares, em quatro parcelas de vinte e cinco mil, no intervalo de um ano. - Eve
esperou um instante e completou. -  uma quantia bem grande para ser gasta com
uma pessoa que o senhor mal conhecia.
- No tenho nada a declarar a respeito desse assunto.
- Ela o estava chantageando?
- No tenho nada a dizer.
- As provas dizem pelo senhor - afirmou Eve. - Ela chantageava, o senhor pagava.
Tenho certeza de que o senhor est ciente de que existem apenas duas maneiras de
acabar com a extorso, Secretrio Simpson. Uma  cortar o suprimento. A outra... 
eliminar o chantagista.
- Isso  um absurdo. Eu no matei Sharon DeBlass. Estava pagando tudo a ela,
religiosamente. Eu...
- Secretrio Simpson! - O homem mais velho da equipe de advogados colocou a
mo sobre o brao de Simpson e o apertou. Depois, voltou o olhar suave para Eve. -
Meu cliente no tem nenhuma declarao a fazer com relao a Sharon DeBlass.
Obviamente, iremos colaborar de todas as maneiras com as investigaes da Receita
Federal quanto s declaraes de renda de meu cliente. At este momento, no
entanto, nenhuma acusao foi feita, oficialmente. Estamos aqui apenas por cortesia,
em uma demonstrao de boa vontade.
- O senhor conhecia uma mulher chamada Lola Starr? - disparou Eve.
- Meu cliente no tem nada a declarar.
- O senhor conhecia uma acompanhante autorizada que se chamava Georgie
Castle?
- A resposta  a mesma - disse o advogado, pacientemente.
- O senhor fez de tudo para dificultar ao mximo a investigao desses
assassinatos, desde o princpio. Por qu?
- Esta  uma declarao de fatos oficiais, Tenente Dalas? perguntou o advogado. -
Ou apenas uma opinio?
- Pois vou lhe dar os fatos. O senhor conhecia Sharon DeBlass, intimamente. Ela o
estava sugando em cem mil dlares por ano.
Agora ela est morta, e algum est deixando vazar informaes confidenciais a
respeito da investigao. Duas outras mulheres esto mortas. Todas as vtimas
ganhavam a vida exercendo a prostituio legalizada, uma coisa  qual o senhor se
ope.
- Minha oposio  prostituio  uma questo poltica, moral e pessoal - retrucou
Simpson com vigor. - Vou sempre dar apoio total, de todo o corao, a qualquer
legislao que a declare fora da lei. S que no  muito provvel que eu resolvesse
acabar com o problema eliminando pessoalmente as prostitutas, uma de cada vez.
- O senhor possui uma coleo de armas antigas? - persistiu Eve.
- Possuo - concordou Simpson, ignorando o advogado. Uma coleo pequena e
limitada. Totalmente registrada, segurada e inventariada. liber-la para o Comandante
Whitney, para a realizao de qualquer teste.
- Agradeo muito por isso - disse Whitney, deixando Simpson chocado por ter
concordado to depressa. - Obrigado pela sua cooperao.
O secretrio se levantou, e no seu rosto havia um turbilho de emoes.
- Quando todos esses assuntos forem esclarecidos, no vou me esquecer desta
reunio. - Seus olhos pousaram por um breve instante em Eve. - No vou me
esquecer de quem invadiu a sala do Secretrio de Segurana do estado.
O Comandante Whitney esperou at Simpson sair, acompanhado pelo seu squito
de advogados.
- Quando toda essa poeira baixar - comentou -, ele no vai conseguir chegar nem
a cem metros da sala do Secretrio de Segurana do estado.
- Eu precisava de mais tempo para trabalhar nele. Por que deixou que ele fosse
embora?
- O nome dele no  o nico na lista de Sharon DeBlass - Whitney lembrou. - E
ainda no temos nenhuma ligao, at agora, entre ele e as outras duas vtimas.
Reduza a lista de suspeitos, me consiga uma conexo, e eu vou poder lhe dar todo o
tempo de que precisar. - Fez uma pausa, arrumando as folhas e os documentos que
haviam sido transmitidos para a sua sala. - Dalas, voc me pareceu muito bem
preparada para este interrogatrio. Foi quase como se j estivesse esperando por ele.
Acho que no preciso lembrar a voc que ficar remexendo nos documentos privados 
contra a lei.
- No, senhor.
- No achei que precisasse. Est dispensada.
Ao se dirigir para a porta, pensou ter ouvido Whitney murmurar Bom trabalho,
mas pode ter se enganado.
J estava entrando no elevador para ir para a sua sala quando seu comunicador
tocou.
- Dalas - ela atendeu.
- Ligao para voc. Charles Monroe.
- Vou retornar a ligao para ele mais tarde.
Pegou um copo de lodo marrom que se fazia passar por caf e o que deveria ser
uma rosquinha, enquanto entrava na rea cercada da Seo de Registros. Levou
quase vinte minutos para conseguir fazer a requisio dos discos relativos aos trs
homicdios.
Trancando-se em sua sala, ela os estudou mais uma vez. Fez uma reviso nas
anotaes que havia, e colocou outras, novas.
A vtima estava sobre a cama em cada uma das vezes. Os lenis estavam
amarrotados em cada uma das vezes. Estavam sempre nuas. Seus cabelos estavam
sempre em desalinho.
Com os olhos apertados, ordenou que a imagem de Lola Starr ficasse em pausa
na tela, e pediu ao sistema que lhe desse um dose,
- Marcas vermelhas na ndega esquerda - murmurou. No tinha reparado nisso.
Espancamento? Relao de dominao? Ela no parece ter marcas roxas ou
arranhes. Pea a Feeney para ampliar a imagem e examinar melhor. Troque para a
gravao de Sharon DeBlass.
Mais uma vez, Eve assistiu a tudo. Sharon rindo para a cmera, zombando dela,
tocando em si prpria, se remexendo.
- Congele a imagem. Mostre quadrante nmero... droga... tente o dezesseis.
Amplie a imagem. Sem marcas - disse. - Continue. Vamos l, Sharon, me mostre o
lado certo, s para eu ter certeza. Um pouco mais... Congele. Quadrante doze, amplie
a imagem. No h marcas em voc. Talvez voc  que tenha espancado, hein?
Mostre o disco de Georgie Castle. Vamos l, Georgie, vamos ver voc.
Viu a mulher sorrir, flertar, levantar a mo para alisar os cabelos desarrumados.
Eve j sabia o dilogo de cor: Foi tudo maravilhoso, voc foi fantstico.
Ela estava se ajoelhando, e se sentou sobre os calcanhares, com um olhar
simptico e amigvel. Em silncio, Eve comeou a torcer para que ela se movesse, s
um pouquinho, e se colocasse de lado. Ento Georgie bocejou delicadamente, e se
virou para ajeitar os travesseiros.
- Congele. A... Ento, ele deu umas palmadas em voc, no foi? Alguns caras se
excitam brincando de menina m que apanha do papai.
E ento sentiu um claro, como uma faca que estivesse sendo enfiada no crebro.
As lembranas comearam a desfilar por dentro dela, o tapa slido de uma mo forte
no seu traseiro, a fisgada de dor, a respirao pesada. Voc tem que ser castigada,
garotinha. Depois, o papai vai beijar voc. Ele vai beijar voc todinha,
- Meu Deus! - Ela esfregou as mos trmulas no rosto. Pare. Saia da minha
cabea. Saia da.
Apanhou a xcara de caf frio, mas s havia sedimentos escuros no fundo. O que
passou, passou, lembrou a si mesma, e aquilo no tinha nada a ver com ela. Nada a
ver com o trabalho que estava realizando.
- Vtimas Dois e Trs apresentam marcas de espancamento nas ndegas. No h
marcas na Vtima Um. - Soltou um longo suspiro, e depois respirou pausadamente, at
ficar mais calma. Quebra no padro. Uma aparente reao emocional durante o
primeiro assassinato, ausente nos seguintes. O tele-link tocou, mas ela o ignorou.
- Teoria possvel: o criminoso ganhou confiana e encontrou algum divertimento
nos assassinatos subsequentes. Detalhe: no havia segurana no caso da Vtima
Dois. Lapso de tempo na gravao das cmeras de segurana: no caso da Vtima
Trs, trinta e trs minutos a menos que no caso da Vtima Um. Teoria possvel: o
criminoso estava mais desenvolto, mais confiante, menos inclinado a brincar com a
vtima. Queria que a emoo viesse mais depressa.
Possvel, possvel, ela pensou, e o computador concordou com ela, dando um
zumbido agitado e apresentando uma possibilidade de 96,3 por cento para a ideia. S
que alguma coisa a mais estava discordante quando ela passou as imagens dos trs
discos ao mesmo tempo, alternando a ordem das imagens.
- Divida a tela - ordenou ela. - Mostre Vtimas Um e Dois, desde o incio.
O sorriso felino de Sharon, o beicinho de Lola. As duas mulheres olhavam para a
cmera, para o rosto do homem que estava atrs delas. Falavam com ele.
- Congele as imagens. - Disse Eve isso to baixinho que s mesmo os delicados
sensores do computador conseguiriam ouvi-la.
- Ora, meu Deus, o que temos aqui?
Era um detalhe pequeno, imperceptvel, e, com os olhos focados na brutalidade
dos assassinatos, ela deixara passar. Mas conseguia ver naquele momento, atravs
dos olhos de Sharon. Atravs dos olhos de Lola.
O olhar de Lola estava voltado para um ponto mais acima do que o de Sharon.
A altura das camas poderia ser a causa disso, disse Eve para si mesma enquanto
adicionava a imagem de Georgie na tela. Cada uma das mulheres estava com a
cabea ligeiramente inclinada para o lado. Afinal, estavam sentadas, e ele, muito
provavelmente, estava em p. Mas o ngulo dos olhos, o ponto exato para onde eles
estavam olhando... S o de Sharon era diferente.
Ainda olhando fixamente para a tela, Eve ligou para a Doutora Mira.
- No quero saber o que ela est fazendo - respondeu Eve  voz montona da
recepo. -  urgente.
Resmungou, ao ser colocada em espera e sentir os ouvidos invadidos por uma
msica aucarada e aptica.
- Tenho uma pergunta - soltou, no momento em que Mira entrou na linha.
- Sim, tenente.
-  possvel que sejam dois assassinos?
- Um imitador reproduzindo novos assassinatos? No  muito provvel, tenente,
visto que mantivemos muitos detalhes do mtodo e estilo dos assassinatos em sigilo.
- Mas pode ter vazado. Achei quebras no padro. Pequenas, mas bem definidas. -
Impaciente, ela as enumerou. - A teoria, doutora,  que o primeiro assassinato foi
cometido por algum que conhecia Sharon bem, matou por impulso e ento conseguiu
controle suficiente para limpar tudo sem deixar traos. Os outros dois so reflexos do
primeiro crime, aprimorados e bem planejados, cometidos por algum frio, calculista,
sem conexo com as vtimas. E, droga, mais alto que o primeiro.
-  uma teoria, tenente. Sinto muito, mas tambm  bem provvel, talvez at mais,
que todos os trs crimes tenham sido cometidos pelo mesmo homem, que se tornou
mais calculista a cada novo sucesso. Na minha opinio profissional, ningum que no
estivesse completamente familiarizado com o primeiro crime e seus detalhes de
encenao conseguiria t-lo reproduzido com tamanha perfeio nos dois seguintes.
O computador de Eve tambm recusara a teoria, com um ndice de apenas 48,5
por cento.
- Tudo bem, obrigada. - Desanimada, Eve desligou. Era besteira sentir-se
desapontada, disse a si mesma. Que diferena fazia se ela estava atrs de dois
homens em vez de um? O tele-link tocou de novo. Com os dentes rangendo,
aborrecida, ela atendeu. - Dalas. Que foi?
- Ei, Tenente Docinho, assim as pessoas vo achar que voc no se importa com
elas.
- No tenho tempo para brincadeiras, Charles.
- No desligue na minha cara. Tenho algo para voc.
- No tenho tempo para insinuaes idiotas, tambm.
- No,  de verdade. Caramba, a gente flerta com uma mulher uma ou duas vezes
e ela nunca mais leva a gente a srio. - Seu rosto perfeito mostrava que ele estava
magoado. - Foi voc mesma que pediu para eu ligar se me lembrasse de alguma
coisa, no foi?
- Foi. - Mantenha a pacincia, falou para si mesma. - E ento, voc se lembrou de
algo?
- Foi a histria dos dirios que me deixou pensando. Voc lembra que eu comentei
que Sharon sempre deixava tudo registrado. Como voc estava em busca dos dirios,
saquei que eles no estavam no apartamento dela.
- Puxa, voc devia ser detetive.
- No, eu gosto do meu trabalho. Enfim, fiquei matutando em que lugar ela poderia
t-los escondido, para que ficassem em segurana. E me lembrei do cofre que ela
alugava em um banco.
- J verificamos isso. De qualquer modo, obrigado.
- Ah... Mas, escute, como foi que voc conseguiu chegar no cofre sem a minha
ajuda? Sharon est morta.
Eve j estava quase desligando, mas parou.
- Sem a sua ajuda? Como assim?
- H uns dois ou trs anos, ela me pediu para alugar um no meu nome, para ela.
Disse que no queria que o nome dela aparecesse.
- Mas ento, no seu nome, como  que ela poderia usar? - O corao de Eve
comeou a disparar.
- Bem... - O sorriso de Charles era meio envergonhado e charmoso. -
Tecnicamente, eu a coloquei no contrato como minha irm. Eu tenho mesmo uma irm
em Kansas City. Ento, listei Sharon como Annie Monroe. Ela pagava o aluguel, e eu
nem me lembrei mais disso. Nem sei ao certo se ela ainda mantinha o cofre, mas
achei que voc gostaria de saber.
- E onde  o banco?
-  o First Manhattan, na agncia da Avenida Madison.
- Escute, Charles. Voc est em casa, certo?
- Estou.
- Fique a, bem quietinho. Vou chegar em quinze minutos. Vamos at o banco, ns
dois.
- Se  s isso que eu posso fazer... Ei, essa foi uma boa dica, Tenente Docinho?
- No saia da. -J estava em p agarrando o casaco, quando o tele-link tocou
mais uma vez. - Dalas. - Ela atendeu.
- Transferncia para voc, Dalas. Temos uma transmisso em espera. O sinal de
vdeo est bloqueado, e a pessoa no quer se identificar.
- J rastrearam?
- Estamos rastreando.
- Ento me ponha na linha. - Ela colocou a bolsa no ombro, ouvindo o sinal de
udio. - Alo, aqui  a Tenente Dalas.
- Voc est sozinha? - Era uma voz feminina, trmula.
- Sim. Voc est precisando de ajuda?
- Olhe, a culpa no foi minha. Voc tem que saber que a culpa no foi minha.
- Ningum a est culpando de nada. - A experincia fez Eve comear a sentir
medo e pena. - Simplesmente me conte o que aconteceu.
- Ele me estuprou. No consegui evitar. Ele me estuprou. Depois a estuprou,
tambm. Em seguida, a matou. Poderia ter me matado, tambm.
- Diga-me onde voc est. - Observando a tela, Eve estava  espera do sinal de
localizao da ligao. - Eu quero ajud-la, mas primeiro preciso saber onde voc
est.
- Ele disse que tudo era para ficar em segredo. - Sua respirao comeou a ficar
entrecortada, e ela comeou a choramingar. Eu no podia contar. Ele a matou para
que ela no contasse. Agora, sou eu. Ningum vai acreditar em mim.
- Eu acredito em voc. Vou ajud-la. Diga-me apenas... Xingou no momento em
que a ligao caiu. - Conseguiram achar o local? - ela quis saber, depois de voltar
para a telefonista.
- A ligao veio de Front Royal, na Virgnia. Nmero 70355-3908. O endereo ...
- No precisa. Chame o Capito Ryan Feeney na Diviso de Deteco. Depressa.
Dois minutos de espera no era sua ideia de depressa. Eve quase fez um buraco
na tmpora, apertando-a enquanto aguardava.
- Feeney, pintou algo aqui, e  importante.
- Que foi?
- No d para explicar, mas preciso que voc v pegar Charles Monroe.
- Caramba, Eve, achamos o assassino?
- Ainda no. Charles vai levar voc at um outro cofre em um banco. Tome conta
dele direitinho, Feeney. Vamos precisar dele. E tome muito cuidado com o que
encontrar no cofre.
- Para onde voc est indo?
- Tenho que pegar um avio. - Ela desligou, chamando Roarke logo em seguida.
Passaram-se mais trs preciosos minutos antes que ele conseguisse atender.
- Estava para ligar para voc, Eve. Parece que vou precisar voar agora mesmo
para Dublin. Quer me acompanhar?
- Roarke, preciso do seu avio. Agora. Tenho que chegar na Virgnia, bem
depressa. Se eu for pelos mtodos normais, ou pegar um transporte pblico...
- O avio vai estar pronto para voc. Terminal C, Porto 22.
- Obrigada - disse ela, fechando os olhos. - Estou devendo essa a voc.
Sua gratido durou at chegar ao porto de embarque indicado e encontrar Roarke
esperando por ela.
- No tenho tempo para conversar agora. - A voz dela estava spera, e suas
pernas compridas estavam devorando a distncia entre o porto e a rea de
embarque.
- Ento conversamos no avio.
- Voc no vai comigo. Isso  um assunto oficial, e...
- O avio  meu, tenente - interrompeu ele de modo suave, enquanto o elevador se
fechava com os dois dentro e subia silenciosamente.
- Voc consegue fazer alguma coisa sem usar as rdeas?
- Consigo, mas esta no  uma dessas coisas. - A porta do avio se abriu. A
aeromoa estava  espera, eficiente.
- Sejam bem-vindos a bordo, senhor... tenente. Vo querer beber alguma coisa?
- No, obrigado. Avise o piloto para decolar assim que a pista estiver livre. - Roarke
se sentou, enquanto Eve continuou em p, furiosa. - No vamos poder decolar
enquanto voc no se sentar e colocar o cinto.
- Achei que voc estava indo para a Irlanda. - Ela podia brigar com ele enquanto se
sentava.
- No era nada prioritrio. Isto aqui, . Escute, Eve, antes que voc comece a
explicar o caso, deixe-me dizer uma coisa. Voc est indo para a Virgnia com muita
pressa. Isso aponta para alguma coisa ligada ao caso DeBlass, e alguma nova
informao. Beth e Richard so meus amigos, amigos chegados. No tenho muitos
amigos chegados, como voc tambm no tem. Agora, coloque-se no meu lugar. O
que voc faria?
Ela tamborilou com os dedos no brao da poltrona enquanto o avio comeava a
se movimentar na pista.
- Roarke, isso no pode se tornar uma coisa pessoal.
- Para voc, no. Para mim, tudo  muito pessoal. Beth entrou em contato comigo
assim que eu comecei a ordenar os preparativos para aprontar o avio. Ela me pediu
que eu fosse at l.
- Por qu?
- No quis dizer. Nem precisava, bastou pedir. Lealdade era uma qualidade que
Eve no conseguia atacar.
- No posso impedi-lo de ir comigo, Roarke, mas estou lhe avisando: isso 
assunto da polcia.
- E a polcia est mais agitada do que nunca, esta manh respondeu ele, no
mesmo tom -, devido a algumas informaes que vazaram para a imprensa... atravs
de uma fonte annima.
- E eu estou grata pela sua ajuda - disse ela, soltando um suspiro. Nada como se
ver encostada na parede.
- Grata o suficiente para me contar o que houve?
- Acho que a bomba vai estourar at o fim do dia. - Movimentou os ombros,
inquieta, olhando para fora da janela e querendo que a distncia passasse depressa. -
Simpson vai colocar a culpa do negcio todo nas costas dos contadores. No o
imagino fazendo outra coisa. A Receita Federal vai enquadr-lo por fraude fiscal.
Imagino que as investigaes internas vo descobrir de onde vinha o dinheiro.
Considerando a falta de imaginao de Simpson, aposto que eram as comisses
usuais, propina e suborno.
- E quanto  chantagem?
- Ah, ele estava pagando a ela, sem dvida. Ele admitiu isso antes de o advogado
faz-lo calar a boca. S que ele vai se agarrar nisso, porque vai descobrir que
responder por pagamento a uma chantagista  bem menos arriscado do que aparecer
como cmplice de assassinato.
Ela pegou o comunicador e requisitou o nmero de Feeney.
- Oi, Dalas.
- Pegou os dirios?
- Todos etiquetados e datados. - Feeney levantou uma caixinha, que apareceu na
pequena tela. - Temos uns vinte anos de pesquisa, aqui.
- Comece com o ltimo registro e v andando para trs. Devo chegar ao meu
destino em vinte minutos. Volto a falar com voc assim que puder, para contar em que
p estamos.
- Ei, Tenente Docinho. - Charles apareceu com a cara no canto da tela e sorriu
para ela. - Como  que eu me sa?
- Muito bem. Obrigada, Charles. Agora, at que eu lhe avise o contrrio, esquea
tudo a respeito do cofre do banco, dos dirios, de tudo.
- Que dirios? - perguntou, dando uma piscada. A seguir, atirou-lhe um beijo antes
que Feeney o empurrasse para o lado.
- Estou voltando para a Central de Polcia, Eve. Mantenha contato.
- Tchau. - Eve desligou e enfiou o comunicador de volta no bolso.
Roarke esperou um segundo, antes de perguntar:
- Tenente Docinho?
- No enche, Roarke. - Ela fechou os olhos para ignor-lo, sem conseguir apagar o
sorriso do rosto.
Quando aterrissaram, ela foi obrigada a admitir que o nome de Roarke fazia efeito
mais depressa do que um distintivo. Em poucos minutos eles estavam em um
possante carro alugado, devorando os quilmetros que os separavam de Front Royal.
Eve pensou em fazer objees por ter sido relegada ao banco do carona, mas no
podia reclamar da velocidade com que ele dirigia.
- Voc j correu na Frmula Indy?
- No. - Olhou para ela de lado enquanto continuavam com a velocidade de uma
bala pela Rodovia 95, a cento e sessenta quilmetros por hora. - Mas j participei de
algumas corridas.
- D para perceber. - Apertou com fora a barra lateral acima da porta quando ele
embicou o carro para cima, decolando e voando baixo de modo ousado e ilegal por
sobre um pequeno engarrafamento um pouco  frente. - Voc falou que Richard  um
bom amigo. Como o descreveria?
- Inteligente, dedicado, calmo. Quase no fala, a no ser quando tem algo a dizer.
Sempre  sombra do pai, e muitas vezes divergindo dele.
- Como descreveria as relaes entre ele e o pai?
Roarke trouxe o veculo novamente para o piso da estrada, com as rodas tocando
suavemente o solo, quando aterrissou.
- Pelo pouco que ouvi de sua prpria boca, e pelo que Beth deixou escapar, eu
diria que era uma relao de combate, e frustrada.
- E o relacionamento dele com a filha?
- As escolhas que ela fez estavam em oposio direta ao estilo de vida do pai e,
digamos,  sua moral. Ele  um forte defensor da liberdade de escolha e de
expresso. Mesmo assim, no consigo imaginar um pai que goste de ver a filha virar
uma mulher que vende o corpo para ganhar a vida.
- Ele no esteve encarregado da segurana da ltima campanha do pai para o
Senado?
Roarke fez o veculo levantar voo mais uma vez, manobrando-o por uma regio
fora do traado da estrada, balbuciando que ia pegar um atalho. Durante o tempo em
que ficou passando entre algumas clareiras acima de algumas casas at descer
novamente, aterrissando em uma rua tranquila de um bairro residencial, permaneceu
em silncio.
Eve parou de contar as infraes de trfego.
- A lealdade  famlia transcende a poltica - voltou ele. Um homem com as ideias
de DeBlass, ou  muito amado ou muito odiado. Richard podia discordar do pai, mas 
claro que no o queria ver morto. Como  especialista em legislao de segurana,
era natural dar assistncia ao pai neste assunto.
Um filho sempre protege o pai, pensou Eve.
- E at que ponto DeBlass aceitaria ir para proteger o filho?
- Do qu? Richard  o maior dos moderados. Costuma se manter discretamente
afastado, apoia as suas causas sem alarde. Ele... - O significado da pergunta de Eve
finalmente o atingiu. No, voc est longe do alvo - Roarke disse entre dentes.
Completamente fora do alvo.
-  o que veremos.
A casa na colina parecia em paz. Sob o cu frio e azul, mostrava-se serena,
acolhedora, com alguns valentes arbustos de aafro comeando a apontar na grama
sofrida do inverno.
As aparncias, pensou Eve, realmente enganavam. Ela bem sabia que aquele no
era um lar de riqueza confortvel, felicidade tranquila e vidas ajustadas. E estava mais
certa disso do que nunca, agora que sabia o que ocorrera por trs da fachada cor-de-
rosa e das vidraas brilhantes.
Elizabeth abriu, ela mesma, a porta. Se  que era possvel, estava ainda mais
plida e abatida do que quando Eve a vira da outra vez. Os olhos estavam inchados
de chorar, e o terninho de corte masculino que usava estava largo nos quadris, devido
 recente perda de peso.
- Ah, Roarke. - Quando Elizabeth se atirou nos braos dele, Eve pareceu ouvir os
seus frgeis ossos se chocando uns contra os outros. - Sinto muito por t-lo arrastado
at aqui. No devia ter incomodado voc.
- Deixe de bobagem. - Ele levantou-lhe o queixo com uma delicadeza que tocou o
corao de Eve, apesar de sua luta para no se deixar envolver. - Beth, voc no
anda se cuidando.
- Parece que eu no consigo funcionar, pensar ou agir. Tudo parece estar
desmoronando aos meus ps, e eu... - parou de falar de repente, lembrando-se de
repente de que eles no estavam sozinhos. - Como vai, Tenente Dalas?
Eve percebeu o rpido ar de acusao em Elizabeth quando ela olhou para
Roarke.
- No foi ele que me trouxe, Senhora Barrister. Eu o trouxe. Recebi uma ligao
esta manh, feita aqui desta casa. Foi a senhora que a fez?
- No. - Elizabeth recuou. Suas mos se entrelaaram e se retorceram. - No, no
fui eu. Deve ter sido Catherine. Ela chegou ontem  noite, de surpresa. Estava
histrica, esgotada. Sua me foi hospitalizada, e o prognstico no  dos melhores.
Acho que o estresse das ltimas semanas foi demais para ela. Foi por isso que eu
pedi para voc vir, Roarke. Richard est nas ltimas. Parece que eu no consigo
ajud-lo. Precisvamos de algum.
- Por que no entramos e nos sentamos?
- Eles esto na sala de estar. - Com um movimento tenso, Elizabeth se virou para
olhar na direo da sala. - Ela no quer tomar um tranquilizante, e no explica nada.
Recusa-se a fazer qualquer coisa. S permitiu que avisssemos ao marido e ao filho
que ela estava aqui, e pediu para que eles no viessem. Est apavorada com a ideia
de que possam estar em algum tipo de perigo. Imagino que o que aconteceu com
Sharon a fez ficar mais preocupada com o prprio filho. Est obcecada com a ideia de
salv-lo, sabe l Deus de qu.
- Se foi ela que me ligou - interrompeu Eve -, talvez converse comigo.
- Sim, sim, est certo.
Ela os conduziu pelo saguo, at a sala impecvel e banhada pela luz do sol.
Catherine DeBlass estava sentada em um sof, agarrada aos braos do irmo. Eve
no conseguiu descobrir se era para confort-lo ou segur-lo.
Richard levantou os olhos golpeados para saudar Roarke.
- Foi bom voc ter vindo. Estamos arrasados, Roarke. - A voz tremeu, abalada. -
Completamente arrasados.
- Elizabeth. - Roarke se agachou diante de Catherine. Por que no pede um pouco
de caf?
- Ah,  claro. Desculpe.
- Catherine. - Sua voz era suave, como a mo que pousou em seu brao. O toque,
porm, fez Catherine dar-lhe um empurro, e seus olhos se arregalaram.
- No. O que... o que voc est fazendo aqui?
- Vim visitar Beth e Richard. Sinto muito que voc no esteja bem.
- Bem? - Ela soltou o que pareceu uma gargalhada nervosa, enquanto se encolhia.
- Nenhum de ns jamais vai conseguir ficar bem novamente. Como poderemos?
Estamos todos manchados. E somos todos culpados.
- Pelo qu?
- No posso dizer a voc. - Ela balanou a cabea, afastando-se ainda mais, at
ficar na ponta do sof.
- Deputada DeBlass, eu sou a Tenente Dalas. A senhora me ligou ainda h pouco.
- No, no liguei. - Em pnico, Catherine cruzou os braos com fora em torno do
peito. - No liguei. No disse nada.
Ao ver que Richard se inclinava para toc-la, Eve lanou-lhe um olhar para impedilo.
Deliberadamente, ela se colocou entre eles, sentou-se e pegou na mo gelada de
Catherine.
- A senhora me pediu que a ajudasse. E eu vou ajud-la.
- A senhorita no pode me ajudar. Ningum pode. Foi um erro ligar. Temos que
manter tudo em famlia. Tenho um marido e um filho pequeno. - Lgrimas comearam
a aparecer em seus olhos. - Preciso proteg-los. Tenho que fugir para bem longe, a
fim de proteg-los.
- Ns vamos proteg-los - disse Eve com calma. - Vamos proteger a senhora. Era
tarde demais para proteger Sharon. A senhora no deve se culpar por isso.
- Eu nem mesmo tentei impedir - disse Catherine, em um sussurro. - Talvez tenha
at mesmo ficado feliz, porque j no acontecia mais comigo. J no era mais eu.
- Senhora DeBlass, eu posso ajud-la, sim. Posso proteg-la, e  sua famlia.
Conte-me quem a estuprou.
- Meu Deus. - Richard deixou escapar um suspiro de choque. - Sobre o que voc
est falando? O que...
- Fique quieto - disse Eve, com ferocidade nos olhos. No h mais segredos aqui.
- Segredo - disse Catherine, com os lbios trmulos. - Isso tem que ficar em
segredo.
- No, no tem. Esse tipo de segredo machuca. Rasteja por dentro de voc e a
consome. Ele a deixa apavorada, e a faz sentir culpa. Aqueles que querem que tudo
permanea em segredo usam isso, a culpa, o medo, a vergonha. O nico modo de
reagir  contando tudo. Conte-me agora quem a estuprou.
A respirao de Catherine quase parou. Olhou para o irmo, com terror brilhando
nos olhos. Eve virou o rosto dela para encarla, e a ficou segurando pelo queixo.
- Olhe para mim. Olhe apenas para mim. Diga-me quem a estuprou. E quem
estuprou Sharon?
- Meu pai. - As palavras saram de sua boca como um uivo de dor. - Meu pai. Meu
pai. Meu pai. - Enterrou o rosto nas mos e comeou a soluar.
- Meu Deus! - Do outro lado da sala, Elizabeth recuou e esbarrou no pequeno rob
que trazia uma bandeja. A porcelana se espatifou. O caf escuro empapou o
maravilhoso tapete. - Ai, meu Deus. Minha filhinha.
Richard se levantou do sof, correu at a mulher que oscilava para o lado e a
segurou. Apertou-a com fora bem junto dele.
- Vou mat-lo por isso - disse. - Vou mat-lo. - Ele apertou o rosto contra os
cabelos dela. - Beth, oh, Beth.
- Faa o que puder por eles dois - murmurou Eve para Roarke, enquanto puxava
Catherine para junto de si.
- Voc achou que era Richard - disse Roarke, baixinho.
- Achei. - Seus olhos estavam sem vida e foscos quando ela os levantou e olhou
para ele. - Achei que era o pai de Sharon. Talvez no fundo estivesse me recusando a
acreditar que algo to terrvel pudesse acontecer por duas geraes.
Roarke se inclinou para a frente, o rosto rgido como uma rocha.
- De um jeito ou de outro, DeBlass  um homem morto.
- Ajude seus amigos - disse Eve, no mesmo tom. - Tenho trabalho a fazer aqui.
CAPTULO DEZOITO
Eve deixou que Catherine chorasse, embora soubesse muito bem que as lgrimas
no iam lavar-lhe a ferida. Sabia, tambm, que ela no teria sido capaz de lidar com a
situao por si mesma. Foi Roarke que acalmou Elizabeth e Richard, e foi ele que
ordenou ao rob domstico que recolhesse a loua quebrada; foi ele que ficou
segurando as mos deles; e, quando achou que o momento era certo, tambm foi ele
que sugeriu com delicadeza que pedissem um pouco de ch para Catherine.
Elizabeth foi buscar o ch ela mesma, e fechou cuidadosamente as portas da sala
de estar antes de trazer a xcara para a cunhada.
- Aqui est, querida. Beba um pouco.
- Sinto muito. - Catherine colocou as mos trmulas em volta da xcara, para
aquec-las. - Sinto muito. Eu achei que aquiIo havia parado. Obriguei-me a acreditar
que havia parado. No podia viver, se fosse de outra forma.
- Est tudo bem. - Com o rosto sem expresso, Elizabeth voltou para perto do
marido.
- Senhora DeBlass, preciso que a senhora me conte tudo. Deputada DeBlass. -
Eve esperou pacientemente at que Catherine
conseguisse focar os olhos nela de novo. - A senhora compreende que esta nossa
conversa est sendo gravada?
- Ele vai impedir voc.
- No, no vai. Foi por isso que a senhora me ligou, porque sabia que sou eu que
vou impedi-lo.
- Ele tem medo da senhorita - sussurrou Catherine. - Tem medo, eu pude perceber.
Ele tem medo das mulheres em geral.  por isso que as machuca. Acho que ele deve
ter dado alguma coisa para a minha me, algo que quebrou seu esprito. Ela sabia.
- A sua me sabia que seu pai abusava da senhora?
- Sabia. Fingia no saber, mas dava para ver em seus olhos. Ela no queria saber,
queria que tudo fosse calmo e perfeito, para que pudesse dar as festas dela e bancar
a esposa do senador. - Levantou a mo, fazendo um escudo sobre os olhos. - Quando
ele vinha at o meu quarto  noite, eu podia ver no rosto dela, na manh seguinte.
Sempre que tentava conversar com ela, no entanto, para pedir que ela fizesse com
que ele parasse, fingia que no sabia sobre o que eu estava falando. Dizia para eu
parar de inventar histrias. Mandava que eu fosse boa, que respeitasse a famlia.
Abaixou a mo novamente, envolveu a xcara de ch com as duas mos, mas no
bebeu.
- Quando eu era pequena, aos sete ou oito anos, ele vinha  noite e ficava me
tocando. Dizia que estava tudo bem, porque ele era o papai, e eu tinha que fingir que
era a mame. Era uma brincadeira, dizia ele, uma brincadeira secreta. Ele me dizia
que eu tinha que fazer coisas... tocar nele. Tinha que...
- Tudo bem. - Eve a consolava, enquanto Catherine voltava a tremer
violentamente. - No precisa me dizer. Conte-me o que conseguir.
- A gente tinha que obedecer a ele. ramos obrigados. Ele era uma fora em nossa
casa, no , Richard?
- Sim. - Richard pegou a mo da irm, envolveu-a com a dele e apertou com fora.
- Eu sei.
- Eu no podia contar a voc porque tinha vergonha, e tinha medo, e mame
sempre olhava para o outro lado; ento, eu achei que tinha que fazer aquilo. - Ela
engoliu em seco. - No dia do meu aniversrio de doze anos, tivemos uma festa em
casa. Um monte de amigos, um bolo imenso e os pneis. Voc se lembra dos pneis,
Richard?
- Lembro. - Lgrimas comearam a descer silenciosamente pelo seu rosto. - Eu me
lembro.
- E ento, naquela noite, na noite do meu aniversrio, ele veio. Disse que eu j
estava grande o bastante. Disse que tinha um presente para mim, um presente muito
especial, porque eu j era uma mocinha. E me estuprou. - Ela colocou o rosto entre as
mos e ficou se balanando para a frente e para trs. - Ele disse que era um presente.
Oh, meu Deus! E eu implorava para que ele parasse, porque estava me machucando.
E tambm porque eu j era grande o suficiente para saber que aquilo era errado, que
era demonaco. Que eu era diablica. Mas ele no parou. E continuou voltando,
depois desse dia. Durante anos, at eu conseguir fugir. Fui para a faculdade, bem
longe, onde ele no poderia me tocar. E disse a mim mesma que nada daquilo
acontecera. Jamais, jamais acontecera.
Depois de uma pausa, continuou.
- Tentei me fazer de forte, construir minha vida. Resolvi me casar porque pensei
que seria seguro. Justin era to gentil, to meigo. Jamais me machucou. E eu jamais
contei a ele. Achava que se ele descobrisse ia me desprezar. Ento, continuei a dizer
a mim mesma que aquilo jamais acontecera.
Baixou as mos e olhou para Eve.
- Eu chegava a acreditar naquilo, s vezes. Na maior parte do tempo. Conseguia
me envolver com o trabalho, com a famlia. Mas ento consegui enxergar, e soube
que ele estava fazendo a mesma coisa com Sharon. Eu queria ajudar, mas no sabia
como. Ento empurrei o problema para o lado, da mesma forma que minha me. Ele
matou Sharon. Agora, vai me matar.
- Por que voc acha que foi ele que matou Sharon?
- Porque ela no era fraca como eu. Ela se virou contra ele, usava aquilo para
amea-lo. Ouvi os dois discutindo, no dia de Natal. Aquele era o dia em que todos
ns amos para a casa dele, para fingir que ramos uma famlia. Vi os dois entrarem
no escritrio dele, e os segui. Entreabri a porta e fiquei vendo e ouvindo tudo pela
fresta. Ele estava furioso com Sharon, porque ela estava zombando publicamente de
tudo o que ele defendia. E ela respondeu: Foi voc que me fez ser assim, seu
canalha. Ouvir aquelas palavras me fez bem. Fiquei com vontade de aplaudir. Ela o
enfrentou, ameaou espalhar toda a verdade, a no ser que ele lhe pagasse muito
dinheiro. Tinha tudo documentado, ela disse, cada detalhe srdido. Ento ele ia ter
que pagar a ela, jogar pelas regras dela. Eles lutaram, atirando palavras duras um ao
outro. E ento...
Catherine lanou um olhar para Elizabeth e para o irmo, e depois desviou o rosto.
- Ela tirou a blusa. - O gemido de dor que Elizabeth soltou fez com que Catherine
comeasse a tremer novamente. - Ela disse que ele poderia t-la, se quisesse, como
qualquer cliente. S que pagaria um preo mais alto. Muito mais alto. Ele estava
olhando para ela. Eu conhecia o jeito com que ele estava olhando para ela, com os
olhos vidrados e a boca frouxa. Ele agarrou os seios dela. E ela olhou para mim.
Direto para mim. Ela sabia que eu estava ali, e olhou para mim com desprezo. Talvez
at mesmo com dio, porque sabia que eu no ia fazer nada. Fechei a porta, fechei e
rugi. Eu me senti enojada. Ah, Elizabeth.
- No  culpa sua. Ela deve ter tentado me contar. Eu jamais vi nada, jamais
escutei nada. Nunca imaginei. Eu era a me dela, e no a protegi.
- Tentei conversar com ela - Catherine apertou as mos uma contra a outra -,
quando estive em Nova York para uma campanha de arrecadao de fundos. Ela me
disse que eu escolhera o meu caminho, e ela escolhera o dela. E falou que o dela era
melhor. Eu brincava de poltica e mantinha a cabea enterrada, enquanto ela brincava
com o poder e mantinha os olhos abertos.
- No momento em que eu soube que ela estava morta, tive certeza - continuou. -
No funeral eu o observei, e ele me olhou enquanto eu o observava. Veio at onde eu
estava e colocou os braos em volta de mim, puxando-me para junto dele, como se
fosse para me consolar. E sussurrou, dizendo que eu devia prestar ateno. Devia me
lembrar e ver o que acontecia quando as famlias no guardavam seus segredos. E
me disse ento que o Franklin era um belo rapaz, e que grandes planos ele tinha para
ele. Disse que eu teria muito orgulho, mas devia tambm ter muito cuidado. - Ela
fechou os olhos. - O que eu poderia fazer? Ele  meu filho.
- Ningum vai machucar o seu filho. - Eve envolveu a mo rgida de Catherine com
a sua. - Eu lhe prometo.
- Jamais vou saber se eu conseguiria ter salvo Sharon. A sua filha, Richard.
- Mas pode saber que est fazendo todo o possvel, agora. Sem perceber que
ainda estava segurando a mo de Catherine, Eve a apertou com fora, para
tranquiliz-la. - Vai ser muito difcil superar tudo, Senhora DeBlass, e passar por tudo
isso mais uma vez, como vai acontecer. Encarar a imprensa e toda a publicidade.
Testemunhar, se houver um julgamento.
- Ele jamais vai permitir que isso chegue a um tribunal - disse Catherine, com ar
cansado.
- No vou lhe dar escolha. - Talvez no por assassinato, pensou Eve. Ainda no.
Mas ela ia enquadr-lo, certamente, por abuso sexual. - Senhora Barrister, acho que a
sua cunhada deveria descansar um pouco, agora. Pode ajud-la a subir para o
quarto?
- Sim, claro. - Elizabeth se levantou e foi at Catherine, para ajud-la a se levantar.
- Vamos deitar um pouco agora, querida, venha comigo.
- Sinto muito. - Catherine se apoiou pesadamente em Elizabeth, enquanto era
levada para fora da sala. - Deus me perdoe, eu sinto muito.
- Temos um servio de aconselhamento psiquitrico, com uma mdica do
Departamento de Polcia, Senhor DeBlass. Acho que a sua irm deveria ir v-la.
- Sim - disse ele de modo distrado, olhando para a porta que se fechara. - Ela vai
precisar de algum. De algo.
Todos vocs vo, pensou Eve.
- O senhor est disposto a responder a algumas perguntas?
- No sei. Ele  um tirano, uma pessoa difcil. Mas isso o transforma em um
monstro. Como posso aceitar que meu prprio pai seja um monstro?
- Ele tem um libi para a noite em que a sua filha foi morta
- Eve assinalou. - No posso acus-lo de nada sem ter algo a mais.
- Um libi?
- Meus registros dizem que Rockman estava em companhia de seu pai,
trabalhando com ele em Washington, at quase duas da manh, na noite do
assassinato.
- Rockman  capaz de dizer qualquer coisa que meu pai lhe ordene.
- Inclusive para encobrir um assassinato?
- Trata-se apenas da maneira mais fcil de escapar. Por que algum acreditaria
que meu pai tem relao com o crime? - Seu corpo tremeu, como se tivesse sido
atingido por uma corrente de ar glido. - A declarao de Rockman afasta inteiramente
o patro de qualquer suspeita.
- Como  que seu pai faria para viajar de Washington para Nova York, ida e volta,
se no quisesse que sua viagem ficasse registrada?
- No sei. Se a aeronave dele saiu de Washington, deve estar marcado no dirio
de bordo.
- Dirios de bordo podem ser adulterados - disse Roarke.
- Sim. - Richard levantou os olhos como se apenas naquele momento tivesse se
lembrado de que o seu amigo estava ali. Voc sabe mais a respeito dessas coisas do
que eu.
- Esta foi uma referncia aos meus dias de contrabandista explicou Roarke a Eve. -
Essa fase j ficou para trs h muito tempo. Bem, a adulterao pode ser feita, mas
seria necessrio molhar algumas mos. A do piloto, talvez a do mecnico, e
certamente a do engenheiro de voo.
- Ento, agora, eu j sei a quem devo pressionar. - Se Eve conseguisse provar que
a aeronave do senador fez a viagem naquela noite, seria capaz de abrir um processo.
Seria o suficiente para quebr-lo. O que voc sabe a respeito da coleo de armas do
seu pai?
- Mais do que gostaria. - Richard se levantou, com as pernas bambas. Foi at o bar
e colocou um pouco de bebida em um copo. Bebeu de um gole s, como se fosse
remdio. - Ele gosta de suas armas, vive exibindo-as. Quando eu era mais jovem, ele
tentou fazer com que eu me interessasse por elas. Roarke pode lhe contar que no
funcionou.
- Richard acredita que armas so smbolos perigosos do abuso de poder. E posso
tambm lhe dizer que sim, DeBlass ocasionalmente fazia uso do mercado negro.
- E por que voc no mencionou isso antes?
- Voc no perguntou. Ela deixou passar, por ora.
- Seu pai possui conhecimentos de segurana? Conhece os aspectos tcnicos?
- Certamente. Sente orgulho por saber como se proteger. Essa  uma das poucas
coisas que conseguimos discutir sem acabar brigando.
- O senhor o consideraria um perito?
- No - respondeu Richard, devagar. - Apenas um amador talentoso.
- E o relacionamento dele com o Secretrio Simpson? Como o senhor o
descreveria?
- Era para se auto-satisfazer. Ele considerava Simpson um tolo. Meu pai gosta de
usar os tolos. - De repente, Richard se atirou na poltrona. - Sinto muito, no posso
mais continuar com isso. Preciso de algum tempo. Preciso da minha mulher.
- Tudo bem, Senhor DeBlass. Vou providenciar para que seu pai seja vigiado. O
senhor no vai conseguir alcan-lo sem ser monitorado. Por favor, no tente fazer
isso.
- A senhorita acha que eu vou tentar mat-lo? - Richard deu um sorriso
melanclico e ficou olhando fixamente para as prprias mos. - Gostaria de fazer isso.
Pelo que ele fez com a minha filha, com a minha irm, com a minha vida. S que eu
no teria coragem.
Quando estavam mais uma vez do lado de fora da casa, Eve caminhou direto para
o carro, sem olhar para Roarke.
- Voc suspeitava disso? - perguntou ela.
- Que DeBlass estava envolvido? Sim, suspeitava.
- Mas no me disse nada.
- No. - Roarke a fez parar antes que ela pudesse abrir a porta do carro. - Era
apenas um palpite, Eve. No fazia ideia do que aconteceu com Catherine. No tinha
ideia absolutamente de nada. Apenas suspeitava que Sharon e DeBlass estivessem
tendo um caso.
- Essa  uma palavra muito limpa para isso.
- Eu suspeitava - continuou ele -, pela maneira com que ela se referiu ao av
durante aquele nosso nico jantar juntos. No entanto, era mais um sentimento, eu no
tinha fatos. Era um sentimento que no serviria de nada para ajudar no seu caso.
Alm do mais - acrescentou ele, virando-a de frente para ele -, depois que eu passei a
conhecer voc melhor, resolvi guardar aquele sentimento para mim mesmo, porque
no queria mago-la. - Eve puxou o rosto para o lado. Roarke o puxou de volta
pacientemente, com a ponta dos dedos. - Voc no teve ningum que a ajudasse?
- No se trata de mim. - Soltou um suspiro entrecortado. No posso pensar a
respeito disso, Roarke. No posso. Vou acabar estragando tudo; e, se eu estragar
tudo, ele pode conseguir escapar. Escapar dos estupros e do assassinato; escapar do
abuso sexual das crianas que ele deveria estar protegendo. No vou deixar que ele
escape.
- Voc no disse a Catherine que a nica forma de lutar contra isso era contar
tudo?
- Tenho muito trabalho pela frente.
Ele disfarou a frustrao, dizendo:
- Imagino que voc vai querer ir at o Aeroporto de Washington, onde DeBlass
mantm sua aeronave.
- Vou. - Ela entrou no carro enquanto Roarke dava a volta para se sentar no banco
do motorista. - Pode me deixar na estao mais prxima.
- Vou com voc, Eve.
- Tudo bem, timo. Preciso mesmo entrar l.
Enquanto ele dirigia pela estrada sinuosa, ela fez uma ligao para Feeney.
- Consegui algo bem quente aqui - disse, antes mesmo que ele tivesse a chance
de falar alguma coisa. - Estou a caminho de Washington.
- Voc conseguiu algo quente? - A voz de Feeney era quase melodiosa. - No
precisei nem procurar alm do ltimo registro do dirio, Dalas, que foi gravado na
manh do assassinato. S Deus sabe por que motivo ela levou o dirio para o banco.
Foi pura sorte. Ela tinha um encontro com um cliente para a meia-noite. Voc jamais
vai adivinhar quem era.
- O av dela.
- Mas que droga, Dalas. - Feeney arregalou os olhos e esbravejou. - Como  que
voc sabia?
- Quero que voc apenas me diga que isto est documentado, Feeney. - Ela
fechou os olhos por um instante. - Diga-me que ela especificou o nome dele.
- Ela o chamou de senador, e se referiu a ele tambm como o velho peido que era
av dela. E tambm falou com alegria a respeito dos cinco mil dlares que cobrava
dele por cada transa. Abre aspas: Quase vale a pena deixar que ele babe em cima de
mim, e olha que ainda h um bocado de energia no meu vovozinho. O canalha. Cinco
mil dlares a cada duas semanas no  assim um acordo to mau. Pelo menos fao
tudo para que o dinheiro que ele gasta valha a pena. No  como quando eu era
criana e ele me usava. Virei a mesa. No vou me transformar em uma ameixa seca
como a pobre tia Catherine. Estou me dando bem nessa histria. E qualquer dia,
quando eu me enjoar disso, vou mandar todos os meus dirios para a imprensa.
Cpias mltiplas. O canalha fica louco sempre que eu ameao fazer isso. Talvez esta
noite eu enfie a faca um pouco mais fundo. Vou dar um susto daqueles no senador.
Por Deus,  maravilhoso ter o poder de faz-lo se contorcer todo de medo, depois de
tudo o que ele fez comigo.
- Isso j vinha de longe, Dalas. - Feeney balanou a cabea.
- Pesquisei vrios registros. Ela ganhava uma grana alta com chantagem, cita
nomes e fornece provas. S que tudo isto coloca o senador no apartamento dela na
noite do crime. Agora, ele est com o traseiro na reta.
- Voc pode me conseguir um mandado de priso?
- As ordens do comandante eram para emitir um mandado e enviar, no instante em
que voc ligasse. Mandou que voc fosse peg-lo. Assassinato em primeiro grau, trs
crimes.
- Onde  que eu vou encontr-lo? - Eve soltou um suspiro profundo.
- Ele est no Senado Federal, neste instante, apregoando seu projeto de lei em
defesa da Moral e dos Bons Costumes.
- Nossa, mas isso  perfeito! J estou indo para l. - Desligando, ela se virou para
Roarke. - No d para isso aqui ir mais rpido, no?
- Vamos descobrir.
Se junto com o mandado no tivessem vindo algumas ordens de Whitney,
instruindo-a para que fosse discreta, Eve teria entrado marchando pelo salo do
Senado e o teria algemado na frente dos seus aliados polticos. Mesmo assim, ainda
havia uma satisfao considervel na forma como a coisa aconteceu.
Eve esperou at que ele completasse o seu discurso apaixonado a respeito do
declnio moral do pas, a corrupo insidiosa que brotara da promiscuidade, do
controle da natalidade e da engenharia gentica. Expunha a falta de moralidade dos
jovens, a morte da religio organizada nos lares, nas escolas e nos locais de trabalho.
A nao, que sempre tivera a proteo de Deus, se tornara herege. O direito
constitucional de portar armas tinha sido destrudo pela direita liberal. Apresentava
nmeros que falavam de crimes violentos, decadncia urbana, drogas
contrabandeadas, tudo isso um resultado claro, como clamava o senador, do nosso
crescente declnio moral, nossa tolerncia com os criminosos, nossa indulgncia com
a liberdade sexual sem responsabilidade.
Ouvir tudo isso estava deixando Eve com enjoo.
- No ano 2016 - disse ela baixinho -, no final da Revolta Urbana, antes da proibio
das armas, tinha havido dez mil mortos e feridos por armas de fogo, s nas
imediaes de Manhattan.
Ela ainda estava assistindo DeBlass, que vendia a sua panaceia, quando sentiu
Roarke colocar a mo na base das suas costas.
- Antes de legalizarmos a prostituio, havia um estupro ou tentativa de estupro a
cada trs segundos.  claro que ainda temos casos de estupro, porque  algo que tem
muito menos a ver com sexo do que com poder, mas os nmeros baixaram. As
prostitutas licenciadas e legalizadas no tm cafetes, portanto no so mais
agredidas, espancadas ou mortas. E no podem usar drogas. Houve um tempo em
que as mulheres iam a aougueiros para se livrar de uma gravidez indesejada.
Arriscavam a prpria vida ou destruam a vida dos filhos. Bebs nasciam cegos,
surdos e deformados, antes que a engenharia gentica e as pesquisas tornassem
possvel fazer operaes in vitro. No  um mundo perfeito, mas quando voc o ouve,
entende que poderia ser ainda muito pior.
- Voc sabe o que a mdia vai fazer com ele quando a bomba estourar?
- Crucific-lo - murmurou Eve. - Espero em Deus que isso no o transforme em um
mrtir.
- A voz dos direitos da moral como suspeito de incesto, negociaes com
prostitutas, e cometendo assassinato? Acho que no. Ele est acabado. - Roarke
assentiu com a cabea. - De vrias formas.
Eve escutou os estrondosos aplausos da galeria. Pelo som entusiasmado, a
equipe de DeBlass tinha tido o cuidado de misturar gente do seu grupo com os
espectadores usuais.
Dane-se a discrio, pensou ela enquanto ouvia o martelo do presidente da sesso
bater, anunciando uma hora de recesso. Atravessou um mar de assessores,
assistentes e auxiliares, at chegar a DeBlass. Ele estava sendo parabenizado por
sua eloquncia, e recebia tapinhas nas costas dados por seus aliados polticos.
Eve esperou at que ele a visse, e aguardou enquanto o seu olhar passava do
rosto dela para o de Roarke, e seus lbios se apertavam.
- Tenente. Se a senhorita precisa falar comigo, podemos nos encontrar por alguns
instantes em meu gabinete. A ss. Posso lhe conceder dez minutos.
- O senhor vai dispor de bastante tempo. Senador DeBlass, o senhor est sendo
preso neste instante pelos assassinatos de Sharon DeBlass, Lola Starr e Georgie
Castle. - Quando ele explodiu em protestos e os murmrios comearam, ela levantou
a voz. -Acusaes adicionais incluem os estupros incestuosos de Catherine DeBlass,
sua filha, e de Sharon DeBlass, sua neta.
Ele ainda estava em p, paralisado com o choque, no momento em que ela
colocou uma das algemas no seu pulso esquerdo, virou-o, e prendeu as duas mos,
colocadas nas costas.
- O senhor no est obrigado a dar nenhuma declarao neste momento -
continuou Eve.
- Isto  um ultraje! - Ele explodiu ao ouvir as declaraes padronizadas e
atualizadas a respeito dos seus direitos legais de permanecer em silncio. - Eu sou
um senador dos Estados Unidos. Este aqui  um territrio federal.
- E estes dois agentes federais vo acompanh-lo - acrescentou ela. - O senhor
tem direito a um advogado ou representante.
- Enquanto continuava a recitar os direitos dele, ela deu uma olhada feroz que fez
os policiais federais e os curiosos recuarem no mesmo instante. - O senhor
compreendeu bem todos os seus direitos?
- O que eu vou conseguir  o seu distintivo, sua piranha. - Ele comeou a
resmungar enquanto ela o empurrava atravs da multido.
- Vou aceitar esta declarao como um sim. Fique frio, senador. No queremos
que o senhor tenha algum problema cardaco. - Ela se inclinou perto do ouvido dele. -
E voc no vai conseguir o meu distintivo, seu canalha. Eu  que vou conseguir o seu
traseiro. - E o empurrou nos braos dos agentes federais. - Esto esperando por ele
em Nova York - encerrou ela.
Eve mal conseguia ser ouvida agora. DeBlass estava aos berros, exigindo
liberao imediata. Todo o prdio do Senado entrou em erupo com vozes e corpos
que se misturavam. Atravs de tudo isso, ela avistou Rockman. Ele veio na direo
dela, com o rosto transformado em uma mscara glida de fria.
- Est cometendo um erro, tenente.
- No, no estou. Voc  que cometeu um erro em sua declarao. No meu modo
de ver, isso vai torn-lo cmplice dos crimes. Vou comear a trabalhar nisso assim
que voltar a Nova York.
- O Senador DeBlass  um grande homem. Voc, tenente, no passa de um peo
nas mos do Partido Liberal e seus planos para destru-lo.
- O Senador DeBlass  um molestador sexual de crianas, e incestuoso.  um
estuprador e um assassino. E eu, meu chapa, sou a policial que o est prendendo.
Quanto a voc,  melhor procurar um advogado depressa, a no ser que queira
afundar junto com ele.
Roarke teve que se segurar para no levantar Eve acima da multido, enquanto
ela se arrastava atravs dos sales glorificados do Senado. Integrantes da mdia j
estavam pulando na sua frente, mas ela se desvencilhava como se eles no
estivessem ali.
- Gosto do seu estilo, Tenente Dalas - disse ele, enquanto lutavam para conseguir
chegar no carro. - Gosto muito. E, a propsito, no estou mais achando que estou
apaixonado por voc. Agora, j tenho certeza.
Ela engoliu em seco devido ao enjoo que sentiu subir-lhe pela garganta.
- Vamos sair daqui, Roarke. Vamos dar o fora daqui.
Por pura fora de vontade, ela se manteve firme at chegar no avio. Conseguiu
manter a voz no mesmo nvel e sem expresso enquanto fazia o relatrio ao seu
superior. Em seguida cambaleou, e, livrando-se dos braos de Roarke, que a
apoiavam, correu at o banheiro na parte da frente do avio, onde vomitou de modo
penoso e violento.
Do lado de fora da porta, Roarke esperava de p, sem saber o que fazer. Se ele a
conhecia bem, j devia saber que tentar confortla s ia piorar as coisas. Murmurou
algumas instrues para a aeromoa e foi para a poltrona. Enquanto esperava, olhava
para o asfalto da pista.
Quando a porta se abriu, ele olhou para cima. Ela estava branca como gelo, com
os olhos muito grandes e sombrios. Seu caminhar, normalmente rpido e desenvolto,
estava rgido.
- Desculpe. Acho que isso tudo me derrubou. Quando ela se sentou, ele lhe
ofereceu uma caneca.
- Beba um pouco. Vai ajud-la.
- Que  isso?
- Ch... com umas gotinhas de usque.
- Estou de servio - comeou ela, mas a erupo violenta e rpida de Roarke a fez
parar de falar.
- Beba logo essa droga, seno vou lhe enfiar goela abaixo. Apertou um boto e
ordenou ao piloto para decolar.
Dizendo a si mesma que era melhor beber do que discutir, Eve levantou a caneca,
mas suas mos no estavam firmes. Mal conseguiu tomar um gole, com a boca
entreaberta e os dentes rangendo, antes de colocar a caneca de lado.
No conseguia parar de tremer. Quando Roarke correu para acudir, ela se
recostou na poltrona. O enjoo continuava, penetrando sorrateiramente pelo estmago,
e fazendo a sua cabea latejar terrivelmente.
- Meu pai me estuprava - ela se ouviu dizendo. O choque daquilo, de ouvir sua
rpria voz dizendo aquelas palavras, se estampou em seus olhos. - Ele me estuprava
repetidas vezes. E me surrava, repetidas vezes. No importa se eu lutava para
escapar ou no, mesmo assim ele me estuprava. Mesmo assim ele me batia. E no
havia nada que eu pudesse fazer. No h nada que voc possa fazer quando uma
pessoa que deveria cuidar de voc abusa de seu corpo daquela forma. Usa voc.
Machuca voc.
- Eve. - Ele pegou a mo dela e a segurou com firmeza quando ela tentou liber-la.
- Sinto muito. Sinto terrivelmente.
- Eles me contaram que eu estava com oito anos quando me encontraram, em um
beco da cidade de Dalas. Eu estava sangrando, e meu brao estava quebrado. Ele
deve ter me jogado ali. Eu no sei. Talvez eu tenha fugido. No me lembro. S sei que
ele nunca veio me buscar. Ningum jamais veio me buscar.
- E a sua me?
- Tambm no sei. No me lembro dela. Talvez estivesse morta. Ou talvez ela
fosse como a me de Catherine, e fingisse que no sabia de nada. Tudo o que eu me
lembro so vises, pesadelos, imagens das piores partes. Nem mesmo sei o meu
nome. Eles no conseguiram me identificar.
- Mas voc ficou em segurana, ento.
- Voc nunca deve ter sido atirado no meio do sistema. No existe sensao de
segurana. S de impotncia. Eles tiram toda a sua roupa, com boas intenes. -
Suspirou, deixou a cabea pender para trs e fechou os olhos. - Eu no queria
prender DeBlass, Roarke. Queria mat-lo. Queria mat-lo com minhas prprias mos,
por causa do que aconteceu comigo. Deixei que o caso se tornasse pessoal.
- Voc fez o seu trabalho.
- Sim, fiz o meu trabalho. E vou continuar fazendo. - Mas no era no trabalho que
ela estava pensando. Era na vida. Na vida dela, na vida dele. - Roarke, voc tem de
saber que eu tenho alguma coisa de muito ruim dentro de mim.  como um vrus que
penetra em meu sistema e aparece quando a resistncia cai. No sou uma boa aposta
para voc.
- Eu gosto de correr grandes riscos. - Ele levantou a mo dela e a beijou. - Por que
no deixamos rolar, para descobrir se ns dois no podemos sair ganhando?
- Eu nunca tinha contado isso a ningum, antes.
- E ajudou?
- No sei. Talvez. Cristo, eu estou to cansada!
- Pode se encostar em mim. - Ele passou o brao em volta dela, aninhando a sua
cabea na curva do prprio ombro.
- S por um instantinho - murmurou ela. - S at a gente chegar em Nova York.
- S por um instante, ento. - Pressionou os lbios sobre os cabelos dela e torceu
para que ela conseguisse dormir.
CAPTULO DEZENOVE
Deblass no queria falar. Seus advogados haviam colocado uma mordaa em sua
boca, mais cedo, e a apertaram bem. O interrogatrio foi lento e maante. Havia
momentos em que Eve achava que ele ia explodir; a raiva que tornava o seu rosto
vermelho fazia a balana pender a favor dela.
Ela parara de negar que aquilo era pessoal. No queria um julgamento cheio de
truques e patrulhado pela imprensa. Queria uma confisso.
- O senhor teve um envolvimento incestuoso com a sua neta, Sharon DeBlass.
- Meu cliente no confirmou esta alegao. Eve ignorou o advogado e olhou para
DeBlass.
- Tenho comigo a transcrio de um trecho do dirio de Sharon DeBlass, com data
da noite de seu assassinato.
Ela empurrou o papel sobre a mesa. O advogado de DeBlass, um homem de boa
aparncia e bem-arrumado, com uma barba clara bem aparada, e suaves olhos azuis,
pegou o papel e o analisou. Qualquer que tenha sido a sua reao, ele a escondeu
por trs de uma fria indiferena.
- Isto no prova coisa alguma, tenente, como estou certo de que a senhorita j
sabe. Eram as fantasias destrutivas de uma mulher morta. Uma mulher de reputao
dbia que h muito tempo j se afastara da famlia.
- H um padro aqui, Senador DeBlass. - Eve era teimosa e continuava a se dirigir
ao acusado, em vez de falar com o seu cavaleiro armado. - O senhor j havia abusado
sexualmente de sua filha, Catherine.
- Que absurdo! - explodiu DeBlass, antes de seu advogado levantar a mo para
silenci-lo.
- Tenho aqui uma declarao, assinada e com firma reconhecida, feita diante de
testemunhas pela Deputada Catherine DeBlass. - Eve estendeu o papel, e o advogado
o pegou correndo, antes que o senador tivesse a chance de se mover.
Lendo o documento com cuidado, cruzou as mos bem cuidadas sobre ele e disse.
- Talvez a senhorita no saiba, tenente, que existe um triste caso de problemas
mentais aqui. A esposa do Senador DeBlass, inclusive, est sob observao, depois
de sofrer um ataque de nervos.
- Sabemos disso. - Ela lanou um olhar para o advogado. Vamos investigar as
condies dela e o que provocou esse estado.
- A Deputada DeBlass tambm j recebeu tratamento. No passado, j apresentou
sintomas de depresso, parania e estresse continuou o advogado, no mesmo tom
neutro.
- Se esse  o caso, Senador DeBlass, vamos acabar descobrindo que as razes de
tudo isso eram os abusos sexuais sistemticos e contnuos que ela sofria quando
criana. O senhor estava em Nova York na noite do assassinato de Sharon DeBlass -
disse ela, mudando sutilmente de tom. - No estava, como afirmou anteriormente, em
Washington.
E antes que o advogado pudesse impedir, Eve se inclinou, com os olhos grudados
em DeBlass, e continuou:
- Deixe que eu lhe conte como tudo aconteceu. O senhor tomou sua aeronave
particular, pagando ao piloto e ao engenheiro de voo para adulterarem o registro da
viagem. Foi at o apartamento de Sharon, fez sexo com ela e gravou tudo, para seus
prprios interesses. Levou uma arma com o senhor, uma Smith & Wesson antiga, de
calibre 38. E como ela zombou do senhor, como ela o ameaou, como o senhor no
podia mais aguentar a presso de uma possvel exposio pblica, atirou nela. Atirou
nela trs vezes. Na cabea, no corao e na genitlia.
Eve continuava a falar depressa, com o rosto colado no dele. Estava adorando o
fato de poder at mesmo sentir o cheiro do seu suor.
- O ltimo tiro foi muito esperto. Acabou com qualquer possibilidade de verificarmos
se houve atividade sexual. O senhor a cortou ao meio, bem entre as pernas. Talvez
um ato simblico, talvez um ato de autopreservao. Por que o senhor levou o
revlver com o senhor? J tinha tudo planejado? J tinha decidido acabar com aquilo
de uma vez por todas?
Os olhos de DeBlass corriam da esquerda para a direita. Sua respirao comeou
a ficar ofegante e acelerada.
- O meu cliente no reconhece a posse da arma em questo.
- O seu cliente  escria.
- Tenente Dalas - o advogado se indignou. - A senhorita est falando de um
senador dos Estados Unidos.
- Isso o transforma em escria eleita pelo povo. Aquilo o deixou chocado, no foi,
senador? Todo aquele sangue, o barulho do tiro, o jeito com que o impacto da arma
jogou sua mo para trs. Talvez o senhor no tivesse acreditado realmente que
conseguiria passar por aquilo. No no momento em que o impulso se transformou em
um empurro e o senhor teve que apertar o gatilho. Mas j que tinha apertado, no
havia mais volta. O senhor tinha que camuflar tudo. Ela o teria arruinado, jamais o
teria deixado ter paz novamente. Ela no era como Catherine. Sharon no aceitaria
ficar nos bastidores sofrendo a vergonha, a culpa e o medo. Ela usou tudo isso contra
o senhor, e ento o senhor teve que mat-la. E depois teve que esconder a sujeira.
- Tenente Dalas...
Eve nem por um momento tirou os olhos de DeBlass e, ignorando o aviso do
advogado, continuou atacando com fora.
- Aquilo foi excitante, no foi? E dava para escapar. O senhor  um senador dos
Estados Unidos, e av da vtima. Quem poderia acreditar que o senhor fez aquilo?
Ento, o senhor a arrumou na cama, afagou o seu ego, curtiu aquilo. Poderia fazer de
novo, e por que no? O ato de matar fez surgir algo dentro do senhor. E que maneira
melhor de esconder isso do que fazer tudo parecer obra de algum manaco  solta?
Esperou enquanto DeBlass estendia a mo para pegar um copo com gua, que
bebeu com sofreguido.
- E havia realmente um manaco  solta. O senhor escreveu a nota, enfiou debaixo
dela. E se vestiu, mais calmo ento, mas excitado. Programou o tele-link para fazer a
ligao para a polcia s duas e cinquenta e cinco. Precisava de tempo suficiente para
descer e cuidar das gravaes da segurana. Ento, voltou  sua aeronave, voou de
volta para Washington e ficou esperando pelo momento de bancar o av indignado.
Durante todo esse tempo, DeBlass no disse uma palavra. Mas um msculo em
sua bochecha no parava de se repuxar e seus olhos, inquietos, no conseguiam se
fixar em nada.
- Esta  uma histria fascinante, tenente - disse o advogado.
- S que no passa disto: uma histria. Uma suposio. Uma tentativa
desesperada da polcia para conseguir escapar de uma situao difcil junto 
imprensa e ao povo de Nova York. E,  claro,  tambm o momento exato de lanar
esta acusao danosa e ridcula contra o senador, bem na poca em que seu projeto
de lei sobre os valores morais est sendo colocado em debate.
- Como foi que o senhor escolheu as outras duas? Como selecionou Lola Starr e
Georgie Castle? J escolheu a quarta, a quinta e a sexta? O senhor acha que ia
acabar parando aqui? Conseguiria parar quando aquilo o fazia se sentir to poderoso,
to invencvel, to justiceiro?
DeBlass j no estava mais vermelho. Estava cinza, e sua respirao estava difcil
e entrecortada. Quando tentou pegar o copo, de novo, sua mo sofreu um espasmo e
o copo caiu no cho.
- O interrogatrio acabou. - O advogado se levantou e ajudou DeBlass a se colocar
de p. - A sade de meu cliente est em estado precrio. Ele requer cuidados mdicos
imediatos.
- Seu cliente  um assassino. Vai ter todos os cuidados mdicos na Colnia Penal,
pelo resto da vida. - Apertou um boto. Quando as portas da sala de interrogatrio se
abriram, um guarda entrou. - Chame um mdico - ela ordenou. - O senador est se
sentindo um pouco estressado. E vai piorar - avisou ela, virando-se para DeBlass. - Eu
ainda nem comecei.
Duas horas mais tarde, depois de preencher relatrios e de se encontrar com o
promotor, Eve estava lutando contra o trfego. J lera grande parte dos dirios de
Sharon DeBlass. Era algo que precisava colocar de lado, agora. As imagens de um
homem mentalmente deformado, que transformara uma garotinha em uma mulher
quase to desequilibrada quanto ele.
Precisava colocar tudo de lado porque sabia que aquela poderia ter sido,
facilmente, a sua prpria histria. As escolhas estavam ali, para serem feitas, pensou,
considerando os fatos. Sharon havia eliminado as dela.
Queria desabafar um pouco, repassar novamente todos os acontecimentos passo
a passo, com algum que pudesse ouvir, apreciar e apoiar. Algum que, por algum
tempo, pudesse ficar entre ela e os fantasmas do que lhe aconteceu no passado. E do
que poderia ter acontecido.
Foi direto para a casa de Roarke.
Quando o tele-link do carro tocou, ela rezou para que no fosse um chamado de
trabalho.
- Dalas.
- Oi, garota. - O rosto cansado de Feeney apareceu na tela.
- Acabei de ver os discos com a gravao do interrogatrio. Bom trabalho.
- No fui to longe quanto gostaria de ter ido, cercada por aquela droga de
advogado. Vou quebr-lo, Feeney. Juro que vou.
- , estou apostando em voc. S que, ahn... tenho que lhe dizer uma coisa que
no vai lhe cair muito bem. DeBlass teve um pipoco no corao.
- Cristo, ele no vai cortar o nosso barato, vai?
- No, no, j foi medicado. Ouvi um papo a respeito de conseguirem um novo
corao para ele na semana que vem.
- timo. - Ela exalou uma nuvem de vapor quando soltou a respirao. - Quero que
ele ainda viva por muito tempo. Atrs das grades.
- Temos um caso bem slido. O promotor est pronto para canonizar voc, mas
por enquanto DeBlass est na rua.
Eve apertou o freio com fora. Uma onda de buzinas zangadas atrs dela a
obrigou a fazer uma mudana de pista, indo at a esquina da Dcima Avenida e
bloqueando a entrada do retorno.
- Que diabos voc quer dizer com DeBlass est na rua? Feeney se encolheu
todo, mostrando empatia com a reao dela, e explicou:
- Foi liberado em reconhecimento ao seu valor.  um senador dos Estados Unidos,
com uma vida inteira de servios patriticos, o sal da terra, com corao de ouro... e
uma juza no bolso.
- Ah, sem essa! - Puxou os cabelos com fora at que a dor foi equivalente 
frustrao. - Ns o pegamos por homicdio, trs crimes. O promotor falou que a juza
no ia liber-lo, nem mesmo pagando fiana.
- S que ela foi derrubada. O advogado de DeBlass fez um discurso to tocante
que at os paraleleppedos choraram; um defunto chegou a se levantar e saudou a
bandeira. DeBlass j est de volta em Washington neste instante, com ordens
mdicas para repousar.
Ganhou trinta e seis horas de descanso, at o prximo interrogatrio.
- Merda. - Socou o volante com a mo. - No vai fazer diferena - disse com ar
sombrio. - Ele pode bancar o velho estadista adoentado, pode at fazer um nmero de
sapateado no monumento a Lincoln, que eu j o agarrei.
- O comandante est preocupado com que esse prazo extra possa dar uma chance
para DeBlass reunir suas foras. Ele quer que voc volte para trabalhar no caso com o
promotor, e repasse tudo o que temos contra ele, amanh cedo, s oito da manh.
- Vou estar l. Feeney, ele no vai escapar desse lao.
- Ento certifique-se de que o lao est bem apertado, garota. Vejo voc s oito.
- Certo. - Com a cabea fervendo, voltou ao fluxo do trfego. Chegou a considerar
a ideia de ir para casa e mergulhar de cabea na corrente de provas. S que ela
estava a cinco minutos da casa de Roarke. Eve optou por us-lo como caixa de
ressonncia para suas ideias.
Ela podia contar com Roarke para bancar o advogado do diabo, se fosse preciso,
ou para assinalar possveis falhas. E, admitiu, tambm para acalm-la, a fim de que
pudesse raciocinar sem todas aquelas emoes violentas atravancando o caminho.
Ela no podia se dar ao luxo de ter essas emoes, no podia permitir que o rosto de
Catherine aparecesse em sua cabea, como estava acontecendo o tempo todo. A
vergonha, o medo e a culpa.
Era quase impossvel separar as coisas. S sabia que queria ver DeBlass pagando
cada centavo do que devia, tanto por Catherine quanto pelas trs mulheres mortas.
Passou pela segurana e entrou no porto de Roarke, dirigindo com rapidez pela
alameda acima. Sua pulsao comeou a acelerar enquanto subia as escadas da
entrada. Idiota, disse a si mesma. Sentiu-se uma adolescente infestada de hormnios.
Mas estava sorrindo quando Summerset abriu a porta.
- Preciso ver Roarke - disse ela, entrando direto.
- Sinto muito, tenente. Roarke no se encontra em casa.
- Oh... - A sensao de anticlmax a fez se sentir ridcula. Onde ele est?
- Acredito que est em uma reunio. - Summerset assumiu o seu rosto de jogador
de pquer. - Ele foi obrigado a cancelar uma importante viagem  Europa, e agora
est sendo obrigado a trabalhar at mais tarde.
- Certo. - O gato veio descendo a escada, com arrogncia, e imediatamente
comeou a serpentear, caminhando entre as pernas de Eve. Ela o pegou e lhe fez um
carinho na barriga. - Quando  que voc acha que ele volta?
- O tempo de Roarke so os negcios dele, tenente. No me cabe especular o
momento da sua volta.
- Escute aqui, meu chapa, eu no estou forando Roarke a gastar o valioso tempo
dele comigo. Portanto, por que no arranca esse cabo de vassoura que est enterrado
no seu traseiro e me conta por que  que voc age como se eu fosse algum tipo de
rato desagradvel, sempre que apareo aqui?
O choque fez o rosto de Summerset ficar branco como um papel.
- No me sinto confortvel com maneiras rudes, Tenente Dalas. A senhorita,
obviamente, se sente.
- Elas combinam comigo como feijo com arroz.
- Realmente. - Summerset se colocou mais aprumado. Roarke  um homem de
bom gosto, de influncia, e tem estilo. Tem ao seu dispor o ouvido de presidentes e
reis. J serviu de companhia a mulheres importantes, com educao impecvel e
linhagem elevada.
- E eu tenho pouca educao e nenhum pedigree. - Teria dado uma risada se as
farpas no a tivessem atingido to perto do corao. - Pois parece que at mesmo um
homem como Roarke consegue ocasionalmente achar uma vira-latas, como eu,
atraente. Diga a ele que eu levei o gato - acrescentou ela, e foi embora.
Ajudou dizer a si mesma que Summerset era um esnobe insuportvel. E o
interesse silencioso do gato enquanto ela saiu ventando pela alameda curiosamente a
acalmou. Ela no precisava da aprovao de um mordomo de bunda contrada. E
como se concordasse com ela, o gato foi para o seu colo e comeou a massagear-lhe
as coxas.
Ela franziu a testa enquanto via as pequenas garras beliscando suas calas, mas
no o tirou dali.
- Acho que vamos ter que arrumar um nome para voc. Eu nunca tive um bicho de
estimao antes - murmurou. - No sei como  que a Georgie chamava voc, mas
vamos comear do zero. No se preocupe, no vamos escolher nenhum nome sem
personalidade, como Mimi.
Chegando em sua garagem, estacionou o carro e viu a luz amarela piscando na
parede, no local da sua vaga. Um aviso de que o pagamento da vaga estava em
atraso. Se a luz ficasse vermelha, um parapeito ia se levantar e ela ficaria com o carro
preso.
Xingou baixinho, mais pelo hbito do que por raiva. Ela no andava com tempo
nem de pagar as contas, droga, e viu que estava na hora de encarar uma noite
tentando fazer malabarismos com seu oramento para acertar a conta no banco.
Colocando o gato embaixo do brao, caminhou at o elevador.
- Fred, talvez. - Colocou a cabea de lado, observando os olhos com duas cores
que no mostravam emoo. - No, voc no tem cara de Fred. Nossa, voc deve
pesar uns dez quilos. Trocando a bolsa de ombro, entrou no elevador. - Vamos pensar
em algum nome interessante, Tubbo.
No minuto em que ela o colocou no cho, dentro do apartamento, o gato voou em
direo  cozinha. Levando a srio as suas responsabilidades como dona de animal
de estimao, e decidindo que aquele era um bom meio de adiar um pouco o
momento de verificar suas contas, Eve o seguiu e arranjou um pires com leite e um
pouco de sobras de comida chinesa que estavam com um cheiro estranho.
O gato aparentemente no era muito exigente em questes de comida, e atacou a
refeio com gosto.
Ela ficou observando o animal por um momento e deixou a mente vagar. Ela queria
Roarke. Precisava dele. Isso era mais uma coisa na qual ela ia ter que pensar, depois.
No sabia at que ponto poderia levar a srio o fato de ele ter dito que estava
apaixonado por ela. O amor significava coisas diferentes para pessoas diferentes.
Jamais fizera parte da sua vida.
Serviu-se de meio clice de vinho e ficou matutando naquilo.
Sentia algo por ele, certamente. Algo novo, e desconfortavelmente forte. Mesmo
assim, achava melhor deixar as coisas ficarem do jeito que estavam. Decises
tomadas de modo apressado levavam quase sempre a arrependimentos rpidos.
Por que diabos ele no voltara para casa?
Colocando de lado o vinho que no tinha sido tocado, passou a mo pelos cabelos.
Aquele era o maior problema em ficar-se acostumando com algum, pensou. A
pessoa acabava se sentindo sozinha quando esse algum no estava perto.
Ela tinha trabalho a fazer, lembrou a si mesma. Um caso para encerrar, uma
pequena roleta-russa com seus cartes de crdito. Talvez se presenteasse com um
banho quente e demorado, para deixar um pouco do estresse se dissolver, antes de
se preparar para a reunio com o promotor na manh seguinte.
Deixou o gato engolindo a gororoba agridoce e foi para o quarto. Os instintos,
letrgicos depois do dia longo e das questes pessoais, ficaram em alerta um segundo
depois do que deveriam.
Sua mo j estava na arma quando ela percebeu o movimento por inteiro. Mas
deixou o brao pender lentamente enquanto olhava para o cano comprido do revlver.
Era um Gol t, ela pensou. Colt 45. Aquele modelo que domou o Velho Oeste
americano com seis balas de cada vez, no tambor.
- Isso no vai ajudar a livrar o seu patro, Rockman.
- No concordo. - Ele saiu detrs da porta e manteve o revlver apontado para o
corao dela. - Pegue sua arma devagar, tenente, e atire-a no cho.
Ela mantinha os olhos grudados nos dele. O laser era rpido, mas no ia ser mais
rpido do que um 45 engatilhado. E, daquela distncia, o buraco em seu peito ia
deixar uma impresso muito desagradvel. Jogou a arma no cho.
- Chegue mais para perto de mim. No, no! - Ele sorriu de modo agradvel
quando a viu colocar a mo no bolso. - Jogue o comunicador tambm. Prefiro que isso
fique apenas entre ns dois. timo - disse ele quando o aparelho tambm caiu no
cho.
- H pessoas que poderiam achar admirvel a sua lealdade ao senador, Rockman.
Eu acho burrice. Mentir para fornecer um libi a ele  uma coisa. Ameaar uma policial
 outra.
- Voc  uma mulher admiravelmente brilhante, tenente. Mesmo assim, comete
erros admiravelmente tolos. Isto aqui no tem nada a ver com lealdade. Gostaria que
tirasse o casaco.
Ela manteve os movimentos lentos e os olhos grudados nele. Quando j havia
despido um dos lados, ligou o gravador que estava no bolso.
- Se apontar uma arma para mim no tem nada a ver com lealdade ao Senador
DeBlass, Rockman, do que se trata, ento?
-  uma questo de autopreservao, e um grande prazer. Eu j esperava h muito
tempo pela oportunidade de mat-la, tenente, mas no sabia bem ao certo como
encaixar isso no plano.
- E que plano  esse?
- Por que no se senta? Na beirada da cama. Tire os sapatos e podemos
conversar.
- Meus sapatos?
- Sim, por favor. Isto vai me dar a primeira e, tenho certeza, a nica oportunidade
de discutir a respeito das coisas que consegui realizar. Seus sapatos, por favor!
Ela se sentou, escolhendo o lado da cama que ficava mais perto do seu tele-link.
- Voc vem trabalhando nisso junto com DeBlass o tempo todo, no vem?
- Voc quer arruin-lo. Ele poderia ter sido presidente e, eventualmente, o Chefe
da Federao Mundial das Naes. A mar est subindo, e ele poderia ter
acompanhado essa subida para se sentar no Salo Oval. At mais do que isso.
- Com voc ao lado dele.
-  claro. E comigo ao lado, poderamos ter levado o pas, e depois o mundo, a
tomar uma nova direo. A direo certa. Uma posio onde a moral seria mais forte,
e a defesa tambm.
Ela levou algum tempo, deixando um dos sapatos cair antes de desfazer o lao do
outro.
- Defesa... como os seus velhos amigos daquele grupo, a Rede de Segurana?
O sorriso dele era duro, e seus olhos brilhavam.
- Este pas foi governado por diplomatas durante muito tempo, tempo demais.
Nossos generais discutem e negociam, em vez de comandar. Com a minha ajuda,
DeBlass teria mudado tudo isso. Mas voc estava determinada a derrub-lo, e a mim
junto. No h chance de ele chegar  Presidncia, agora.
- Ele  um assassino, um molestador sexual de crianas...
- Um estadista - Rockman interrompeu. - E voc jamais vai conseguir lev-lo ao
tribunal.
- Ele vai ser levado ao tribunal e vai ser condenado, e me matar no vai impedir
isso.
- No, mas vai destruir o seu caso contra ele, de modo pstumo, de ambas as
partes. Veja s, quando eu o deixei, h menos de duas horas, o Senador DeBlass
estava em seu gabinete em Washington. Fiquei ao lado dele enquanto ele escolhia
uma Magnum 457, uma arma muito poderosa. E testemunhei o momento em que ele
colocou o cano na boca e morreu como um patriota.
- Cristo! - A imagem lhe deu um sobressalto. - Suicdio.
- O guerreiro abatido pela prpria espada. - A admirao brilhava na voz de
Rockman. - Eu lhe disse que esta era a nica sada, e ele concordou. Jamais seria
capaz de tolerar a humilhao. Quando o corpo dele for encontrado, e quando o seu
for encontrado tambm, a reputao do senador estar novamente intacta. Ser
provado que ele j estava morto h horas antes de voc. Assim, ele no poderia t-la
matado, e o mtodo ser exatamente o dos outros assassinatos, e depois haver mais
dois, conforme prometido, e as provas contra ele vo deixar de ter importncia. Ele
ser pranteado. Eu mesmo vou liderar a carga de fria e indignao, e vou seguir seus
passos ensanguentados.
- No se trata de poltica, droga. - Ela se levantou e se preparou para levar o tiro.
Ficou grata por ele no ter usado a arma, e sim as costas da mo para bater em seu
rosto. Ela se desequilibrou com o golpe e caiu pesadamente sobre a mesinha-decabeceira.
O copo que tinha colocado ali se espatifou no cho.
- Levante-se!
Ela gemeu um pouco. Na verdade, a fisgada da dor deixou-lhe o rosto latejando e
a viso embaada. Fez fora para se levantar e se virou, com todo o cuidado para
manter o corpo na frente do telelink que acabara de ligar manualmente.
- E que bem vai lhe trazer me matar, Rockman?
- Vai me fazer um bem imenso. Voc era a ponta-de-lana da investigao. Est
sexualmente envolvida com um dos primeiros suspeitos. Sua reputao e os seus
motivos vo ser minuciosamente analisados, aps a sua morte. Sempre  um erro dar
autoridade a uma mulher.
- Voc no gosta de mulheres, Rockman? - Eve limpou o sangue da boca.
- Elas tm suas utilidades, mas por baixo de tudo so prostitutas. Talvez voc no
tenha vendido o seu corpo a Roarke, mas ele a comprou. A sua morte, na verdade,
no vai quebrar o padro que eu estabeleci.
- Voc estabeleceu?
- Voc achou realmente que DeBlass fosse capaz de planejar tudo e executar uma
srie to meticulosa de assassinatos? - Esperou at que viu que ela o compreendeu. -
Sim, ele matou Sharon.
Foi um impulso. Eu nem mesmo sabia que ele estava considerando essa
possibilidade. Depois do ato, ele entrou em pnico.
- Voc estava l. Estava com DeBlass na noite em que ele matou Sharon.
- Estava esperando por ele no carro. Sempre o acompanhava nos encontros dele
com ela. Era eu que dirigia, de forma que apenas eu, em quem ele confiava, estava
envolvido.
- A prpria neta. - Eve no tinha coragem de se virar para ter certeza de que o telelink
estava transmitindo a conversa. - Isso no deixava voc com nojo?
- Ela me deixava com nojo, tenente. Usava a fraqueza dele. Todo homem tem
direito a ter uma fraqueza, mas ela usava isso, ela o explorava, e depois o ameaava.
Depois que ela morreu, compreendi que tinha sido melhor assim. Ela era capaz de
esperar at ele se tornar presidente, para s ento enfiar a faca.
- Ento voc o ajudou a encobrir tudo.
- Claro. - Rockman levantou os ombros. - Estou feliz por estarmos tendo esta
oportunidade. Era frustrante, para mim, no ser capaz de levar os crditos. Estou
adorando dividi-los com voc.
Ego, ela se lembrou. No apenas inteligncia, mas ego e vaidade.
- Voc teve que pensar rpido - comentou ela. - E foi o que fez. Pensou rpido e de
modo brilhante.
- Sim. - Seu sorriso se espalhou no rosto. - Ele me chamou pelo tele-link do carro e
me mandou subir, depressa. Estava quase louco de tanto medo. Se eu no o tivesse
acalmado, ela poderia ter conseguido causar a runa dele.
- Voc ainda consegue culp-la?
- Ela era uma prostituta. Uma prostituta morta. - Ele deu de ombros, mas manteve
a arma firme. - Dei um tranquilizante para o senador, e limpei toda a sujeira. Conforme
expliquei a ele, era necessrio fazer com que Sharon fosse apenas uma parte do todo.
Era preciso usar as fraquezas dela, e sua escolha pattica de profisso. Tudo era
simplesmente uma questo de adulterar os discos da segurana. A atrao que o
senador tinha por gravar as suas atividades sexuais me deu a ideia de usar aquilo
como parte do padro.
- Sim - disse ela, com os lbios dormentes. - Isso foi esperto.
- Limpei todo o lugar, limpei a arma. E j que ele tinha sido sensato o bastante para
no usar uma arma que estava registrada, deixei-a para trs. Mais uma vez, com o
intuito de estabelecer um padro.
- Ento voc o usou - disse Eve, baixinho. - Usou a ele, e usou Sharon.
- S os tolos desperdiam as oportunidades. Ele j estava de volta ao seu
comportamento normal depois que fomos embora Rockman avaliou. - Eu consegui
arquitetar o resto do plano. Usando Simpson para aplicar um pouco de presso,
deixando vazar informaes. Foi um fato infeliz o senador no se lembrar, at bem
mais tarde, de me contar a respeito dos dirios de Sharon. Tive que correr o risco de
voltar l. Mas, como sabemos agora, ela era esperta o bastante para escond-los
bem.
- Voc matou Lola Starr e Georgie Castle. Matou as duas para encobrir o primeiro
assassinato.
- Foi. S que, ao contrrio do senador, eu curti aquilo. Do princpio ao fim. Foi s
uma simples questo de selecion-las, escolher os nomes e os locais.
Era um pouco difcil naquele momento alegrar-se com o fato de que ela estava
certa, e o computador, errado. Dois assassinos, afinal.
- Voc no as conhecia? Voc nem sequer as conhecia?
- Voc acha que eu deveria? - Ele riu dessa ideia. - Quem elas eram no tinha a
menor importncia. Apenas o que elas eram. Prostitutas me ofendem. Mulheres que
abrem as pernas para enfraquecer um homem me ofendem. Voc me ofende, tenente.
- Por que os discos? - Onde diabos estava Feeney? Por que uma das unidades em
servio no estava arrebentando a porta dela bem naquele instante? - Por que foi que
voc me enviou os discos?
- Gostava de ver voc ficar andando de um lado para o outro como um rato atrs
do queijo. Uma mulher que acreditava que poderia pensar como um homem. Coloquei
voc na pista de Roarke, mas voc deixou que ele a fizesse recuar. Muito tpico.
Fiquei desapontado. Voc foi muito emocional, tenente, a respeito das mortes, a
respeito da garotinha que no conseguiu salvar. Mas acabou dando sorte. E  por
esse motivo que agora est prestes a perder toda essa sorte.
Andou de lado at chegar  lateral do armrio, onde uma cmera j estava
esperando.
- Tire a roupa.
- Voc pode me matar - disse ela, enquanto o estmago comeava a se remexer. -
Mas voc no vai me estuprar.
- Voc vai fazer exatamente o que eu quiser que voc faa. Elas sempre fazem. -
Abaixou a arma at apontar abaixo da barriga. Com as outras, dei um tiro na cabea,
primeiro. Morte instantnea, provavelmente sem dor. Tem ideia do tamanho da dor
que vai sentir com uma bala calibre 45 enterrada nas tripas? Voc vai implorar para
que eu a mate. - Seus olhos se acenderam, com um brilho estranho. - Tire a roupa!
Eve deixou as mos carem para os lados do corpo. Ela conseguiria encarar a dor,
mas no o pesadelo. Nenhum dos dois reparou quando o gato entrou sorrateiramente
no quarto.
- A escolha foi sua, tenente - disse Rockman, e ento deu um pulo de susto
quando o gato passou se esfregando em suas pernas.
Eve deu um salto para a frente com a cabea baixa, e usou toda a fora do corpo
para atir-lo contra a parede.
CAPTULO VINTE
Feeney deu uma parada quando voltava da lanchonete, com meio hambrguer de
carne de soja na mo. Ficou circulando em volta da mquina de caf, batendo papo
com dois policiais sobre os detalhes de um roubo. Trocaram histrias, e Feeney
decidiu que queria mais uma xcara de caf antes de dar o dia por encerrado.
Quase passou direto por sua sala, e as vises de uma noite diante da tela de TV
acompanhado por uma cerveja bem gelada passeavam por sua cabea. Sua mulher
poderia at mesmo estar acordada para lhe dar um pouco de carinho, se ele estivesse
com sorte.
Mas ele seguia a fora do hbito. Deu uma entrada na sala para se certificar de
que seu precioso computador estava bem seguro para passar a noite. E ouviu a voz
de Eve.
- Ei, Dalas, o que  que voc est... - Ele parou, olhando em torno da sala vazia. -
Ando trabalhando demais - murmurou ele, e ento ouviu a voz dela novamente.
Voc estava com ele. Voc estava com DeBlass na noite em que ele matou
Sharon.
- Ai, meu Deus - disse ele.
Dava para ver pouca coisa na tela: as costas de Eve, a lateral da cama. Rockman
estava fora do campo de viso, mas o som estava bem claro. Feeney j estava
rezando quando ligou para a Emergncia.
Eve ouviu o berro assustado do gato quando ela pisou em sua cauda, e ouviu
tambm o barulho da arma no momento em que ela caiu no cho. Rockman era mais
alto do que ela, e mais pesado. E se recuperou do arremesso do corpo dela rpido
demais. Provou na prtica que tinha treinamento militar.
Ela lutou furiosamente, incapaz de se manter no campo limpo dos movimentos
eficientes de mo na mo. Usou as unhas e os dentes.
O soco curto que levou nas costelas roubou-lhe a respirao. Ela sabia que ia cair,
e quis ter a certeza de carreg-lo com ela. Bateram no cho com fora, e, embora ela
tenha tentado rolar para o lado, ele acabou por cima dela.
Estrelas luziram por trs dos seus olhos quando a cabea de Eve bateu com
violncia contra o piso.
A mo dele estava em volta da garganta dela, esmagando sua traquia. Ela tentou
atingir os olhos dele e errou; fez ento arranhes profundos com as unhas enterradas
no rosto dele, que o fizeram urrar como um animal. Se ele tivesse usado a mo livre
para dar mais um soco no rosto dela, poderia t-la deixado completamente tonta, mas
estava muito preocupado em recuperar a arma. Com os dedos unidos, Eve deu um
golpe no cotovelo dele, e isso o fez perder a fora do brao, deixando trmula a mo
que a estrangulava. Lutando desesperadamente por um pouco de ar, ela se embolou
com ele tentando pegar a arma.
A mo dele cobriu o revlver no cho antes da dela.
Roarke enfiou um pacote embaixo do brao no momento em que entrou no saguo
do prdio de Eve. Gostou quando soube que ela tinha ido procur-lo. Era um hbito
que ele no pretendia que ela perdesse. Pensou que, agora que ela encerrara o caso,
talvez conseguisse convenc-la a tirarem alguns dias de folga. Ele tinha uma ilha no
Caribe que achou que ela poderia curtir.
Apertou o interfone e comeou a sorrir, imaginando os dois nadando nus em uma
praia de guas transparentes e fazendo amor sob o sol quente, quando ouviu um
tumulto atrs dele.
- Saia da frente! - Feeney entrou com a fora de um rolo compressor, com mais de
dez policiais atrs. - Assunto da polcia.
- Eve! - O sangue de Roarke desapareceu do seu rosto enquanto ele forava a
passagem at o elevador.
Feeney o ignorou e gritava no comunicador.
- Fechem todas as sadas. Coloquem os atiradores de elite em posio.
Roarke colocou as mos fechadas nos quadris, sem saber o que fazer, e
perguntou:
- DeBlass?
- Rockman - corrigiu Feeney, contando cada batida do prprio corao. - Ele a
pegou. Saia do caminho, Roarke.
- Aqui que eu vou sair!
Feeney olhou para Roarke de lado e avaliou a situao. No ia usar dois policiais
para segurar um civil, de jeito nenhum, e tinha um palpite de que aquele civil em
particular faria qualquer coisa, como ele tambm, para salvar Eve.
- Ento faa tudo conforme eu mandar.
Ouviram o barulho do tiro no momento em que as portas do elevador se abriram.
Roarke j estava dois passos na frente de Feeney quando se jogou com o ombro
contra a porta do apartamento de Eve. No conseguiu arromb-la, xingou e tomou
distncia novamente. Os dois acabaram arrombando a porta, juntos.
A dor foi em fisgada, como se um punhal de gelo tivesse sido enfiado em seu
corpo. Depois passou, amortecida pela fria. Eve fechou a mo sobre o pulso que ele
usava para segurar a arma, e enterrou as unhas afiadas, com toda a fora, em sua
carne. O rosto de Rockman estava colado no dela, e seu corpo por cima do dela a
mantinha imvel, em uma obscena pardia de um ato de amor. O pulso dele j estava
pegajoso com o prprio sangue quando ela lhe enfiou as garras.
Eve xingou quando perdeu a fora na mo, e ele comeou a sorrir.
- Voc luta como uma mulher, mesmo. - Balanou a cabea para trs para afastar
os cabelos dos olhos, e o sangue em suas faces rasgadas transbordou dos arranhes,
muito vermelho. - Vou estupr-la. A ltima coisa que voc vai descobrir antes de
morrer  que no  melhor do que uma prostituta.
Ela amoleceu o corpo, e ele, excitado pela vitria, rasgou-lhe a blusa.
O sorriso no rosto de Rockman foi desmontado pelo soco que ela lhe deu na boca.
O sangue se espalhou sobre ela como uma chuva quente. Ela o atingiu de novo, com
fora, e ouviu o barulho da cartilagem do nariz dele se quebrando, fazendo jorrar mais
sangue. Rpida como uma cobra, ela esperneou e conseguiu se levantar.
Novamente, deu um soco nele, enfiou o cotovelo em seu queixo, sentiu os ns dos
dedos contra o rosto dele e continuou berrando e xingando, como se as palavras
pudessem golpe-lo tanto quanto os punhos.
No ouviu a porta sendo arrombada, nem o estrondo que fez quando caiu no cho.
Tomada de raiva incontrolvel, ela empurrou Rockman de costas no cho, montou
sobre sua barriga, com fora, e continuou a socar-lhe o rosto sem parar.
- Eve. Meu Deus!
Foi preciso que Roarke e Feeney a segurassem ao mesmo tempo, para arranc-la
de cima dele. Ela ainda lutava, grunhindo e rangendo os dentes, at que Roarke
apertou o rosto sobre seus ombros.
- Pare. Voc j conseguiu. Acabou.
- Ele ia me matar. Matou Lola e Georgie. Ia me matar tambm, mas tentou me
estuprar antes. - Levantou-se de cima dele e limpou o sangue e o suor do rosto. -
Esse foi o grande erro dele.
- Sente-se. - As mos dela estavam tremendo e lambuzadas de sangue quando ele
a recostou na cama. - Voc est machucada.
- Ainda no. Vou deixar para ficar daqui a pouco. - Respirou fundo e soltou o ar.
Ela era uma policial, droga, e se forou a lembrar disso. Era uma policial e ia agir
como tal. - Voc recebeu a transmisso - disse a Feeney.
- Recebi. - Ele tirou um leno do bolso para enxugar o rosto molhado.
- Ento, por que diabos demorou tanto? - Conseguiu mostrar a sombra de um
sorriso. - Voc me parece um pouco preocupado, Feeney.
- ... Ossos do ofcio. - Abriu o comunicador. - A situao est sob controle.
Precisamos de uma ambulncia.
- Eu no vou para nenhum ambulatrio.
- No  para voc, campe.  para ele. - Olhou para Rockman, ainda no cho, que
conseguiu dar um leve gemido.
- Depois que limpar a cara dele, pode autu-lo pelos assassinatos de Lola Starr e
Georgie Castle.
- Tem certeza disso?
- Gravei tudo. - Suas pernas estavam um pouco bambas, mas ela se levantou e
pegou o casaco. - DeBlass matou Sharon, mas o nosso rapaz aqui foi cmplice,
depois do ocorrido. E quero que ele seja acusado tambm pela tentativa de estupro e
assassinato de uma policial. E complete com arrombamento e invaso de domiclio, s
para dar um gostinho.
- Certo. - Feeney enfiou o gravador no bolso. - Caramba, Dalas, voc est um
desastre.
- Devo estar. Leve-o embora, por favor, Feeney.
-  pra j.
- Deixe-me ajud-lo. - Roarke se abaixou e levantou Rockman pela lapela. Puxou-o
para cima, e o equilibrou em p, - Olhe para mim, Rockman. Est tudo bem, est
conseguindo me enxergar?
Rockman piscou, com os olhos ensanguentados.
- Estou, estou conseguindo ver voc - balbuciou ele.
- timo. - O brao de Roarke se lanou para trs, rpido como uma bala, e um
violento soco atingiu o rosto j despedaado de Rockman.
- Opa... - disse Feeney, com toda a calma, quando Rockman despencou no cho
novamente. - Acho que ele ainda no est muito firme para ficar em p. - Agachou-se
e prendeu as algemas.
- Acho que  melhor dois dos rapazes carregarem-no daqui. Segurem a
ambulncia para mim. Vou com ele. - Pegou um plstico para proteger as provas e
guardou a arma nele. - Linda pea, com cabo de marfim. Aposto que faz um estrago.
- Eu que o diga - disse Eve, levando a mo automaticamente para o brao.
Feeney parou de admirar a arma e olhou espantado para ela.
- Droga, Dalas, voc est ferida?
- No sei. - Disse isso quase com ar sonhador, e se surpreendeu quando Roarke
acabou de rasgar a manga da blusa j esfarrapada. - Ei!
- Pegou de raspo. -A voz dele estava abafada. Puxou a ponta da manga mais
uma vez e a usou para estancar a ferida. - Ela precisa de cuidados.
- Acho que posso deixar isso por sua conta - afirmou Feeney.
-  melhor voc passar a noite em outro lugar, Dalas. Deixe que eu mando uma
equipe para limpar toda esta baguna aqui.
- Est bem. - Sorriu quando viu o gato pular em cima da cama. - Pode ser.
- Dia complicado - sussurrou ele, entre dentes.
-  assim mesmo - murmurou ela, acariciando o gato. Galahad, pensou, seu
cavaleiro branco.
- A gente se v, garota.
- Certo. Obrigada, Feeney.
Determinado a resolver aquilo, Roarke se colocou de ccoras na frente dela, e
esperou at que o assobio de Feeney no pudesse mais ser ouvido.
- Eve, voc est em estado de choque.
- Pode ser. Estou comeando a sentir tudo doer.
- Voc precisa de um mdico.
- No, posso resolver com um analgsico - disse ela, movendo os ombros. - E
tambm preciso me lavar.
Olhou para si mesma e fez uma inspeo calma. A blusa estava rasgada e
manchada de sangue. Suas mos estavam arrasadas, arranhadas e com as juntas
inchadas. Ela no conseguia nem fechar os punhos. Mil marcas roxas estavam
comeando a se apresentar, e a ferida no brao, no lugar onde a bala pegara, ardia
como fogo.
- No acho que seja to grave quanto parece - decidiu ela -, mas  melhor dar uma
olhada.
Quando comeou a se levantar, ele a pegou no colo.
- Acho que gosto quando voc me carrega assim, Roarke. Fico toda bamba por
dentro. Depois, me sinto idiota. Devo ter alguma coisa no banheiro.
Como ele queria ver o estrago pessoalmente, carregou-a at l e a colocou
sentada sobre a tampa da privada. Encontrou analgsicos fortes, coisa da polcia, no
armrio de remdios quase vazio. Pegou um e ofereceu a ela com um pouco dgua, e
a seguir umedeceu um pano.
Ela levantou o brao bom e passou a mo pelos cabelos, dizendo:
- Esqueci de contar a Feeney. DeBlass est morto. Suicdio. Comeu bala, como se
costuma dizer. Uma tremenda figura de linguagem.
- No se preocupe com nada disso, agora. - Roarke estava limpando o ferimento
da bala, primeiro. Era um machucado feio, mas o sangue j estava estancando.
Qualquer paramdico competente poderia dar alguns pontos e fechar a ferida em
minutos. Isso no fazia com que as mos dele ficassem mais firmes.
- Havia dois assassinos - disse ela, e franziu a testa olhando para a parede. - Foi
esse o problema. Cheguei a pensar nisso, mas depois deixei a ideia pra l. Os dados
indicavam pouca probabilidade. Burra!
Roarke enxaguou o pano e comeou a limpar o rosto dela. Ficou completamente
aliviado ao ver que a maior parte do sangue no era de Eve. Ela tinha um corte na
boca, e o olho esquerdo j estava comeando a inchar. Havia tambm arranhes ao
longo do maxilar.
Ele conseguiu dar uma inspirao profunda, j mais calmo.
- Voc vai ficar com uma tremenda marca roxa.
- J passei por isso antes. - O remdio estava comeando a fazer efeito,
transformando a dor em uma sensao enevoada. Ela simplesmente sorriu quando ele
a despiu at a cintura e comeou a procurar por outros ferimentos. - Voc tem mos
maravilhosas. Adoro quando voc me toca. Ningum jamais me tocou assim, j lhe
contei isso?
- No. - E duvidava que ela fosse se lembrar de que estava contando naquela
hora. Ia fazer questo de lembrar a ela.
- E voc  to bonito! To bonito - repetiu, levantando a mo ensanguentada at o
rosto dele. - Vivo me perguntando o que est fazendo aqui.
-J me fiz a mesma pergunta. - Tomou a mo dela e a enfaixou com uma gaze,
suavemente.
Ela riu de modo tolo, e se deixou flutuar. Preciso fazer meu relatrio, pensou meio
tonta. O mais rpido possvel.
- Roarke, voc no acha, de verdade, que a gente vai construir alguma coisa a
partir desse relacionamento, acha? Roarke e a policial?
- Acho que vamos ter que descobrir. - Havia muitos machucados, mas as marcas
roxas ao longo das costelas dela eram as mais preocupantes.
- Certo. Talvez fosse melhor eu descansar agora. Podemos ir para a sua casa,
porque Feeney vai mandar uma equipe para gravar a cena, a minha casa, e tudo o
mais. Queria s tirar um cochilo, antes de ir para a Central fazer o meu relatrio.
- Voc vai  para o hospital mais prximo.
- No, negativo! No suporto nada disso. Hospitais, ambulatrios, mdicos. - Ela
lanou-lhe um sorriso com o olhar vitrificado, levantando os braos. - Deixe-me s dar
uma dormidinha na sua cama, Roarke, pode ser? Aquela grandona, em cima da
plataforma e sob o cu.
Por falta de outra coisa disponvel, ele tirou o prprio palet e o colocou em volta
dela. Quando a pegou no colo novamente, a cabea dela se apoiou em seu ombro.
- No se esquea de Galahad. Aquele gato me salvou a vida. Quem diria?
- Se foi assim, ele vai ganhar caviar pelo resto das sete vidas dele. - Roarke
estalou os dedos e o gato acertou o passo com ele, alegremente.
- A porta est quebrada. - Eve soltou uma risada quando Roarke rodeou a porta
cada e chegou no corredor. - O dono do apartamento vai ficar pau da vida. Mas eu sei
como lidar com ele.
- E deu um beijo na garganta de Roarke. - Estou contente por estar tudo resolvido -
disse, suspirando. - E estou contente por voc estar aqui. Vai ser legal se voc
continuar.
- Pode contar com isso. -Ajeitando-a no colo, ele se abaixou e pegou o pacote que
deixara cair no corredor quando correu para a porta, ao chegar. Havia meio quilo de
caf fresco dentro do pacote. Ele imaginou que ia precisar daquilo como uma espcie
de suborno quando ela acordasse e se visse em uma cama de hospital.
- No quero nem sonhar esta noite - murmurou ela, enquanto apagava.
Ele entrou no elevador, com o gato atrs.
- No. - Ele esfregou de leve os lbios sobre os cabelos de Eve. - Sem sonhos esta
noite.
Fim



